Rall
Os sinais de recessão que assolam o mundo ainda são por conta do peso do setor financeiro no PIB. Apesar das demissões nesse setor, o impacto maior será sentido quando o consumo e os investimentos sentirem toda força da escassez do crédito. Os investimentos serão atingidos duplamente: pela escassez do crédito e pela redução do consumo. É nesse momento que o desemprego atingirá com força a economia real com a redução da produção e o fechamento de fábricas. Parte dos assalariados que continuarão empregados terão seus salários achatados e reduzirão o consumo inibindo mais ainda a produção. Os estados endividados terão dificuldade de executar programas keynesianos sem o risco de uma explosão de preços. Configura-se uma situação perigosa que num primeiro momento tende acirrar ferozmente a competição, destruindo os poucos e frágeis laços de solidariedade que possam existir. Com o esgotamento dos instrumentos anti-crise do mercado e do Estado burguês, setores belicistas estarão mais ativos do que nunca.
A expansão monetária ao infinito, através da formação de bolhas, levando o dinheiro a se multiplicar sem a mediação da mercadoria, eterno desejo dos “sujeitos automáticos”, entrou em violento conflito com o dinheiro equivalente-geral, expressão do trabalho abstrato. Obrigada a se contrair de forma drástica, leva consigo a economia real que verga com a crise do valor e usa o artifício das bolhas para se manter em movimento. A crise estrutural, diferentemente das crises de crescimento, está longe do fim e mostra que o capitalismo mundial que há muito já ultrapassou as últimas fronteiras da acumulação, corre o risco de desabar sobre si. O discurso do descolamento dos países em desenvolvimento, totalmente desqualificado pelos fatos, mostra que as análises locais, apesar de necessárias, não dão conta da totalidade.
A compreensão do momento exige um esforço teórico maior do que discursos ideológicos vazios de conteúdo, muitas vezes perigosamente mobilizadores pelas simplificações e pelos apelos a soluções mágicas. Exige uma ampla e cuidadosa discussão, dentro da perspectiva de uma aliança capaz de pensar além da sociedade da mercadoria. Se a ilusão da luta de classe como “motor da história” já não convence, merece ser aprofundada a crítica considerando-se as diferenças sociais e a existência de grupos vulneráveis formados pelos expelidos da produção ou destituídos de rendimentos de qualquer espécie. A crise, ao sugar massas enormes de capital, ao destruir poderes, desestrutura sujeitos levando-os a loucura competitiva e autodestrutiva, carregada de desejos mórbidos que podem arrastar multidões sem rumo ao sofrimento. Não devemos esquecer que o espírito de Auschwitz, a “indústria da morte”, continua em ação por outros meios antes mesmo do agravamento da crise, como mostram as guerras de extermínio em algumas regiões do terceiro mundo e dos Bálcãs em pleno coração da Europa e a violência nos grandes centros urbanos.
A economia, enquanto esfera estruturante da sociedade capitalista, com a intensificação da crise, todas as atenções e recursos vão estar mobilizados para salvá-la da ruína. Resgatar um banco hoje não vai reduzir o risco de milhões passarem fome, mas pode manter o crédito que garante o funcionamento da máquina de “valorização do valor”. A população não rentável, que mais e mais se desacopla da produção, muito rapidamente será abandonada à própria sorte. Os programas sociais já restritos, nesse contexto tornam-se supérfluos. A crise pode ser ainda a justificativa para que a destruição do meio ambiente continue sem restrição. O acirramento da concorrência e a busca de novos mercados pelos países exportadores levarão a desertificação industrial de regiões inteiras. O capitalismo-cassino onde todos os jogadores ganhavam foi o atalho encontrado para o dinheiro farto e barato. Mas essa banca um dia haveria de quebrar e quebra num momento em que os indivíduos, as empresas e o Estado já não suportam mais o peso da dívida o que dificulta a saída da crise pelas vias tradicionais como querem os arautos da economia.
22.10.2008
quarta-feira, outubro 22, 2008
sexta-feira, outubro 03, 2008
A linguagem da crise
Rall
A procura de uma linguagem para explicar a crise e as fórmulas abstratas irreais que buscam justificar a formação de preços dos papeis apodrecidos do capital fictício, tem levado os analista a uma descrição cada vez mais obscura e ininteligível dos fatos econômicos. O que nos disparates da fúria descritiva não se consegue explicar é transformado em gíria logo aderida por todos e o fictício torna-se ficção de qualidade duvidosa. Isso é possível quando os pressupostos da descrição da crise estão carregados de justificativas de um mundo fora controle, movido por uma lógica que passa ao largo da vontade humana.
A procura de uma linguagem para explicar a crise e as fórmulas abstratas irreais que buscam justificar a formação de preços dos papeis apodrecidos do capital fictício, tem levado os analista a uma descrição cada vez mais obscura e ininteligível dos fatos econômicos. O que nos disparates da fúria descritiva não se consegue explicar é transformado em gíria logo aderida por todos e o fictício torna-se ficção de qualidade duvidosa. Isso é possível quando os pressupostos da descrição da crise estão carregados de justificativas de um mundo fora controle, movido por uma lógica que passa ao largo da vontade humana.
Em sua trajetória ascendente, a crise da acumulação do capital na economia real, encontrou na formação de capital fictício a partir dos anos 80, um jeito, mesmo que enganoso, de dribla a estagnação. Foi o tempo das grandes invenções financeiras como os derivativos e outros papéis, justificados com complexas fórmulas matemáticas descoladas da produção real e sustentadas por operações do tipo carry trade entre muitas. Hoje, postas em cheque pela crise, há uma tentativa de se recriar essas abstrações através de uma linguagem esotérica, na tentativa de elucidar a crise e dela sair negando a realidade da mesma.
Se nas ùltimas décadas a saída para crise da “valorização do valor” foram as bolhas de capital fictício, alimentadas com papeis sem lastro gerados no setor público e privado, com a queima desses ativos financeiros pela deflação e com a impossibilidades do surgimento de uma nova bolha capaz de dà continuidade ao processo de formação do capital sem substância, pelo menos em curto e médio prazo, buscam-se culpados e soluções mágicas que possam preservar o mundo das mercadorias. E aí, além da obtusa linguagem, se estabelece uma arenga para ver com quem fica a pecha de bode expiatório.
Sob o açoite da crise, o discurso neoliberal se transmuta em seu contrário e os agentes do soberano mercado suplicam pela intervenção do antes ineficaz Estado. Estatizações de monta jamais vistas são realizadas para salvar setores privados inteiros, como sempre aconteceu no capitalismo em crise. O discurso estatizante tão arraigado no imaginário das esquerdas em todo mundo é solapado pela direita para salvar o capitalismo, mostrando a verdadeira face do Estado.
As dimensões da crise ainda não se delinearam. A montanha de dinheiro postos pelos governos nos mercados vem mostrando-se incapaz de garantir estabilidade do setor financeiro e o aumento da liquidez. Mesmo que isso venha acontecer por um curto período, quando o impacto da falta de crédito atingir o ápice na economia mundial, com sérias implicações para o consumo e investimentos, é provável um novo tombo das bolsas e bancos retroalimentado pelo agravamento na crise da economia real. Isso pode levar a necessidade de novos aportes de capital para o setor financeiro, que se suprido por dinheiro impresso pelos Tesouros, aumentará enormemente o risco de uma inflação descontrolada.
Paris, 03.10.2008
quinta-feira, julho 17, 2008
Inflação ou deflação, para onde caminha a crise?
Rall
As surpresas da crise têm deixado tontos analistas econômicos de várias tendências. Alguns convivem angustiados com a inflação, outros vaticinam uma deflação mundial como o verdadeiro Nosferatu da crise. Esquecem, ou não enxergam, que inflação e deflação são formas de manifestação da crise(1), e que o deslocamento para um lado ou para o outro, vai depender das circunstâncias. Se olharmos como a crise vem se desenrolando nos EUA, veremos isso com mais clareza.
No estouro da bolha imobiliária, um setor inteiro, talvez o mais importante da economia americana, entra em deflação com desabamento dos preços dos imóveis em geral. Segue-se a queda dos preços de ativos financeiros a eles relacionados, negociados nos mercados em todo mundo. Parte do capital que consegue se safar de virar pó, foge para ativos reais, já que os papéis de toda espécie apresentam-se altamente inflamável ao menor atrito na economia.
E um desses ativos mais seguro é o ouro, que como outros metais preciosos não derretem fácil às altas temperaturas da crise. O ouro que volta a cena com todo esplendor, ameaça a assumir o papel de equivalente geral no mundo das mercadorias com a fraqueza do dólar. Capitaneia commoditieis metálicas em seu salto para o além, que já vinham com preços acelerados pela demanda aquecida.
Mas, como forma mais acabada da mercadoria-dinheiro, o ouro, e também seus pares metálicos, não brilham em quantidade suficiente para o capital que corre solto em busca de garantias. Brota então o ouro negro para reforçar a bolha das commoditieis. Como ainda sobra dinheiro inseguro de sua função, e dessa vez não é possível guardar dólar em baixo dos colchões pela rápida desvalorização do mesmo, aposta-se nas commodities agrícolas. Daí a inflação que se espalha por outros setores da economia.
Mas se parte da população mundial deixar de se alimentar, os abastados não encherem os tanques de seus carros bebedores de gasolina e álcool na velocidade em que faziam, os impulsivos consumistas não comprarem objetos de pouca utilidade que só poluem e evenenam o planeta, vai sobrar mercadoria e os preços podem desabar. E então, a outra face da crise, a deflação, pode se manifestar com força.
Esses espasmos que fazem o capitalismo em crise e seus agentes contorcerem-se de dor, parecem querer mostrar os limites a que está sujeito a acumulação real na terceira revolução industrial. O fogaréu que consome o capital fictício, ora com a intensificação da inflação, ora com a deflação em países diferentes, ou em setores diferentes de um mesmo país, pode chamuscar os bolsos fartos de alguns e jogar na miséria e na fome multidões de Continentes inteiros.
Se no horizonte não surgir à possibilidade de uma bolha de longa duração, pois a bolha das commodities pode rapidamente se esvair, e pouco restar do capital fictício das que estouraram, deve predominar mundialmente a deflação. Neste cenário, Estados endividados entrarão em colapso e não haverá outra saída se não aumentar a impressão de moedas sem lastro, que pode levar a hiperinflação, sem, no entanto, impedir a queda relativa dos preços.
Essa forma de inflação, velha conhecida dos países do terceiro mundo, em particular dos brasileiros, funciona como um tributo perverso que transfere renda dos mais pobres para financiar os gastos do Estado e das camadas mais ricas da população, muitas das quais só sobrevivem na sombra estatal.
(1)O beco sem saída da economia americana
17.07.2007
As surpresas da crise têm deixado tontos analistas econômicos de várias tendências. Alguns convivem angustiados com a inflação, outros vaticinam uma deflação mundial como o verdadeiro Nosferatu da crise. Esquecem, ou não enxergam, que inflação e deflação são formas de manifestação da crise(1), e que o deslocamento para um lado ou para o outro, vai depender das circunstâncias. Se olharmos como a crise vem se desenrolando nos EUA, veremos isso com mais clareza.
No estouro da bolha imobiliária, um setor inteiro, talvez o mais importante da economia americana, entra em deflação com desabamento dos preços dos imóveis em geral. Segue-se a queda dos preços de ativos financeiros a eles relacionados, negociados nos mercados em todo mundo. Parte do capital que consegue se safar de virar pó, foge para ativos reais, já que os papéis de toda espécie apresentam-se altamente inflamável ao menor atrito na economia.
E um desses ativos mais seguro é o ouro, que como outros metais preciosos não derretem fácil às altas temperaturas da crise. O ouro que volta a cena com todo esplendor, ameaça a assumir o papel de equivalente geral no mundo das mercadorias com a fraqueza do dólar. Capitaneia commoditieis metálicas em seu salto para o além, que já vinham com preços acelerados pela demanda aquecida.
Mas, como forma mais acabada da mercadoria-dinheiro, o ouro, e também seus pares metálicos, não brilham em quantidade suficiente para o capital que corre solto em busca de garantias. Brota então o ouro negro para reforçar a bolha das commoditieis. Como ainda sobra dinheiro inseguro de sua função, e dessa vez não é possível guardar dólar em baixo dos colchões pela rápida desvalorização do mesmo, aposta-se nas commodities agrícolas. Daí a inflação que se espalha por outros setores da economia.
Mas se parte da população mundial deixar de se alimentar, os abastados não encherem os tanques de seus carros bebedores de gasolina e álcool na velocidade em que faziam, os impulsivos consumistas não comprarem objetos de pouca utilidade que só poluem e evenenam o planeta, vai sobrar mercadoria e os preços podem desabar. E então, a outra face da crise, a deflação, pode se manifestar com força.
Esses espasmos que fazem o capitalismo em crise e seus agentes contorcerem-se de dor, parecem querer mostrar os limites a que está sujeito a acumulação real na terceira revolução industrial. O fogaréu que consome o capital fictício, ora com a intensificação da inflação, ora com a deflação em países diferentes, ou em setores diferentes de um mesmo país, pode chamuscar os bolsos fartos de alguns e jogar na miséria e na fome multidões de Continentes inteiros.
Se no horizonte não surgir à possibilidade de uma bolha de longa duração, pois a bolha das commodities pode rapidamente se esvair, e pouco restar do capital fictício das que estouraram, deve predominar mundialmente a deflação. Neste cenário, Estados endividados entrarão em colapso e não haverá outra saída se não aumentar a impressão de moedas sem lastro, que pode levar a hiperinflação, sem, no entanto, impedir a queda relativa dos preços.
Essa forma de inflação, velha conhecida dos países do terceiro mundo, em particular dos brasileiros, funciona como um tributo perverso que transfere renda dos mais pobres para financiar os gastos do Estado e das camadas mais ricas da população, muitas das quais só sobrevivem na sombra estatal.
(1)O beco sem saída da economia americana
17.07.2007
terça-feira, julho 08, 2008
Bolhas, buracos negros e inflação
Rall
As bolhas financeiras quando em crescimento, funcionam como diques de contenção do capital excedentário. Quando se rompem, o capital contido e multiplicado sai atrás de tudo que aparentemente reluz. As bolhas são como buracos negros, sugam toda matéria que possa ser alcançada por sua força de atração, mas a mantém contida pela energia aí gerada. Se explodem, joga tudo para fora - nesse caso as bolhas, pois não se tem conhecimento de explosões de buracos negros apesar de ser um evento possível. A matéria, o dinheiro expelido, busca acomodar-se em outros buracos que lhes sejam rentáveis, não sem antes causar distúrbios por vezes violentos.
A diferença da crise atual para as anteriores, causadas também por estouro de bolhas financeiras, é que agora todos os papéis parecem suspeitos, o que tem levado o capital a se dirigir e aportar em ativos reais, principalmente aqueles, que por motivos diversos, podem ou vem sofrendo alguma pressão de demanda. O exemplo mais evidente é o do petróleo, aonde os preços já vinham subindo em função da escassez na natureza e das incertezas políticas nos países produtores. Mas só o desequilíbrio entre a oferta e a procura, não é, de forma nenhuma, suficiente para explicar o salto absurdo dos preços logo após o estouro da bolha imobiliária nos EUA, como pregam alguns arautos do sistema.
O petróleo, como outras commodities, sobe num momento em que a expectativa é a redução do crescimento mundial, ou seja, de redução da demanda, o que aponta para a existência de uma bolha. O problema é que a bolha das commodities, em particular do petróleo, é altamente inflacionária, pois sendo este a matriz energética do mundo e matéria-prima de um grande número de produtos industrializados, a inflação tende a disseminar-se por todos os setores da economia. Para tomarmos consciência da importância do petróleo na produção de mercadorias é só olhar além dos tanques de combustíveis de nossos carros, para os objetos que nos cercam, os alimentos que ingerimos e veremos o que significa o aumento de preços desse produto.
A bolha das commodities difere das demais pelo fato de o aumento dos preços se espalharem por todo planeta, não se restringindo a alguns países por ter a economia capitalista no petróleo a sua principal base sustentação. Quanto ao aumento dos preços dos alimentos, pode ter alguma relação com o consumo, mas é preciso levar em consideração os preços dos transportes, da armazenagem, dos insumos, principalmente dos fertilizantes, que direta ou indiretamente tem alguma relação com o petróleo. Mas não pode ser deixado de lado, de forma alguma, o impacto da utilização das commodities como refúgio do capital que foge dos estragos causados nas bolsas, no setor financeiro e em seus exóticos “produtos”, pela crise imobiliária americana. É só analisar a velocidade de negociação das commodities alimentares nas bolsas de mercadoria (1), e a voraz compra de terras produtivas e meios de produção pelos fundos em todo mundo e no Brasil.
É possível assistirmos aqui situação semelhante a dos anos setenta(2), quando no lançamento do Pró-álcool, terras destinadas ao cultivo de alimentos pelos pequenos agricultores e suas famílias, foram “expropriadas” pelo capital, que via na monocultura da cana-de-açúcar e na produção de álcool uma alternativa para aumentar a rentabilidade. Com o entusiasmo do governo pelos biocombustíveis e o capital global à solta, ávido por novas oportunidades, tudo fica mais fácil. Só estamos no início de um processo e a compra de terras por empresas, fundos nacionais e estrangeiros, que vão de vastas extensões a pequenos sítios, já fez subir significativamente o preço do hectare, o que deve complicar mais ainda a produção de alimentos e a inflação. As condições são propícias para uma nova onda de concentração da propriedade fundiária.
O discurso de um desajuste causado na economia pelo “choque de oferta” e pressão de demanda, como único responsável pelo aumento dos preços das commodities, não entende, ou intencionalmente tenta deixa de lado, a importância do violento movimento do capital, fictício ou não, em busca de rentabilidade na crise atual. A fragilidade do dólar frente às outras moedas, que busca compensar a queda das vendas internas americanas com as exportações, e, ao mesmo tempo, reverter o déficit na balança comercial, tende a agravar mais ainda a situação, pois a depreciação do dólar, que funciona como dinheiro universal, é causa e efeito dessa nova realidade.
29.06.2008
(1) Nem que todos morram de fome...
(2) Uma breve história da expulsão do homem do campo pelo capital
As bolhas financeiras quando em crescimento, funcionam como diques de contenção do capital excedentário. Quando se rompem, o capital contido e multiplicado sai atrás de tudo que aparentemente reluz. As bolhas são como buracos negros, sugam toda matéria que possa ser alcançada por sua força de atração, mas a mantém contida pela energia aí gerada. Se explodem, joga tudo para fora - nesse caso as bolhas, pois não se tem conhecimento de explosões de buracos negros apesar de ser um evento possível. A matéria, o dinheiro expelido, busca acomodar-se em outros buracos que lhes sejam rentáveis, não sem antes causar distúrbios por vezes violentos.
A diferença da crise atual para as anteriores, causadas também por estouro de bolhas financeiras, é que agora todos os papéis parecem suspeitos, o que tem levado o capital a se dirigir e aportar em ativos reais, principalmente aqueles, que por motivos diversos, podem ou vem sofrendo alguma pressão de demanda. O exemplo mais evidente é o do petróleo, aonde os preços já vinham subindo em função da escassez na natureza e das incertezas políticas nos países produtores. Mas só o desequilíbrio entre a oferta e a procura, não é, de forma nenhuma, suficiente para explicar o salto absurdo dos preços logo após o estouro da bolha imobiliária nos EUA, como pregam alguns arautos do sistema.
O petróleo, como outras commodities, sobe num momento em que a expectativa é a redução do crescimento mundial, ou seja, de redução da demanda, o que aponta para a existência de uma bolha. O problema é que a bolha das commodities, em particular do petróleo, é altamente inflacionária, pois sendo este a matriz energética do mundo e matéria-prima de um grande número de produtos industrializados, a inflação tende a disseminar-se por todos os setores da economia. Para tomarmos consciência da importância do petróleo na produção de mercadorias é só olhar além dos tanques de combustíveis de nossos carros, para os objetos que nos cercam, os alimentos que ingerimos e veremos o que significa o aumento de preços desse produto.
A bolha das commodities difere das demais pelo fato de o aumento dos preços se espalharem por todo planeta, não se restringindo a alguns países por ter a economia capitalista no petróleo a sua principal base sustentação. Quanto ao aumento dos preços dos alimentos, pode ter alguma relação com o consumo, mas é preciso levar em consideração os preços dos transportes, da armazenagem, dos insumos, principalmente dos fertilizantes, que direta ou indiretamente tem alguma relação com o petróleo. Mas não pode ser deixado de lado, de forma alguma, o impacto da utilização das commodities como refúgio do capital que foge dos estragos causados nas bolsas, no setor financeiro e em seus exóticos “produtos”, pela crise imobiliária americana. É só analisar a velocidade de negociação das commodities alimentares nas bolsas de mercadoria (1), e a voraz compra de terras produtivas e meios de produção pelos fundos em todo mundo e no Brasil.
É possível assistirmos aqui situação semelhante a dos anos setenta(2), quando no lançamento do Pró-álcool, terras destinadas ao cultivo de alimentos pelos pequenos agricultores e suas famílias, foram “expropriadas” pelo capital, que via na monocultura da cana-de-açúcar e na produção de álcool uma alternativa para aumentar a rentabilidade. Com o entusiasmo do governo pelos biocombustíveis e o capital global à solta, ávido por novas oportunidades, tudo fica mais fácil. Só estamos no início de um processo e a compra de terras por empresas, fundos nacionais e estrangeiros, que vão de vastas extensões a pequenos sítios, já fez subir significativamente o preço do hectare, o que deve complicar mais ainda a produção de alimentos e a inflação. As condições são propícias para uma nova onda de concentração da propriedade fundiária.
O discurso de um desajuste causado na economia pelo “choque de oferta” e pressão de demanda, como único responsável pelo aumento dos preços das commodities, não entende, ou intencionalmente tenta deixa de lado, a importância do violento movimento do capital, fictício ou não, em busca de rentabilidade na crise atual. A fragilidade do dólar frente às outras moedas, que busca compensar a queda das vendas internas americanas com as exportações, e, ao mesmo tempo, reverter o déficit na balança comercial, tende a agravar mais ainda a situação, pois a depreciação do dólar, que funciona como dinheiro universal, é causa e efeito dessa nova realidade.
29.06.2008
(1) Nem que todos morram de fome...
