Quinta-feira, Fevereiro 16, 2012

Enquanto o novo não se manifesta

Rall

O crescente endividamento das empresas além de suas possibilidades, surge no pós-guerra como uma necessidade de suprir as demandas de capital fixo e de compensar a fraca acumulação na economia real. Nos anos 80 esse processo se intensifica com as mudanças na produção que incorpora novas tecnologias e aumentam a produtividade do trabalho. Começa aí a formação das grandes bolhas financeiras que funcionam, enquanto inflam, como alavancas da economia real. As medidas regulatórias com a pretensão de corrigir os 'excessos' na geração de crédito e a formação de bolhas, se efetivadas devem trazer à luz a incapacidade da economia real sustentar-se sem a formação de grande quantidade de capital fictício. Pois, em última instância, o motivo da crise financeira, o grande volume de capital fictício circulante, é também o eixo principal da engrenagem que movimenta a economia. O crédito sem limites, um dos principais meios de geração desse capital, não pode ser controlado sem que a economia real, nele ancorada, não corra um grande risco de colapsar.

Com o advento da crise financeira em 2008, onde trilhões e trilhões de dólares foram queimados, secando o mercado e retraindo o consumo, as empresas, para não falirem, ajustaram-se a nova realidade fechando um sem números postos de trabalho e recorrendo ao financiamento do Estado para o contínuo movimento de rolagem das dívidas. Prontamente os Estados atenderam, imprimindo volume inédito de dinheiro através de seus bancos centrais, e passaram a suprir as demandas do mercado com grande volume de capital sem substância a custo zero. Esse dinheiro, contabilizado como crédito a ser saldado pelos tomadores num futuro sem prazo quando tudo estiver consertado, inclusive o retorno da rentabilidade, aparece como dívida nos orçamentos dos Estados. No entanto, apesar da liquidez forçada, os investimentos privados não acontecem e parte do dinheiro retorna aos bancos centrais(1).

Para os EUA, detentor da moeda universal, imprimir dinheiro significa endividar-se, mas também desvalorizar o dólar e tornar-se globalmente mais competitivo com a desvalorização do câmbio em relação aos demais países. Nos primeiros momentos da crise, onde todos se sentiam ameaçados, alguns acertos globais foram possíveis. Porém, com o acirramento mortal da concorrência por mercados consumidores saturados, instalou-se o dissenso: cada um busca a seu modo, transferir para o vizinho o ônus da crise. A política de expansão monetária dos EUA transformou-se em arma poderosa no enfrentamento dos concorrentes, fazendo com que as exportações de seus produtos industrializados de alto valor agregado batam os similares produzidos fora. Porém, isso não se aplica aos produtos manufaturados na China e outros países, que mantém a moeda atrelada ao dólar e os salários bem inferiores aos pagos aos trabalhadores norte-americanos, compensando a diferença de produtividade. 


Como achatar os salários abaixo do esperado para o nível de consumo de uma determinada sociedade não é tão fácil, mesmo considerando-se o grande número de trabalhadores desempregados, há um consenso nos países ricos de que a saída para as suas empresas voltarem a ser competitivas no mercado global é aumentar a produtividade. O setor privado dos EUA, pelas declarações de seus executivos, vem trilhando esse caminho com ajuda do Governo, e deve ser acometido de um novo surto de produtividade renovando o parque industrial, sem necessariamente produzir uma nova revolução tecnológica. Isso já vem acontecendo na esteira da Terceira Revolução Industrial, cujo potencial está longe de se esgotar.

O aumento da produtividade, se por um lado beneficia provisoriamente empresas e nações, corrói o valor que no mercado se manifesta como uma redução de preços. Esse fenômeno evidencia-se nos preços dos chamados bens duráveis, que vem caindo de forma acelerada em todo mundo. Pode-se argumentar que a acirrada concorrência tem jogado os preços para baixo, o que não deixa de ser verdade. Porém, uma mercadoria só pode forçar a queda de preço de sua concorrente e reduzir a margem de lucro, se for produzida em condições de oferecer-se ao mercado a preços competitivos, mantendo uma margem que compense sua produção, mesmo que dure pouco. Embora possamos falar em ganhadores e perdedores quando se trata de empresas ou países isolados, o que se observa globalmente é uma inexorável crise da "valorização do valor (Marx)" com o aumento da produtividade e queda do trabalho produtivo.

