domingo, junho 18, 2017

É possível a emancipação dentro dos limites do capitalismo?

Rall

Quando a questão é o possível fim do capitalismo as confusões são muitas. Alguns analistas veem nas novas tecnologias que levam um aumento da produtividade e automação da produção uma possibilidade de superação dessa forma de produção. Porém, não é difícil perderem-se em suas análises. Em entrevista ao Jornal Valor econômico, Paul Mason não foge à regra. Segundo ele, “o desejo de compartilhar não apenas informação, mas também bens e serviços, irá derrubar as margens de lucro e inviabilizar monopólios e controle de preços pela elite financeira. Esta, diz Mason, terá seu protagonismo substituído por um modelo mais democrático, calcado no espírito colaborativo já revelado em criações comunitárias como a Wikipédia e em experiências locais como os governos de esquerda em cidades espanholas, como Madri e Barcelona. ” Diz que Marx errou ao acreditar que a emancipação humana não poderia acontecer dentro do capitalismo. E atribui a tendência na queda da margem de lucro (Marx) ao desejo de compartilhar informações, bens e serviços.

Salta aos olhos que a economia mundial, principalmente dos países desenvolvidos, só se mantém depois do nocaute de 2007/2008, com uma injeção jamais vista de capital sem substância e com crédito subsidiado. Houve toda uma mobilização para geração de mais capital fictício através da compra de papéis podres pelos bancos centrais para salvar bancos e empresas em dificuldades, de títulos emitidos pelos governos em grande quantidade e empréstimos subsidiados a bancos quebrados e a empresas de rentabilidade duvidosa. Busca-se compensar a atual minguada produção de mais-valia, antecipando pelo crédito o consumo da mais valia-valia futura e aumentando dívidas impagáveis para alimentar a economia global que sem potência para gerar valor não mais consegue uma retomada autônoma. Nesse sentido pode-se falar em crise geral, mesmo em situações de pleno emprego como aparenta ser nos EUA e do volume de dinheiro disponível nas instituições financeiras e em circulação. O que de fato se observa é uma simulação gigantesca de acumulação real de capital.

O dinheiro abundante, porém sem valor, estar financiando através dos fundos de investimentos novas tecnologias que aumentam a produtividade e dispensam força de trabalho, reduzindo ainda mais produção de mais-valia e expandindo o consumo improdutivo, num processo que auto alimenta a própria crise. Mesmo quando reciclado na produção de mercadorias, foge a lógica de valorização do capital. Portanto, do ponto de vista da reprodução real da “riqueza abstrata”, que é o objetivo final do capitalismo, a economia não está funcionada apesar das aparências.

A crise, relacionada com a impossibilidade de valorização do capital na economia real, como consequência da revolução tecnológica e do aumento da produtividade forçada pela competição entre capitais, vem tornado supérflua a força de trabalho na produção. Nos últimos 30 anos a racionalização da estrutura produtiva expulsou mais trabalho do que absorveu. Os níveis de produtividade atingidos vêm impossibilitando esse modo de produção gerar “riqueza abstrata” em quantidade suficiente. As empresas, em busca de lucratividade, entram em concorrência mortal e são pressionadas a se “armar” incorporando tecnologias que aumentem a produtividade, sem que seus agentes tenham consciência de que as que vencerem a batalha, farão às custas da liberação de “trabalho abstrato” da produção, substância do valor, sem o qual não é possível a valorização do capital. Esse “processo cego do sujeito automático” (Kurz), incapaz de superar as contradições internas, move o capitalismo em direção ao aprofundamento da crise estrutural.

Nesse contexto, pode-se entender o “compartilhamento” como uma necessidade operacional do capitalismo, reforçada pelo uso de novas tecnologias e como forma de enfrentar momentaneamente dificuldades sociais postas pela crise. Mas é um equívoco acredita que a cooperação entre indivíduos atomizados, sob hegemonia do capital ou a partir de iniciativas sociais visando mitiga os efeitos da crise, pode levar a superação do capitalismo, mantendo-se as bases de produção vigentes como pressupõe Mason. A moderna gestão empresarial já trilha esse caminho como forma de melhor organizar a produção e aumentar a produtividade, forçada pela concorrência que não deixa de existir apesar dos compartilhamentos, dos monopólios e oligopólios setoriais que tendem a se constituir.

A “cooperação” que não ocorre entre indivíduos livres, mas sob o tacão fetichista do fim-em-si do capital, não se dar só a nível interno das empresas, onde o compartilhamento é uma exigência cada vez mais presente, apesar da acirrada concorrência. Estende-se a produção global, tornando-se quase impossível a sobrevivência de empresas que atuam fora dessa lógica que se estabelece de forma acelerada no mercado global. O que são as chamadas “cadeias globais de valores e de suprimentos” que vem rapidamente se consolidando em todo mundo facilitadas pela tecnologia da informação, senão redes de produção que abrangem diferentes áreas geográficas, de países a continentes, onde tende-se compartilhar informações e a produção de bens e serviços? Essa tendência a interdependência no capitalismo agora mais acentuada, como forma inclusive de aumentar a produtividade, de racionalizar custos e distribuir de forma desigual a escassa produção de mais-valia, é o grande obstáculo as pretensões isolacionistas de Trump e Theresa May e para os que acreditam que manobras cambiais que possam levar a desvalorização da moeda resolvam o problema do crescimento e do desemprego.   

Um outro equívoco é achar que a quebra do monopólio do sistema financeiro e da indústria de tecnologia vai criar condições para aprofundar o compartilhamento que possa levar ao socialismo. Não entende que o crescimento do sistema financeiro, numa velocidade superior aos outros setores da economia, garantindo a expansão sem limite do crédito e da geração de capital fictício, é um sintoma da crise e ao mesmo tempo o meio encontrado de empurrar para frente o colapso da forma de produção capitalista. Como a produção de mais-valia torna-se escassa com a terceira revolução industrial por tornar supérfluo o trabalho humano - substância do valor - a forma encontrada para manter o capitalismo em aparente normalidade foi a geração de capital fictício pelo mercado e pelo o Estado, “simulando” a acumulação que já não é possível na economia real, com manobras contábeis que antecipa um valor futuro que deve não se realizar. Isso exigiu o crescimento do sistema financeiro privado e estatal, com capacidade de alimentar permanentemente créditos e bolhas, mesmo sabendo-se que mais na frente as bases de sustentação cedam e as pirâmides financeiras desmoronem sobre o próprio peso, desencadeando crises com impacto em toda economia.

Esse fenômeno de crescimento sem limites da “indústria financeira” – o nome expressa uma “abstração” fantasmática, cuja a magia é transformar dinheiro em mais dinheiro sem a mediação da mercadoria força de trabalho, mas subordinado a lógica do sistema do “trabalho abstrato” autonomizado - como forma de sustentar a combalida economia, envolve a produção e a distribuição de mercadorias, os estados, as empresas e o dia a dia das pessoas, todas amarradas ao crédito, numa teia complexa denominada por alguns de “financeirização”, que submete a totalidade da economia e da sociedade as oscilações dessa forma instável, ou como se diz na gíria dos operadores financeiros, ao “humor do mercado”.

Na mesma velocidade em que cresce o capital sem substância que alimenta esse fenômeno gerado em transações espalhadas no conjunto da economia - uma inversão na forma de produção real de “riqueza abstrata”, onde a mais-valia gerada na produção deveria ser distribuída na sociedade na forma de lucro, juros, renda da terra, impostos que financiam os estados e setores improdutivos - vira pó nos próximos distúrbios financeiros sempre de dimensões crescentes. Em 2007 / 2008 quando a indústria imobiliária alimentada pelo capital fictício em todo mundo, mas principalmente nos EUA, sofreu retração com a interrupção do crédito que refinanciava as dívidas num movimento ascendente, houve uma brutal desvalorização dos imóveis enquanto a crise se esparramava de forma assimétrica para a economia global.

Portanto, não se pode falar em acumulação real a partir da expansão do dinheiro sem valor, do capital fictício, mas de “simulação” que não deixa de ser a “pós-verdade” do capitalismo em crise. Mesmo quando reciclado na produção, como aconteceu com os imóveis em várias regiões do planeta, o capital fictício deixa sua marca de destruição aos primeiros sinais de abalos financeiros, com as dimensões que lhes é própria. Reportemo-nos novamente a 2007 / 2008 quando teve início a chamada “grande recessão”: com a interrupção do crédito e forte desvalorização de capitais imobilizados, o sistema financeiro e a indústria imobiliária, mais expostos as bolhas do capital dessubstancializado, foram os primeiros colapsar nos países desenvolvidos, seguidos pelo restante da economia mundial em tempos e intensidades diferentes.

Apesar da contração da economia ter ocorrido quando a bolha de capital fictício atingiu seu limite, a saída visualizada pelos bancos centrais para impedir que a economia continuasse deslizando velozmente em direção ao buraco negro sem possibilidade de retorno, foi inundar mais ainda o mundo com esse capital, inclusive imprimindo dinheiro. Determinante para isso foi a certeza de que não seria possível retardar esse processo e retomar o crescimento pela economia real. Acreditava-se numa intervenção pontual no momento mais agudo da crise e logo sair. No entanto, o processo continua e não se percebe possibilidade de ser freado sem desarranjos catastróficos na economia.  