(2) Uma breve história da expulsão do homem do campo pelo capital
terça-feira, junho 24, 2008
O fantasma de 29 e a crise atual
Rall
A inflação antes restrita a alguns países, torna-se um fenômeno mundial e volta a assustar. A sombra da crise de 29, que arrastou o mundo à carnificina da segunda guerra mundial e parecia esquecida, assume contornos bizarros no horizonte e já é avistada com assombro por alguns. E é ela bem mais real do que os desejos de muitos analistas e governantes. Na velocidade em que vem se formando o capital fictício a partir dos anos 80, apesar dos mecanismos de contenção, chegaria o momento que este transbordaria e mostraria sua outra face: a inflação. Tão pouco esperada para um momento em que a economia americana e mundial dá sinais de desaceleração, a inflação tem vários determinantes, mas vamos nos ater ao que achamos no momento importante.
O dinheiro excedente, gerado de diversas formas, principalmente nas bolhas e nas máquinas dos governos para ser generosamente distribuído, deve ser levado em consideração quando se fala em retomada da inflação. Vale uma ressalva antes de prosseguirmos: com a terceira revolução industrial, a produção atual de mercadoria depende da formação de capital fictício. Na fórmula clássica D-M-D’, mais dinheiro (D’) só é possível por ser a força de trabalho uma mercadoria capaz de produzir mais valor. Com a automação da produção que tende a aumentar o capital fixo e a dispensar cada vez mais trabalho do processo produtivo, a formação de mais dinheiro (D’) como expressão da “valorização do valor” entra em crise. Daí o surgimento das “máquinas” de produção de capital fictício na economia mundial que não se restringem à impressão de papel-moeda pelos governos. Foram se constituindo mecanismos sofisticados de geração dessa forma de capital, que aparentam uma relação mais direta com a produção de mercadorias do que as impressoras das casas de moedas.
Um desses mecanismos é a relação econômica dos EUA com os países asiáticos, principalmente China e Japão, onde o enorme déficit comercial americano é coberto com uma montanha de dinheiro barato vindo desses países. Outros são os juros negativos praticados pelo Fed (e outros bancos centrais), os subsídios e cortes de impostos, medidas sempre tomadas todas as vezes que a economia entra ou corre o risco de recessão. O volume de capital que passa a circular a partir daí, ofertado a longo prazo as famílias e as empresas, ultrapassa a capacidade de consumo e investimentos, permitindo liquidez para especulação de toda ordem e formação de bolhas em vários setores da economia. Essas bolhas, ao devolverem mais dinheiro mesmo que fictício ao mercado, realimentam o consumo e os investimentos, aumentando também o tamanho e a possibilidade de outras, numa crescente bola de neve que parece não ter fim. Mas, um bom observador verá que a ascensão das bolhas e o crescimento econômico a ela acoplada, são sempre acompanhados de estouros e da queda da economia.
Esse parece ter sido o meio encontrado, pela economia global, para superar as dificuldades geradas com a crise do trabalho na era da revolução tecnológica, que leva a paralisia na formação de capital, entendido como trabalho morto acumulado. Não é um processo linear. Na competição sem limites por mercados, o capital está sempre em movimento na busca de novos espaços que lhes sejam favoráveis na produção de mercadorias. Por outro lado, mesmo com o “efeito bolha”, empregos não são criados em quantidade suficiente capazes de compensar o fechamento de postos de trabalho produtivos pela introdução de novas tecnologias, que pode ser indiretamente medido pelo grande aumento da produtividade do trabalho observado nas últimas décadas em todo mundo. Esse fenômeno não impede que ondas de empregos emerjam em certos momentos do capitalismo mundial como observado até recentemente. São empregos, em grande parte, improdutivos no sentido de não gerarem mais valia, e empregos precarizados como indica a estabilidade ou mesmo a queda da massa salarial na maioria dos países.
Se por um lado essa enorme quantidade de dinheiro supérfluo empurra para frente a possibilidade de uma crise sem retorno da forma capitalista de produção, quando não devidamente contido pelos vários mecanismos financeiros pode levar a inflação, como agora observamos após o estouro da bolha imobiliária que obrigou os capitais se deslocarem para ativos reais, inflando aos céus os preços das commodities metálicas, químicas (petróleo e derivados) e de alimentos. Situação agravada com os juros negativos, principalmente nos EUA e Japão, e pela ação dos bancos mundiais dos países ditos desenvolvidos que despejaram no mercado mais de um trilhão de dólares sem, no entanto, conseguir reverter a crise do sistema financeiro nem aquecer, como se esperava, suas economias. Os velhos remédios keinesianos ou monetaristas já não funcionam mais. Juros baixos e mais dinheiro para o consumo na situação atual significa mais inflação; arrocho monetário e juros altos mais recessão sem a garantia da queda dos preços. É a crise autonomizada dando sinais de sua verdadeira dimensão, mostrando que não se deixa facilmente controlar pelas vontades das elites e dos governos.
24.06.2008
A inflação antes restrita a alguns países, torna-se um fenômeno mundial e volta a assustar. A sombra da crise de 29, que arrastou o mundo à carnificina da segunda guerra mundial e parecia esquecida, assume contornos bizarros no horizonte e já é avistada com assombro por alguns. E é ela bem mais real do que os desejos de muitos analistas e governantes. Na velocidade em que vem se formando o capital fictício a partir dos anos 80, apesar dos mecanismos de contenção, chegaria o momento que este transbordaria e mostraria sua outra face: a inflação. Tão pouco esperada para um momento em que a economia americana e mundial dá sinais de desaceleração, a inflação tem vários determinantes, mas vamos nos ater ao que achamos no momento importante.
O dinheiro excedente, gerado de diversas formas, principalmente nas bolhas e nas máquinas dos governos para ser generosamente distribuído, deve ser levado em consideração quando se fala em retomada da inflação. Vale uma ressalva antes de prosseguirmos: com a terceira revolução industrial, a produção atual de mercadoria depende da formação de capital fictício. Na fórmula clássica D-M-D’, mais dinheiro (D’) só é possível por ser a força de trabalho uma mercadoria capaz de produzir mais valor. Com a automação da produção que tende a aumentar o capital fixo e a dispensar cada vez mais trabalho do processo produtivo, a formação de mais dinheiro (D’) como expressão da “valorização do valor” entra em crise. Daí o surgimento das “máquinas” de produção de capital fictício na economia mundial que não se restringem à impressão de papel-moeda pelos governos. Foram se constituindo mecanismos sofisticados de geração dessa forma de capital, que aparentam uma relação mais direta com a produção de mercadorias do que as impressoras das casas de moedas.
Um desses mecanismos é a relação econômica dos EUA com os países asiáticos, principalmente China e Japão, onde o enorme déficit comercial americano é coberto com uma montanha de dinheiro barato vindo desses países. Outros são os juros negativos praticados pelo Fed (e outros bancos centrais), os subsídios e cortes de impostos, medidas sempre tomadas todas as vezes que a economia entra ou corre o risco de recessão. O volume de capital que passa a circular a partir daí, ofertado a longo prazo as famílias e as empresas, ultrapassa a capacidade de consumo e investimentos, permitindo liquidez para especulação de toda ordem e formação de bolhas em vários setores da economia. Essas bolhas, ao devolverem mais dinheiro mesmo que fictício ao mercado, realimentam o consumo e os investimentos, aumentando também o tamanho e a possibilidade de outras, numa crescente bola de neve que parece não ter fim. Mas, um bom observador verá que a ascensão das bolhas e o crescimento econômico a ela acoplada, são sempre acompanhados de estouros e da queda da economia.
Esse parece ter sido o meio encontrado, pela economia global, para superar as dificuldades geradas com a crise do trabalho na era da revolução tecnológica, que leva a paralisia na formação de capital, entendido como trabalho morto acumulado. Não é um processo linear. Na competição sem limites por mercados, o capital está sempre em movimento na busca de novos espaços que lhes sejam favoráveis na produção de mercadorias. Por outro lado, mesmo com o “efeito bolha”, empregos não são criados em quantidade suficiente capazes de compensar o fechamento de postos de trabalho produtivos pela introdução de novas tecnologias, que pode ser indiretamente medido pelo grande aumento da produtividade do trabalho observado nas últimas décadas em todo mundo. Esse fenômeno não impede que ondas de empregos emerjam em certos momentos do capitalismo mundial como observado até recentemente. São empregos, em grande parte, improdutivos no sentido de não gerarem mais valia, e empregos precarizados como indica a estabilidade ou mesmo a queda da massa salarial na maioria dos países.
Se por um lado essa enorme quantidade de dinheiro supérfluo empurra para frente a possibilidade de uma crise sem retorno da forma capitalista de produção, quando não devidamente contido pelos vários mecanismos financeiros pode levar a inflação, como agora observamos após o estouro da bolha imobiliária que obrigou os capitais se deslocarem para ativos reais, inflando aos céus os preços das commodities metálicas, químicas (petróleo e derivados) e de alimentos. Situação agravada com os juros negativos, principalmente nos EUA e Japão, e pela ação dos bancos mundiais dos países ditos desenvolvidos que despejaram no mercado mais de um trilhão de dólares sem, no entanto, conseguir reverter a crise do sistema financeiro nem aquecer, como se esperava, suas economias. Os velhos remédios keinesianos ou monetaristas já não funcionam mais. Juros baixos e mais dinheiro para o consumo na situação atual significa mais inflação; arrocho monetário e juros altos mais recessão sem a garantia da queda dos preços. É a crise autonomizada dando sinais de sua verdadeira dimensão, mostrando que não se deixa facilmente controlar pelas vontades das elites e dos governos.
24.06.2008
quarta-feira, junho 11, 2008
NEM QUE TODOS MORRAM DE FOME...
Rall
O estouro da bolha imobiliária e a fuga dos capitais das bolsas de valores têm direcionado o dinheiro para as commodities com repercussão nos preços do petróleo, metais e alimentos. É claro que o redirecionamento da produção mundial de mercadorias para países como a China, Índia e mesmo o Brasil entre outros, tem aumentado o consumo de commodities. Mas, vale ressalvar, que pelo menos China e Índia, vem apresentando crescimento econômico próximos dos percentuais atuais há vários anos sem que as commodities subam tanto como se tem observado após o estouro da bolha imobiliária, mesmo sabendo-se que seus preços sempre estiveram sujeitos à variações especulativas. Num capitalismo que não mais consegue respirar sem bolhas, era previsível após o estouro de uma surgisse a necessidade de geração de outras (1), mesmo porque o capital sobre ameaça de ser consumido pelo fogo da crise tende a escapar para lugares aparentemente mais seguros à medida que as labaredas aumentam. E o que, mas imediatamente se apresenta pronto a acolhe-lo no mercado, são as commodities de toda natureza.
A situação mundial de abastecimento dessas commodities ajuda também na formação da bolha. O preço do petróleo, por exemplo, tem variado a partir de situações reais como os limites de fornecimento desse produto pela natureza e a instabilidade no Oriente Médio. A fraqueza do dólar e a inflação mundial são outros elementos de instabilidade dos preços. Mas não são suficientes para explicar altas tão significativas como na sexta-feira de 06/06/2008, quando o barril subiu mais de dez dólares frente a indicadores de que a economia americana fazia água. Se olharmos com cuidado os momentos recentes de aceleração do preço do barril, veremos que está colado ao agravamento da crise imobiliária e as dificuldades dessa economia se manter em pé. Ou seja, parte do capital que antes se multiplicava do nada em outras plagas, frente às ameaças de ser tragado pela crise, hoje se desloca com toda força para as commodities.
O estranho comportamento das bolsas de valores em todo mundo, que sofrem fortes quedas pela desvalorização das ações dos bancos e das financeiras, e em outros momentos se recuperam com o aumento dos preços das ações das empresas petrolíferas e das que lidam com extração e processamento de metais, desconsiderando o agravamento da crise e a possibilidade real de uma recessão global, apontam para formação de uma bolha nas commodities. Quanto às bolsas de mercadorias, as safras dos produtos agrícolas são aí negociadas várias vezes ao ano, o giro vem aumentando absurdamente. Em 2007 a safra de soja foi negociada 22 vezes e a de milho 10 vezes mais do que a produção física desses produtos. Só os fundos negociaram em média 8 vezes as safras agrícolas no ano de 2007, segundo matéria publicada recentemente na Folha de São Paulo, contra 3,5 em média em anos recentes. Na verdade o que se compra e vende nessas bolsas são derivativos financeiros, papeis derivados de ativos reais, que dependendo dos rumos da cotação terminam contaminando os preços dos produtos e vice-versa.
Mas os grandes fundos, não satisfeitos com os lucros resultante desse jogo de compra e venda de papeis, resolveram investir pesado na produção e comercialização dos produtos agrícolas, adquirindo enorme extensão de terras produtivas aráveis no mundo, inclusive indústrias de fertilizantes, silos de armazenagem de grãos, equipamentos de transporte e vias de escoamento, dando-lhes grandes vantagens na especulação dos preços desses produtos e dos papéis correspondentes negociados nos mercados futuros, já que podem influenciar na cadeia produtiva, no transporte e na comercialização dos produtos agrícolas. Fala-se em mais de 40 trilhões de dólares disponíveis em busca de aplicações rentáveis. Nesse jogo pesado de muito dinheiro sem substância, que deverá concentrar e elevar os preços das terras ao infinito, o médio e pequeno agricultor, principais responsáveis pela produção de alimentos consumidos pela população, poderão sumir do mapa muito rapidamente. É provável que os fundos, associados a outros grupos que já atuam especulando no mercado, determinem em curto prazo os preços dos produtos agrícolas na produção e na comercialização segundo seus interesses financeiros. Preços altos dos alimentos para o consumidor não significam necessariamente preços "justos" para o agricultor.
Como a queima de dinheiro pela crise não é suficiente para destruir todo capital fictício circulante, mesmo porque esse capital continua sendo gerado em velocidade estonteante pelos mais diversos mecanismos como meio de evitar o colapso do capitalismo, novas bolhas como a das commodities podem ser geradas, absorvendo e aumentando o capital sem rumo, trazendo uma estabilidade provisória e um precário equilíbrio à economia mundial, até que um novo espasmo se manifeste e lembre a existência e a gravidade da crise. O que difere a bolha das commodities de outras é que ela traz consigo o desabastecimento e o agravamento da carestia que levará milhões a morrer de fome, aumentando a violência e a barbárie em todos Continentes para manter ativa a máquina de "valorização do valor".
(1) Procura-se uma nova bolha
11/06/2008
O estouro da bolha imobiliária e a fuga dos capitais das bolsas de valores têm direcionado o dinheiro para as commodities com repercussão nos preços do petróleo, metais e alimentos. É claro que o redirecionamento da produção mundial de mercadorias para países como a China, Índia e mesmo o Brasil entre outros, tem aumentado o consumo de commodities. Mas, vale ressalvar, que pelo menos China e Índia, vem apresentando crescimento econômico próximos dos percentuais atuais há vários anos sem que as commodities subam tanto como se tem observado após o estouro da bolha imobiliária, mesmo sabendo-se que seus preços sempre estiveram sujeitos à variações especulativas. Num capitalismo que não mais consegue respirar sem bolhas, era previsível após o estouro de uma surgisse a necessidade de geração de outras (1), mesmo porque o capital sobre ameaça de ser consumido pelo fogo da crise tende a escapar para lugares aparentemente mais seguros à medida que as labaredas aumentam. E o que, mas imediatamente se apresenta pronto a acolhe-lo no mercado, são as commodities de toda natureza.
A situação mundial de abastecimento dessas commodities ajuda também na formação da bolha. O preço do petróleo, por exemplo, tem variado a partir de situações reais como os limites de fornecimento desse produto pela natureza e a instabilidade no Oriente Médio. A fraqueza do dólar e a inflação mundial são outros elementos de instabilidade dos preços. Mas não são suficientes para explicar altas tão significativas como na sexta-feira de 06/06/2008, quando o barril subiu mais de dez dólares frente a indicadores de que a economia americana fazia água. Se olharmos com cuidado os momentos recentes de aceleração do preço do barril, veremos que está colado ao agravamento da crise imobiliária e as dificuldades dessa economia se manter em pé. Ou seja, parte do capital que antes se multiplicava do nada em outras plagas, frente às ameaças de ser tragado pela crise, hoje se desloca com toda força para as commodities.
O estranho comportamento das bolsas de valores em todo mundo, que sofrem fortes quedas pela desvalorização das ações dos bancos e das financeiras, e em outros momentos se recuperam com o aumento dos preços das ações das empresas petrolíferas e das que lidam com extração e processamento de metais, desconsiderando o agravamento da crise e a possibilidade real de uma recessão global, apontam para formação de uma bolha nas commodities. Quanto às bolsas de mercadorias, as safras dos produtos agrícolas são aí negociadas várias vezes ao ano, o giro vem aumentando absurdamente. Em 2007 a safra de soja foi negociada 22 vezes e a de milho 10 vezes mais do que a produção física desses produtos. Só os fundos negociaram em média 8 vezes as safras agrícolas no ano de 2007, segundo matéria publicada recentemente na Folha de São Paulo, contra 3,5 em média em anos recentes. Na verdade o que se compra e vende nessas bolsas são derivativos financeiros, papeis derivados de ativos reais, que dependendo dos rumos da cotação terminam contaminando os preços dos produtos e vice-versa.
Mas os grandes fundos, não satisfeitos com os lucros resultante desse jogo de compra e venda de papeis, resolveram investir pesado na produção e comercialização dos produtos agrícolas, adquirindo enorme extensão de terras produtivas aráveis no mundo, inclusive indústrias de fertilizantes, silos de armazenagem de grãos, equipamentos de transporte e vias de escoamento, dando-lhes grandes vantagens na especulação dos preços desses produtos e dos papéis correspondentes negociados nos mercados futuros, já que podem influenciar na cadeia produtiva, no transporte e na comercialização dos produtos agrícolas. Fala-se em mais de 40 trilhões de dólares disponíveis em busca de aplicações rentáveis. Nesse jogo pesado de muito dinheiro sem substância, que deverá concentrar e elevar os preços das terras ao infinito, o médio e pequeno agricultor, principais responsáveis pela produção de alimentos consumidos pela população, poderão sumir do mapa muito rapidamente. É provável que os fundos, associados a outros grupos que já atuam especulando no mercado, determinem em curto prazo os preços dos produtos agrícolas na produção e na comercialização segundo seus interesses financeiros. Preços altos dos alimentos para o consumidor não significam necessariamente preços "justos" para o agricultor.
Como a queima de dinheiro pela crise não é suficiente para destruir todo capital fictício circulante, mesmo porque esse capital continua sendo gerado em velocidade estonteante pelos mais diversos mecanismos como meio de evitar o colapso do capitalismo, novas bolhas como a das commodities podem ser geradas, absorvendo e aumentando o capital sem rumo, trazendo uma estabilidade provisória e um precário equilíbrio à economia mundial, até que um novo espasmo se manifeste e lembre a existência e a gravidade da crise. O que difere a bolha das commodities de outras é que ela traz consigo o desabastecimento e o agravamento da carestia que levará milhões a morrer de fome, aumentando a violência e a barbárie em todos Continentes para manter ativa a máquina de "valorização do valor".
(1) Procura-se uma nova bolha
11/06/2008
terça-feira, abril 22, 2008
O fim da onda neoliberal e a tirania da economia
Rall
A política é cada vez mais percebida como imanente à sociedade capitalista. Incapaz de produzir mudanças que não sejam dentro do exigido pelas regras que regem o funcionamento dessa sociedade, nos períodos de crises, aonde os limites da acumulação capitalista vem à tona e a economia exige atenção absoluta, os órgãos diretamente ligados ao capital, responsáveis pela administração da crise, como os bancos centrais, ganham vulto e a política mostra-se mais ainda desprezível. Se olharmos o noticiário econômico corrente, principalmente as notícias vindas dos EUA, veremos que de longe predominam as questões relacionadas com a crise econômica, estando em primeiro lugar as notícias sobre as oscilações dos indicadores econômicos, o comportamento das bolsas e as próximas medidas mágicas do Fed na busca de uma solução capaz de empurrar para frente o que hoje afeta a economia. Quando os políticos se manifestam, seja no Brasil ou nos EUA, geralmente é para apoiar as medidas dos bancos centrais como aumentar ou reduzir os juros e alguns para espernear sem nenhuma conseqüência.
A sensação de que os partidos políticos só se diferenciam no discurso quando se xingam é universal e real. Nas ações, partidos como os italianos PL de Berlusconi e o Partido Democrata (PD) ex-comunistas, Partido Democrático e Partido Republicano nos EUA, PT e PSDB no Brasil, só para citar alguns, em nada se distinguem. Mesmo partidos mais radicais, ao trilharem o caminho do poder caem na vala comum. Aqui, a política do PT é a continuidade da do PSDB, inclusive nas amplas alianças. Algumas nuanças existem como a capacidade de domesticação dos movimentos sociais pelo Governo atual, nada mal para os intentos do capital. Sobre a Itália vale ver o documentário da humorista italiana Sabina Guzzanti. Apesar do esforço da produtora para apontar o contrário, a política aí pouco diverge do resto da Europa, a não ser pelos obstáculos as “liberdades” individuais e de imprensa impostos por Berlusconi e companhia. O documentário mostra a tomada do poder pelo grupo de Berlusconi, facilitada pelos partidos de oposição, e as repercussões que isso veio a ter na imprensa com a demissão de jornalistas da RAI e de jornais privados, e fechamento de programas como o humorista RaiOT de sua autoria, que ousavam caricaturar Berlusconi e membros de seu Governo.
A chegada desse mega-empresário da mídia a primeiro-ministro da Itália, nada escrupuloso quando trata de defender seus negócios, e que, não sem razão, não vê nenhuma diferença entre os interesses privados e do Estado (apesar das tensões que daí podem resultar), Berlusconi utiliza o poder econômico e de chefe de Governo para chantagear adversários e subordinar a imprensa à sua versão chula do espetáculo. Para tanto a violência física não precisa ser empregada, como acontece em muitos países, pois se dispõe de instrumentos intimidatórios suficientes, como processos bilionários contra jornalista e a mídia, além das demissões pura e simples dos considerados adversários. No Brasil isso não se faz necessário, pois o comprometimento da imprensa com os financiamentos generosos do Governo e a compra de espaços para farta propaganda, como também ser parte dessas, a televisiva, concessão do Estado conforme acertos políticos, a mordaça é desnecessária pela convergência de interesses. Mas quando preciso as advertências, as pressões econômicas como as que vitimaram anos atrás o jornalista Paulo Francis que criticava duramente os burocratas do poder, são exercidas. Pode-se dizer que só resta a internet como o espaço mais livre, apesar dos constantes ataques e tentativas de controle em nome da moralidade.