Nada disso era muito claro antes da revolução tecnológica que incorporou à produção a microeletrônica, possibilitando a automação em larga escala e a dispensação do trabalho produtivo gerador de mais-valia. Apesar de ser essa uma tendência inerente à lógica do capitalismo, analisada por Marx nos seus primórdios, só se evidencia, mesmo para os crédulos, a partir da Terceira Revolução Industrial. A crise dos gigantes japoneses como a Sony, Panasonic e Sharp com um prejuízo combinado de 17 bilhões de dólares em 2011, e a quase falência da indústria automobilística dos EUA e de outros grandes conglomerados empresariais do globo, não está fora desse contexto. O abalo financeiro global, com o recuo do crédito e a queima de parte do dinheiro fictício gerado no mercado de papéis, que ‘artificialmente’ dá sustentação ao consumo e a produção industrial, é um agravante desse quadro.

Determinante da crise é, porém, a queda livre da rentabilidade dos setores produtivos geradores de mais-valia, que exigem a partir daí a expansão do capital fictício para se sustentarem. O estouro das bolhas infladas com esse capital e a crise das dívidas soberanas mostraram os pés de barro do capital sem substância e, ao mesmo tempo, a incapacidade da denominada economia real movimentar-se sem ele, mesmo que mais na frente tenha que prestar contas com alto custo social. O grande dilema é que enquanto se estreita o campo de manobra da economia política, e os danos sociais a cada espasmo da crise tornam-se mais frequentes e severos, o novo, capaz de navegar na escuridão do capitalismo em crise, não foi captado em sua totalidade e consistentemente formulado.


16.2.2012


Domingo, Dezembro 18, 2011

Um enfadonho réquiem

Rall

Depois de grande resistência os analistas oficiais dobram-se aos fatos. Parece que são poucas as dúvidas em relação ao recrudescimento da crise. Mesmos os mais otimistas jogaram a toalha com algumas ressalvas. O leque de opiniões em relação ao abismo que se alarga é grande apesar da escuridão do precipício. Mas todas trazem a certeza da efemeridade do evento se utilizada às fórmulas que prescrevem. Acreditam que o doente há de encontrar o seu chão e se erguerá cambaleante, é certo, se engolir o veneno prescrito.

Essa visão pessimista/otimista oscila conforme a labilidade do doente. Mas todos acham que o remédio certo faz o doente ressurgir mesmo que seja das próprias cinzas, como a Fénix. Na ilusão de um eterno retorno, não se admite o capitalismo como um processo histórico que caminha rapidamente para o esgotamento. O que se descreve como crises conjunturais, nada mais é do que doloridos espasmos da crise crônica em seu momento terminal.

O capitalismo do final do Século XX em diante, como o Nosferatu atormentado por não se alimentar de sangue virgem, ou melhor, por não alimentar na velocidade necessária o trabalho morto de trabalho vivo, perdeu os seus limites. Primeiro, ampliando o crédito ao infinito, comprometendo toda renda futura na presente produção. Segundo, na formação de bolhas financeiras, já que o crédito mostrava-se insuficiente para fazer rodar a máquina de acumulação emperrada por falta de combustível, o trabalho vivo. Terceiro, com o estouro da bolha os bancos centrais passaram a imprimir volumes imensos de dinheiro, sem nenhuma relação com a produção, para salvar bancos, empresas e a si mesmo da falência anunciada.

Por esses mecanismos ampliou-se enormemente o volume de capital fictício. A economia real, antes dominante, passa a ser um apêndice dessa ilusão chamada pomposamente de “efeito riqueza.” Na acumulação real, a sede por trabalho vivo e a escassez deste para irrigar o trabalho morto, faz surgir no horizonte miragens que se desfazem na mesma velocidade com que se formam. São créditos que não se pagam, bolhas que explodem, Estados e empresas que se tornam inviáveis, e desemprego que grassa aos céus. O dinheiro inflacionado, ainda não se manifesta como inflação enquanto funcionam os mecanismos de contenção, inclusive o baixo consumo.

À crise de acumulação junta-se a crise ambiental que ameaça o mundo com efeitos devastadores cada vez mais visíveis. As medidas anunciadas nas Convenções do Clima, além de insuficientes, mantem-se restritas à propaganda dos poluidores. Mesmo aquelas implementadas por interesse do mercado o impacto na reversão efeito estufa é quase nulo. Com o aprofundamento da crise do capitalismo, os acordos devem ser rapidamente esquecidos e os desequilíbrios do ambiente devem se intensificar. Não tardarão as respostas violentas da natureza com repercussões na vida e na economia.