Até o entre guerras, era mais evidente nas chamadas crises específicas ou cíclicas, o expurgo do capital fictício e a retomada do crescimento. Agora, o que parecia um paradoxo - a injeção de mais capital fictício num momento de agudização da crise pelo excesso desse capital – tornou-se na emergência e nos passos seguintes a única saída para os gestores do capital, apesar das incertezas e inevitáveis riscos do dinheiro impresso às pressas, ao azeitar a máquina autonomizada do capital fictício, alimentar uma gigantesca bolha cujo o estouro mais na frente pode fazer 2007/2008 parecer ruído de traques em salão de festa liberando imperceptíveis fagulhas. Pela quantidade de dinheiro circulante ou acomodado sem segurança em algum lugar, muitas vezes superior ao PIB mundial, e pelo rápido crescimento das dívidas pública e privada, é provável que a super bolha, formada pelo crescimento desmesurado do capital fictício e pela montanha de dívidas, esteja chegando ao limite.     

É um engano achar que a tecnologia é capaz de definir novos rumos que possam levar a superação da sociedade burguesa nos limites do capitalismo, considerando que esta continua aprisionada a máquina do “trabalho abstrato”. Pode-se afirmar que a revolução tecnológica coloca questões antes não existentes: o desemprego crescente pelo impacto da automação, a crise do valor e do dinheiro resultante da crise do trabalho, a crise do Estado, das instituições burguesas que funcionam como aparelhos ideológicos e se constituíram até agora no amálgama da sociedade patriarcal produtora de mercadorias. A inviabilidade da equação D-M-D’ se realizar com a crise do trabalho, não é percebido pelos agentes do capital por não veem nenhuma relação entre a geração de “riqueza abstrata” e o trabalho. Ao contrário, ameaçados pela concorrência, na crise tendem a racionalizar ainda mais os custos de produção com um conjunto de medidas e uso tecnologias que aumentam a produtividade e dispensam trabalho humano.

Para força de trabalho supérflua, além das mentiras e manipulações da demagogia populista, no capitalismo “soluções” estão sempre apostas e vão desde as duas grandes guerras mundiais, as guerras sectárias onde os bandos armados cultuam a morte como passagem para o paraíso, as guerras civis longas e atrozes, e pode-se vislumbrar a possibilidade de uma guerra nuclear limitada ou mesmo total. Se as guerras já não são mais saídas para crise do capital como foram outrora, a nostalgia desse passado, na consciência coletiva fetichizada, que aumenta à medida que a crise se agrava, junto aos surtos narcisístico de demagogos encurralados por suas próprias mentiras, pode levar o mundo a guerras com armas de destruição total. A lógica destrutiva do capital tende aguçar a subjetividade afetada a medida em que nos tempos de dinheiro sem substância e crises onde não se vislumbra saídas, pode-se não mais distinguir o real do fictício.

Apesar do acúmulo real de “riqueza abstrata” ser para o horizonte do capital uma miragem sempre mais distante a medida em que a substância do valor - o trabalho humano - torna-se supérfluo, a produção de riqueza material, efeito colateral do movimento do capital, tende a aumentar com o aumento da produtividade, criando-se condições pela primeira vez na história de superar as carências e atender as necessidades humana. Os avanços tecnológicos podem criar possibilidades imensas, se liberto do fim em si do capitalismo de fazer mais dinheiro (D-M-D’ ou D-D’). Porém, coloca-se a seguinte questão: a emancipação social da forma valor, no sentido objetivo e subjetivo, exige uma ampla consciência e consenso social. Se atingida essa consciência, nas condições dadas é possível se libertar do “sujeito automático” e fazer a gestão consciente e planejada da produção conforme as necessidades sociais e os limites da natureza? É uma questão difícil de ser respondida, apesar de que se pode afirmar com certa segurança a tendência ao agravamento da crise enquanto busca-se a superação nos limites lógico do capitalismo. A tecnologia atrelado ao “sistema do trabalho abstrato”, como forma de movimento da “riqueza abstrata” (Kurz), é um risco à sobrevivência humana. A medida em que essa riqueza se torna escassa, asselvaja-se a competição e os frágeis mecanismos de controles podem não mais funcionar.   


18.06.2017

domingo, março 26, 2017

Carne fraca ou capitalismo em putrefação?


Rall

O mais recente caso de corrupção no Brasil, agora envolvendo a cadeia de produção de proteína animal, agentes do Estado e políticos trouxe à tona o que todos sabiam: quem já por mais de uma vez não comprou carne estragada bem embaladas nos supermercados e açougues ou não teve uma diarreia alimentar que se manifeste. Dar para sentir o silêncio! Desavisados, acreditavam que era só desleixo dos estabelecimentos comerciais que mantinham a refrigeração precária para economizar na conta de energia, não deixa de ser parcialmente verdadeiro. Mas o escândalo atual mostra que os tentáculos do monstro se estendem para bem mais longe: se as mãos sujas estão nas gôndolas precariamente refrigeradas dos estabelecimentos comerciais contaminando os alimentos, a cabeça está na indústria e o coração palpitante no Estado, com gente ansiosa pelo próximo presente.

Uma coisa é certa: fatos como esse e as diarreias mentais provocadas é só a ponta do iceberg, tem muito mais coisas enterradas pelo mundo à fora, junto com as vítimas dos três séculos da história do capitalismo, que jamais serão reveladas. A medida que a crise do capitalismo se agrava a tendência é aumentar a falsificação de alimentos e de outros produtos, acrescido de alguns temperos picantes para camuflar o fedor.

Há anos atrás, tive a oportunidade de ouvir a história contada por um agente sanitário, sobre a interdição da atividade de um açougue que recebia pelos fundos restos bovinos destinados ao lixo para serem processados. Depois de um rápido tratamento eram transformados em carne moída que ia rechear esfirras saborosas à paladares diversos, distribuídas por uma grande rede fabricante desse produto. Segundo o proprietário do açougue a receita não era dele, mas fornecida pelo dono da encomenda. Disse que vendia do boi o que procuravam, até os excrementos para adubo.

Podemos até concorda que máximo aproveitamento do bicho é parte da nossa cultura tropical desde os tempos das Casas Grandes e Senzalas. Vide a feijoada, o sarapatel, a dobradinha e a rabada, todos pratos saborosos, muitas vezes cozidos sem a devida preocupação com os cuidados higiênicos necessários. Aí paladar e qualidade do consumido se misturam, e o nariz é o instrumento utilizado para qualificar o que é bom, e jogar fora o estragado.

No capitalismo o que interessa não é a qualidade dos produtos, mas o retorno monetário que se vai ter daí, quanto dinheiro pode ser feito com a produção e venda das mercadorias. Portanto, o estragado se maquiado pode não ser jogado fora. Os que produzem e distribuem os produtos que chegam às “mesas das famílias” em embalagem reluzente, utilizadas para ocultar os verdadeiros conteúdos, inclusive as características sociais do trabalho, estão interessados no dinheiro que pode ser gerado e não no bem-estar do “consumidor”. Aliás, o termo “consumidor” expressa bem como homens e mulheres são vistos pelo mercado e seus agentes que não enxerga necessidades, mas quanto podem os indivíduos consumir para que haja a realização da mais-valia, a única coisa que interessa por expandir o capital, as demais são decorrentes, inclusive a qualidade sempre precária quando exigida.

No capitalismo, o valor-de-uso, ou seja, a utilidade dos objetos produzidos como mercadorias é o que menos interessa. Só interessam enquanto veículos de valorização do capital. Se a celulose do papelão e outras sujeiras temperadas como alimentos vendem e satisfaz o paladar do consumidor lapidado pelo marketing, pode até não ser caracterizado como fraude se aumenta a lucratividade de certas empresas em conformidade com a lógica cega do capital. O Estado, enquanto o grande Leviatã, aparentemente a serviço do equilíbrio social, deveria intervir e pôr limites no caráter destrutivo do capital. No entanto, seu papel regulador vem se apagando a medida que a crise se agrava e aumenta a captura de setores deste por interesses privados. Num processo que parece regride aos primórdios do capitalismo, onde o Estado desempenhava papel determinante na acumulação primitiva organizando guerras e saques, agora, além das guerras, age na geração de capital fictício imprimindo dinheiro sem valor, antes considerado fraude, e na administração autoritária da crise sem, no entanto, resolvê-la.    

As autoridades da exigentes Europa e dos demais países desenvolvidos, deveriam olhar bem ao seu redor e não manipular com um discurso de que o problema é só do outro. Se os países da periferia do capitalismo têm sua miséria social e moral ampliada pelo impacto da escassez do dinheiro, tornando-se mais evidente o vale tudo pela acumulação nas economias colapsadas pela crise do valor, a lógica que os afeta não é diferente da mesma que levou a Volkswagen pagar bilhões de euros nos processos abertos contra a falsificação de resultados da emissão de poluentes pelos carros por ela fabricados, através de um programa intencionalmente desenvolvido para tal. Para não ser maçante fiquemos com essa lembrança entre milhares de outras já esquecidas pela memória coletiva obnubilada por uma subjetividade esgarçada pela desesperança de quem teima em buscar saídas nos limites do capitalismo. O chamado escândalo da “carne fraca”, assim como outros, deve ser visto com o ampliar de uma lupa do que estar em gestação no mundo das mercadorias, não importa o estágio de desenvolvimento dos estados-nação.