Em alguns momentos, até o início dos anos 70, a política parecia imperativa e transformadora. De fato, nos movimentos de libertação e de auto-afirmação da soberania, nas lutas contra as ditaduras o componente político tinha um papel importante na consolidação do capitalismo. No Brasil, a luta pelo controle dos recursos naturais, principalmente o petróleo, era a vanguarda da “modernização recuperadora”. Na busca de um crescimento acelerado, limpava-se o caminho das formações pré-capitalistas e rompiam-se os elos internos e externos que aparentemente reforçavam essas formações, para que o bonde capitalista se movimentasse sem empecilhos. Pela carência do capital privado nacional e pelo pouco interesse dos investidores estrangeiros, o Estado teve um enorme papel na destruição dessas formações e na liberação dos trabalhadores que agora poderiam vender livremente no mercado sua força de trabalho às empresas capitalistas, privadas ou estatais, que se formavam nos centros urbanos ávidas para gerarerem mais valia. Com ajuda da mão visível do Estado, tirava-se recurso da sociedade transferindo-os para o setor empresarial, procurando assim suprir as deficiências da “mão invisível” do mercado.
No capitalismo maduro a subordinação dos partidos políticos, do Estado, da mídia, da arte e por que não da vida às leis da economia é absoluta. Tudo fundiu-se sob a mesma lógica da "valorização do valor". É impensável qualquer movimento fora dos limites cada vez mais estreitos delineados pelo capital. O poder concentrado no Estado é mobilizado considerando-se os momentos do mercado. Algum tempo atrás o discurso neoliberal era de um Estado distante dos negócios. Hoje, com a crise do sistema financeiro mundial, os bancos centrais, atrelados aos interesses dos bancos privados, são convocados a intervir distribuindo dinheiro a rodo para o sistema financeiro não ir à lona e salvando bancos como o Northern Rock na Inglaterra e o banco de investimento Bear Stearns nos EUA. O fim da onda neoliberal com presença dos órgãos financeiros do Estado socorrendo os bancos e distribuindo os prejuízos com sociedade, não merece regozijo, pois só expõe de quem o Estado moderno é vassalo. Um pouco de conhecimento da história da sociedade burguesa, mostra que a presença maior ou menor do Estado e suas formas dependem das situações pelas quais passa a economia. Mas, mudanças reais não passam pela ingênua alegria do possível fim do período neoliberal.
22.04.2008
A política é cada vez mais percebida como imanente à sociedade capitalista. Incapaz de produzir mudanças que não sejam dentro do exigido pelas regras que regem o funcionamento dessa sociedade, nos períodos de crises, aonde os limites da acumulação capitalista vem à tona e a economia exige atenção absoluta, os órgãos diretamente ligados ao capital, responsáveis pela administração da crise, como os bancos centrais, ganham vulto e a política mostra-se mais ainda desprezível. Se olharmos o noticiário econômico corrente, principalmente as notícias vindas dos EUA, veremos que de longe predominam as questões relacionadas com a crise econômica, estando em primeiro lugar as notícias sobre as oscilações dos indicadores econômicos, o comportamento das bolsas e as próximas medidas mágicas do Fed na busca de uma solução capaz de empurrar para frente o que hoje afeta a economia. Quando os políticos se manifestam, seja no Brasil ou nos EUA, geralmente é para apoiar as medidas dos bancos centrais como aumentar ou reduzir os juros e alguns para espernear sem nenhuma conseqüência.
A sensação de que os partidos políticos só se diferenciam no discurso quando se xingam é universal e real. Nas ações, partidos como os italianos PL de Berlusconi e o Partido Democrata (PD) ex-comunistas, Partido Democrático e Partido Republicano nos EUA, PT e PSDB no Brasil, só para citar alguns, em nada se distinguem. Mesmo partidos mais radicais, ao trilharem o caminho do poder caem na vala comum. Aqui, a política do PT é a continuidade da do PSDB, inclusive nas amplas alianças. Algumas nuanças existem como a capacidade de domesticação dos movimentos sociais pelo Governo atual, nada mal para os intentos do capital. Sobre a Itália vale ver o documentário da humorista italiana Sabina Guzzanti. Apesar do esforço da produtora para apontar o contrário, a política aí pouco diverge do resto da Europa, a não ser pelos obstáculos as “liberdades” individuais e de imprensa impostos por Berlusconi e companhia. O documentário mostra a tomada do poder pelo grupo de Berlusconi, facilitada pelos partidos de oposição, e as repercussões que isso veio a ter na imprensa com a demissão de jornalistas da RAI e de jornais privados, e fechamento de programas como o humorista RaiOT de sua autoria, que ousavam caricaturar Berlusconi e membros de seu Governo.
A chegada desse mega-empresário da mídia a primeiro-ministro da Itália, nada escrupuloso quando trata de defender seus negócios, e que, não sem razão, não vê nenhuma diferença entre os interesses privados e do Estado (apesar das tensões que daí podem resultar), Berlusconi utiliza o poder econômico e de chefe de Governo para chantagear adversários e subordinar a imprensa à sua versão chula do espetáculo. Para tanto a violência física não precisa ser empregada, como acontece em muitos países, pois se dispõe de instrumentos intimidatórios suficientes, como processos bilionários contra jornalista e a mídia, além das demissões pura e simples dos considerados adversários. No Brasil isso não se faz necessário, pois o comprometimento da imprensa com os financiamentos generosos do Governo e a compra de espaços para farta propaganda, como também ser parte dessas, a televisiva, concessão do Estado conforme acertos políticos, a mordaça é desnecessária pela convergência de interesses. Mas quando preciso as advertências, as pressões econômicas como as que vitimaram anos atrás o jornalista Paulo Francis que criticava duramente os burocratas do poder, são exercidas. Pode-se dizer que só resta a internet como o espaço mais livre, apesar dos constantes ataques e tentativas de controle em nome da moralidade.
Em alguns momentos, até o início dos anos 70, a política parecia imperativa e transformadora. De fato, nos movimentos de libertação e de auto-afirmação da soberania, nas lutas contra as ditaduras o componente político tinha um papel importante na consolidação do capitalismo. No Brasil, a luta pelo controle dos recursos naturais, principalmente o petróleo, era a vanguarda da “modernização recuperadora”. Na busca de um crescimento acelerado, limpava-se o caminho das formações pré-capitalistas e rompiam-se os elos internos e externos que aparentemente reforçavam essas formações, para que o bonde capitalista se movimentasse sem empecilhos. Pela carência do capital privado nacional e pelo pouco interesse dos investidores estrangeiros, o Estado teve um enorme papel na destruição dessas formações e na liberação dos trabalhadores que agora poderiam vender livremente no mercado sua força de trabalho às empresas capitalistas, privadas ou estatais, que se formavam nos centros urbanos ávidas para gerarerem mais valia. Com ajuda da mão visível do Estado, tirava-se recurso da sociedade transferindo-os para o setor empresarial, procurando assim suprir as deficiências da “mão invisível” do mercado.
No capitalismo maduro a subordinação dos partidos políticos, do Estado, da mídia, da arte e por que não da vida às leis da economia é absoluta. Tudo fundiu-se sob a mesma lógica da "valorização do valor". É impensável qualquer movimento fora dos limites cada vez mais estreitos delineados pelo capital. O poder concentrado no Estado é mobilizado considerando-se os momentos do mercado. Algum tempo atrás o discurso neoliberal era de um Estado distante dos negócios. Hoje, com a crise do sistema financeiro mundial, os bancos centrais, atrelados aos interesses dos bancos privados, são convocados a intervir distribuindo dinheiro a rodo para o sistema financeiro não ir à lona e salvando bancos como o Northern Rock na Inglaterra e o banco de investimento Bear Stearns nos EUA. O fim da onda neoliberal com presença dos órgãos financeiros do Estado socorrendo os bancos e distribuindo os prejuízos com sociedade, não merece regozijo, pois só expõe de quem o Estado moderno é vassalo. Um pouco de conhecimento da história da sociedade burguesa, mostra que a presença maior ou menor do Estado e suas formas dependem das situações pelas quais passa a economia. Mas, mudanças reais não passam pela ingênua alegria do possível fim do período neoliberal.
22.04.2008
terça-feira, março 25, 2008
O beco sem saída da economia americana tende agravar a crise global
Rall
Do Norte só chegam notícias do agravamento da crise e da paralisia da economia. Instituições financeiras que antes pareciam “sólidas desmancham-se no ar”. O Federal Reserve põe suas máquinas de imprimir papel de cor verde funcionando com a máxima capacidade e autoriza que “dinheiro seja jogado de avião” para salvar bancos e financeiras bambas das pernas. A expansão da base monetária americana, sem lastro na economia real, igual a qualquer república das bananas, não produz o milagre esperado, mas aumenta a inflação e ajuda o dólar no seu desembesto ladeira a baixo. As instituições financeiras dão como garantia ao Fed, ao receber o papel pintado de verde, as hipotecas podres ou outros papéis sem nenhum valor no mercado. Assim, o Estado busca resgatar o mercado assumindo os prejuízos num jogo contábil nem sempre bem sucedido.
Tanto papel, é claro, termina por entupir alguns buracos pretéritos, mas a insolvência que se manifesta em tempos diferentes, continua abrindo outros à medida que a crise avança. Por isso já se pensa seriamente nos EEUU perdoar parte da dívida imobiliária dos cidadãos americanos, cujo montante é bem superior ao valor de seus imóveis e de sua capacidade de administrá-la, como forma de aliviar as pressões sobre o sistema financeiro. Mas a crise do crédito não se restringe as sacrossantas residências, que tinham na crescente valorização e no constante refinanciamento a juros baixos, a salvação de todos penduras das famílias: das hipotecas ao cartão de crédito, sem deixar de lado o carro do ano e outros produtos de consumo perecíveis e não-perecíveis, com prazos a perder de vista . Mesmo que nada acontecesse, que a massa salarial não se alterasse e o desemprego continuasse o mesmo, o americano endividado não teria condição de honrar seus compromissos sem uma boa ajuda do dinheiro fictício das bolhas geradas em vários setores da economia, mas, principalmente, nos imóveis e bolsas de valores.
Com a implosão das bolhas o consumo e a atividade industrial tende a cair, o desemprego aumenta e emperra mais ainda o crédito, que já restrito, volta a agir negativamente sobre consumo, num efeito bola de neve. Apesar da derrama de dinheiro pelos Bancos Centrais dos países ditos desenvolvidos e dos juros negativos nos EEUU, o capital disponível não flui, mantém-se entocado pela desconfiança generalizada entre empresas financeiras, que por sua vez castigam os consumidores endividados. Essa desconfiança é um importante indicador da gravidade da crise. Num segundo momento, clientes desconfiados, transferem dinheiro dos bancos para o Tesouro, comprando papéis dos governos que necessitam avidamente desses recursos, principalmente o Governo americano no afã de fechar suas contas. Essa modalidade de saque tende a crescer e a agravar seriamente a situação dos bancos, dos fundos de investimentos e das bolsas. A corrida silenciosa a formas aparentemente segura de entesouramento pode ser a última rodada da crise que poderá levar o sistema financeiro ao chão. Parte do dinheiro, tão generosamente doado pelos bancos centrais ao sistema financeiro, pode estar sendo utilizado para cobrir essas saídas, reduzindo mais ainda a circulação do capital.
A competição do Governo americano por recursos externos e internos para cobrir anualmente os déficits em conta e fiscal de US$ 1 trilhão, oriundos principalmente do desequilíbrio comercial externo e dos gastos de guerra, é mais um elemento agravante da falta de liquidez. O dinheiro que sai pela porta da frente do Banco Central, quando não consumido nos buracos negros da inadimplência, volta pela porta dos fundos do Tesouro, num círculo difícil de ser quebrado quando a falta de confiança dos agentes econômicos é generalizada. Na situação em que se encontra a economia global, e, particularmente, a americana, dificilmente a máquina de fazer dinheiro do Fed e os juros negativos suprirão às necessidades causadas pelo estouro da bolha imobiliária sem o risco de uma inflação de muitos dígitos (em aparente conflito com a deflação dos imóveis e outros ativos), cujos primeiros sinais é a mega desvalorização do dólar frente as demais moedas.
25.03.2008
Do Norte só chegam notícias do agravamento da crise e da paralisia da economia. Instituições financeiras que antes pareciam “sólidas desmancham-se no ar”. O Federal Reserve põe suas máquinas de imprimir papel de cor verde funcionando com a máxima capacidade e autoriza que “dinheiro seja jogado de avião” para salvar bancos e financeiras bambas das pernas. A expansão da base monetária americana, sem lastro na economia real, igual a qualquer república das bananas, não produz o milagre esperado, mas aumenta a inflação e ajuda o dólar no seu desembesto ladeira a baixo. As instituições financeiras dão como garantia ao Fed, ao receber o papel pintado de verde, as hipotecas podres ou outros papéis sem nenhum valor no mercado. Assim, o Estado busca resgatar o mercado assumindo os prejuízos num jogo contábil nem sempre bem sucedido.
Tanto papel, é claro, termina por entupir alguns buracos pretéritos, mas a insolvência que se manifesta em tempos diferentes, continua abrindo outros à medida que a crise avança. Por isso já se pensa seriamente nos EEUU perdoar parte da dívida imobiliária dos cidadãos americanos, cujo montante é bem superior ao valor de seus imóveis e de sua capacidade de administrá-la, como forma de aliviar as pressões sobre o sistema financeiro. Mas a crise do crédito não se restringe as sacrossantas residências, que tinham na crescente valorização e no constante refinanciamento a juros baixos, a salvação de todos penduras das famílias: das hipotecas ao cartão de crédito, sem deixar de lado o carro do ano e outros produtos de consumo perecíveis e não-perecíveis, com prazos a perder de vista . Mesmo que nada acontecesse, que a massa salarial não se alterasse e o desemprego continuasse o mesmo, o americano endividado não teria condição de honrar seus compromissos sem uma boa ajuda do dinheiro fictício das bolhas geradas em vários setores da economia, mas, principalmente, nos imóveis e bolsas de valores.
Com a implosão das bolhas o consumo e a atividade industrial tende a cair, o desemprego aumenta e emperra mais ainda o crédito, que já restrito, volta a agir negativamente sobre consumo, num efeito bola de neve. Apesar da derrama de dinheiro pelos Bancos Centrais dos países ditos desenvolvidos e dos juros negativos nos EEUU, o capital disponível não flui, mantém-se entocado pela desconfiança generalizada entre empresas financeiras, que por sua vez castigam os consumidores endividados. Essa desconfiança é um importante indicador da gravidade da crise. Num segundo momento, clientes desconfiados, transferem dinheiro dos bancos para o Tesouro, comprando papéis dos governos que necessitam avidamente desses recursos, principalmente o Governo americano no afã de fechar suas contas. Essa modalidade de saque tende a crescer e a agravar seriamente a situação dos bancos, dos fundos de investimentos e das bolsas. A corrida silenciosa a formas aparentemente segura de entesouramento pode ser a última rodada da crise que poderá levar o sistema financeiro ao chão. Parte do dinheiro, tão generosamente doado pelos bancos centrais ao sistema financeiro, pode estar sendo utilizado para cobrir essas saídas, reduzindo mais ainda a circulação do capital.
A competição do Governo americano por recursos externos e internos para cobrir anualmente os déficits em conta e fiscal de US$ 1 trilhão, oriundos principalmente do desequilíbrio comercial externo e dos gastos de guerra, é mais um elemento agravante da falta de liquidez. O dinheiro que sai pela porta da frente do Banco Central, quando não consumido nos buracos negros da inadimplência, volta pela porta dos fundos do Tesouro, num círculo difícil de ser quebrado quando a falta de confiança dos agentes econômicos é generalizada. Na situação em que se encontra a economia global, e, particularmente, a americana, dificilmente a máquina de fazer dinheiro do Fed e os juros negativos suprirão às necessidades causadas pelo estouro da bolha imobiliária sem o risco de uma inflação de muitos dígitos (em aparente conflito com a deflação dos imóveis e outros ativos), cujos primeiros sinais é a mega desvalorização do dólar frente as demais moedas.
25.03.2008
quinta-feira, fevereiro 07, 2008
A crise da economia e a dança do capital sem substância
Rall
Acompanhar a crise global através das análises econômicas da grande imprensa está cada vez mais difícil. Num dia a depressão, noutro a euforia, o fim da crise. Esse transtorno ciclotímico segue o “humor” das bolsas que é o indicador mais visível, mas nem sempre o mais importante para avaliar a crise. O que ainda não apareceu, não é contabilizado, mesmo suspeitando-se da existência de cadáveres fechados a sete chaves nos armários das empresas privadas e das instituições governamentais. A esses devem juntar-se muitos outros, pois a inadimplência no setor imobiliário, cozinhada em fogo brando, só deu os seus primeiros sinais. A crise, que se manifesta como uma crise do crédito, e que teve início nos EUA, alastra-se por toda economia mundial. O consumidor americano, responsável por 70% do PIB e com endividamento superior as suas condições financeira, já não consegue honrar outras dívidas. Por outro lado, os mecanismos utilizados para rolagem das dívidas acham-se travados pelo enorme prejuízo do setor financeiro Ocidental, calculado até agora em 600 bilhões de dólares. Se os cálculos de que para 1 dólar perdido os bancos deixam de emprestar 20 estiverem corretos a coisa está muito feia.
Pouco se vê pela imprensa menção aos circuitos deficitários, principalmente ao asiático(1), que tem levado os países superavitários dessa região, principalmente China e Japão, jogar, a custo zero, bilhões de dólares no financiamento do déficit americano, e que teve importante papel na expansão da bolha do setor imobiliário após o colapso das bolsas em 2001 e no aumento do consumo em geral. Ajustes nesses circuitos, que necessariamente devem acontecer com o agravamento da crise, reduzirão significativamente o retorno dos dólares a esse mercado, inibindo o consumo e as importações. O FED e os demais bancos centrais da Europa e de outros países capitalistas, que já disponibilizaram mais de um trilhão de dólares para segurar a falência do setor financeiro e manter em alta o ânimo do consumidor, além da redução dos juros e devolução de impostos ao contribuinte feito pelo Governo, hão de por suas máquinas de capital fictício cuspindo moeda dia e noite para melhorar a liquidez. Porém, não há nenhuma garantia de que tais medidas amorteçam a crise.
Numa situação em que a economia real não consegue mais acumular e para retardar a crise bolhas são geradas, onde ativos financeiros, numa dança louca, multiplicam-se milagrosamente sem nenhuma correspondência com a produção real, resta saber qual próxima bolha vai substituir a que murchou. Até agora nada de novo se vislumbra apesar da corrida dos bancos em dificuldade aos recursos dos fundos soberanos(2), antes vistos com desconfiança pelos Governos dos países do Ocidente, para concertar seus balanços afetados pela bolha em implosão e a existência de certa liquidez nos países em desenvolvimento. No entanto, a relutância de alguns fundos soberanos comprarem qualquer coisa que lhes seja oferecido, mesmo estrategicamente importante, mostra a preocupação dos Governos detentores desses fundos de como a crise vai bater em vossa porta. Podem estar também à espera de melhores oportunidades para adquirirem ativos reais. A volatilidade global das bolsas acompanhando o mercado americano mostra que a tola teoria do descolamento de uma parte do mundo da crise não passa de desejo de afogados.
Ora, se “jogar dinheiro de avião” como vem fazendo o Governo americano e de outros países não tem dado resultados, se os circuitos deficitários tende a se ajustar reduzindo o fluxo de capital para as grandes praças financeiras, se há relutância de quem tem dinheiro entesourado de superávits comerciais abrirem as burras, a tendência é de uma retração ainda maior do crédito com impacto negativo no consumo e no emprego. A fogueira que nessa crise queima o capital fictício, principalmente nos EUA, tem acarretado deflação de ativos reais e financeiros por um lado, e inflação dos produtos de consumo por outro, desvalorizando o dólar e esvaziando o bolso do consumidor numa velocidade maior do que os mecanismos monetários de contenção de crise podem repor. Esses mecanismos que se resumem na distribuição de dinheiro, mesmo sem substância, para que o ávido consumidor vá às compras, tende acentuar a inflação e pode não o levar a consumir. Desconfiado e endividado, pode utilizar esse dinheiro para saldar dívidas ou até mesmo entesourar em aplicações aparentemente seguras se sua percepção é de que vai necessitar desses recursos para atravessar os tempos difíceis que se anunciam.
Portanto, o capital financeiro, tão duramente surrado por setores da esquerda e grupos ditos nacionalistas alinhados muitas vezes a tendências anti-semitas, com a crise da economia real a partir dos anos 80, tornou-se instrumento de “alavancagem” na produção de mercadorias que inundam o mundo e aprofunda a crise ecológica, mesmo sendo sua origem suspeita e fictícia. A crise aparentemente conjuntural e financeira é um agravamento da crise estrutural do capitalismo que se não conseguir gerar novas bolhas para mais uma vez adiar um desfecho dramático, pode entrar num processo de regressão sem precedente. A emancipação e a superação da sociedade da mercadoria, uma possibilidade maior hoje pelos conhecimentos acumulados e pelos meios técnicos que dispõe a sociedade, não é garantida. Por enquanto o que se prenuncia é uma luta fratricida dos “sujeitos automáticos” pelo espólio do Estado burguês e por qualquer coisa que prometa ser transformada em dinheiro, como mostram as guerras de extermínio dos bandos armados em algumas regiões do mundo já colapsadas, acentuando a violência e a barbárie que devem ser denunciadas com determinação.
04.02.2008
(1) Rall, “O circuito asiático da economia mundial” (Rumores da crise, 2005).
(2) Rall, “O Brasil está imune a crise?” (Rumores da crise, 2007)
Acompanhar a crise global através das análises econômicas da grande imprensa está cada vez mais difícil. Num dia a depressão, noutro a euforia, o fim da crise. Esse transtorno ciclotímico segue o “humor” das bolsas que é o indicador mais visível, mas nem sempre o mais importante para avaliar a crise. O que ainda não apareceu, não é contabilizado, mesmo suspeitando-se da existência de cadáveres fechados a sete chaves nos armários das empresas privadas e das instituições governamentais. A esses devem juntar-se muitos outros, pois a inadimplência no setor imobiliário, cozinhada em fogo brando, só deu os seus primeiros sinais. A crise, que se manifesta como uma crise do crédito, e que teve início nos EUA, alastra-se por toda economia mundial. O consumidor americano, responsável por 70% do PIB e com endividamento superior as suas condições financeira, já não consegue honrar outras dívidas. Por outro lado, os mecanismos utilizados para rolagem das dívidas acham-se travados pelo enorme prejuízo do setor financeiro Ocidental, calculado até agora em 600 bilhões de dólares. Se os cálculos de que para 1 dólar perdido os bancos deixam de emprestar 20 estiverem corretos a coisa está muito feia.