Quando o processo de valorização na economia real para e o capitalismo em profunda crise não é mais capaz de atingir seu objetivo de acumular “riqueza abstrata”, tudo é de se esperar para atender aos impulsos do “sujeito automático”, que dá a forma a sociedade burguesa e molda a subjetividade de um viver para fazer mais dinheiro: da reembalagem de alimentos estragados, com ajuda de temperos fortes para dissimular o odor e dar gosto a comida dos famintos, as pirâmides financeiras e emissão de dinheiro sem valor pelos bancos centrais, ao surgimento de um nacionalismo regressivo, com fortes doses de sexíssimo, racismo e discriminações de toda ordem própria de um patriarcalismo exacerbado que tende aumentar a violência social e estatal, desembocando em guerras permanentes e não declaradas. Nesse estágio da crise, onde a competição chega ao extremo, a única energia que brota das entranhas do capital em fermentação putrefato, e que afeta desde bem-nascidos e privilegiados aos deformados pela miséria em que estão mergulhados, é a pulsão da morte.   


26.03.2017

segunda-feira, novembro 28, 2016

O neonacionalismo de Trump como aparente reação ao fracassado neoliberalismo dos adversários

Rall

A vitória de Trump traz à tona a questão do desemprego e do subemprego nas áreas antes industrializadas dos EUA e de outras partes do mundo. Ao sentir-se cada vez mais supérfluo com automação da produção, os trabalhadores americanos reagiram contribuindo massivamente para eleição de um candidato que soube manipular os sentimentos de medo e de insegurança que dominam as regiões em acelerada desindustrialização e empobrecidas. A responsabilidade pela crise do emprego é atribuída de forma simplista a deslocação da indústria americana para o Sudoeste Asiático, México e, principalmente, para China. Os imigrantes latinos são acusados de competir de forma desigual com os trabalhadores brancos nativos e de disseminarem a violênciaږꀀ﷽﷽﷽﷽﷽﷽﷽﷽~çãliberalismoo, sendo os mexicanos o principal alvo.

A aparência manifestada pela crise do capitalismo é tomada como sua essência, inclusive por analistas que se opõem a Trump por outros motivos. Em nenhum momento a questão fundamental da crise da mercadoria, da valorização, da acumulação de “riqueza abstrata” (Marx), do dinheiro é considerada. É preciso entender como o aumento da produtividade pela cientifização e automação da produção, que há décadas vem tornado o trabalho (substância do valor) supérfluo, afetando a formação de “riqueza abstrata”, é determinante para as questões abordadas.

Esse novo momento de desemprego ascendente, o que ainda resta de postos de trabalho são precarizados e os salários rebaixados numa espiral sem fim, para sustentar um anêmico crescimento que se fundamenta na desigualdade e na geração de capital fictício. A abundante oferta de mão de obra no globo tende a segurar a difusão de novas tecnologias nos setores mais atrasados da economia que se beneficiam dos baixos salários. Daí resulta uma grande assimetria no crescimento da produtividade, com setores da produção e países diferenciando-se, enquanto em outras regiões os baixos salários ainda compensam o não investimento na automação ou nem mais interessam ao mercado capitalista. Essa assimetria pode levar, momentaneamente, a uma queda da média da produtividade a nível global, principalmente nos momentos de agudização da crise.   

Por isso a grande diferença no aumento da produtividade, quando comparados setores mais dinâmicos com os mais atrasados: “Enquanto a centena de indústrias que se encontram naquilo que a OCDE define como a fronteira global da inovação aumentaram a produtividade do trabalho a um ritmo de 3,5% ao ano, desde o início do milênio, a média do setor não foi além de 1,7% anuais. No setor de serviços a distância é ainda maior: 5% para as companhias mais avançadas e 0,3% para o conjunto” (Ricardo Abramovay – “Desigualdade e produtividade” - Jornal Valor Econômico, 01.09.2016).

No entanto, essa freada na produtividade média em conjuntura de crise, pode ser revertida na medida em que a nível global aumentar a concentração do capital e que continue em queda o preço das máquinas e das tecnologias de automação, compensando a substituição da força de trabalho, e a concorrência forçar os países e setores da economia poucos produtivos que usam mão de obra intensiva, movimentarem-se para não serem expulsos por empresas mais produtivas detentoras de tecnologias avançadas. A avidez de China pela compra de empresas europeias e americanas de tecnologia de ponta é um indicador importante desse movimento.

Por outro lado, com os avanços tecnológicos e automação que possibilita as indústrias com plataformas 4.0 funcionarem 24 horas praticamente sem trabalhadores, empresas americanas e europeias instaladas em outros países, atraídas pela abundância de força de trabalho e baixos salários, e que produzem para exportar para os mercados de origem, já começam a fazer o caminho de volta sem, no entanto, gerar empregos como pretende o Sr. Trump e seus iludidos seguidores.

Nessa conjuntura assimétrica quanto ao uso de tecnologias na produção, os setores mais dinâmicos tendem concentrar mais riqueza abstrata, beneficiando-se inclusive da transferência do que ainda resta de mais-valia produzida nos setores e regiões atrasadas, que aos pouco vão se descolando da produção capitalista, transformando-se em terras arrasadas onde o Estado não mais funciona e o que resta é disputado a tiros por gangues armadas. Situação que atinge países inteiros ou bolsões de miséria, inclusive dos mais ricos. Essa é talvez a principal causa das grandes desigualdades entre países, e nestes entre suas populações, sem solução à vista.   

Nos setores mais produtivos, transitam os trabalhadores com salários diferenciados. No entanto, com o avanço das tecnologias da informação, num aparente paradoxo, o tempo de trabalho vem se prolongando, desmentindo as teorias de que com a automação e aumento da produtividade é possível a redução do tempo nas jornadas de trabalho. Ao contrário, é cada vez mais comum os trabalhadores ao deixarem o ambiente empresarial, continuarem com atividades relacionadas ao trabalho em suas residências e ocupando o chamado tempo livre, que já não é tão livre.  

A queda observada nos custos de incorporação de novas tecnologias à produção, não significa prescindir do capital financeiro. Os enormes agregados de capitais, há muito deixaram de ser financiáveis apenas com capitais próprios. Duas questões devem ser consideradas: na medida em que o capital na concorrência global é forçado a se concentrar, torna mais caro o financiamento de sua expansão pela dimensão das operações. Segundo, as tecnologias incorporadas nesse processo tendem a impactar negativamente na massa de mais-valia pela redução do consumo de “trabalho abstrato” e, consequentemente, na rentabilidade, levando esses agregados a recorrerem cada vez mais ao capital financeiro especulativo para turbinar seus lucros que perderam o brilho na economia real.

Portanto, o que se costuma chamar de "financeirização da economia", não é um fenômeno que tem origem no capital financeiro e pronto. Fundamenta-se na crise de valorização do capital na economia real, que para aparentar “sca reconhecer fronteirasendenda vez mais curtos, lturasrentável” necessita operar nos espaços do capital financeiro, gerando capital fictício em aplicações especulativas que retorna as empresas contabilizado como aparente lucro, e na necessidade do financiamento dos investimentos. Com isso o capital financeiro passou a crescer de forma exponencial e ter uma importância grande no funcionamento e manutenção da economia global moribunda.  aeconomia real.r sobre aro passa a ter uma auas residÇencias

Quando os mecanismos de gerar capital fictício no mercado para financiar a economia falham, como observado na crise de 2007/ 2008, o Estado assume a função de credor de última instância, através da impressão de dinheiro (sem substância), compra de papéis podre de crédito privado e juros negativos para lubrificar a economia real e fazê-la andar, até que os mecanismos do mercado geradores de capital fictício voltem a funcionar e logo desemboque inevitavelmente em uma nova crise financeira de proporção bem maior que a anterior, como vem acontecendo. Muito mais importante que a inflação e o desemprego, o que o Fed (banco central americano) hoje avalia é se o mercado financeiro consegue se manter sozinho nas alturas com as próprias pernas, gerando capital fictício suficiente para que a economia real não entre de vez em colapso. Esses círculos de crises financeiras cada vez mais curtos é um sintoma do “limite absolutos da valorização do capital” (Kurtz), prenunciado por Marx.  

No caminhar da Terceira Revolução Industrial (ou quarta, como passou a ser chamado esse novo momento do capitalismo), depois da automação da indústria e da agricultura ainda em processo, os sinais de um grande salto vêm sendo observado nas inovações tecnológicas que permitem comunicação em tempo real entre objetos domésticos, equipamentos, máquinas e homens. Impactantes também são as tecnologias desenvolvidas para os serviços oferecidos pelo setor terciário, principalmente para os relacionados diretamente à produção de bens tangíveis e intangíveis como logística, contabilidade, vendas, pós-vendas e atenção ao consumidor. Não se tem claro os números de postos de trabalho que serão fechados nos próximos anos com essa nova onda de automação e utilização em larga escala de tecnologia de informação que atingirá a produção e a circulação das mercadorias, mas sabe-se que vai ser bem superior ao até agora assistido. sem rumolhar de vez o trem ral como a desregulamentaç

O contingente de desempregados resultante dessas mudanças, são presas fáceis dos discursos demagógicos que apontam soluções mágicas para um cotidiano devastado e sem perspectiva, mantido sobre lógica da valorização com custos humanos e ambientais terríveis. Novos Trumps e Brexits devem aflorar mundo à fora. Mesmo que se fechem todas as fronteiras e se desfaçam todos os acordos comerciais, não vai mudar a lógica implacável do capital que movido pela concorrência brutal tende se expandir sem reconhecer fronteiras, e cada vez mais busca o aumento da produtividade, como forma de racionalizar custos e se tornar rentável num senário desfavorável, dispensando força de trabalho, mesmo que isso possa leva-lo ao juízo final.

Se o neoliberalismo era uma tentativa de limpar os “entulhos” à valorização, deixando livre o caminho para o movimento sem peias do capital, num esforço para transformar até o ar que respiramos em mercadorias e de empurra para frente os impasses da crise que não consegue solucionar, o seu fracasso pariu um disforme nacionalismo, com um discurso preso ao pior da política da qual diz querer se livrar. Em defesa do mercado interno e da geração de empregos, Trump promete criar empecilhos capazes de dificultar a forma como o capitalismo avança e, ao mesmo tempo, se aproxima de seu ponto de inflexão. Apesar da tarefa não ser fácil, a violência de uma gestão autoritária com arroubos de que tudo é possível, pode descarrilhar de vez o trem sem rumo do capital.



25.11.2016

domingo, junho 26, 2016

Não há luz nem fim de túnel no capitalismo

Rall

Apesar da constatação do aumento da dívida global ser um elemento fundamental na instabilidade e determinante de sucessivas crises financeira, e do discurso da importância da desalavancagem para evitar novas crises, em contradição com o esperado e com desenhado nos modelos acadêmicos, a dívida global continua a crescer e deverá desembocar inevitavelmente em novas crises. Entre que para os economistas deveria ser o lógico e as incertezas do real, está a incapacidade de acumulação da economia mundial. O excesso do endividamento, depois da crise financeira de 2007/2008 pelo mesmo motivo, surge como uma necessidade para manter de pé a economia moribunda e como forma de empurrar para frente o colapso do capitalismo.

Os juros negativos definidos pelos bancos centrais dos países ricos, foi o meio imposto pela realidade econômica aos governos, para evitar uma nova crise no curto prazo com inadimplência em massa e impacto financeiro de proporções avassaladora. Juros baixos ou negativos é uma forma encontrada de administrar a crise, estimulando o consumo e, ao mesmo tempo, com queimas homeopáticas de capital, distribuindo o prejuízo por alguns setores da economia, sem poupar os bancos que, se tem dificuldade de sobreviver a juros negativos no longo prazo, já estariam em colapso se essa medida não fosse aplicada, arrastando os outros setores da economia. Por outro lado, se os bancos centrais aliviam as perdas do setor financeiro imprimindo dinheiro para compra de créditos podres e emprestam a juros negativos aos bancos privados, os estados nacionais endividados reduzem o aporte de recursos às áreas sociais e desmontam as conquistas trabalhistas. No Brasil a bola da vez nos cortes do governo de plantão é a saúde, a educação e o fim dos direitos assegurado aos trabalhadores com a possível aprovação pelo Senado da terceirização das atividades fins.

O medo de uma deflação com estagnação nos países do centro do capitalismo, tem transformado em realidade a sugestão de Milton Friedman, o que oras.vamos.cid aporte de  de dinheiro“jogar dinheiro de helicóptero”, inundando a economias global de capital fictício sem, no entanto, debelar a crise, o que assombra os chamados formuladores de políticas econômicas. Nos países da periferia do capitalismo, o medo é da estagnação com inflação, fenômeno assistido em países como o Brasil, Rússia e Turquia entre outros nos vários Continentes. Na periferia, diferentemente do centro, a receita para crise é retirar dinheiro de circulação, o bem conhecido arrocho monetário, que sempre vem acompanhado de graves repercussões sociais. Os dois fenômenos, deflação e inflação com crise econômica, são partes de uma mesma realidade: as dificuldades de acumulação de capital pela incapacidade da economia real gerar em quantidade suficiente mais-valia com a crise do trabalho.  

A política de estímulo ao consumo pelo endividamento a juros baixos em países como o Brasil não deu certo. E esse fracasso não está relacionado com a resistência de setores que se beneficiam dos juros altos, como é voz corrente entre economista da esquerda e alguns empresários nacionais endividados. Diferentemente dos países ricos, cujo o aumento da produtividade impacta na redução dos preços das mercadorias, aqui o que se observa é a produtividade do trabalho estagnada em setores importantes da economia, associada a um desequilíbrio cambial e a ruína das contas públicas, cujo impacto da rapinagem não deve ser desprezado. Nos países do centroociedade mais harmoniosa e maiso capitalismo “jogar dinheiro de helicóptero” gera algumas dúvidas, mas é pouco questionada apesar dos efeitos colaterais da expansão monetária. Em artigo sobre o crescimento da dívida nesses países depois do impacto do estouro da bolha de crédito em 2007/ 2008 Ken Brown afirma: "governos, empresas o que oras.vamos.cid aporte de  de dinheiroe pessoas gastam agora em vez de depois" - ou seja, antecipam o consumo da mais-valia e dos salários - "o que tende a reduzir o crescimento futuro". O articulista prevê a redução do crescimento futuro pelo consumo no presente da presumível riqueza futura, utilizando-se de crédito amplamente facilitado, mas fica por aí.

Como a teoria da crise do trabalho e do valor explicar esse fenômeno?

1. Para melhorar as taxas de lucro deprimidas, as empresas buscam aumentar a taxa de mais-valia relativa incrementando a produtividade, para enfrentar a concorrência. Com isso, mantendo-se constante o tempo de trabalho, a tendência é o aumento relativo do mais-trabalho em relação ao trabalho necessário. Por outro lado, o aumento da produtividade nas empresas produz um maior número de produtos por trabalhador em um mesmo período de tempo de trabalho, fazendo com que haja redução dos preços, já que para esse aumento da produção não cresce o dispêndio de trabalho. Nessa condição, as empresas tornam-se mais competitivas e a reprodução do valor da força de trabalho garante as condições mínimas de subsistência do trabalhador pelo barateamento dos produtos de seu consumo. O achatamento dos salários a nível global em progressão há décadas, está relacionado com o aumento da produtividade do trabalho que leva a dispensa dos trabalhadores e ao aumento da mais-valia relativa em relação a parte do valor criado que corresponde aos salários pagos.   
 
2. O incremento da produtividade, determinado fundamentalmente pela revolução tecnológica, que vem tornando supérfluo o consumo da mercadoria força de trabalho no modo de produção capitalista, tende a impactar negativamente na formação da massa de mais-valia.

3. Para compensar a retração da acumulação de “riqueza abstrata” pela redução da geração de mais-valia, o crédito antecipa o consumo no presente da massa dos salários e do mais-valor a serem gerados no futuro. Pressupõe-se aí que a reprodução dos salários e mais-valia (lucro) no porvir terá que cobrir as dívidas do consumo no presente e as que se formarão no caminho para o futuro que pode não ser alcançado.

4. Como por força da concorrência e da necessidade de manter os lucros, na produção capitalista a cientificização, automatização e a dispensação da força de trabalho só tende a se intensificar, o presente aponta para uma redução ainda maior da massa de salários e da mais-valia futura, e com isso a impossibilidade de saldar as dívidas acumuladas atualmente e as que estão em processo para anos vindouros.

5. Com dívidas acumuladas e a redução da “riqueza abstrata” pela a queda da massa de valor e mais-valia social produzida por diversos capitais, a economia global não tem outra saída que não seja elevar as dívidas à patamares superiores, com um problema: as dívidas do passado, somam-se as dívidas cada vez maiores do presente e, à medida que o tempo avança no futuro sombrio do capitalismo e a força de trabalho é substituída por novas tecnologias de produção de bens e serviços, reduz-se ainda mais a geração de valor e mais-valia.

6. O limite da dívida global é também o limite interno absoluto (Marx) do capitalismo. Quando atingir o ponto de não mais ser possível gerar “riqueza abstrata” (dinheiro), ou só produzir resquícios de mais-valia em função do não consumo da substância do valor na produção, o “trabalho abstrato”, entra num impasse a necessidade de se aumentar a dívida para que a máquina capitalista continue funcionando. Já não se vislumbra qualquer chance de se pagar dívidas públicas ou privadas e as dificuldades de as rolar para o mais longínquo futuro são crescentes. As dívidas com prazos para serem liquidadas daqui a meio século já dão o que pensar.
 
A possibilidade de o jogo da dívida durar para sempre, como antever alguns, seria possível se capitalismo pudesse sobreviver a permanente crise da desvalorização do capital total sem colapsos violentos da economia mundial e sem questionamentos. No entanto, o processo de encolhimento da massa de mais-valias, em velocidade cada vez maior pela redução da substância do valor, o “trabalho abstrato”, numa economia que a cada dia cresce a dispensa da força de trabalho pela introdução de tecnologias de automação na indústria e nos serviços, mesmo que haja aumento da produção, a mais-valia futura tende a cair em proporção inversa ao aumento da produtividade. Vive-se um momento paradoxal para o pensamento burgueses, algo que não estava previsto pelos seus analistas em mais de três séculos de capitalismo: a medida em que cresce a produção de bens e serviços pelo o aumento da produtividade com as novas tecnologias, capaz de satisfaz as necessidades da população, acompanha essa revolução na produção a queda na formação real de “riqueza abstrata”. Para manter a economia em aparente normalidade, forja-se a acumulação com capital fictício, que desemboca mais tarde ou mais cedo em crises financeiras de gravidade crescente.