Pouco se vê pela imprensa menção aos circuitos deficitários, principalmente ao asiático(1), que tem levado os países superavitários dessa região, principalmente China e Japão, jogar, a custo zero, bilhões de dólares no financiamento do déficit americano, e que teve importante papel na expansão da bolha do setor imobiliário após o colapso das bolsas em 2001 e no aumento do consumo em geral. Ajustes nesses circuitos, que necessariamente devem acontecer com o agravamento da crise, reduzirão significativamente o retorno dos dólares a esse mercado, inibindo o consumo e as importações. O FED e os demais bancos centrais da Europa e de outros países capitalistas, que já disponibilizaram mais de um trilhão de dólares para segurar a falência do setor financeiro e manter em alta o ânimo do consumidor, além da redução dos juros e devolução de impostos ao contribuinte feito pelo Governo, hão de por suas máquinas de capital fictício cuspindo moeda dia e noite para melhorar a liquidez. Porém, não há nenhuma garantia de que tais medidas amorteçam a crise.
Numa situação em que a economia real não consegue mais acumular e para retardar a crise bolhas são geradas, onde ativos financeiros, numa dança louca, multiplicam-se milagrosamente sem nenhuma correspondência com a produção real, resta saber qual próxima bolha vai substituir a que murchou. Até agora nada de novo se vislumbra apesar da corrida dos bancos em dificuldade aos recursos dos fundos soberanos(2), antes vistos com desconfiança pelos Governos dos países do Ocidente, para concertar seus balanços afetados pela bolha em implosão e a existência de certa liquidez nos países em desenvolvimento. No entanto, a relutância de alguns fundos soberanos comprarem qualquer coisa que lhes seja oferecido, mesmo estrategicamente importante, mostra a preocupação dos Governos detentores desses fundos de como a crise vai bater em vossa porta. Podem estar também à espera de melhores oportunidades para adquirirem ativos reais. A volatilidade global das bolsas acompanhando o mercado americano mostra que a tola teoria do descolamento de uma parte do mundo da crise não passa de desejo de afogados.
Ora, se “jogar dinheiro de avião” como vem fazendo o Governo americano e de outros países não tem dado resultados, se os circuitos deficitários tende a se ajustar reduzindo o fluxo de capital para as grandes praças financeiras, se há relutância de quem tem dinheiro entesourado de superávits comerciais abrirem as burras, a tendência é de uma retração ainda maior do crédito com impacto negativo no consumo e no emprego. A fogueira que nessa crise queima o capital fictício, principalmente nos EUA, tem acarretado deflação de ativos reais e financeiros por um lado, e inflação dos produtos de consumo por outro, desvalorizando o dólar e esvaziando o bolso do consumidor numa velocidade maior do que os mecanismos monetários de contenção de crise podem repor. Esses mecanismos que se resumem na distribuição de dinheiro, mesmo sem substância, para que o ávido consumidor vá às compras, tende acentuar a inflação e pode não o levar a consumir. Desconfiado e endividado, pode utilizar esse dinheiro para saldar dívidas ou até mesmo entesourar em aplicações aparentemente seguras se sua percepção é de que vai necessitar desses recursos para atravessar os tempos difíceis que se anunciam.
Portanto, o capital financeiro, tão duramente surrado por setores da esquerda e grupos ditos nacionalistas alinhados muitas vezes a tendências anti-semitas, com a crise da economia real a partir dos anos 80, tornou-se instrumento de “alavancagem” na produção de mercadorias que inundam o mundo e aprofunda a crise ecológica, mesmo sendo sua origem suspeita e fictícia. A crise aparentemente conjuntural e financeira é um agravamento da crise estrutural do capitalismo que se não conseguir gerar novas bolhas para mais uma vez adiar um desfecho dramático, pode entrar num processo de regressão sem precedente. A emancipação e a superação da sociedade da mercadoria, uma possibilidade maior hoje pelos conhecimentos acumulados e pelos meios técnicos que dispõe a sociedade, não é garantida. Por enquanto o que se prenuncia é uma luta fratricida dos “sujeitos automáticos” pelo espólio do Estado burguês e por qualquer coisa que prometa ser transformada em dinheiro, como mostram as guerras de extermínio dos bandos armados em algumas regiões do mundo já colapsadas, acentuando a violência e a barbárie que devem ser denunciadas com determinação.
04.02.2008
(1) Rall, “O circuito asiático da economia mundial” (Rumores da crise, 2005).
(2) Rall, “O Brasil está imune a crise?” (Rumores da crise, 2007)
quinta-feira, novembro 22, 2007
O Império dos Sonhos e o capitalismo de ficção
Rall
Quem não assistiu na mostra Inlad Empire (Império dos Sonhos) de David Lynch corra aos cinemas quando entrar em circuito comercial. Muitos vão ter vontade de sair no meio da sessão ou vão agüentar firme três horas de projeção como se estivesse olhando a vida através de um espelho com lentes de aumento. Fantasia e realidade fundem-se num todo de contornos indefinidos, sem dar direito ao espectador um fio condutor que lhe permita sair do labirinto em que se meteu ao espiar a imagem espelhada de um mundo esquizofrênico.
David Lynch talvez não saiba, mas parodia, entre tantas coisas, as agruras da vida econômica, onde a ficção vira de pernas pro ar a realidade e resolve ela mesma ser o real. Não é à toa que só se fala num mercado que compra papéis, gera novos papéis e vende papéis, num galopante movimento circular de criação de “riqueza fictícia”, uma abstração da abstração.
Quando a economia real é mencionada, parece uma tentativa de se restabelecer a convicção de que alguma coisa palpável ainda existe. Mas, mesmo quando o produto não é papel, ou um arremedo contábil que nada representa, o valor-de-uso, enquanto veículo do valor-de-troca, não tem nenhum valor enquanto objeto sensível se não for capaz de se transformar em riqueza abstrata no mundo das mercadorias.
Na atual sociedade capitalista a utilidade dos objetos já não conta mais ou conta muito pouco, inclusive o trabalho enquanto mercadoria especial capaz de produzir mais-valor. Resulta daí uma engrenagem movida por sujeitos “automáticos” que se por um lado avança destruindo rapidamente a natureza, por outro já não separa mais o lixo tóxico de produtos consumíveis. Tudo pode, não importa quantos morram e quanto de veneno será jogado no meio, desde que o produto final seja uma mercadoria que pintada pela propaganda e marketing com cores para todos os gostos, disfarça seu desejo mórbido ao abraçar o encantado consumidor, transformando-se em dinheiro.
As coisas tornam-se mais absurdas nos mercados de papéis. Uma transação que se iniciou com um ativo-objeto, por exemplo, o financiamento de uma casa que gerou uma hipoteca, pode “derivar” dessa transação uma série de “produtos” financeiros numa infindável cadeia de geração de dinheiro fictício sem nenhum controle, que só se sabe onde se iniciou, mas não onde termina. No pouco tempo em que a economia global opera com derivativos, o dinheiro fictício aí produzido já corresponde a oito vezes o valor do PIB mundial.
Se considerarmos as outras operações nas bolsas de valores, de mercadoria e futuro, no comércio internacional, na especulação imobiliária, nas mais variadas operações de crédito, nas dívidas públicas e privadas onde a cada instante geram-se milhões em dinheiro fictício, é impossível calcular o montante dessa “riqueza” sem substância. Uma aproximada avaliação só acontece, quando nas grandes crises, violentas contrações dessa aparente riqueza expõem a materialidade da economia real que ela esconde. Daí a dificuldade de se avaliar o tamanho da crise imobiliária americana, e seu impacto ao redor do mundo, enquanto todo processo não se completa.
Os problemas que se avolumam, a perplexidade das autoridades financeiras e dos analistas de plantão mostram que a crise só começou, e que os bilhões de dólares (fala-se em aproximadamente um trilhão) posto pelos bancos centrais dos países “desenvolvidos” no mercado para salvar grandes empresas financeiras do colapso, não mudam o curso, no máximo retarda do desfecho final. A tênue linha divisória entre a realidade sensível e a “abstração real” (Marx) do mundo das mercadorias, que se apaga no filme de David Lynch e nos processos sociais fetichisados, pode, nesses momentos, se vislumbrada, renovar a esperança de que a realidade esquizofrênica que nos domina e violenta possa ser superada.
22.11.2007
Quem não assistiu na mostra Inlad Empire (Império dos Sonhos) de David Lynch corra aos cinemas quando entrar em circuito comercial. Muitos vão ter vontade de sair no meio da sessão ou vão agüentar firme três horas de projeção como se estivesse olhando a vida através de um espelho com lentes de aumento. Fantasia e realidade fundem-se num todo de contornos indefinidos, sem dar direito ao espectador um fio condutor que lhe permita sair do labirinto em que se meteu ao espiar a imagem espelhada de um mundo esquizofrênico.
David Lynch talvez não saiba, mas parodia, entre tantas coisas, as agruras da vida econômica, onde a ficção vira de pernas pro ar a realidade e resolve ela mesma ser o real. Não é à toa que só se fala num mercado que compra papéis, gera novos papéis e vende papéis, num galopante movimento circular de criação de “riqueza fictícia”, uma abstração da abstração.
Quando a economia real é mencionada, parece uma tentativa de se restabelecer a convicção de que alguma coisa palpável ainda existe. Mas, mesmo quando o produto não é papel, ou um arremedo contábil que nada representa, o valor-de-uso, enquanto veículo do valor-de-troca, não tem nenhum valor enquanto objeto sensível se não for capaz de se transformar em riqueza abstrata no mundo das mercadorias.
Na atual sociedade capitalista a utilidade dos objetos já não conta mais ou conta muito pouco, inclusive o trabalho enquanto mercadoria especial capaz de produzir mais-valor. Resulta daí uma engrenagem movida por sujeitos “automáticos” que se por um lado avança destruindo rapidamente a natureza, por outro já não separa mais o lixo tóxico de produtos consumíveis. Tudo pode, não importa quantos morram e quanto de veneno será jogado no meio, desde que o produto final seja uma mercadoria que pintada pela propaganda e marketing com cores para todos os gostos, disfarça seu desejo mórbido ao abraçar o encantado consumidor, transformando-se em dinheiro.
As coisas tornam-se mais absurdas nos mercados de papéis. Uma transação que se iniciou com um ativo-objeto, por exemplo, o financiamento de uma casa que gerou uma hipoteca, pode “derivar” dessa transação uma série de “produtos” financeiros numa infindável cadeia de geração de dinheiro fictício sem nenhum controle, que só se sabe onde se iniciou, mas não onde termina. No pouco tempo em que a economia global opera com derivativos, o dinheiro fictício aí produzido já corresponde a oito vezes o valor do PIB mundial.
Se considerarmos as outras operações nas bolsas de valores, de mercadoria e futuro, no comércio internacional, na especulação imobiliária, nas mais variadas operações de crédito, nas dívidas públicas e privadas onde a cada instante geram-se milhões em dinheiro fictício, é impossível calcular o montante dessa “riqueza” sem substância. Uma aproximada avaliação só acontece, quando nas grandes crises, violentas contrações dessa aparente riqueza expõem a materialidade da economia real que ela esconde. Daí a dificuldade de se avaliar o tamanho da crise imobiliária americana, e seu impacto ao redor do mundo, enquanto todo processo não se completa.
Os problemas que se avolumam, a perplexidade das autoridades financeiras e dos analistas de plantão mostram que a crise só começou, e que os bilhões de dólares (fala-se em aproximadamente um trilhão) posto pelos bancos centrais dos países “desenvolvidos” no mercado para salvar grandes empresas financeiras do colapso, não mudam o curso, no máximo retarda do desfecho final. A tênue linha divisória entre a realidade sensível e a “abstração real” (Marx) do mundo das mercadorias, que se apaga no filme de David Lynch e nos processos sociais fetichisados, pode, nesses momentos, se vislumbrada, renovar a esperança de que a realidade esquizofrênica que nos domina e violenta possa ser superada.
22.11.2007
domingo, novembro 04, 2007
O leite mijo de vaca e a lógica do capital
Rall
Já não basta aumentar o volume de leite com água contaminada como se sabia. Para não azedar rápido, a fórmula do químico consultor de grupos multinacionais inclusive, exige soda cáustica e água oxigenada. Acrescenta-se ainda a branca natureza do precioso líquido soro cultura-de-bactéria, refugo da produção de queijos, e mijo de vaca para realçar o sabor. Eis o leite oferecido pelo mercado em fina sintonia com refinados paladares.
As ridículas declarações da ANVISA (agência reguladora da vigilância sanitária), de que soda cáustica e água oxigenada quando ingeridas no leite não prejudica a saúde, dirigidas para amainar o escândalo e acalmar os consumidores, satisfazem a devida mistura dos interesses econômicos. Mistura que é só a ponta do iceberg da lógica absurda da sociedade capitalista, que pouco importa o que se produz e como se produz, desde que produto final seja uma mercadoria.
Que diferença faz se um país vende armas que alimenta a criminalidade e as guerras fratricidas ou vende produtos orgânicos com selos verdes acenando para o consumidor? Ambos são mercadorias que nas transações permutam-se e no final garantem um acréscimo, um lucro, ou seja, a “valorização do valor” como afirmava Marx. Por isso as empresas de um mesmo país que vendem produtos orgânicos porque tem um mercado à espera, vendem também armas para os extermínios e disseminação da violência com a certeza de que estão fazendo um grande negócio.
A fórmula simples de Marx, D-M-D’ (dinheiro-mercadoria-mais dinheiro), expressa a essência da sociedade capitalista: fazer dinheiro, não importa se os meios para atingir esse fim possam levar a morte de pessoas e a destruição do planeta. É claro que a pressão social faz com que o impulso de fazer dinheiro seja mais liberado ou mais contido nas sociedades produtoras de mercadorias. Mas está aí, presente nas relações sociais. O “espírito animal” (coitado dos bichos), como assim define um certo ministro a louca corrida pelo dinheiro imanente ao capitalismo, invade e domina a todos.
O impulso destrutivo, que se aloja nos mais recônditos do inconsciente na socialização dos sujeitos e move o ser rentável em sua missão terrena, é fruto de relações sociais reais fetichizadas que dominam os homens e só permitem que estes se movam automaticamente dentro das fronteiras pré-estabelecidas pela lógica do capital. Manifesta toda sua potência nos momentos de crise, quando se acentua a concorrência e o sistema torna-se mais irracional, produzindo alimentos que matam, brinquedos que envenenam crianças, remédios que não curam e todo tipo de violência de grupos e institucional.
Os gritos de guerra do nazismo, “pátria ou morte”, ou do capitalismo de Estado que pode ser tão brutal quanto o laissez-faire, “socialismo ou morte”, são ecos de ruídos produzidos por aqueles que com gosto de sangue na boca e sede de poder, movimentam-se nos limites que lhes impõem o capital. É preciso pensar para além da sociedade produtora de mercadorias para sair da crise.
04.11.2007
Já não basta aumentar o volume de leite com água contaminada como se sabia. Para não azedar rápido, a fórmula do químico consultor de grupos multinacionais inclusive, exige soda cáustica e água oxigenada. Acrescenta-se ainda a branca natureza do precioso líquido soro cultura-de-bactéria, refugo da produção de queijos, e mijo de vaca para realçar o sabor. Eis o leite oferecido pelo mercado em fina sintonia com refinados paladares.
As ridículas declarações da ANVISA (agência reguladora da vigilância sanitária), de que soda cáustica e água oxigenada quando ingeridas no leite não prejudica a saúde, dirigidas para amainar o escândalo e acalmar os consumidores, satisfazem a devida mistura dos interesses econômicos. Mistura que é só a ponta do iceberg da lógica absurda da sociedade capitalista, que pouco importa o que se produz e como se produz, desde que produto final seja uma mercadoria.
Que diferença faz se um país vende armas que alimenta a criminalidade e as guerras fratricidas ou vende produtos orgânicos com selos verdes acenando para o consumidor? Ambos são mercadorias que nas transações permutam-se e no final garantem um acréscimo, um lucro, ou seja, a “valorização do valor” como afirmava Marx. Por isso as empresas de um mesmo país que vendem produtos orgânicos porque tem um mercado à espera, vendem também armas para os extermínios e disseminação da violência com a certeza de que estão fazendo um grande negócio.
A fórmula simples de Marx, D-M-D’ (dinheiro-mercadoria-mais dinheiro), expressa a essência da sociedade capitalista: fazer dinheiro, não importa se os meios para atingir esse fim possam levar a morte de pessoas e a destruição do planeta. É claro que a pressão social faz com que o impulso de fazer dinheiro seja mais liberado ou mais contido nas sociedades produtoras de mercadorias. Mas está aí, presente nas relações sociais. O “espírito animal” (coitado dos bichos), como assim define um certo ministro a louca corrida pelo dinheiro imanente ao capitalismo, invade e domina a todos.
O impulso destrutivo, que se aloja nos mais recônditos do inconsciente na socialização dos sujeitos e move o ser rentável em sua missão terrena, é fruto de relações sociais reais fetichizadas que dominam os homens e só permitem que estes se movam automaticamente dentro das fronteiras pré-estabelecidas pela lógica do capital. Manifesta toda sua potência nos momentos de crise, quando se acentua a concorrência e o sistema torna-se mais irracional, produzindo alimentos que matam, brinquedos que envenenam crianças, remédios que não curam e todo tipo de violência de grupos e institucional.
Os gritos de guerra do nazismo, “pátria ou morte”, ou do capitalismo de Estado que pode ser tão brutal quanto o laissez-faire, “socialismo ou morte”, são ecos de ruídos produzidos por aqueles que com gosto de sangue na boca e sede de poder, movimentam-se nos limites que lhes impõem o capital. É preciso pensar para além da sociedade produtora de mercadorias para sair da crise.
04.11.2007
sexta-feira, setembro 28, 2007
A falência da política e o mito do homem público
Rall
Num certo dia, nas minhas poucas relações com a televisão, entrei num desses canais pagos e me deparei com uma entrevista do ex-Ministro da Cultura de Jacques Chirac (se não me falha a memória Jean-Jacques Aillagon), que sinceramente dizia que noventa e nove por cento de sua atividade à frente do Ministério da Cultura da França era dedicada a relações públicas e um por cento a algum tipo de realização. Afirmara ainda que isso não era diferente nos outros Ministérios, e que a grande preocupação de seus assessores era com a entrevista marcada para tal jornal ou revista, com a visita programada a alguma instituição e a abertura de um determinado evento. Acreditava ser mais útil aos franceses escrevendo livros. Talvez não soubesse, mas estava ele revelando, de forma espontânea, a falta de respostas da política para questões atuais. E se olhado com uma lupa, esse um por cento da “capacidade empreendedora” de seu ministério não passa de adaptações às exigências do capital.
A fala do referido ministro lembrou-me as funções das agências reguladoras e para quem “regulam” o mercado. As exigências das empresas de criação dessas agências, autônomas em relação ao Estado, para que possam investir com segurança, mostra a serviço de quem são constituídas. O recente acidente da TAM e os escândalos que se seguiram denunciando a estreita colaboração entre os diretores dessa agência e os interesses das empresas de aviação, pondo em risco a vida dos passageiros pelo que se deduz do vasto noticiário, é só a ponta do iceberg dessa intricada relação. Quando analisamos a conduta de outras agências veremos que essa é a norma. Não é necessário ir muito longe, basta analisar aquela que é responsável por um dos custos que mais severamente atinge o bolso de vastas camadas da população e que quando mais precisa é expulsa do sistema pelos preços das mensalidades: a agência que regula os planos de saúde. Veremos que elas estão aí para arbitrar a favor do capital nas incertezas do mercado, sem ouvido para consumidores angustiados que não tem com quem reclamar.
A atuação dos órgãos reguladores criados pelo Estado e a defesa que deles fazem os representantes do capital, com ameaças de não investir na ausência de “marcos regulatórios” que garantam bons retornos e pouco riscos, mostra a impossibilidade de se separar as políticas públicas do interesses privados, apesar dos discursos contrários e da gradação encontrada nos países de diferentes culturas. É daí, da incapacidade de se definir fronteiras entre o público e o privado, que aflora a corrupção crônica atingindo todos segmentos e que se intensifica na medida em que separação formal entre o capital e o Estado tende a se dissipar, mostrando-se, capital e Estado, como faces de uma mesma moeda. O homem público burguês é cada vez mais privado nas suas ações, evidenciado-se seus interesses particulares. Se a nível material essa separação nunca existiu na sociedade burguesa, também no nível formal já não é mais possível manter as aparências, jogando por terra o mito do homem público e a impossibilidade de uma ética na política. Torna-se, portanto, vazio o discurso aparentemente moralista da grande imprensa e de políticos da oposição contra os seus pares, já que todos se movem impulsionados por uma mesma lógica.
A sucessão de casos de corrupção, cada vez mais difícil de serem contidos por regras morais abstratas, se aumenta o niilismo na sociedade, deixa os meios de comunicação furiosos ao verem a imagem forjada dos políticos “honestos” e das instituições que representam se desfazer a cada escândalo como bolhas de sabão em um dia ensolarado. É preciso manter as aparências, da qual faz parte o espetáculo midiático, de que a política ainda funciona, como é preciso que a economia de bolhas mantenha-se inflada, com o dinheiro vazio de substância multiplicando-se sem controle, abençoado pelos setores regulatórios, aparentando que tudo vai muito bem com a acumulação do capital. Os níveis de corrupção que atingem o Estado e as corporações privadas em todo mundo caminham de mãos dadas nas sombrias vielas onde se forja o capital fictício. É impossível, a despeito do desejo de alguns, separar uma coisa da outra, pois ambas são facetas de um mesmo engodo real sobre o qual não se tem controle.