Situação descrita como o "novo normal”, economistas e autoridades financeiras, veem no rolar da bolha da dívida que cresce sem parar num tempo que acreditam ser eterno e a-histórico, como inevitável. Considerando que a preocupação das camadas hegemônicas não é sair da crise, pois o fato é que não enxergam saída, mas administrá-la conforme seus interesses sem pensar em outro modo e relações de produção, o chamado “novo normal” tem seus motivos ideológico. Logo se vê que o capitalismo está em transição para um estado totalmente insustentável, já que que os grupos hegemônicos nada pensam mudar: caminha-se para um capitalismo movido exclusivamente por capital fictício, aonde a acumulação de “﷽﷽﷽﷽﷽﷽﷽﷽er umo dessa abstraçnormal tem upopuativos no longo prazo, riqueza abstrata” pela geração de mais-valia, objetivo último da produção capitalista, deixa de existir. Isso é possível ou é uma ilusão dos que acreditam na eternidade do capitalismo? As frequentes crises financeiras, mostram que um capitalismo onde a “riqueza abstrata” já não é uma “abstração real” (Marx), mas um simulacro dessa abstração, sem origem nas relações sociais de produção de mais-valia, não se sustenta.

O que vem pela frente não é previsível. Tanto pode ser a superação da sociedade atual centrada na competição destrutiva e a passagem para uma sociedade mais harmoniosa e solidária, com a transmutação do objetivo final do capitalismo de acumulação de “riqueza abstrata” para uma produção dirigida ao atendimento das necessidades dos indivíduos, como pode a sociedade manter-se atolada na crise, com o risco até mesmo da extinção da espécie humana pelo esgotamento da natureza e pelo acirramento a níveis insuportáveis dos conflitos sociais, levado pela concorrência em busca da acumulação dessa riqueza cada vez mais escassa.

O que era possível após a segunda guerra mundial e até o final dos anos sessenta nos países do centro e mesmo na periferia do capitalismo, um certo equilíbrio entre a acumulação e a distribuição de riqueza pela ação dos Estados, deixa de existir com a crise que tem levado os Estados abandonarem as políticas sociais na tentativa de salvar o sistema. Enquanto não for possível o planejamento e administração das coisas, e prevalecer as categorias cegas e destrutivas do capital a crise é permanente, mas não dura para sempre.


26.06.2016

domingo, março 20, 2016

Para onde apontam as manifestações nas ruas?

Rall

As manifestações voltam com força nas cidades do Brasil. As de domingo 13.03.2016 são as maiores da história do País. Apesar de focadas no combate a corrupção, no PT e no afastamento de Presidenta Dilma, há uma desconfiança enorme da política e dos políticos. Os que se aventuraram comparecer tiveram problemas com os manifestantes apesar das articulações da oposição com os grupos que se colocam como a “vanguarda” do movimento.

O que vem caracterizado as ruas desde as primeiras manifestações é a espontaneidade e uma profunda desconfiança, senão rejeição à político-partidária como a conhecemos, situação que parece está em desacordo com o que pensam os grupos organizados do movimento que mantém estreias relações com alguns partidos. Portanto o abaixo Dilma e PT, estende-se a todas as cores partidária e seus caciques. Alguns da oposição que se aventuraram comparecer às manifestações foram obrigados bater em retirada depois de hostilizados.

Não se sabe, no entanto, se a rejeição à política está só relacionada com a percepção de que a corrupção é um fenômeno generalizado ou também com o sentimento de que a política já não mais dá conta das questões postas pela crise, ou um viés autoritário claramente manifesto por alguns manifestantes ou, mais provável, as três coisas em dimensões diferentes.

É possível que os limites internos que impedem o capitalismo continuar crescendo seja imediatamente sentido pela crise das instituições que lhe dão sustentação, antes mesmos da consciência de que estamos a caminho de um colapso total. Daí posições diversas podem emergir como o aprofundamento da crítica às instituições burguesas de variados matizes e, raramente, a seu modo de produção. Porém, tende acentuar-se a ilusão de que limpando a sociedade de corruptos e corruptores, mesmo ao arrepio da Constituição, possa se desenhar um mundo diferente que leve a solução da crise econômica e social, como se fosse possível.

A crítica radical às instituições que dão sustentação ao capitalismo, por si uma forma corrompida de produção se considerarmos que o objetivo é acumular riqueza abstrata e não atender às necessidades das pessoas como aparenta, pode ampliar a consciência de que é possível construir alternativas além dos limites impostos pela sociedade capitalista em crise, mesmo que essas alternativas se manifestem como pontos opacos não delineados no horizonte, mas que podem ser vislumbradas como opção a um mundo que se desmorona à olhos vistos.

Embora a ilusão de que se possa “domar” as categorias do capital (Estado, mercado, trabalho abstrato, valor, dinheiro etc.), moldando-as através de uma política limpa dos excessos aos interesses da sociedade seja mais atraente, pensar em mudanças fora dos limites do capitalismo é uma possibilidade sem garantias à medida que a situação se agrava. A ideia de uma “faxina” na política como solução, além de simplificar o real, tende desembocar num moralismo de momento falacioso e na defesa da gestão autoritárias da crise sem, no entanto, resolve-la. Pode também abrir espaço para o surgimento de posições retrógradas que defendam o aprofundamento do apartheid social, a descriminação sexual, a indiferença ao impasse ecológico e que tendem a responsabilizar o capital financeiro pelos males do capitalismo como se tivesse lidando com coisas diferentes.   

Algumas posições latentes aparecem quando parte dos manifestantes ao se expressarem não fazem só através de palavras de ordem genéricas. Em entrevista de nove manifestantes publicada pela Folha de São Paulo em 14.03.2016, quando a repórter perguntou sobre a opção eleitoral para Presidente da República, três mencionaram admiração por um político da extrema direita ligado a grupos obscuros do antigo regime ditatorial e um quarto pediu sem rodeios o retorno dos militares ao poder. Pode não ser uma amostra significativa, mas se prestarmos atenção ao clima das manifestações, os comentários das pessoas e a virulência discriminatória nas redes sociais dá para sentir um ar contaminado de coisas não muito boa.  

Isso, porém, não isenta e nem “absorve” as esquerdas governistas, com seu discurso cínico e sempre ajustado ao momento, quando acusada de chafurdar na lama da corrupção em busca de enriquecimento pessoal de mãos dadas com a direita que antes criticava. Ela é parte importante desse processo, mas reage como se nada tivesse a ver. As escutas telefônicas vazadas e as falas dos depoentes das delações premiadas, principalmente do Senador Delcídio do Amaral, peça-chave em vários governos, são mais reveladores do imbricamento entre Estado e mercado, o público e o privado na sociedade capitalista do que qualquer tratado sociológico. A reação da população à política está relacionada com a percepção real de que as diferenças entre os partidos na democracia são formais e desaparecem quando no poder.

É possível que não muito tarde descubra-se que a corrupção é intrínseca ao sistema. A operação “Mãos Limpas” que na Itália varreu da política os grandes partidos corrompidos até a medula, especializados em desvios de somas vultuosas de dinheiro público, que parecia livrar a política italiana de maus políticos, pariu Berlusconi. O novo era na verdade tão velho quanto os que foram punidos principalmente nas urnas, só que com a experiência acumulada pelo fracasso dos antecessores sofisticou-se a roubalheira.

Mesmo com todas revelações e mobilizações o tempo mostrará que as saídas são mais difíceis do que esperam os paladinos da moralidade que acreditam ser possível a construção de um capitalismo isento de corrupção. A medida que o tempo avança observa-se entre os atores mais lúcidos que atuam na Operação Lava Jato, um certo desespero por não vislumbrarem soluções duradouras para o problema da corrupção à longo prazo. São com isso tentados transgredir os limites da ordem burguesa. dos﷽﷽﷽﷽﷽﷽﷽a situaços burros ´ns plos de buscas de sa


A história recente está cheia de exemplos de movimentos que buscaram saídas para crises econômicas e sociais no âmbito do próprio modo de produção capitalista e para Estados capturados por interesses de grupos ou famílias que deram com os burros n’água. Basta olhar a situação dos países Árabes na Pós-Primavera, da Ucrânia e outros aonde a troca de governos, depois de arrefecer o ímpeto das massas muitas vezes sobre repressão brutal, se deu entre máfias sedentas de dinheiro, poder e sangue. Será aqui diferente?

Aos que abraçaram a crítica radical e acreditam na possibilidade da emancipação, resta levantar as questões dolorosas sem se curvar às tendências do momento ou aos equívocos dos movimentos sociais permeados por interesses imediatos.



20.03.2016             

quarta-feira, agosto 12, 2015

O capitalismo, a corrupção, o Brasil e a crise

Rall

A crise bate forte nas portas da frente e dos fundos e não tem resposta. Ameaça derrubar a casa e suas frágeis estruturas. Sem condições políticas de gerenciá-la, o governo entra em pânico! O Estado, expostas as entranhas, mostra a sua verdadeira relação com o privado em todos os níveis. O que é a corrupção se não o imbricamento simbiótico entre o Estado e o setor privado, fenômeno inerente ao modo de produção capitalista? Os partidos, apesar dos apelos enganadores, nos momentos de crise dizem o que são na sociedade produtora de mercadoria: “correias de transmissão” entre os interesses privados empresariais e os Estados Nacionais. Já no processo eleitoral, colocam-se na condição de facilitadores dos negócios em troca de vantagens financeiras para os grupos partidários e mesmo para enriquecimentos pessoais, não importa as cores que ocupam no espectro político. A relação intensa, porém tensa entre o Estado e o mercado, aparentemente pode ser quebrada em operações como a Lava a Jato. Mas não é, como não foi no Mensalão e em centenas de outras já esquecidas pela memória coletiva. Enquanto alguns elos são quebrados surgem outros com mais força e sofisticação, difíceis de serem detectados.

O Estado Moderno, consideradas as variações no tempo e no espaço, sempre foi e sempre será o balcão dos grandes negócios da sociedade capitalista, com algumas funções infraestruturais, reguladoras e sociais. Na acumulação primitiva do capital, que se inicia com a desintegração dos feudos no período medieval, era principalmente o Estado Absolutista, quem através do uso da força sem limites, usurpava, matava, disciplinava e empurrava para “gaiola de ferro” (Weber) a força de trabalho necessária à acumulação da “riqueza abstrata”, provocando enormes deslocamentos forçados da população para os centros fabris em formação. Acompanhavam essa movimentação a miséria, a fome e as doenças resultantes das relações sociais estabelecidas, dos espaços insalubres e contaminados das cidades em crescimento desordenado, dos ambientes e condições de trabalho precários. Para as novas situações leis são elaboradas pelo Estado Moderno em formação, compondo o arcabouço jurídico-institucional que negava a velha ordem e abria caminhos para o rápido crescimento da acumula capitalista, formalizando as relações da sociedade burguesa em expansão.

Certa independência do Estado em relação a produção e ao mercado, ou períodos de crescimento aparentemente autônomo da produção e da acumulação, manifestadas no transcorrer do desenvolvimento capitalista, não rompe a indissolúvel relação: um não consegue viver sem o outro, são irmãos xifópagos que compartilham as mesmas vísceras e o mesmo ar que respiram. Basta que crises os ameacem para que deixem de lado as ilusões ideológicas e busquem socorrerem-se mutuamente. Nesse sentido, a agudização da crise em 2007/2008 foi muito rica em exemplos de como os Estados do centro do capitalismo, criticados severamente pelos operadores do mercado e pelos neoliberais como um estorvo ao desenvolvimento, são mobilizados em todo mundo pelos grupos privados e ideólogos que os criticam para salvá-los do colapso. Num pacto para preservar interesses, os Estados transferem para si parte do ônus da crise. Portanto, os déficits e as dívidas dos Estados aumentaram exponencialmente com as renuncias fiscais e queda da arrecadação. Os bancos centrais passaram subsidiar os juros e a imprimir dinheiro para comprar papéis podres, de créditos mal parados, que pesavam negativamente no balanço das empresas privadas, principalmente dos bancos que corriam o risco de colapso sistêmico.   

Para acabarem com a corrupção, os paladinos da justiça teriam que desatar o nó dessa relação, destruir a “gaiola de ferro” que aprisiona a força de trabalho, e decretar o fim da geração da “riqueza abstrata”, ou seja, do dinheiro. Não sendo o caso, a corrupção simplesmente deverá mudar de lugar e nome: antes Mensalão, hoje Petrolão, amanhã Eletrolão... Se olharmos para trás e estabelecermos uma linha de tempo imaginária dos negócios sem transparência entre o setor público e o privado, vamos perdê-la de vista, pois ela tem a mesma extensão da linha de tempo da existência da Sociedade Moderna.

O conceito “corrupção”, definido por padrões éticos de um Estado idealizado que nunca existiu, surge como tentativa de preservar alguns espaços da invasão da mercadoria-dinheiro. No entanto, a história mostra que a concorrência por mais dinheiro tende ocupar todos os níveis da sociedade burguesa, quebrando as frágeis barreiras do discurso ético e do que deveria ser função do Estado. Essa lógica cega e destrutiva, que é a lógica que move o capital, é institucionalizada a todo instante em todas as esferas da sociedade burguesa, mesmo que não seja claramente percebido.

 No setor privado, o toma-lá-dá-cá que geralmente favorece os que estão na alta gestão das empresas, muitas vezes recebe nomes pomposos para esconder o verdadeiro significado das operações, cujos valores são determinados pelos próprios favorecidos. Qual o significado dos ganhos astronômicos dos executivos e de suas assessorias arrancados de empresas muitas vezes pagando salários miseráveis e com risco até mesmo de fechar? A lógica é a mesma, porém aceita pela sociedade e até louvado como meritocrático. A expansão sem limites do capital fictício (geração ou impressão de dinheiro sem lastro, bolhas financeiras etc.) pelo mercado e pelo o Estado para manter a economia em movimento, pode ser vista como esse processo levado ao extremo.

No entanto, tudo isso são sintomas muito forte da crise fundamental do modo de produção capitalista, dos limites de acumulação de “riqueza abstrata” e, consequentemente, das instituições que lhes dão sustentação. A tendência é o acirramento da disputa pela riqueza escassa, com aumento da desigualdade como apontam os estudos de Thomas Piketty e de outros pesquisadores. A retomada de hipótese da “estagnação secular” pelo ex-secretário do Tesouro americano Larry Summers, reconhece que a propensão em investir e consumir nos países desenvolvidos é tão baixa que só será possível à retomada da economia com taxas de juros reais negativos por longos períodos. Vê na economia estagnada do Japão, com deflação persistente, o espelho do desenrolar da crise na Europa e nos EUA. A “estagnação secular” pode ser a manifestação fenomênica da crise do valor quando a economia é analisada utilizando-se os instrumentos da macroeconomia. A situação duradoura apontada, de baixo ou nenhum crescimento, parece um indicador importante de que a crise não é cíclica, mas não a explica. Quando afirma que os baixos níveis de produtividade compõe o quadro da estagnação, não entende o que fundamenta a crise da acumulação real: a revolução tecnológica que movida pela concorrência global em busca do aumento crescente da produtividade e de novos mercados, torna supérfluo o trabalho, substância do valor.    

Se as investigações que estão levando figurões à cadeia tem uma utilidade é mostrar que o Estado, enquanto o outro lado da moeda na sociedade capitalista, é regido pela mesma lógica que a anima: fazer dinheiro. Com a crise do valor e do dinheiro, o financiamento do Estado passa a ser um problema e os mecanismos que possibilitam algum equilíbrio contra a concorrência predadora são facilmente capturados pelos grupos de negócios, apesar das resistências pontuais no interior do aparelho estatal. O Estado brasileiro, com o agravante de um Estado saqueado que chegou ao seu limite, entrou num processo de desagregação muito difícil de ser estancado ao ser arrastado pela crise estrutural do capitalismo e das instituições políticas que agora batem as portas. Mesmo com alguma resistência na esfera estatal, o que desponta no horizonte é a formação de grupos mafiosos, cada vez mais agressivos, em lutam pela posse do espólio e para manter posições.          


12.08.2015

quinta-feira, abril 16, 2015

Terceirização, a impossível saída para crise

Rall

“Nos Estados Unidos apenas três em cada dez trabalhadores são necessários para produzir e disponibilizar os bens que consumimos. Tudo o que extraímos, cultivamos, projetamos, construímos, elaboramos, fabricamos e transportamos - da preparação de uma xícara de café na cozinha de um restaurante a levá-la à mesa do cliente - é realizado por cerca de 30% da força de trabalho do país.  

Os demais 70% de nós passamos nosso tempo planejando o que fazer, decidindo onde instalar as coisas que produzimos, realizando serviços pessoais, conversando uns com os outros e mantendo controle sobre o que está sendo feito, para que saibamos qual é o passo seguinte. E, no entanto, apesar de nossa evidente capacidade para produzir muito mais do que precisamos, não parecemos ser abençoados com superabundância. Um dos grandes paradoxos de nosso tempo é que trabalhadores e famílias de classe média continuam a viver em dificuldades numa época de abundância sem paralelos. (J. Bradford DeLong, professor de Economia na Universidade da Califórnia, em Berkeley, e pesquisador associado do Birô Nacional de Pesquisa Econômica)”.

O que primeiro salta aos olhos nesta constatação é a relação entre trabalho produtivo e improdutivo. Quando o autor afirma que só 30% dos trabalhadores americano produzem o que é consumido no País, desde a extração da matéria prima até o produto final, inclusive o transporte e os serviços relacionados com o consumo desses produtos, não sabe, no entanto constata o que Marx chamava de trabalho produtivo, relacionado com a geração de mais-valia na produção de mercadorias enquanto valor. Podemos dizer que os demais 70% dos trabalhadores a que se refere, estão gastando suas energias em trabalho improdutivo, necessário ao funcionamento do modo de produção capitalista – uma empresa perderia o controle de sua produção e finanças, e provavelmente iria à falência se não contabilizasse entradas e saídas -, mas que não gera mais-valia, ao contrário é um “estorvo” à acumulação de capital.

Apesar dessa distinção não ser tão simples assim quando observamos o processo produtivo no espaço operacional de uma empresa, a tendência na sociedade capitalista é a redução do trabalho produtivo, pela introdução de novas tecnologias na produção que aumentam a produtividade do trabalho, e a expansão do trabalho improdutivo que consome, mas não gera ‘riqueza abstrata’. Esse processo aparentemente divergente do trabalho na constituição do valor, explicaria, em parte, a perda de poder de compra da “classe média e dos trabalhadores” no tempo, já que o capitalismo em concorrência global tende aumentar o uso intensivo de tecnologias, reduzindo o consumo de “trabalho abstrato” e a massa total de mais-valia com a automação da produção.