28.09.2007
Num certo dia, nas minhas poucas relações com a televisão, entrei num desses canais pagos e me deparei com uma entrevista do ex-Ministro da Cultura de Jacques Chirac (se não me falha a memória Jean-Jacques Aillagon), que sinceramente dizia que noventa e nove por cento de sua atividade à frente do Ministério da Cultura da França era dedicada a relações públicas e um por cento a algum tipo de realização. Afirmara ainda que isso não era diferente nos outros Ministérios, e que a grande preocupação de seus assessores era com a entrevista marcada para tal jornal ou revista, com a visita programada a alguma instituição e a abertura de um determinado evento. Acreditava ser mais útil aos franceses escrevendo livros. Talvez não soubesse, mas estava ele revelando, de forma espontânea, a falta de respostas da política para questões atuais. E se olhado com uma lupa, esse um por cento da “capacidade empreendedora” de seu ministério não passa de adaptações às exigências do capital.
A fala do referido ministro lembrou-me as funções das agências reguladoras e para quem “regulam” o mercado. As exigências das empresas de criação dessas agências, autônomas em relação ao Estado, para que possam investir com segurança, mostra a serviço de quem são constituídas. O recente acidente da TAM e os escândalos que se seguiram denunciando a estreita colaboração entre os diretores dessa agência e os interesses das empresas de aviação, pondo em risco a vida dos passageiros pelo que se deduz do vasto noticiário, é só a ponta do iceberg dessa intricada relação. Quando analisamos a conduta de outras agências veremos que essa é a norma. Não é necessário ir muito longe, basta analisar aquela que é responsável por um dos custos que mais severamente atinge o bolso de vastas camadas da população e que quando mais precisa é expulsa do sistema pelos preços das mensalidades: a agência que regula os planos de saúde. Veremos que elas estão aí para arbitrar a favor do capital nas incertezas do mercado, sem ouvido para consumidores angustiados que não tem com quem reclamar.
A atuação dos órgãos reguladores criados pelo Estado e a defesa que deles fazem os representantes do capital, com ameaças de não investir na ausência de “marcos regulatórios” que garantam bons retornos e pouco riscos, mostra a impossibilidade de se separar as políticas públicas do interesses privados, apesar dos discursos contrários e da gradação encontrada nos países de diferentes culturas. É daí, da incapacidade de se definir fronteiras entre o público e o privado, que aflora a corrupção crônica atingindo todos segmentos e que se intensifica na medida em que separação formal entre o capital e o Estado tende a se dissipar, mostrando-se, capital e Estado, como faces de uma mesma moeda. O homem público burguês é cada vez mais privado nas suas ações, evidenciado-se seus interesses particulares. Se a nível material essa separação nunca existiu na sociedade burguesa, também no nível formal já não é mais possível manter as aparências, jogando por terra o mito do homem público e a impossibilidade de uma ética na política. Torna-se, portanto, vazio o discurso aparentemente moralista da grande imprensa e de políticos da oposição contra os seus pares, já que todos se movem impulsionados por uma mesma lógica.
A sucessão de casos de corrupção, cada vez mais difícil de serem contidos por regras morais abstratas, se aumenta o niilismo na sociedade, deixa os meios de comunicação furiosos ao verem a imagem forjada dos políticos “honestos” e das instituições que representam se desfazer a cada escândalo como bolhas de sabão em um dia ensolarado. É preciso manter as aparências, da qual faz parte o espetáculo midiático, de que a política ainda funciona, como é preciso que a economia de bolhas mantenha-se inflada, com o dinheiro vazio de substância multiplicando-se sem controle, abençoado pelos setores regulatórios, aparentando que tudo vai muito bem com a acumulação do capital. Os níveis de corrupção que atingem o Estado e as corporações privadas em todo mundo caminham de mãos dadas nas sombrias vielas onde se forja o capital fictício. É impossível, a despeito do desejo de alguns, separar uma coisa da outra, pois ambas são facetas de um mesmo engodo real sobre o qual não se tem controle.
28.09.2007
domingo, setembro 09, 2007
O Brasil está imune à crise?
Rall
O Governo tem se esforçado na busca de convencer os mercados, que estamos imunes à crise que se iniciou no setor imobiliário americano e se alastra para economia mundial, através da fala de seus ministros e do próprio Presidente Lula. Seria verdade se vivêssemos numa redoma, com uma economia isolada e auto-suficiente, estruturada à Robinson Crusoé, sem tomar conhecimento do mundo exterior. Mas essa não é a realidade, estamos mais inseridos (e só assim podemos sobreviver como país capitalista) a economia mundial do que expressa a fala das autoridades. Hoje, o espirro americano, a diarréia asiática ou a cefaléia da zona do euro, atingem os mais recônditos países, por insignificante que sejam, pois as doenças são sistêmicas numa economia globalizada, já não se autolimitam, mesmo que sejam na ponta do pé de algumas dessas regiões.
O discurso de que uma recessão nos EEUU, epicentro dos atuais abalos, não atingiria o restante do mundo, muita vezes defendido também por analistas da grande mídia, ou é hipócrita na busca de acalmar o mercado financeiro dando tempo para o reposicionamento de grupos, ou não se estar entendendo a seriedade do momento. Fala-se da China e de outros países em desenvolvimento, inclusive do Brasil, como contraponto à recessão mundial. Ora, talvez seja a China o país que mais sinta com a redução da atividade econômica americana. Vale lembrar que o grosso da produção chinesa para exportação destina-se a esse mercado. Os países asiáticos, com a China e o Japão à frente, formam o maior circuito deficitário de todos os tempos nas relações comerciais com os EEUU, tendo este como sorvedouro das mercadorias aí produzidas.
A contração das atividades econômicas provavelmente reduzirá as importações para USA e deve pressionar no sentido de reequilibrar a balança comercial deficitária, principalmente nos negócios com a China. Isso pode atingir em cheio a produção desse país, que não tem condições de ser absorvida pelo mercado interno ou pela ampliação do mercado com outras nações. A inibição das atividades econômicas na América e na China é o suficiente para impactar negativamente nos preços e nas exportações das commodities, com exceção talvez do petróleo pela escassez do produto e por se encontrar sua extração em zonas de conflitos. Mas não fica por aí: na crise sistêmica, Europa e demais países asiáticos serão atingidos, agravando mais ainda a situação dos exportadores de matéria prima ou de produtos semi-acabados como o Brasil.
Mesmo sem a crise mostrar toda sua força destrutiva, contornada provisoriamente pelas medidas tomadas pelos bancos centrais do mundo rico que injetam todos os dias bilhões de dólares para garantir liquidez, a volatilidade das bolsas com tendência de queda já dificulta os projetos de ampliação da produção de empresas que viam aí a forma adequada de captar recursos para novos investimentos no Brasil. Se considerarmos a probabilidade de numa economia globalizada os bancos nacionais ou os que aqui atuam, por mais que neguem, dificilmente deixarão de ter em suas carteiras derivativos lastreados em papeis da indústria imobiliária da América do Norte, a expansão do crédito que vem ajudando a sustentar o consumo interno pode sofrer um revés. Os sinais de uma possível freada na queda das taxas de juros e a pressão de alguns grandes bancos nacionais nesse sentido podem ser um indicativo das dificuldades que estão por vir.
Uma redução das transações comerciais no circuito deficitário asiático significa um aumento da competitividade internacional com queda nos preços das mercadorias. O Brasil, além do risco de redução das exportações de commodities que sustentam o saldo da balança comercial, vai ter quer lidar no mercado interno e externo com a invasão de mercadorias vindas da China e da Índia principalmente, que não encontrando destino nos tradicionais mercados importadores tomarão outros rumos. Com a produtividade em queda quando comparado com outros países, dificilmente setores da indústria tupiniquim suportarão mais esse embate. Pode-se estar pensando num rearranjo do câmbio, desvalorizando o real. Num primeiro momento, com a fuga de capitais de curto prazo isso é verdadeiro. Não esqueçamos, porém, que a trajetória de queda do dólar em relação às outras moedas que vem acontecendo em função dos desajustes na balança comercial americana, tende a acelerar se houver um aprofundamento da crise, restabelecendo a valorização do real.
Esse momento deve abrir espaço para atuação mais agressiva dos fundos "soberanos", com aquisições hostis ou não de ações de empresas em dificuldades financeiras. Os fundos private equity e os hedge funds como estão intimamente ligados ao sistema bancário e ao crédito farto e barato, podem ter problemas a curto prazo. Não é à toa que o mercado de fusões e aquisições de firmas, bancado pelos private equitys, que vinha motivando as altas nas bolsas em todo mundo, encontra-se praticamente parado. Quanto aos fundos “soberanos”, na verdade fundos estatais de países superavitários, carregados com trilhões de dólares, encontram-se prontos para aportar onde for possível qualquer rentabilidade ou em áreas estratégicas da economia mundial.
A resistência dos governos dos países capitalistas avançados aos fundos “soberanos”, com medo que por trás existam estratégias de dominação das riquezas do globo, só vai até o primeiro ato. Se as empresas ocidentais pedirem água, as portas abrem-se para os intrusos regata-las, mesmo sabendo-se dos riscos futuros. Talvez esteja aí germinando a nova bolha da salvação tão procurada para animar a ficção econômica, já que “não há muito a fazer contra a propensão humana a criar bolhas”, como diz Greenspan ex-presidente do FED. Para homens do mercado seria mais correto dizer que não há muito a fazer senão rezar para que novas bolhas ventilem o corpo insepulto de uma economia que não mais valoriza o valor.
09.09.2007
O Governo tem se esforçado na busca de convencer os mercados, que estamos imunes à crise que se iniciou no setor imobiliário americano e se alastra para economia mundial, através da fala de seus ministros e do próprio Presidente Lula. Seria verdade se vivêssemos numa redoma, com uma economia isolada e auto-suficiente, estruturada à Robinson Crusoé, sem tomar conhecimento do mundo exterior. Mas essa não é a realidade, estamos mais inseridos (e só assim podemos sobreviver como país capitalista) a economia mundial do que expressa a fala das autoridades. Hoje, o espirro americano, a diarréia asiática ou a cefaléia da zona do euro, atingem os mais recônditos países, por insignificante que sejam, pois as doenças são sistêmicas numa economia globalizada, já não se autolimitam, mesmo que sejam na ponta do pé de algumas dessas regiões.
O discurso de que uma recessão nos EEUU, epicentro dos atuais abalos, não atingiria o restante do mundo, muita vezes defendido também por analistas da grande mídia, ou é hipócrita na busca de acalmar o mercado financeiro dando tempo para o reposicionamento de grupos, ou não se estar entendendo a seriedade do momento. Fala-se da China e de outros países em desenvolvimento, inclusive do Brasil, como contraponto à recessão mundial. Ora, talvez seja a China o país que mais sinta com a redução da atividade econômica americana. Vale lembrar que o grosso da produção chinesa para exportação destina-se a esse mercado. Os países asiáticos, com a China e o Japão à frente, formam o maior circuito deficitário de todos os tempos nas relações comerciais com os EEUU, tendo este como sorvedouro das mercadorias aí produzidas.
A contração das atividades econômicas provavelmente reduzirá as importações para USA e deve pressionar no sentido de reequilibrar a balança comercial deficitária, principalmente nos negócios com a China. Isso pode atingir em cheio a produção desse país, que não tem condições de ser absorvida pelo mercado interno ou pela ampliação do mercado com outras nações. A inibição das atividades econômicas na América e na China é o suficiente para impactar negativamente nos preços e nas exportações das commodities, com exceção talvez do petróleo pela escassez do produto e por se encontrar sua extração em zonas de conflitos. Mas não fica por aí: na crise sistêmica, Europa e demais países asiáticos serão atingidos, agravando mais ainda a situação dos exportadores de matéria prima ou de produtos semi-acabados como o Brasil.
Mesmo sem a crise mostrar toda sua força destrutiva, contornada provisoriamente pelas medidas tomadas pelos bancos centrais do mundo rico que injetam todos os dias bilhões de dólares para garantir liquidez, a volatilidade das bolsas com tendência de queda já dificulta os projetos de ampliação da produção de empresas que viam aí a forma adequada de captar recursos para novos investimentos no Brasil. Se considerarmos a probabilidade de numa economia globalizada os bancos nacionais ou os que aqui atuam, por mais que neguem, dificilmente deixarão de ter em suas carteiras derivativos lastreados em papeis da indústria imobiliária da América do Norte, a expansão do crédito que vem ajudando a sustentar o consumo interno pode sofrer um revés. Os sinais de uma possível freada na queda das taxas de juros e a pressão de alguns grandes bancos nacionais nesse sentido podem ser um indicativo das dificuldades que estão por vir.
Uma redução das transações comerciais no circuito deficitário asiático significa um aumento da competitividade internacional com queda nos preços das mercadorias. O Brasil, além do risco de redução das exportações de commodities que sustentam o saldo da balança comercial, vai ter quer lidar no mercado interno e externo com a invasão de mercadorias vindas da China e da Índia principalmente, que não encontrando destino nos tradicionais mercados importadores tomarão outros rumos. Com a produtividade em queda quando comparado com outros países, dificilmente setores da indústria tupiniquim suportarão mais esse embate. Pode-se estar pensando num rearranjo do câmbio, desvalorizando o real. Num primeiro momento, com a fuga de capitais de curto prazo isso é verdadeiro. Não esqueçamos, porém, que a trajetória de queda do dólar em relação às outras moedas que vem acontecendo em função dos desajustes na balança comercial americana, tende a acelerar se houver um aprofundamento da crise, restabelecendo a valorização do real.
Esse momento deve abrir espaço para atuação mais agressiva dos fundos "soberanos", com aquisições hostis ou não de ações de empresas em dificuldades financeiras. Os fundos private equity e os hedge funds como estão intimamente ligados ao sistema bancário e ao crédito farto e barato, podem ter problemas a curto prazo. Não é à toa que o mercado de fusões e aquisições de firmas, bancado pelos private equitys, que vinha motivando as altas nas bolsas em todo mundo, encontra-se praticamente parado. Quanto aos fundos “soberanos”, na verdade fundos estatais de países superavitários, carregados com trilhões de dólares, encontram-se prontos para aportar onde for possível qualquer rentabilidade ou em áreas estratégicas da economia mundial.
A resistência dos governos dos países capitalistas avançados aos fundos “soberanos”, com medo que por trás existam estratégias de dominação das riquezas do globo, só vai até o primeiro ato. Se as empresas ocidentais pedirem água, as portas abrem-se para os intrusos regata-las, mesmo sabendo-se dos riscos futuros. Talvez esteja aí germinando a nova bolha da salvação tão procurada para animar a ficção econômica, já que “não há muito a fazer contra a propensão humana a criar bolhas”, como diz Greenspan ex-presidente do FED. Para homens do mercado seria mais correto dizer que não há muito a fazer senão rezar para que novas bolhas ventilem o corpo insepulto de uma economia que não mais valoriza o valor.
09.09.2007
quinta-feira, agosto 16, 2007
PROCURA-SE UMA NOVA BOLHA
Rall
A crise do mercado imobiliário americano tem sido a notícia da vez na grande imprensa. Há um ar de surpresa nos analistas e ao mesmo tempo tentam transmitir a confiança de que tudo não passa de um rearranjo do setor financeiro sem grandes conseqüências para a economia real. Alguns chegam a defender como salutar tal freada, ‘uma forma de pôr a casa em ordem’ dizem, como se nada existisse no ‘ar além dos aviões de carreira’.
Para falar da crise atual temos que voltar um pouco no tempo, nos finais dos anos noventa e início do século XXI, quando estourou a bolha ponto.com, após a economia mundial ter amargado dois grandes tombos com a queda nas bolsas do Japão (1980) e do leste asiático (meados dos anos 90). As ações das empresas de informática e similares aumentavam de preço a cada pregão e arrastavam consigo a economia americana que crescia com parte do mundo. Falava-se em novo paradigma, artigos eram escritos e opiniões emitidas pelas mais respeitadas agencias de risco mostrando que esse impulso da economia tinha fundamentos sólidos e poucos eram os riscos. Sufocadas pelo otimismo geral, vozes isoladas alertavam que mais uma bolha financeiro estava preste a estourar. E estourou.
A economia americana entrou em recessão levando junto as demais. O FED e o Governo agiram rápido, inundando o mercado de dinheiro com cortes de impostos e juros quase negativos e foram ajudados pela intensificação na compra de papeis do tesouro dos EEUU pelos países superavitários do circuito deficitário asiático, principalmente China e Japão, que precisavam desse mercado para seus produtos. Em 2000, com dinheiro farto e barato, ganhou grande impulso a bolha do mercado imobiliário, que vinha se desenvolvendo desde o início dos anos noventa. Novamente a economia real pega uma carona na expansão jamais vista do capital fictício e ganha fôlego. A cada ano os indicadores econômicos mostram que novos países se acoplam ao bonde do crescimento fazendo a alegria geral. A China, e um pouco menos a Índia, são festejadas como os grandes baluartes da história, como os novos grandes consumidores das riquezas naturais do globo e agravantes da crise ecológica. O Brasil entra mais tardiamente, quando os obstáculos capazes de levar a uma freada brusca já eram visíveis.
Timidamente, instituições internacionais começam chamar atenção para algumas situações incômodas. Calcula-se que os derivativos, “operações financeiras cujo valor de negociação deriva de outros ativos, denominados de ativos-objeto”(P. Sandroni), beira a casa dos 400 trilhões enquanto o PIB mundial está em torno de 50 trilhões de dólares. E um desses ativos-objeto mais negociados no mundo são as hipotecas das casas dos cidadãos americanos, que são jogadas em fundos milagrosos, cujas cotas são oferecidas a outros cidadãos ávidos por lucro, em uma cadeia sem fim que socializa perdas e ganhos. Atentem que nesse tipo de operações (com derivativos) tem papéis diversos para comprar oito vezes as mercadorias do mundo, é o dinheiro reproduzindo-se sem contato com a produção.
Mas, como se faz tanto dinheiro desacoplado da acumulação real? Vale lembrar histórias recentes para um melhor entendimento. A bandeira do neoliberalismo, levantada nos anos oitenta, tinha como objetivo maior atacar os setores ‘improdutivos’, limpando ao máximo o trabalho não gerador de mais-valia nas empresas e no Estado, ou transformando o trabalho improdutivo necessário à acumulação do capital, em trabalho produtivo gerador de mais-valia através da terceirização. Iniciou-se aí um grande movimento de passar a terceiros setores inteiros que antes eram de responsabilidade do Estado, as famigeradas privatizações que ocorreram e ainda ocorrem no mundo inteiro. As empresas, seguindo a mesma política, passaram a entregar os serviços-meios, e logo em seguida outros setores a terceiros, que reduziram salários e aumentaram a carga horária dos funcionários terceirizados, restabelecendo a mais-valia absoluta como forma de se tornarem rentáveis.
O ataque neoliberal ao trabalho improdutivo, segundo a lógica do capital, não foi suficiente para reverter a queda da rentabilidade na economia real que tem como fundamento a crise do valor, situação que se agravava com a revolução da informática. Não só a expansão do trabalho improdutivo necessário ao desenvolvimento do capital punha em xeque a acumulação, mas as novas formas de produção e gestão, movidas pela concorrência global, que incorporam tecnologia e ciência, aumentam vertiginosamente o capital fixo e a produtividade, expulsando homens de antigos empregos. É a crise do trabalho agravando a crise do valor.
As exportações de capitais dos países desenvolvidos para países em desenvolvimento como a China, Índia e outros, em busca de uma maior rentabilidade, aumentaram a disponibilidade de mercadorias no mundo que precisam de um mercado para se realizarem. É quando o crédito se expande de forma jamais vista e o pagamento dos produtos adquiridos no mercado é transferido para um trabalho futuro que nunca acontecerá, pois a tendência do capitalismo é racionalizar e dispensar trabalho de forma crescente. Aí está a base das bolhas, que injetam dinheiro fictício no mercado e na produção (fictício por ser vazio de substância, não representar valor, trabalho abstrato), e aprisiona a economia real aos seus movimentos já que esta não consegue por ‘meios normais’, ‘valorizar o valor’(Marx).
Portanto, quanto mais se agrava a crise do valor mais necessita a economia real de capital fictício para manter a ilusão de que ainda funciona. As bolhas inflam, todavia logo desabam sob a pesada realidade, deixando expostos os frágeis fundamentos de uma economia que só respira nesse invólucro. Diferentemente da crise do mercado de ações das empresas ponto.com, parece que o estouro da bolha imobiliária tende atingir todos os setores da economia, inclusive as bolsas, numa reação em cadeia de explosão de bolhas e contração do capital fictício que pode levar o mundo a uma recessão sem precedente.
Mesmo com a injeção no mercado de bilhões de dólares pelos bancos centrais do Japão, Europa, Canadá e Estados Unidos, em uma ação coordenada para evitar a falência em massas de bancos, o que por si só já é uma prova da gravidade do problema, a instabilidade continua. A tentativa dos bancos centrais de substituir capital fictício que se evapora no mercado por capital fictício represados em seus cofres-fortes, buscando empurrar para frente o problema, mostra que não se vislumbra uma nova bolha em curto prazo para substituir as que estouram. Pode faltar o ar que aparenta oxigenar os tecidos mortos da economia real.
16.08.2007
A crise do mercado imobiliário americano tem sido a notícia da vez na grande imprensa. Há um ar de surpresa nos analistas e ao mesmo tempo tentam transmitir a confiança de que tudo não passa de um rearranjo do setor financeiro sem grandes conseqüências para a economia real. Alguns chegam a defender como salutar tal freada, ‘uma forma de pôr a casa em ordem’ dizem, como se nada existisse no ‘ar além dos aviões de carreira’.
Para falar da crise atual temos que voltar um pouco no tempo, nos finais dos anos noventa e início do século XXI, quando estourou a bolha ponto.com, após a economia mundial ter amargado dois grandes tombos com a queda nas bolsas do Japão (1980) e do leste asiático (meados dos anos 90). As ações das empresas de informática e similares aumentavam de preço a cada pregão e arrastavam consigo a economia americana que crescia com parte do mundo. Falava-se em novo paradigma, artigos eram escritos e opiniões emitidas pelas mais respeitadas agencias de risco mostrando que esse impulso da economia tinha fundamentos sólidos e poucos eram os riscos. Sufocadas pelo otimismo geral, vozes isoladas alertavam que mais uma bolha financeiro estava preste a estourar. E estourou.