O movimento pela terceirização de setores das empresas, que busca transformar o trabalho improdutivo em trabalho formador de mais-valia, ou seja, trabalho capaz de gerar “riqueza abstrata” (dinheiro), objetivo final do modo produção capitalista, não impede que o trabalho improdutivo continue em ascensão e o trabalho produtivo em queda. Travou-se recentemente no Legislativo brasileiro uma rinha pela aprovação de uma lei que regulamenta e estende a terceirização para todos os setores das empresas, antes restrita as atividades meios, onde o trabalho improdutivo é mais evidente.

A lei já aprovada na Câmara e encaminhada ao Senado, que regulamenta a terceirização incluiseve das atividades “fins”, vai além de livrar as empresas do peso morto do trabalho improdutivo, transformando-o em trabalho produtor de mais-valia nas mãos de terceiros. A nova lei, além ampliar a precarização do trabalho ao garantir juridicamente a operação pelas “prestadoras de serviços” de qualquer setor das empresas que queiram terceirizar suas atividades, guarda um segredo que não vem sendo discutido: a regulamentação das contratações dos trabalhadores como “pessoa jurídica”(na gíria PJ), transformando-os em “empresários de si mesmo”, negando-lhes o vínculo empregatício apesar de não mudar as relações de trabalho que determina esse vínculo. O relator confirma essa possibilidade quando comenta a situação dos profissionais liberais que podem se beneficiar da lei, mesmo como pessoa física, contratando “prestadores de serviços”, como na verdade já fazem os escritórios de advocacia, as clínicas, hospitais e outras empresas, que utilizam amplamente esse expediente para burlar a legislação trabalhista vigente, prática que com a nova lei pode se generalizada, pondo fim o que ainda resta de direitos trabalhistas.

Procura-se com a superexploração dos trabalhadores - negando-lhes direitos trabalhistas e sociais que se junta a alta rotatividade como estratagema de redução salarial -, aliviar a situação das empresas brasileiras tecnologicamente atrasadas, com produtividade muito abaixo da média internacional (enquanto a média anual de aumento da produtividade no Brasil de 2007 a 2013 foi 1,5%, na China e na Índia cresceu à taxas de 9,2 e 6,8 respectivamente no mesmo período), cada vez menos competitivas e sem condições de suportar a concorrência vindo de fora só com subsídio estatal. A regulamentação da terceirização através desta lei, ao ampliar o campo de atuação das prestadoras de serviços, mete alguns pregos no caixão da Seguridade Social, enfraquece ainda mais o fragmentado movimento sindical e acelera o desmonte do Estado.           

Em relação aos “paradoxos de nosso tempo de que trabalhadores e famílias de classe média continuam a viver em dificuldades numa época de abundância sem paralelos” é preciso saber de qual abundância fala-se. Se se refere à abundância de produtos que podem satisfazer ou não necessidades do corpo e da alma dos ávidos consumidores, podemos concordar. Mas esses produtos, ao saírem da produção enquanto valor em busca de realização na circulação, para serem consumidos tem que serem comprados no mercado independentes da utilidade que possam ter. Aí entra a questão da massa salarial em declínio e da população desempregada supérflua que não mais interessa ao sistema por não ter poder de compra e a quem vender sua força de trabalho.

Podemos afirmar que a remuneração “inadequada” dos produtores de mercadorias e a redução da taxa de lucro, estão relacionadas com a crise da valorização do capital. Se na produção capitalista o valor de uma mercadoria é determinado pelo "tempo de trabalho socialmente necessário" (Marx), se a produção de mercadorias tende aumentar por unidade de tempo num continuum infinito obedecendo a lógica cega do capital, a tendência é o aumento na produção total de mercadorias pelo aumento da produtividade, e a desvalorização do valor pela redução de sua substância, “o trabalho abstrato” (Marx). Com efeito, o aumento da produtividade do trabalho pela revolução tecnológica - incluindo-se aí a automação e a organização do processo de produção em cadeias globais - tende, portanto, a “desvalorização do valor” dos produtos ocasionalmente úteis às necessidades humanas, em um modo de produção estruturado para consumir trabalho abstrato e gerar mais-valor. A energia humana dispendida para tanto, deve ser medida em frações de um tempo linear exterior a vida.

À medida que a crise do valor se agrava, a tendência do capitalismo é aumentar a produção de mercadorias para compensar a baixa rentabilidade. Mas, o aumento da produção de mercadorias só é possível pela intensificação da produtividade, que acelerada pela concorrência faz, paradoxalmente, cair ainda mais o consumo do “trabalho abstrato”, desvalorizando o valor encarnado fantasmaticamente nos corpos das mercadorias. Na crise de valorização do capital, não há contradição entre a abundância e a pobreza dos trabalhadores e da classe média, pois acompanha o crescimento da abundância material a queda na formação de “riqueza abstrata” que paga os salários e outras formas de rendimentos. Ao contrário do que se imagina, a concentração de riqueza é o subproduto dessa dinâmica inconsciente. Na crise crônica de superprodução que aí se origina, há um descasamento completo entre produção e consumo. O colapso total da economia é adiado pela elasticidade do crédito e pelo dinheiro “falso” (fictício) gerado nos bancos centrais e no setor financeiro privado para irriga o consumo. A miséria intelectual e espiritual que assola o vazio burguês é parte deste contexto.

Neste limite, a crise do sistema produtor de mercadorias, difere das crises cíclicas que quando suplantadas, a produção capitalista retorna a um novo ciclo de expansão num patamar tecnológico diferente e em condições de incorporar novos contingentes de força de trabalho que possam gerar mais-valia, ampliando o mercado para o consumo de antigas e novas mercadorias. O que se observa agora nos vários momentos de agudização da crise é superação dos limites tecnológicos, acompanhado da redução do tempo de produção pelo aumento da produtividade e a dispensa da força de trabalho que tende ampliar o número de indivíduos fora do mercado que não conseguem mais trocar o seu trabalho por outras mercadorias.

Se o "limite interno absoluto"(Kurz) da valorização do capital foi atingido, impossibilitando crescimento da massa total de mais-valia e, consequentemente, da acumulação de "riqueza abstrata" como fim em si dessa forma de produção, pode-se afirmar que crise que daí decorre não pode ser superada dentro dos limites do capitalismo. Porém, para compensar a redução dos lucros, as empresas tendem acelerar a produção de coisas materiais e imateriais, úteis e inúteis ao consumo humano, que trazem ainda oculto vestígios de valor na objetividade disforme das formas mercantis. No entanto, essas empresas precisam ampliar o mercado para vender suas mercadorias e realizar a mais-valia. Mas para enfrentarem as concorrentes terão de se manterem competitivas que só será possível se aumentarem incessantemente a produtividade.

Na concorrência global tendem a levar vantagem países cujas empresas são ágeis na incorporação de tecnologias e são dotados de moderna infraestrutura facilitadora do rápido deslocamento das mercadorias. Manobras cambiais que tendem a desvalorizar artificialmente as moedas para aumentar a competitividade, receita tão comum nos países em crise principalmente na periferia do capitalismo, são soluções passageiras e logo se mostram insuficientes. No entanto, o aumento de produtividade e acumulação de “riqueza abstrata” caminha em sentido contrário quando visto globalmente: se individualmente empresas podem levar vantagens em relação às concorrentes quando aumentam a produtividade, a nível geral há uma redução da rentabilidade em função da queda da massa total de mais-valia.  

Toda discussão do mercado sobre as dificuldades de se “precificar” commodities, está relacionada com a crise do valor que tende empurrar os preços para baixo contra a vontade dos agentes econômicos e, conjunturalmente, com a confusão que pode levar a manipulação da moeda e do câmbio. O termo “precificar” sugere a ilusão de que os preços podem ser determinados pelos agentes do mercado independentes dos fenômenos econômicos que se originam na produção, sem aparentes consequências. Na manipulação dos preços sempre se busca fazer mais dinheiro do que este possa representar enquanto expressão do valor.  

Quando se trata da “precificação” do que se chama de produtos financeiros, cujos ativos reais que serve de base para esses produtos encontram-se a léguas de distância ou pode nem mesmo existir, empacotado e reempacotado nas cadeias financeiras, o preço perde toda e qualquer referencia em relação à economia real, é puramente fictício em relação à “objetividade do valor das mercadorias” sobre o qual deveria orbitar. Se subir nos momentos favoráveis da economia, gera montanhas de capital fictício que fica à espreita da próxima desvalorização. Se descer nos momentos de agudização da crise, vira pó e pode levar à ruína empresas e nações como temos assistido com grande intensidade a partir de 2007.

Na variação dos preços sem referencial no valor real dos produtos, prevalece a lógica de formação do capital fictício, das bolhas que estouram quando esse capital sofre grande desvalorização e se aproxima de sua base real. Os governos, sempre prontos a intervirem a favor do capital, na tentativa de evitar a queda brusca dos preços nas crises financeiras, baixam os juros o quanto possível e imprimem dinheiro fictício como se tem assistido seguidas vezes nos EUA e Europa. A outra forma de desvalorização do capital nas crises se dá pela inflação, cujo aumento vem sendo observado nos países da periferia do capitalismo. Na conjuntura vigente, se os preços se aproximassem do valor real das mercadorias que deveria expressar, o sistema entraria em colapso irreversível.  