A economia americana entrou em recessão levando junto as demais. O FED e o Governo agiram rápido, inundando o mercado de dinheiro com cortes de impostos e juros quase negativos e foram ajudados pela intensificação na compra de papeis do tesouro dos EEUU pelos países superavitários do circuito deficitário asiático, principalmente China e Japão, que precisavam desse mercado para seus produtos. Em 2000, com dinheiro farto e barato, ganhou grande impulso a bolha do mercado imobiliário, que vinha se desenvolvendo desde o início dos anos noventa. Novamente a economia real pega uma carona na expansão jamais vista do capital fictício e ganha fôlego. A cada ano os indicadores econômicos mostram que novos países se acoplam ao bonde do crescimento fazendo a alegria geral. A China, e um pouco menos a Índia, são festejadas como os grandes baluartes da história, como os novos grandes consumidores das riquezas naturais do globo e agravantes da crise ecológica. O Brasil entra mais tardiamente, quando os obstáculos capazes de levar a uma freada brusca já eram visíveis.
Timidamente, instituições internacionais começam chamar atenção para algumas situações incômodas. Calcula-se que os derivativos, “operações financeiras cujo valor de negociação deriva de outros ativos, denominados de ativos-objeto”(P. Sandroni), beira a casa dos 400 trilhões enquanto o PIB mundial está em torno de 50 trilhões de dólares. E um desses ativos-objeto mais negociados no mundo são as hipotecas das casas dos cidadãos americanos, que são jogadas em fundos milagrosos, cujas cotas são oferecidas a outros cidadãos ávidos por lucro, em uma cadeia sem fim que socializa perdas e ganhos. Atentem que nesse tipo de operações (com derivativos) tem papéis diversos para comprar oito vezes as mercadorias do mundo, é o dinheiro reproduzindo-se sem contato com a produção.
Mas, como se faz tanto dinheiro desacoplado da acumulação real? Vale lembrar histórias recentes para um melhor entendimento. A bandeira do neoliberalismo, levantada nos anos oitenta, tinha como objetivo maior atacar os setores ‘improdutivos’, limpando ao máximo o trabalho não gerador de mais-valia nas empresas e no Estado, ou transformando o trabalho improdutivo necessário à acumulação do capital, em trabalho produtivo gerador de mais-valia através da terceirização. Iniciou-se aí um grande movimento de passar a terceiros setores inteiros que antes eram de responsabilidade do Estado, as famigeradas privatizações que ocorreram e ainda ocorrem no mundo inteiro. As empresas, seguindo a mesma política, passaram a entregar os serviços-meios, e logo em seguida outros setores a terceiros, que reduziram salários e aumentaram a carga horária dos funcionários terceirizados, restabelecendo a mais-valia absoluta como forma de se tornarem rentáveis.
O ataque neoliberal ao trabalho improdutivo, segundo a lógica do capital, não foi suficiente para reverter a queda da rentabilidade na economia real que tem como fundamento a crise do valor, situação que se agravava com a revolução da informática. Não só a expansão do trabalho improdutivo necessário ao desenvolvimento do capital punha em xeque a acumulação, mas as novas formas de produção e gestão, movidas pela concorrência global, que incorporam tecnologia e ciência, aumentam vertiginosamente o capital fixo e a produtividade, expulsando homens de antigos empregos. É a crise do trabalho agravando a crise do valor.
As exportações de capitais dos países desenvolvidos para países em desenvolvimento como a China, Índia e outros, em busca de uma maior rentabilidade, aumentaram a disponibilidade de mercadorias no mundo que precisam de um mercado para se realizarem. É quando o crédito se expande de forma jamais vista e o pagamento dos produtos adquiridos no mercado é transferido para um trabalho futuro que nunca acontecerá, pois a tendência do capitalismo é racionalizar e dispensar trabalho de forma crescente. Aí está a base das bolhas, que injetam dinheiro fictício no mercado e na produção (fictício por ser vazio de substância, não representar valor, trabalho abstrato), e aprisiona a economia real aos seus movimentos já que esta não consegue por ‘meios normais’, ‘valorizar o valor’(Marx).
Portanto, quanto mais se agrava a crise do valor mais necessita a economia real de capital fictício para manter a ilusão de que ainda funciona. As bolhas inflam, todavia logo desabam sob a pesada realidade, deixando expostos os frágeis fundamentos de uma economia que só respira nesse invólucro. Diferentemente da crise do mercado de ações das empresas ponto.com, parece que o estouro da bolha imobiliária tende atingir todos os setores da economia, inclusive as bolsas, numa reação em cadeia de explosão de bolhas e contração do capital fictício que pode levar o mundo a uma recessão sem precedente.
Mesmo com a injeção no mercado de bilhões de dólares pelos bancos centrais do Japão, Europa, Canadá e Estados Unidos, em uma ação coordenada para evitar a falência em massas de bancos, o que por si só já é uma prova da gravidade do problema, a instabilidade continua. A tentativa dos bancos centrais de substituir capital fictício que se evapora no mercado por capital fictício represados em seus cofres-fortes, buscando empurrar para frente o problema, mostra que não se vislumbra uma nova bolha em curto prazo para substituir as que estouram. Pode faltar o ar que aparenta oxigenar os tecidos mortos da economia real.
16.08.2007
terça-feira, junho 19, 2007
A tendência da indústria brasileira
Rall
É esclarecedor os dados divulgados pelo IBGE sobre a tendência da industria brasileira que mostram que a “participação na produção total de setores mais sofisticados encolheu 16% nos últimos dez anos” (F. de S. Paulo 17.06.07). Enquanto setores industriais de média/baixa e baixa tecnologia cresceram neste período de +132,8% (fabricação de coque, refino de petróleo e combustíveis) a + 27,3% (produtos de madeira), a indústria de ponta encolheu de –11,5% (aparelhos e materiais elétricos) a – 43,0% (material e equipamentos eletrônicos), segundo o IBGE. Essa tendência, que deve se acentuar com o acirramento da concorrência a nível mundial é pior do que muitos analistas desejavam. Setores de baixa tecnologia, como calçados e têxteis, que sustentavam sua expansão com os aumentos das vendas no mercado externo as custas mais de um câmbio favorável do que da produtividade, vem sofrendo um encolhimento brutal sem perspectiva de reversão apesar das medidas do Governo ou outras que venham a ser tomadas para favorece-los.
Ora, se não se consegue competir com a indústria de ponta instalada lá fora, cuja velocidade dos avanços tecnológicos e das exigências de investimentos em capital fixo não estão ao alcance da indústria local, e se os setores de baixa e média tecnologia sofrem externa e internamente com as mercadorias baratas que inundam o mercado vindas da China e de outros países, é claro a tendência a desindustrialização a partir das empresas que não conseguem competir por incapacidade de acompanhar os investimentos necessários em capital fixo, tornando-se, portanto obsoletas, ou por não ter custos de produção similar a outros países em desenvolvimento que associam trabalho barato a extensas cargas horárias, utilizando-se do mais violento disciplinamento na produção de mais-valia absoluta sob a tutela de Estados ditatoriais. Como já vem acontecendo com a produção de calçados e têxteis, logo será a vez dos produtos metálicos, de borracha, de plástico e outros que utilizam intensivamente a força de trabalho.
A conjuntura externa aparentemente favorável e um certo espasmo de crescimento do mercado interno, que logo deve esbarrar nas condições infraestruturais responsáveis principalmente pelo fornecimento de energia e pelo escoamento dos produtos, não são suficientes, mesmo que a possibilidade de crise não estivesse nos horizontes, para reverter o quadro da desindustrialização, reflexo, em nosso caso, do capitalismo no estágio atual da terceira revolução industrial que é alimentada pelo combustível da feroz competição e pela velocidade com que ganham o mercado as inovações tecnológicas sob o domínio dos países ricos.
A situação fica mais dramática quando ao analisarmos a tendência da economia brasileira, observamos que os setores que podem permanecer vivos e com chances de crescer, são aqueles que mais trarão prejuízos às condições de vida da população rural e ao meio ambiente, como a agroindústria, cuja expansão vem exigindo a massiva destruição das matas e dos rios, e com isso da diversidade biológica, e a indústria extrativa e de derivados de petróleo com suas ramificações altamente poluentes. São também conhecidas pela alta concentração de riqueza, pelos baixos salários e pelas condições insalubre de trabalho que reduz em alguns anos a vida de quem nelas trabalham.
Quanto ao Governo, apesar de algumas tênues resistências como as observadas no Ministério do Meio Ambiente, as ações convergem para a pavimentação desse caminho, mesmo porque não existe outra opção de inserção do País nos níveis hierárquicos inferiores do capitalismo mundial. A prova disso é o cego entusiasmo pelos biocombustivéis, sem uma análise dos efeitos colaterais, que são vistos, de forma míope, como saída para crise do trabalho e geração de energia mais limpa.
19.06.2007
É esclarecedor os dados divulgados pelo IBGE sobre a tendência da industria brasileira que mostram que a “participação na produção total de setores mais sofisticados encolheu 16% nos últimos dez anos” (F. de S. Paulo 17.06.07). Enquanto setores industriais de média/baixa e baixa tecnologia cresceram neste período de +132,8% (fabricação de coque, refino de petróleo e combustíveis) a + 27,3% (produtos de madeira), a indústria de ponta encolheu de –11,5% (aparelhos e materiais elétricos) a – 43,0% (material e equipamentos eletrônicos), segundo o IBGE. Essa tendência, que deve se acentuar com o acirramento da concorrência a nível mundial é pior do que muitos analistas desejavam. Setores de baixa tecnologia, como calçados e têxteis, que sustentavam sua expansão com os aumentos das vendas no mercado externo as custas mais de um câmbio favorável do que da produtividade, vem sofrendo um encolhimento brutal sem perspectiva de reversão apesar das medidas do Governo ou outras que venham a ser tomadas para favorece-los.
Ora, se não se consegue competir com a indústria de ponta instalada lá fora, cuja velocidade dos avanços tecnológicos e das exigências de investimentos em capital fixo não estão ao alcance da indústria local, e se os setores de baixa e média tecnologia sofrem externa e internamente com as mercadorias baratas que inundam o mercado vindas da China e de outros países, é claro a tendência a desindustrialização a partir das empresas que não conseguem competir por incapacidade de acompanhar os investimentos necessários em capital fixo, tornando-se, portanto obsoletas, ou por não ter custos de produção similar a outros países em desenvolvimento que associam trabalho barato a extensas cargas horárias, utilizando-se do mais violento disciplinamento na produção de mais-valia absoluta sob a tutela de Estados ditatoriais. Como já vem acontecendo com a produção de calçados e têxteis, logo será a vez dos produtos metálicos, de borracha, de plástico e outros que utilizam intensivamente a força de trabalho.
A conjuntura externa aparentemente favorável e um certo espasmo de crescimento do mercado interno, que logo deve esbarrar nas condições infraestruturais responsáveis principalmente pelo fornecimento de energia e pelo escoamento dos produtos, não são suficientes, mesmo que a possibilidade de crise não estivesse nos horizontes, para reverter o quadro da desindustrialização, reflexo, em nosso caso, do capitalismo no estágio atual da terceira revolução industrial que é alimentada pelo combustível da feroz competição e pela velocidade com que ganham o mercado as inovações tecnológicas sob o domínio dos países ricos.
A situação fica mais dramática quando ao analisarmos a tendência da economia brasileira, observamos que os setores que podem permanecer vivos e com chances de crescer, são aqueles que mais trarão prejuízos às condições de vida da população rural e ao meio ambiente, como a agroindústria, cuja expansão vem exigindo a massiva destruição das matas e dos rios, e com isso da diversidade biológica, e a indústria extrativa e de derivados de petróleo com suas ramificações altamente poluentes. São também conhecidas pela alta concentração de riqueza, pelos baixos salários e pelas condições insalubre de trabalho que reduz em alguns anos a vida de quem nelas trabalham.
Quanto ao Governo, apesar de algumas tênues resistências como as observadas no Ministério do Meio Ambiente, as ações convergem para a pavimentação desse caminho, mesmo porque não existe outra opção de inserção do País nos níveis hierárquicos inferiores do capitalismo mundial. A prova disso é o cego entusiasmo pelos biocombustivéis, sem uma análise dos efeitos colaterais, que são vistos, de forma míope, como saída para crise do trabalho e geração de energia mais limpa.
19.06.2007
sexta-feira, maio 25, 2007
Os circuitos deficitários e a queda do dólar
Rall
Nos últimos dias temos assistido uma verdadeira Babel na fala dos economistas em função da desvalorização do dólar. As divergências sobre as causas e as decisões a serem adotadas vão da abertura total a fortes medidas de proteção do mercado nacional. Se por um lado isso é reflexo das contradições e dos interesses que permeiam a economia local, reflete também a análise de superfície do fenômeno. Na pressa em opinar, descolam a economia nacional do contexto global e surge daí arrogantes discursos apontando soluções fáceis para complexos problemas que fogem ao controle dos mais poderosos dos mortais.
A queda livre do dólar que atinge a maioria dos países e os blocos econômicos aponta para problemas estruturais graves na relação dos EUA com o resto do mundo, e, em particular com os países do leste asiático. O déficit na balança comercial dos EUA que não para de crescer é coberto pela montanha de dinheiro dos superávits desses países, que por sua vez alimenta as bolhas de todos matizes e sustenta com isso o consumo do cidadão médio americano profundamente endividado. A correção dos desequilíbrios na balança comercial americana, que vai se tornando a cada dia que passa insustentável, exige a desvalorização do dólar frente as demais moedas, o que é fato. A coisa é mais complexa quando se trata dos países asiáticos, onde estão fortemente fincadas as empresas americanas com a produção dirigida para exportação. Aí, além dos interesses mútuos, os gigantescos superávits permite que os Bancos Centrais desses países mantenham suas moedas artificialmente desvalorizadas comprando dólar e investindo em papéis do tesouro americano.
Portanto, a queda do dólar, agravada pelas dificuldades de algumas economias lidar com essa situação, dando margem a todo tipo de especulação e ganhos fáceis, está além dos limites das economias nacionais e tem como um dos fundamentos as relações comerciais deficitárias entre os EEUU e os demais países, principalmente os do circuito asiático. Algumas economias como a brasileira, mesmo o governo intervindo fortemente no câmbio enxugando o mercado, não consegue em “condições normais” segurar a queda do dólar. O que aparenta ser um sinal saudável como defendem alguns, é, na verdade, uma fragilidade, pois se persiste esse movimento de valorização do real, e tudo indica que sim, mesmo com a queda das taxas de juros, a tendência é uma inversão da situação favorável da balança comercial com graves repercussões na indústria local.
Esse quadro pode se deteriorar rapidamente se o dinheiro que circula sem rumo e vem se multiplicando nas bolsas e em outros investimentos se nenhuma relação com a riqueza real, e que alimenta artificialmente o consumo com repercussões na produção, num ajuste de contas impactar negativamente emperrando a engrenagem da sociedade produtora de mercadoria. Possibilidade não impossível quando lidamos com uma situação onde circula no globo muito mais dinheiro do que o produto interno bruto das nações e em que a máquina geradora de capital fictício ronca furiosamente, ampliando irracionalmente seu domínio sobre todos setores da economia. A nova onda que impulsiona essa louca corrida ao “ouro de tolo” são as aquisições e vendas de empresas pelos fundos private equity, com a utilização de empréstimos fáceis e baratos, que tem empurrado os preços das ações às nuvens.
Os Estados Unidos não pode, indefinidamente, financiar o consumo interno com dinheiro tomado no exterior. Há de chegar o momento de ajuste dos circuitos deficitários e a desvalorização do dólar pode ser os primeiros sinais desse momento que deve levar a um novo rearranjo do comércio mundial, sempre iniciando o aperto pelos países mais frágeis, muito deles governados por uma esquerda recém convertida aos encantos do mercado. Uma outra possibilidade é uma crise de proporções inédita que exponha com crueza os limites da acumulação do capital na terceira revolução industrial, estourando em cadeia as bolhas que sustentam o crescimento econômico global, num fogo que se alastra ao queimar a alegria da moçada e seus bilhões sem substância.
25.05.2007
Nos últimos dias temos assistido uma verdadeira Babel na fala dos economistas em função da desvalorização do dólar. As divergências sobre as causas e as decisões a serem adotadas vão da abertura total a fortes medidas de proteção do mercado nacional. Se por um lado isso é reflexo das contradições e dos interesses que permeiam a economia local, reflete também a análise de superfície do fenômeno. Na pressa em opinar, descolam a economia nacional do contexto global e surge daí arrogantes discursos apontando soluções fáceis para complexos problemas que fogem ao controle dos mais poderosos dos mortais.
A queda livre do dólar que atinge a maioria dos países e os blocos econômicos aponta para problemas estruturais graves na relação dos EUA com o resto do mundo, e, em particular com os países do leste asiático. O déficit na balança comercial dos EUA que não para de crescer é coberto pela montanha de dinheiro dos superávits desses países, que por sua vez alimenta as bolhas de todos matizes e sustenta com isso o consumo do cidadão médio americano profundamente endividado. A correção dos desequilíbrios na balança comercial americana, que vai se tornando a cada dia que passa insustentável, exige a desvalorização do dólar frente as demais moedas, o que é fato. A coisa é mais complexa quando se trata dos países asiáticos, onde estão fortemente fincadas as empresas americanas com a produção dirigida para exportação. Aí, além dos interesses mútuos, os gigantescos superávits permite que os Bancos Centrais desses países mantenham suas moedas artificialmente desvalorizadas comprando dólar e investindo em papéis do tesouro americano.
Portanto, a queda do dólar, agravada pelas dificuldades de algumas economias lidar com essa situação, dando margem a todo tipo de especulação e ganhos fáceis, está além dos limites das economias nacionais e tem como um dos fundamentos as relações comerciais deficitárias entre os EEUU e os demais países, principalmente os do circuito asiático. Algumas economias como a brasileira, mesmo o governo intervindo fortemente no câmbio enxugando o mercado, não consegue em “condições normais” segurar a queda do dólar. O que aparenta ser um sinal saudável como defendem alguns, é, na verdade, uma fragilidade, pois se persiste esse movimento de valorização do real, e tudo indica que sim, mesmo com a queda das taxas de juros, a tendência é uma inversão da situação favorável da balança comercial com graves repercussões na indústria local.
Esse quadro pode se deteriorar rapidamente se o dinheiro que circula sem rumo e vem se multiplicando nas bolsas e em outros investimentos se nenhuma relação com a riqueza real, e que alimenta artificialmente o consumo com repercussões na produção, num ajuste de contas impactar negativamente emperrando a engrenagem da sociedade produtora de mercadoria. Possibilidade não impossível quando lidamos com uma situação onde circula no globo muito mais dinheiro do que o produto interno bruto das nações e em que a máquina geradora de capital fictício ronca furiosamente, ampliando irracionalmente seu domínio sobre todos setores da economia. A nova onda que impulsiona essa louca corrida ao “ouro de tolo” são as aquisições e vendas de empresas pelos fundos private equity, com a utilização de empréstimos fáceis e baratos, que tem empurrado os preços das ações às nuvens.
Os Estados Unidos não pode, indefinidamente, financiar o consumo interno com dinheiro tomado no exterior. Há de chegar o momento de ajuste dos circuitos deficitários e a desvalorização do dólar pode ser os primeiros sinais desse momento que deve levar a um novo rearranjo do comércio mundial, sempre iniciando o aperto pelos países mais frágeis, muito deles governados por uma esquerda recém convertida aos encantos do mercado. Uma outra possibilidade é uma crise de proporções inédita que exponha com crueza os limites da acumulação do capital na terceira revolução industrial, estourando em cadeia as bolhas que sustentam o crescimento econômico global, num fogo que se alastra ao queimar a alegria da moçada e seus bilhões sem substância.
25.05.2007
sábado, abril 21, 2007
A valorização do real, suas interpretações e caminhos propostos
Rall
O clamor por medidas administrativas capazes de inverter a tendência do câmbio como a taxação de produtos importados, o controle de capitais especulativo de curto prazo e a redução dos juros como forma, entre outras coisas, de inibir a entrada desses capitais, parece perder força à medida que os juros caem e o real continua em ascensão. Um outro grupo de economistas, contrariando os primeiros, defende uma maior abertura do mercado, zerando, se necessário, as barreiras alfandegárias impostas aos produtos importados como forma de inverter o fluxo de capitais e desvalorizar o real frente ao dólar. O que está por traz desse imbróglio, de posições conflitantes para solução de um mesmo problema? Os grupos que não se combinam partem de um único diagnóstico: o excesso de liquidez, ou seja, a entrada de dólares via superávit na balança comercial e via especulação financeira com as aplicações na bolsa e em papéis do Governo, leva a uma superoferta da moeda americana num momento de demanda franca, fazendo cair o “preço” dessa moeda em relação ao real. Para os nossos analistas em conflito, as questões são os caminhos a serem percorridos para enxugar esse excesso de liquidez sem prejudicar as necessidades de dólar do País.
Numa economia movida pelo capital fictício, um volume cada vez maior de dinheiro deixa de ser a expressão do valor na mediação das relações de trocas e passa à função de produto, que negociado no mercado firma sua autonomia em relação à produção real num movimento em que dinheiro gera mais dinheiro sem substância. Essa liquidez de moedas vazias de conteúdo, gerada das mais variadas formas, num processo em que a interminável cadeia creditícia sem lastro tem grande peso, se por um lado traz alguma inquietação em relação às exportações, por outro, quando usado na especulação na bolsa, na compra de papéis públicos e privados, na aquisição de empresas, financia o Governo e as empresas, e movimenta o mercado alavancando o consumo sem que investimentos fossem feitos na produção. E para que investir na produção se o capital já não rende aí o que rende no mercado de papéis? Indaga nosso aplicado investidor. O capital só aporta onde a rentabilidade lhe convier, é essa sua lógica, mesmo quando usa as pernas tortas de seu guardião num incansável balé.
Ora, se os dólares que entram já têm um destino, mesmo que seja o cassino de papéis que o acolhe com propostas escandalosas, se o considerado excedente é comprado pelo Banco Central, que por sua vez, junto com as sobras da balança comercial, os envia para fora e os transmuta em papéis do tesouro americano, o que explica, portanto, a queda dessa moeda em relação ao real se o mercado nesse jogo é enxugado? Os horizontes de crise nos EUA com sua população e o Estado profundamente endividados, o enorme volume do capital fictício em circulação, o déficit fiscal e na balança comercial são alguns dos motivos. Esse País, que por sua força econômica e militar ainda reina sozinho, tem poder suficiente para fazer o dólar, que funciona como moeda mundial, variar conforme seus interesses.
Um outro motivo encontra-se na relação da economia brasileira com as forças hegemônicas da economia mundial. Vejamos. Pesquisa recente do Ipea mostra que 2.434 empresas classificadas como fortemente exportadoras, tem índice de produtividade até cinco vezes superior às empresas voltadas para o mercado interno, e que, apesar do câmbio, vem aumentando suas exportações. São competitivas se comparadas com similares de outros países. Então, por que tanta grita em relação ao câmbio, juros altos e desindutrialização? Essa vem do outro lado da economia, das empresas com baixa produtividade que postas no roldão da competição global, não conseguem mais, na proporção necessária, absorver tecnologia e intensificar o capital fixo, pelos custos que isso pode significar.
Já não existe meio termo na luta feroz das mercadorias pela conquista dos corações e mentes em sua volta ao mundo. Em economias como a do Brasil os juros baixos podem até ter um impacto inicial positivo, mas será impossível, a médio prazo, competir com mercadorias vindas da China e de outros países asiáticos, produzidas para exportação por empresas transnacionais, que combinam capital intensivo com trabalho semi-escravo e custos operacionais baixíssimos. Recentemente empresas de autopeças queixavam-se à imprensa que rolamentos chineses são vendidos no mercado negro por US$ 0,74 o quilo, que custa entre US$ 13 e US$ 17 no mercado internacional. Ou seja, os produtos chineses que entram por vias legais ou ilegais, começam a perturbar os mais variados ramos de produção e não só de eletrônicos, roupas e calçados. Se considerarmos os produtos de alta tecnologia importados dos centros desenvolvidos que nunca vão ser produzidos aqui, o cenário não é nada animador para os entusiastas do mercado.
Quanto às medidas administrativas de “proteção da indústria nacional”, tão largamente defendidas por partidos de esquerda, setores da FIESP e meios acadêmicos, já não surtem mais efeito. Tarifar os produtos que chegam ao mercado nacional mais barato resultaria, provavelmente, em retaliações não convenientes para os setores exportadores e para o superávit comercial tão duramente perseguido. Ampliaria-se também o mercado negro com fortes prejuízos para a indústria aqui estabelecida e para a arrecadação do Governo. Restariam os subsídios governamentais que dificilmente se concretizariam pela enorme expansão das despesas do Estado com o trabalho improdutivo e pagamentos de outras obrigações como os juros, amortizações, e pelos altos custos financeiros e políticos de operações como essas, mesmo quando sustentadas por período de tempo muito curto.
Portanto, restaria a essas empresas que pararam no tempo quanto às inovações tecnológicas e aumento de produtividade, tornando-se pouco competitivas para os padrões internacionais, vender suas mercadorias abaixo do valor de produção, o que parece inviável. Empresas fictícias sempre existiram em grande monta, mas era mais fácil a sobrevivência quando os mercados dos países se relacionavam de formas mais ou menos independentes e era possível certa reserva financiada pelo Estado para produtos nacionais. As especificidades das economias ainda eram preservadas e a ação política matinha um certo poder regulador, o que já não acontece.
A valorização do real reflete também essa realidade contraditória da economia nacional, onde poucas empresas focadas na exportação e em parte do mercado interno, conseguiram reduzir seus custos de produção e também os preços relativos de suas mercadorias e se tornaram competitivas. Numa economia global movida pelo capital fictício as empresas que conseguem aumentar a produtividade se impõem, mesmo que careçam desse capital como os pulmões do ar. Por outro lado, a maioria das empresas nacionais com a produção direcionada para o mercado interno, que sobreviviam às custas de grossas transferências de recursos do Estado perigosamente endividado, apesar de terem conseguido navegar nas águas turbulentas do neoliberalismo na década de noventa, agora já não conseguem baixar seus custos e competir com quem vem de fora. A geração de valor por essas empresas, que se encontram abaixo dos padrões internacionais de produtividade socialmente estabelecidos, ou seja, criam muito menos valor quando comparada com empresas que tem sua produção racionalizada pelo uso da técnica e da ciência, pressionam também o real para cima em relação ao dólar, independente dos desejos dos agentes econômicos. Daí a defesa da intervenção do Estado no bloqueio dos impulsos do mercado, antes tão elogiado pela ação milagrosa da “mão invisível” que quase tudo resolvia e agora dificulta a sobrevivência de setores inteiros da economia.
Os que não acreditam nos resultados das medidas administrativas e propõem tarifas zero para as importações, mesmo que seja por um curto período, partem do pressuposto que a valorização do real deve-se só a entrada de dólar, as outras variáveis internas e externas são descartadas. Uma abertura com essa dimensão, mesmo que fosse possível um prazo para o seu fim (o que é duvidoso, pois processos como esses quando em movimento não se tem mais controle), o impacto na desindustrialização seria sem precedente, poderíamos comparar com a explosão de uma bomba H de grande potência: curta na ação e eficiente na destruição. A abreviação da morte anunciada do lado obsoleto da economia poderia trazer custos muito altos e benefícios duvidosos para as empresas de capital intensivo, que se veriam também encurralada pela violenta competição vinda de todos os lados e perderiam, no mercado interno, o diferencial produtivo fazendo suas taxas de lucro cairem. Mesmo que tais medidas resultassem de imediato na desvalorização do real em benefício das empresas exportadoras, os custos sociais seriam enormes.
Esses são impasses da própria crise do capitalismo que parece atingir seu limite absoluto. Apesar de alegres conjunturas de crescimento forjados, a cada espasmo da crise grandes regiões tendem a desacoplar-se da produção de mercadoria. Como a saída é cada vez mais ilusória no leque de opções oferecido pela sociedade capitalista, e como os movimentos sociais ainda não se dispõem buscar novos caminhos, procura-se empurrar o desastre para as gerações futuras, inflando-se bolhas financeiras e amainando-se a crise social que já não se deixa administrar com medidas pouco convincentes, represando cada vez mais a energia destrutiva do capital.
21.04.2007
O clamor por medidas administrativas capazes de inverter a tendência do câmbio como a taxação de produtos importados, o controle de capitais especulativo de curto prazo e a redução dos juros como forma, entre outras coisas, de inibir a entrada desses capitais, parece perder força à medida que os juros caem e o real continua em ascensão. Um outro grupo de economistas, contrariando os primeiros, defende uma maior abertura do mercado, zerando, se necessário, as barreiras alfandegárias impostas aos produtos importados como forma de inverter o fluxo de capitais e desvalorizar o real frente ao dólar. O que está por traz desse imbróglio, de posições conflitantes para solução de um mesmo problema? Os grupos que não se combinam partem de um único diagnóstico: o excesso de liquidez, ou seja, a entrada de dólares via superávit na balança comercial e via especulação financeira com as aplicações na bolsa e em papéis do Governo, leva a uma superoferta da moeda americana num momento de demanda franca, fazendo cair o “preço” dessa moeda em relação ao real. Para os nossos analistas em conflito, as questões são os caminhos a serem percorridos para enxugar esse excesso de liquidez sem prejudicar as necessidades de dólar do País.
Numa economia movida pelo capital fictício, um volume cada vez maior de dinheiro deixa de ser a expressão do valor na mediação das relações de trocas e passa à função de produto, que negociado no mercado firma sua autonomia em relação à produção real num movimento em que dinheiro gera mais dinheiro sem substância. Essa liquidez de moedas vazias de conteúdo, gerada das mais variadas formas, num processo em que a interminável cadeia creditícia sem lastro tem grande peso, se por um lado traz alguma inquietação em relação às exportações, por outro, quando usado na especulação na bolsa, na compra de papéis públicos e privados, na aquisição de empresas, financia o Governo e as empresas, e movimenta o mercado alavancando o consumo sem que investimentos fossem feitos na produção. E para que investir na produção se o capital já não rende aí o que rende no mercado de papéis? Indaga nosso aplicado investidor. O capital só aporta onde a rentabilidade lhe convier, é essa sua lógica, mesmo quando usa as pernas tortas de seu guardião num incansável balé.
Ora, se os dólares que entram já têm um destino, mesmo que seja o cassino de papéis que o acolhe com propostas escandalosas, se o considerado excedente é comprado pelo Banco Central, que por sua vez, junto com as sobras da balança comercial, os envia para fora e os transmuta em papéis do tesouro americano, o que explica, portanto, a queda dessa moeda em relação ao real se o mercado nesse jogo é enxugado? Os horizontes de crise nos EUA com sua população e o Estado profundamente endividados, o enorme volume do capital fictício em circulação, o déficit fiscal e na balança comercial são alguns dos motivos. Esse País, que por sua força econômica e militar ainda reina sozinho, tem poder suficiente para fazer o dólar, que funciona como moeda mundial, variar conforme seus interesses.
Um outro motivo encontra-se na relação da economia brasileira com as forças hegemônicas da economia mundial. Vejamos. Pesquisa recente do Ipea mostra que 2.434 empresas classificadas como fortemente exportadoras, tem índice de produtividade até cinco vezes superior às empresas voltadas para o mercado interno, e que, apesar do câmbio, vem aumentando suas exportações. São competitivas se comparadas com similares de outros países. Então, por que tanta grita em relação ao câmbio, juros altos e desindutrialização? Essa vem do outro lado da economia, das empresas com baixa produtividade que postas no roldão da competição global, não conseguem mais, na proporção necessária, absorver tecnologia e intensificar o capital fixo, pelos custos que isso pode significar.
Já não existe meio termo na luta feroz das mercadorias pela conquista dos corações e mentes em sua volta ao mundo. Em economias como a do Brasil os juros baixos podem até ter um impacto inicial positivo, mas será impossível, a médio prazo, competir com mercadorias vindas da China e de outros países asiáticos, produzidas para exportação por empresas transnacionais, que combinam capital intensivo com trabalho semi-escravo e custos operacionais baixíssimos. Recentemente empresas de autopeças queixavam-se à imprensa que rolamentos chineses são vendidos no mercado negro por US$ 0,74 o quilo, que custa entre US$ 13 e US$ 17 no mercado internacional. Ou seja, os produtos chineses que entram por vias legais ou ilegais, começam a perturbar os mais variados ramos de produção e não só de eletrônicos, roupas e calçados. Se considerarmos os produtos de alta tecnologia importados dos centros desenvolvidos que nunca vão ser produzidos aqui, o cenário não é nada animador para os entusiastas do mercado.
Quanto às medidas administrativas de “proteção da indústria nacional”, tão largamente defendidas por partidos de esquerda, setores da FIESP e meios acadêmicos, já não surtem mais efeito. Tarifar os produtos que chegam ao mercado nacional mais barato resultaria, provavelmente, em retaliações não convenientes para os setores exportadores e para o superávit comercial tão duramente perseguido. Ampliaria-se também o mercado negro com fortes prejuízos para a indústria aqui estabelecida e para a arrecadação do Governo. Restariam os subsídios governamentais que dificilmente se concretizariam pela enorme expansão das despesas do Estado com o trabalho improdutivo e pagamentos de outras obrigações como os juros, amortizações, e pelos altos custos financeiros e políticos de operações como essas, mesmo quando sustentadas por período de tempo muito curto.
Portanto, restaria a essas empresas que pararam no tempo quanto às inovações tecnológicas e aumento de produtividade, tornando-se pouco competitivas para os padrões internacionais, vender suas mercadorias abaixo do valor de produção, o que parece inviável. Empresas fictícias sempre existiram em grande monta, mas era mais fácil a sobrevivência quando os mercados dos países se relacionavam de formas mais ou menos independentes e era possível certa reserva financiada pelo Estado para produtos nacionais. As especificidades das economias ainda eram preservadas e a ação política matinha um certo poder regulador, o que já não acontece.
A valorização do real reflete também essa realidade contraditória da economia nacional, onde poucas empresas focadas na exportação e em parte do mercado interno, conseguiram reduzir seus custos de produção e também os preços relativos de suas mercadorias e se tornaram competitivas. Numa economia global movida pelo capital fictício as empresas que conseguem aumentar a produtividade se impõem, mesmo que careçam desse capital como os pulmões do ar. Por outro lado, a maioria das empresas nacionais com a produção direcionada para o mercado interno, que sobreviviam às custas de grossas transferências de recursos do Estado perigosamente endividado, apesar de terem conseguido navegar nas águas turbulentas do neoliberalismo na década de noventa, agora já não conseguem baixar seus custos e competir com quem vem de fora. A geração de valor por essas empresas, que se encontram abaixo dos padrões internacionais de produtividade socialmente estabelecidos, ou seja, criam muito menos valor quando comparada com empresas que tem sua produção racionalizada pelo uso da técnica e da ciência, pressionam também o real para cima em relação ao dólar, independente dos desejos dos agentes econômicos. Daí a defesa da intervenção do Estado no bloqueio dos impulsos do mercado, antes tão elogiado pela ação milagrosa da “mão invisível” que quase tudo resolvia e agora dificulta a sobrevivência de setores inteiros da economia.
Os que não acreditam nos resultados das medidas administrativas e propõem tarifas zero para as importações, mesmo que seja por um curto período, partem do pressuposto que a valorização do real deve-se só a entrada de dólar, as outras variáveis internas e externas são descartadas. Uma abertura com essa dimensão, mesmo que fosse possível um prazo para o seu fim (o que é duvidoso, pois processos como esses quando em movimento não se tem mais controle), o impacto na desindustrialização seria sem precedente, poderíamos comparar com a explosão de uma bomba H de grande potência: curta na ação e eficiente na destruição. A abreviação da morte anunciada do lado obsoleto da economia poderia trazer custos muito altos e benefícios duvidosos para as empresas de capital intensivo, que se veriam também encurralada pela violenta competição vinda de todos os lados e perderiam, no mercado interno, o diferencial produtivo fazendo suas taxas de lucro cairem. Mesmo que tais medidas resultassem de imediato na desvalorização do real em benefício das empresas exportadoras, os custos sociais seriam enormes.
Esses são impasses da própria crise do capitalismo que parece atingir seu limite absoluto. Apesar de alegres conjunturas de crescimento forjados, a cada espasmo da crise grandes regiões tendem a desacoplar-se da produção de mercadoria. Como a saída é cada vez mais ilusória no leque de opções oferecido pela sociedade capitalista, e como os movimentos sociais ainda não se dispõem buscar novos caminhos, procura-se empurrar o desastre para as gerações futuras, inflando-se bolhas financeiras e amainando-se a crise social que já não se deixa administrar com medidas pouco convincentes, represando cada vez mais a energia destrutiva do capital.
21.04.2007
terça-feira, dezembro 26, 2006
A política redistributiva e os limites do Estado
Rall
Diz um velho ditado que alegria de pobre dura pouco. Pelas notícias é o que parece se delinear nesse segundo mandato do Presidente-operário. A política social de distribuição de benefícios para os sem renda, parece dar sinais de esgotamento. Por outro lado, os considerados “classe média”, aqueles que recebem mais de três salários mínimos, viram os rendimentos despencarem em 46% e houve um saldo negativo de dois milhões de empregos nessa classe, ou seja, dois milhões dispensados de suas atividades nos últimos seis anos. Por outro lado o emprego com até um salário mínimo aumentou em 2,2 milhões, segundo pesquisa baseada nos dados da Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados, do Ministério do Trabalho), publicados pela Folha de São Paulo de 10 de dezembro de 2006.
Outro estudo do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho da Unicamp mostra que apesar dos 2,8 milhões de empregos criados entre setembro de 2004 e outubro de 2006, houve uma redução da massa salarial de R$ 133 milhões, provavelmente relacionados com a precarização do emprego via terceirização, demissões e contratação de novos contingentes por salário mais baixos.
Tal quadro mostrado pelas duas pesquisas reflete como a economia no Brasil, e, provavelmente, em outros países do terceiro mundo, vem reagindo para se adaptar a violenta competição internacional. Não dispondo de industrias suficientemente modernas e infraestrutura, esses países, incapazes de competir com os países do centro em produtividade, se adaptam como sócios menores do capital internacional produzindo mercadorias baratas às custas da intensificação da mais-valia absoluta. Europa Ocidental, Japão e América do Norte que respondem por cerca de 75% da produção industrial do mundo, necessitam de recursos naturais, mas, também de produtos semi-acabados, geralmente produzidos em indústrias poluidoras, para suas empresas de ponta. É o caso do aço semiprocessado, que é produzido nos países em desenvolvimento a baixo custo e é enviado às usinas sofisticadas dos países do centro. Esse tipo de transação pode significar uma “redução entre 30% a 50% em relação a seu custo caso esses produtos fossem produzidos no país de origem da empresa compradora”, segundo Peter Marsh do Finacial Times.
O Estado em si não produz riqueza. Os recursos para financiar seus projetos são arrancados da produção real através dos impostos, e hoje, mais do que nunca, pela geração de capital fictício. Os recordes na arrecadação de impostos, tão saudados pelos burocratas do poder, tende asfixiar mais ainda a “classe média”, pois essa não escapa da fúria arrecadadora, inibindo o consumo e fazendo patinar o esperado crescimento do mercado interno. Mas, o limite desse nivelamento distributivo por baixo, tende a esbarrar na crise dessa classe, que nos últimos seis anos perdeu quase 50% de seu contingente como mostram as pesquisas e na impossibilidade das bolhas financeiras se expandirem indefinidamente.
Por outro lado o capital só aporta aonde pode acumular. Aqueles capitais acoplados a produção global, mantém-se em ação desde que as condições lhes sejam favoráveis, e isso, no terceiro mundo, traduz-se em salários cada vez mais baixos, daí a grita pela desregulamentação do mercado de trabalho, por condições de infraestrutura para o escoamento de seus produtos a custos acessíveis e possíveis renuncias fiscal. Não sendo assim, tende a levantar âncora e se dirigir para os que oferecem melhores remunerações.
As indústrias que produzem mais para o mercado interno, a maioria a margem do circuito mundial da produção capitalista, geralmente pequenas e médias empresas de utilização intensiva de força de trabalho, além do fraco desempenho do mercado local, são obrigadas a competir com similares que conseguem produzir na China e na Índia principalmente, a custos bem inferiores aos nossos, por utilizarem uma mão-de-obra semi-escrava com baixíssima remuneração. A desindustrialização de setores como os de roupas e de calçados é um exemplo flagrante dessa realidade. A produção limitada e a descapitalização desses setores, que dificulta investir em novos equipamentos para aumentar a produtividade, reforça o círculo de demissões acompanhadas de novas admissões com salários que podem chegar a metade dos antigos funcionários.
O Governo, ao buscar salvar os náufragos, é obrigado a abrir mão de parte de sua receita, agravando mais ainda a crise fiscal do Estado. Para cobrir os déficits dos programas sociais, os parcos investimentos e outros encargos, é levado a captar recursos no mercado, pagando juros exorbitantes que por sua vez geram compromissos financeiros que precisam ser amortizados com superávits primários. São os papeis do governo, que negociados na rede bancária, se multiplicam como do nada se multiplicaram os pães no milagre cristão, como fosse uma inesgotável fonte de riqueza, a usina de geração de capital fictício. E aí todos que tenham alguma sobra de dinheiro, se beneficiam da “ciranda financeira”: o Estado porque consegue financiar suas despesas, os bancos por comprar do Governo papéis rentáveis e vende-los no mercado, as empresas que inflam seus balanços com as aplicações e juros cobrados nas vendas à crédito e as classes abastadas que do nada vêem seu dinheiro crescer.
Frente a esse emaranhado de interesses, os juros que é como se lucra no mercado de papéis, nem sempre é fácil serem reduzidos. Talvez sejam os juros altos, com as aplicações especulativas na bolsa que nos primeiros quatro anos do governo Lula subiu 280% apesar do pífio desempenho da economia real, as maiores bolhas que ajudam alimentar a economia no Brasil. É como se diz: para a sociedade da valorização do valor em crise ruim com elas pior sem elas, é só ver o susto que tomaram recentemente os novos donos do poder na Tailândia, ao quererem controlar, mesmo que timidamente, o capital de curto prazo que ao girar o mundo velozmente, sopra desesperado as bolhas nos quatro cantos do globo para que não se apaguem. Na Tailândia, o apagão da economia em um dia, foi o suficiente para que o governo militar rapidamente voltasse atrás e se ajustasse novamente às exigências do capital global, mesmo dispondo do poder das armas.
Se o capitalismo para existir ainda necessita de uma base real na produção, o louco desacoplamento do dinheiro dessa base, reproduzindo-se sem substância numa velocidade e volume jamais vistos, mesmo que em alguns momentos turbine o crescimento econômico pelo aumento artificial do consumo, mais tarde ou mais cedo a realidade vai exigir um acerto de contas. Os sinais da crise são cada vez mais evidentes, e, pelo intrincado da economia mundial, talvez seja essa a mais global e a mais severa das crises do capitalismo. Os Estados, todos já na corda bamba pelos desequilíbrios financeiros, irão rapidamente a nocaute e com eles as cambaleantes políticas sociais.
26.12.2006
Diz um velho ditado que alegria de pobre dura pouco. Pelas notícias é o que parece se delinear nesse segundo mandato do Presidente-operário. A política social de distribuição de benefícios para os sem renda, parece dar sinais de esgotamento. Por outro lado, os considerados “classe média”, aqueles que recebem mais de três salários mínimos, viram os rendimentos despencarem em 46% e houve um saldo negativo de dois milhões de empregos nessa classe, ou seja, dois milhões dispensados de suas atividades nos últimos seis anos. Por outro lado o emprego com até um salário mínimo aumentou em 2,2 milhões, segundo pesquisa baseada nos dados da Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados, do Ministério do Trabalho), publicados pela Folha de São Paulo de 10 de dezembro de 2006.
Outro estudo do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho da Unicamp mostra que apesar dos 2,8 milhões de empregos criados entre setembro de 2004 e outubro de 2006, houve uma redução da massa salarial de R$ 133 milhões, provavelmente relacionados com a precarização do emprego via terceirização, demissões e contratação de novos contingentes por salário mais baixos.
Tal quadro mostrado pelas duas pesquisas reflete como a economia no Brasil, e, provavelmente, em outros países do terceiro mundo, vem reagindo para se adaptar a violenta competição internacional. Não dispondo de industrias suficientemente modernas e infraestrutura, esses países, incapazes de competir com os países do centro em produtividade, se adaptam como sócios menores do capital internacional produzindo mercadorias baratas às custas da intensificação da mais-valia absoluta. Europa Ocidental, Japão e América do Norte que respondem por cerca de 75% da produção industrial do mundo, necessitam de recursos naturais, mas, também de produtos semi-acabados, geralmente produzidos em indústrias poluidoras, para suas empresas de ponta. É o caso do aço semiprocessado, que é produzido nos países em desenvolvimento a baixo custo e é enviado às usinas sofisticadas dos países do centro. Esse tipo de transação pode significar uma “redução entre 30% a 50% em relação a seu custo caso esses produtos fossem produzidos no país de origem da empresa compradora”, segundo Peter Marsh do Finacial Times.