16.04.2015

segunda-feira, fevereiro 23, 2015

Caminhos da crise

Rall

Quando o capitalismo entrou em crise nos anos 70, as reformas que se seguiram tinham como um dos focos levar ao limite a exploração da força de trabalho. Um dos eixos dessa reforma foi à intensificação da terceirização e flexibilização das relações de trabalho, que resultou na precarização e aumento da rotatividade como forma de rebaixar os salários. Apesar da melhoria da rentabilidade de alguns setores empresarias, a terceirização não conseguiu impedir a queda da massa total de mais-valia. A partir daí, a velocidade com que as tecnologias inovadoras tornavam não-rentável contingentes de força de trabalho, não era compensada pela novas formas de gestão e extração e mais-valia ancoradas na terceirização, mesmo levando ao extremo a intensificação e exploração do trabalho.

O trabalho improdutivo não gerador de mais-valia, relacionado com as atividades administrativas e burocráticas das empresas, ao ser terceirizado e transformado em trabalho produtivo de capital por passar a produzir mais-valia, não pode compensar a expulsão do trabalho produtivo pela introdução de novas tecnologias nas linhas de produção, forçada pela concorrência empresarial e entre nações. Isso fez com que a rentabilidade continuasse em queda quando vista no conjunto em uma série histórica, e que o capital fictício fosse crescentemente mobilizado com a criação das chamadas inovações da indústria financeira, como os derivativos, e pela injeção de uma grande quantidade de capital monetário na economia, onde se destaca o uso desse capital na aquisição, modernização e vendas de empresas, num processo especulativo que faz crescer o estoque de capital fictício. Ao mesmo tempo amplia-se o consumo pela expansão do crédito, mantendo com isso uma aparente normalidade da acumulação.

Manifestações esparsas da crise se fez presente em todo mundo, principalmente na América Latina nos anos 80 que ficou conhecida como crise da dívida, na Ásia com destaque para o Japão nos anos 90 cujo longo período de deflação se mantém como uma ameaça constante, até o estouro das bolhas do ponto.com em 2000 e do crédito imobiliário em 2007/2008, da qual os centros imediatamente atingidos foram os EUA e Europa.

Mas, contrariamente as crises do passado quando o capital fictício era expurgado e a acumulação retomava em outros patamares, nos momentos da crise que teve início nos anos 70 do século do Século XX, o capital fictício não só se manteve em movimento e movimentando a economia em todas as suas dimensões, como, com ajuda do Estado e de seus bancos centrais, vem se expandido a perder de vista na tentativa de compensar a incapacidade de valorização na chamada economia real. Quando os bancos centrais americano, japonês e agora o europeu põe em prática o afrouxamento quantitativo nada mais fazem do que imprimir dinheiro para comprar títulos podres, ou seja, buscam com isso valorizar artificialmente papéis sem valor no mercado. O termo afrouxamento monetário quantitativo não passa de um eufemismo para esconder o verdadeiro sentido do que vem fazendo os bancos centrais: impressão de dinheiro fictício. Buscam apagar o fogo da crise financeira com o combustível que lhe deu origem.

No entanto, nuvens carregadas de capital fictício começam a se acumular no horizonte numa velocidade inesperada além da competência do Estado e do mercado administrar os excessos, e logo farão desabar raios de destruição sobre a economia mundial. Outra crise financeira na situação atual da economia com problemas em todo globo, temperada pela violência e instabilidade política geral, pode levar a uma grave depressão com conseqüências imprevisíveis.

A outra estratégia para sair da crise foi o deslocamento da produção para os países periféricos, onde se pagava salários de até um vigésimo dos países do centro, que tinha como objetivo suprir com produtos baratos os mercados dos países desenvolvidos. A partir dos anos 80 formou-se um enorme circuito deficitário entre a Ásia e os países centrais, tendo a China no transcorrer dos anos se consolidado como o principal País exportador. Os dois grandes países em polos opostos desse circuito, a China detentora do maior superávit da história das relações comerciais e os EUA do maior déficit, tem as economias tão interligadas, que a crise financeira de 2007/2008, ao paralisar a economia americana, abalou profundamente os alicerces da economia chinesa. A China que foi obrigada então redirecionar suas atividades econômicas para o mercado interno sem está preparada para isso, não "cavando buracos" como propunha Keynes, mas construindo cidades fantasmas e trens-balas que se deslocam pra lugar nenhum.

Esse gigantesco volume de capital "congelado" na infraestrutura, mas principalmente em prédios vazios, tende a se desvalorizar rapidamente e jogar a China em recessão com deflação, agora sem poder ser socorrida pelo mercado externo para escoar a produção de suas mercadorias e fazer dinheiro. Portanto, esgotada as possibilidades dos investimentos internos, que na verdade foi uma forma de queima de capital pela crise sem que seus governantes tivessem clara consciência, a China se depara com uma montanha de dívidas podres prestes a se desvalorizarem, que deve afundar seu mercado financeiro já frágil e abalado pelo espectro do mercado paralelo que cresceu rapidamente em cima das empresas e dos governos das províncias que, em dificuldades, buscam liberação fácil de empréstimos a juros exorbitantes. Produção industrial e de construção em crise, e mercado financeiro com as bolhas de crédito preste a explodir, deve ser uma grande dor de cabeça para a burocracia chinesa e para os dirigentes dos países a ela associados nas relações comerciais.  

Com o fim do circuito deficitário que alimentava o crescimento do capitalismo chinês, à medida que os governos provinciais e as empresas passaram a ter dificuldades, recorreram cada vez mais ao dinheiro fácil de pegar e difícil de pagar do mercado financeiro paralelo. O crescimento desse mercado, livre de controles e desregulamentado, mas consentido, é um grave sinal da saúde e de como anda o endividamento das empresas chinesas e seus sócios, os governos das províncias que são parte importante dessa economia onde mercado e Estado costumam dançar em harmonia um mesmo tango.

À medida que o colapso da economia chinesa já não é mais uma miragem, surgiram dois importantes desdobramento: um prático, que vem puxando para o precipício os países exportadores de commodities de baixo valor agregado, como o Brasil e outros que dependem desse mercado. A situação da China tende ainda agravar a recessão na Europa e abalar o crescimento dos EUA por interrupção de negócios e interligação dessas economias. Outro de ordem teórica: se 2008 foi à vez dos intervencionistas com dedo em riste ameaçarem jogar no lixo da história a produção dos teóricos do mercado, agora é a vez dos estatistas prestarem contas aos seus adversários, pela incapacidade dos estados responderem as questões postas pela crise.

Ao tratarem mercado e Estado como entes de mundos diferentes, e não como categorias do capital, os adversários equivocam-se em suas análises. A crise do capitalismo é categorial. Portanto, a solução para crise não está no Estado e no mercado, pois enquanto categorias da forma de produção capitalista são parte dela.

No Brasil estamos a assistir um enorme fuzuê num mesmo governo que de uma política reclamada como intervencionista sem os resultados esperados, dá uma guinada e cai nos braços dos antes inimigos homens do mercado, apesar das juras contrárias de campanha. Isso me lembra dum amigo de juventude ao justificar, apertado por outros jogadores, dois gols contra em uma pelada de várzea: agora eu sou a favor do contra, pronto. A perda de norte do governo brasileiro mostra as dificuldades de se lidar com uma crise que foge ao controle das soluções acadêmicas de todas as escolas. Portanto, se uma não deu certo, testa-se a outra que provavelmente não desvendará o enigma.   

Quanto à expansão do comércio exterior nos últimos 30 anos, tido como um indicador importante da economia mundial, utilizado como argumento de que apesar de tudo o capitalismo segue muito bem, é necessário considerar que a integração da produção a nível global e o constante deslocamento de empresas em busca da redução de custos, levou a uma movimentação de mercadorias, produtos e componentes, jamais visto na história da humanidade. Para produção em escala de mercadorias é sempre considerado os salários, e certas condições como infraestrutura, qualificação da mão de obra e logística. O mercado interno dos países produtores/exportadores e os custos de deslocamento das mercadorias para os grandes centros contavam pouco, pois os baixos salários compensavam.

No entanto, à medida que a tecnologia avançava na produção, os custos da mercadoria força de trabalho vão se tornando sem importância. A logística, em particular o que diz respeito ao armazenamento e distribuição das mercadorias, passa agora a ser considerada nos custos finais. Produzir em indústrias automatizadas, muda muito pouco os custos da força de trabalho se a fábrica está operando em solo chinês, americano ou europeu. Passa fazer diferença, tornando a produção das empresas e países mais competitiva, a queda dos custos com transporte e armazenamento das mercadorias, ao se produzir nos grandes mercados consumidores ou em suas imediações em fábricas automatizadas, em condições de operar 24 horas ininterruptas, e capazes de adaptarem rapidamente a produção à demanda sem desperdícios e superprodução. 

Várias indústrias instaladas na Ásia com a produção direcionada para exportação estão retornando ou mostram intenção em retornar ao solo pátrio, pois já não precisam como antes de força de trabalho barata e vão economizar em logística. Por outro lado, o encarecimento do trabalho nos países asiático deixa-os menos atrativos para as empresas que produzem para exportar, que entre o uso intensivo de força de trabalho e automação, estão optando pela segunda com incentivos dos governos dos países de origem.

No entanto, se a automação pode ser a saída para parte das empresas na concorrência global, mesmo aumentando a produção e reduzindo inclusive os preços das mercadorias pelo aumento da produtividade, faz cair à acumulação da "riqueza abstrata", que é o objetivo final da produção capitalista, pela expulsão da substância do valor, o trabalho. E o que à superfície aparenta uma solução, tende aprofundar a crise da forma de produção capitalista e do dinheiro.



23.02.2015