O Estado em si não produz riqueza. Os recursos para financiar seus projetos são arrancados da produção real através dos impostos, e hoje, mais do que nunca, pela geração de capital fictício. Os recordes na arrecadação de impostos, tão saudados pelos burocratas do poder, tende asfixiar mais ainda a “classe média”, pois essa não escapa da fúria arrecadadora, inibindo o consumo e fazendo patinar o esperado crescimento do mercado interno. Mas, o limite desse nivelamento distributivo por baixo, tende a esbarrar na crise dessa classe, que nos últimos seis anos perdeu quase 50% de seu contingente como mostram as pesquisas e na impossibilidade das bolhas financeiras se expandirem indefinidamente.
Por outro lado o capital só aporta aonde pode acumular. Aqueles capitais acoplados a produção global, mantém-se em ação desde que as condições lhes sejam favoráveis, e isso, no terceiro mundo, traduz-se em salários cada vez mais baixos, daí a grita pela desregulamentação do mercado de trabalho, por condições de infraestrutura para o escoamento de seus produtos a custos acessíveis e possíveis renuncias fiscal. Não sendo assim, tende a levantar âncora e se dirigir para os que oferecem melhores remunerações.
As indústrias que produzem mais para o mercado interno, a maioria a margem do circuito mundial da produção capitalista, geralmente pequenas e médias empresas de utilização intensiva de força de trabalho, além do fraco desempenho do mercado local, são obrigadas a competir com similares que conseguem produzir na China e na Índia principalmente, a custos bem inferiores aos nossos, por utilizarem uma mão-de-obra semi-escrava com baixíssima remuneração. A desindustrialização de setores como os de roupas e de calçados é um exemplo flagrante dessa realidade. A produção limitada e a descapitalização desses setores, que dificulta investir em novos equipamentos para aumentar a produtividade, reforça o círculo de demissões acompanhadas de novas admissões com salários que podem chegar a metade dos antigos funcionários.
O Governo, ao buscar salvar os náufragos, é obrigado a abrir mão de parte de sua receita, agravando mais ainda a crise fiscal do Estado. Para cobrir os déficits dos programas sociais, os parcos investimentos e outros encargos, é levado a captar recursos no mercado, pagando juros exorbitantes que por sua vez geram compromissos financeiros que precisam ser amortizados com superávits primários. São os papeis do governo, que negociados na rede bancária, se multiplicam como do nada se multiplicaram os pães no milagre cristão, como fosse uma inesgotável fonte de riqueza, a usina de geração de capital fictício. E aí todos que tenham alguma sobra de dinheiro, se beneficiam da “ciranda financeira”: o Estado porque consegue financiar suas despesas, os bancos por comprar do Governo papéis rentáveis e vende-los no mercado, as empresas que inflam seus balanços com as aplicações e juros cobrados nas vendas à crédito e as classes abastadas que do nada vêem seu dinheiro crescer.
Frente a esse emaranhado de interesses, os juros que é como se lucra no mercado de papéis, nem sempre é fácil serem reduzidos. Talvez sejam os juros altos, com as aplicações especulativas na bolsa que nos primeiros quatro anos do governo Lula subiu 280% apesar do pífio desempenho da economia real, as maiores bolhas que ajudam alimentar a economia no Brasil. É como se diz: para a sociedade da valorização do valor em crise ruim com elas pior sem elas, é só ver o susto que tomaram recentemente os novos donos do poder na Tailândia, ao quererem controlar, mesmo que timidamente, o capital de curto prazo que ao girar o mundo velozmente, sopra desesperado as bolhas nos quatro cantos do globo para que não se apaguem. Na Tailândia, o apagão da economia em um dia, foi o suficiente para que o governo militar rapidamente voltasse atrás e se ajustasse novamente às exigências do capital global, mesmo dispondo do poder das armas.
Se o capitalismo para existir ainda necessita de uma base real na produção, o louco desacoplamento do dinheiro dessa base, reproduzindo-se sem substância numa velocidade e volume jamais vistos, mesmo que em alguns momentos turbine o crescimento econômico pelo aumento artificial do consumo, mais tarde ou mais cedo a realidade vai exigir um acerto de contas. Os sinais da crise são cada vez mais evidentes, e, pelo intrincado da economia mundial, talvez seja essa a mais global e a mais severa das crises do capitalismo. Os Estados, todos já na corda bamba pelos desequilíbrios financeiros, irão rapidamente a nocaute e com eles as cambaleantes políticas sociais.
26.12.2006
domingo, outubro 08, 2006
Sobre o livro de Anselm Jappe
Rall
Nesse momento em que parte da esquerda ainda não saiu do outro lado do muro ou saiu para aderir as reformas neoliberais, o livro de Anlsem Jappe, “As aventuras da mercadoria”, é muito bem vindo. Em São Paulo, quando o livro foi lançado, acompanhado de um filme de Guy Debord no Cinesesc Augusta, um número inesperado de pessoas, principalmente jovens, mostrou que existe alguma coisa no ar.
Eventos como este indica que esquerda tradicional que no poder não se diferencia da direita tradicional, haja vista a sucessão de escândalos, já não consegue empolgar com os velhos chavões. A crítica à sociedade mercantil parece começar a fugir das fileiras partidárias e ganha as ruas com merecida liberdade. O socilogismo institucional, que por anos alimentou o movimento social, dá sinais de esgotamento e cede lugar a nova crítica não presa a estereótipos.
É nesse contexto que surge o livro de Jappe. Em linguagem acessível mostra a importância da crítica do trabalho, do valor, da mercadoria e do fetichismo em Marx, principalmente no primeiro capitulo do “O Capital” , para compreensão da sociedade da mercadoria e da crise social na qual afundamos cada vez mais, como produto da crise da “valorização do valor”, ou seja, da sociedade capitalista.
Faz um apanhado crítico da teoria do valor retomada por Gyorgy Lukács em “História de consciência de classe” e Isaak Rubin, nos anos 30, até autores mais recentes como Robert Kurz na Alemanha, Moishe Postone nos Estados Unidos e Jean-Marie Vicente na França, que chegaram a conclusões semelhantes sem nenhuma relação um com o outro, em estudos isolados.
Mostra que o trabalho, enquanto atividade humana que produz valor, é imanente à sociedade capitalista e que a diferenciação entre trabalho concreto e trabalho abstrato, o trabalho concreto como o “pólo positivo que na sociedade capitalista é violado pelo trabalho abstrato” apaga-se, pois o primeiro só existe enquanto base do segundo. Portanto, a superação da sociedade capitalista pressupõe o fim do trabalho assalariado, considerando que no processo incessante de valorização do valor, trabalho e capital são faces de uma mesma moeda.
Chama atenção a clareza com que é escrito o capítulo “A crise da sociedade mercantil”, que trata de questões muitas vezes pouco valorizada pela esquerda, mas fundamentais para o entendimento do capitalismo nos tempos atuais como o trabalho improdutivo e o domínio do capital fictício sobre a produção real, como forma de dribla a crise do valor.
Com a revolução da micro-eletrônica, o capitalismo não conseguindo definitivamente compensar o decaimento do valor com a ampliação do trabalho produtivo, todas as fichas são apostadas no chamado setor terciário, cuja expansão agravara mais ainda a crise do valor com o aumento do trabalho improdutivo. Os problemas não tardaram. Como resposta, vieram as reformas neoliberais, privatizando as atividades de seguridade social e de infraestrutura, antes tidas como de responsabilidade do estado, e cortando fundo o que cheirava a supérfluo nas empresas privadas, incluído aí benefícios como assistência médica, fundos de aposentadorias e outros resquícios das conquistas trabalhistas no fordismo. Os “encargos secundários” que não poderam ser varridos pela fúria neoliberal são terceirizados e, a partir daí, incrementa-se a mais-valia absoluta.
Apesar da ineficácia das medidas, a crise de um sistema em colapso é adiada com ajuda das bolhas financeiras que se manifestam no endividamento pessoal, das empresas e do estado e na supervalorização das ações, dos imóveis, das commodities e outros ativos. A especulação financeira de toda ordem tem criando um volume absurdo de dinheiro totalmente descolado da produção real, que mais tarde ou mais cedo terá que prestar contas através da inflação ou da deflação.
À luz da crítica do valor analisa os escritos de alguns autores em moda como André Gorz e, principalmente, a “versão pós-moderna melhorada do operaismo italiano dos anos setenta” de Antônio Negri e Michael Hardt em ácida passagem intitulada “A última mascarada do marxismo tradicional”. Em diálogo tenso mas amistoso, busca visualizar caminhos ao impasse em que se encontra o movimento social que ainda se move dentro do leque de opções determinado pela sociedade capitalista, enquanto agrava-se a crise.
Uma advertência: apesar das evidências de que o capitalismo pode ter chegado ao limite com revolução tecnológica da micro-eletrônica que faz ruir o valor, ao mesmo tempo em que cria possibilidade do alvorecer de uma sociedade não assentada no trabalho abstrato e no fetichismo, não fica fora dos horizontes a prevalência de um capitalismo cada vez mais destrutivo, afundado na barbárie vinda de todos os lados.
O livro de Jappe pode ser encontrado na Livraria Cultura ou na Editora Sem Fronteira, Fortaleza, telefone (85) 3081-2956, e-mail: criticaradical@bol.com.br
08.10.2006
Nesse momento em que parte da esquerda ainda não saiu do outro lado do muro ou saiu para aderir as reformas neoliberais, o livro de Anlsem Jappe, “As aventuras da mercadoria”, é muito bem vindo. Em São Paulo, quando o livro foi lançado, acompanhado de um filme de Guy Debord no Cinesesc Augusta, um número inesperado de pessoas, principalmente jovens, mostrou que existe alguma coisa no ar.
Eventos como este indica que esquerda tradicional que no poder não se diferencia da direita tradicional, haja vista a sucessão de escândalos, já não consegue empolgar com os velhos chavões. A crítica à sociedade mercantil parece começar a fugir das fileiras partidárias e ganha as ruas com merecida liberdade. O socilogismo institucional, que por anos alimentou o movimento social, dá sinais de esgotamento e cede lugar a nova crítica não presa a estereótipos.
É nesse contexto que surge o livro de Jappe. Em linguagem acessível mostra a importância da crítica do trabalho, do valor, da mercadoria e do fetichismo em Marx, principalmente no primeiro capitulo do “O Capital” , para compreensão da sociedade da mercadoria e da crise social na qual afundamos cada vez mais, como produto da crise da “valorização do valor”, ou seja, da sociedade capitalista.
Faz um apanhado crítico da teoria do valor retomada por Gyorgy Lukács em “História de consciência de classe” e Isaak Rubin, nos anos 30, até autores mais recentes como Robert Kurz na Alemanha, Moishe Postone nos Estados Unidos e Jean-Marie Vicente na França, que chegaram a conclusões semelhantes sem nenhuma relação um com o outro, em estudos isolados.
Mostra que o trabalho, enquanto atividade humana que produz valor, é imanente à sociedade capitalista e que a diferenciação entre trabalho concreto e trabalho abstrato, o trabalho concreto como o “pólo positivo que na sociedade capitalista é violado pelo trabalho abstrato” apaga-se, pois o primeiro só existe enquanto base do segundo. Portanto, a superação da sociedade capitalista pressupõe o fim do trabalho assalariado, considerando que no processo incessante de valorização do valor, trabalho e capital são faces de uma mesma moeda.
Chama atenção a clareza com que é escrito o capítulo “A crise da sociedade mercantil”, que trata de questões muitas vezes pouco valorizada pela esquerda, mas fundamentais para o entendimento do capitalismo nos tempos atuais como o trabalho improdutivo e o domínio do capital fictício sobre a produção real, como forma de dribla a crise do valor.
Com a revolução da micro-eletrônica, o capitalismo não conseguindo definitivamente compensar o decaimento do valor com a ampliação do trabalho produtivo, todas as fichas são apostadas no chamado setor terciário, cuja expansão agravara mais ainda a crise do valor com o aumento do trabalho improdutivo. Os problemas não tardaram. Como resposta, vieram as reformas neoliberais, privatizando as atividades de seguridade social e de infraestrutura, antes tidas como de responsabilidade do estado, e cortando fundo o que cheirava a supérfluo nas empresas privadas, incluído aí benefícios como assistência médica, fundos de aposentadorias e outros resquícios das conquistas trabalhistas no fordismo. Os “encargos secundários” que não poderam ser varridos pela fúria neoliberal são terceirizados e, a partir daí, incrementa-se a mais-valia absoluta.
Apesar da ineficácia das medidas, a crise de um sistema em colapso é adiada com ajuda das bolhas financeiras que se manifestam no endividamento pessoal, das empresas e do estado e na supervalorização das ações, dos imóveis, das commodities e outros ativos. A especulação financeira de toda ordem tem criando um volume absurdo de dinheiro totalmente descolado da produção real, que mais tarde ou mais cedo terá que prestar contas através da inflação ou da deflação.
À luz da crítica do valor analisa os escritos de alguns autores em moda como André Gorz e, principalmente, a “versão pós-moderna melhorada do operaismo italiano dos anos setenta” de Antônio Negri e Michael Hardt em ácida passagem intitulada “A última mascarada do marxismo tradicional”. Em diálogo tenso mas amistoso, busca visualizar caminhos ao impasse em que se encontra o movimento social que ainda se move dentro do leque de opções determinado pela sociedade capitalista, enquanto agrava-se a crise.
Uma advertência: apesar das evidências de que o capitalismo pode ter chegado ao limite com revolução tecnológica da micro-eletrônica que faz ruir o valor, ao mesmo tempo em que cria possibilidade do alvorecer de uma sociedade não assentada no trabalho abstrato e no fetichismo, não fica fora dos horizontes a prevalência de um capitalismo cada vez mais destrutivo, afundado na barbárie vinda de todos os lados.
O livro de Jappe pode ser encontrado na Livraria Cultura ou na Editora Sem Fronteira, Fortaleza, telefone (85) 3081-2956, e-mail: criticaradical@bol.com.br
08.10.2006
domingo, setembro 03, 2006
Os Presidentes e a crise da Volkswagen
Rall
Duas notícias nos jornais diários das últimas semanas chamaram atenção: a primeira, a ameaça da Volkswagen de fechar a fábrica de São Bernardo, berço do “sindicalismo moderno” e da militância do Presidente sindicalista. A outra, refere-se ao exponencial crescimento do emprego terceirizado em 127% em dez anos, de 1995 até 2005, segundo pesquisa do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho da Unicamp. Os fatos que parecem isolados, são, na verdade, manifestações de um mesmo fenômeno: queda da rentabilidade do capital industrial como expressão da crise do valor.
A Volks simbolizava o Brasil moderno que queria ingressa num salto no mercado mundial, não mais através do café e do açúcar exportado, mas da política de portas abertas ao capital transnacional, cujo ícone do período foi o alegre desfile do sorridente Presidente Juscelino em um fusquinha aberto. Com a indústria automobilística surge aí um novo momento da “modernização recuperadora” (Kurz), iniciada por Getúlio Vargas com a instalação da indústria de base e a campanha do “Petróleo é nosso”.
A Volkswagen e outras montadoras, ao se instalarem em São Bernardo do Campo, davam uma contribuição “pioneira” na geração de um novo pólo industrial. Com ele e nos intramuros das multinacionais, nasce o “sindicalismo de resultados”, cujo maior orgulho é ter forjado o operário-Presidente. Num primeiro momento, e, ainda, no apogeu do emprego farto na indústria, Presidente do maior e mais poderoso sindicato da América Latina. Agora, na crise do trabalho e no declínio do sindicalismo, Presidente do maior país do Continente.
Deixando de lado a dura coincidência, resta-nos uma pergunta: estaria a Volkswagen chantageando o governo em busca de empréstimos e outras vantagens como sugere setores do governo e a parte da imprensa? Quem conhece a empresa de São Bernardo sabe que pelo menos duas linhas de produção não são mais rentáveis: a do Gol e da Kombi. Há uma diferença enorme entre essas e a linha de produção do Fox, que apesar de seu grau de automação começa ficar para trás quando comparada com outras montadoras.
A acirrada competição internacional exige ajustes dramáticos, ou, até quem sabe, o encerramento das atividades. A nível mundial há uma sobrecapacidade da indústria automobilística, que resiste ao tampo com a introdução de novas tecnologias de produção dispensadoras de força de trabalho. Por outro lado, na China e no Leste Europeu há mão-de-obra sobrando, ávida para ser empregada a qualquer preço, ameaçando os trabalhadores bem estabelecidos nas indústrias do Ocidente. A saída que agora se busca é a destruição dos investimentos não rentáveis, transferência da produção com dispensa em massa e a redução salarial, mesmo que isso signifique a desindustrialização de países inteiros. No Brasil , a baixa formação de capital fixo é um sintoma dessa realidade.
Com o aumento da produtividade e a expulsão do trabalho da produção, o capitalismo está “a serrar o galho em que se encontra sentado” (Anselm Jappe), e busca compensar a queda da rentabilidade com artifícios financeiros e fusões. Hoje toda empresa que se preza tem seu banco que lhe garante uma sobrevida contábil. As fusões, que vêm acontecendo com enorme ferocidade, na mesma proporção que liquidam empresas e jogam milhares nas ruas, aumenta artificialmente os preços dos papéis das empresas canibais.
Cientes do risco de não fecharem a conta, mesmo tomando todas essas medidas e produzindo a todo vapor capital fictício, ante as ameaças de transferência da produção para outros países, buscam-se outros meios para reduzir custos, agora em cima dos que não conseguem dispensar. É quando entra a terceirização, que é a forma que o capitalismo em crise encontrou para reintroduzir a mais valia absoluta, esticando a carga horária e achatando os salários. Um destaque especial para esse processo apelidado de “precarização do emprego”, cabe aos chamados PJs (pessoa jurídica). Esse empresário-empregado, cuja característica é a introjeção de práticas sadomasoquistas de autoexploração é o grupo que mais cresce entre os terceirizados no País. Essa excrescência do mundo do trabalho em crise, tende a explodir com o artigo 129 da “MP do Bem”, aprovada pelo Senado e sancionada pelo Presidente Sindicalista.
02.09.2006
Duas notícias nos jornais diários das últimas semanas chamaram atenção: a primeira, a ameaça da Volkswagen de fechar a fábrica de São Bernardo, berço do “sindicalismo moderno” e da militância do Presidente sindicalista. A outra, refere-se ao exponencial crescimento do emprego terceirizado em 127% em dez anos, de 1995 até 2005, segundo pesquisa do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho da Unicamp. Os fatos que parecem isolados, são, na verdade, manifestações de um mesmo fenômeno: queda da rentabilidade do capital industrial como expressão da crise do valor.
A Volks simbolizava o Brasil moderno que queria ingressa num salto no mercado mundial, não mais através do café e do açúcar exportado, mas da política de portas abertas ao capital transnacional, cujo ícone do período foi o alegre desfile do sorridente Presidente Juscelino em um fusquinha aberto. Com a indústria automobilística surge aí um novo momento da “modernização recuperadora” (Kurz), iniciada por Getúlio Vargas com a instalação da indústria de base e a campanha do “Petróleo é nosso”.
A Volkswagen e outras montadoras, ao se instalarem em São Bernardo do Campo, davam uma contribuição “pioneira” na geração de um novo pólo industrial. Com ele e nos intramuros das multinacionais, nasce o “sindicalismo de resultados”, cujo maior orgulho é ter forjado o operário-Presidente. Num primeiro momento, e, ainda, no apogeu do emprego farto na indústria, Presidente do maior e mais poderoso sindicato da América Latina. Agora, na crise do trabalho e no declínio do sindicalismo, Presidente do maior país do Continente.
Deixando de lado a dura coincidência, resta-nos uma pergunta: estaria a Volkswagen chantageando o governo em busca de empréstimos e outras vantagens como sugere setores do governo e a parte da imprensa? Quem conhece a empresa de São Bernardo sabe que pelo menos duas linhas de produção não são mais rentáveis: a do Gol e da Kombi. Há uma diferença enorme entre essas e a linha de produção do Fox, que apesar de seu grau de automação começa ficar para trás quando comparada com outras montadoras.
A acirrada competição internacional exige ajustes dramáticos, ou, até quem sabe, o encerramento das atividades. A nível mundial há uma sobrecapacidade da indústria automobilística, que resiste ao tampo com a introdução de novas tecnologias de produção dispensadoras de força de trabalho. Por outro lado, na China e no Leste Europeu há mão-de-obra sobrando, ávida para ser empregada a qualquer preço, ameaçando os trabalhadores bem estabelecidos nas indústrias do Ocidente. A saída que agora se busca é a destruição dos investimentos não rentáveis, transferência da produção com dispensa em massa e a redução salarial, mesmo que isso signifique a desindustrialização de países inteiros. No Brasil , a baixa formação de capital fixo é um sintoma dessa realidade.
Com o aumento da produtividade e a expulsão do trabalho da produção, o capitalismo está “a serrar o galho em que se encontra sentado” (Anselm Jappe), e busca compensar a queda da rentabilidade com artifícios financeiros e fusões. Hoje toda empresa que se preza tem seu banco que lhe garante uma sobrevida contábil. As fusões, que vêm acontecendo com enorme ferocidade, na mesma proporção que liquidam empresas e jogam milhares nas ruas, aumenta artificialmente os preços dos papéis das empresas canibais.
Cientes do risco de não fecharem a conta, mesmo tomando todas essas medidas e produzindo a todo vapor capital fictício, ante as ameaças de transferência da produção para outros países, buscam-se outros meios para reduzir custos, agora em cima dos que não conseguem dispensar. É quando entra a terceirização, que é a forma que o capitalismo em crise encontrou para reintroduzir a mais valia absoluta, esticando a carga horária e achatando os salários. Um destaque especial para esse processo apelidado de “precarização do emprego”, cabe aos chamados PJs (pessoa jurídica). Esse empresário-empregado, cuja característica é a introjeção de práticas sadomasoquistas de autoexploração é o grupo que mais cresce entre os terceirizados no País. Essa excrescência do mundo do trabalho em crise, tende a explodir com o artigo 129 da “MP do Bem”, aprovada pelo Senado e sancionada pelo Presidente Sindicalista.
02.09.2006
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