A Europa que na quebradeira americana em 2008/2009 parecia relativamente protegida com o euro, agora é a bola da vez. É claro que a crise é do capitalismo global. Mas as ondas destruidoras se propagam de forma assimétrica. O espectro da hiperinflação, que desembocou em violentos conflitos e nos monstruosos crimes da segunda guerra mundial, ainda atormenta memórias e freia o ímpeto do dinheiro fácil da forma como é impresso nos EUA. Há na Europa uma resistência a uma expansão monetária sem limites, como praticada pelos americanos do norte. Difícil dizer até quando. Porém, a opção pelo rigor orçamentário exigido pela via fiscal para driblar a inflação, tende aumentar o desemprego e a crise social que já é imensa. E a violência pode então aflorar com a mesma intensidade de um passado recente de crimes ainda não prescritos.

Os crescentes massacres isolados, praticados por ultranacionalistas em vários países europeus, são sinais perturbadores de uma tendência à violência adormecida. Os discursos demagógicos e agressivos de grupos e partidos políticos, em tom cada vez mais racista, podem despertar demônios em uma conjuntura de crise social profunda. A guerra nos Bálcãs mostrou que isso é possível. A criação dos Estados Unidos da Europa, vistos por muitos como uma oportunidade aberta pela crise e como forma de resistir às tendências destrutivas, só pode ter chances de êxito se for acompanhada de uma crítica radical à sociedade burguesa, ao modo de produção capitalista, à forma-mercadoria e ao patriarcalismo a ela inerente.                 

Mas essa crítica não conseguiu romper as barreiras que a isola. À medida que a crise se aprofunda nas frentes econômica, social e ecológica, o que se ver é um o enfadonho réquiem dos analistas oficiais, sempre acreditando na ressureição dos mortos, não trazendo nada de novo a não ser a constatação atrasada do óbvio. O hegemônico, mesmo no pensamento de esquerda, é a busca de saída dentro do que estar dado. Porém, o ano que entra, pelo caminhar das coisas, pode ser digno de grandes emoções, daqueles anos que parecem séculos. Portanto, aproveitem as festas com o melhor champanhe do mercado enquanto for possível.

18.12.2011

Segunda-feira, Outubro 10, 2011

Ocupar Wall Street e outros espaços da máquina capitalista

Rall

Quando a Wall Street começou a ser ocupada por manifestantes, com palavras de ordem contra o desemprego e o salvamento dos bancos colapsados, aos gracejos dos financistas e de posições como as do direitista Mitt  Romney que se adiantou em condenar o que taxou de luta de classes, contrapuseram-se algumas falas. Obama chegou a ensaiar um “eu compreendo”. Mas, o que chamou atenção foi o apoio de intelectuais do establishmet como Paul Krugman, que mesmo fazendo restrições aos militantes, defendeu em artigo a ajuda de políticos e intelectuais no detalhamento de uma proposta que servisse de base para o movimento e a posição do historiador Rich Yeselson que sugeriu como plataforma central do movimento aliviar as dívidas dos trabalhadores. São sinais de posições permeáveis da sociedade norte-americana a movimentos como esse.

É em Wall Street que o capitalismo em crise manifesta com força a tendência de gerar grande volume de capital fictício. Mas, a lógica prevalente de se criar dinheiro do nada, não importa se usando o esquema Ponzi (1) ou outras formas de se multiplicar ao infinito, não se restringe aos centros financeiros. Quando os governos, para “salvarem” a economia como um todo e não só os bancos, imprimem bilhões em moeda nacional sem “lastro”, as denominadas “expansões quantitativas”, estão seguindo a mesma lógica. O crédito alongado ao extremo para que não possa ser pago enquanto existir o capitalismo, é outra importante face dessa imensa máquina de produção de capital fictício que se transformou o capitalismo dos tempos atuais. As commodities, a especulação no setor imobiliário e com outros ativos ditos reais, os derivativos, as operações financeiras como “short selling” , “carry trade” e outras invenções em andamento, são produtos da loucura humana por dinheiro que se autonomizou.

Essa autonomização que agora atinge o máximo de seu movimento aprisionando a economia real em bolhas financeiras, não permitirá que a alardeada regulação freie seu impulso destrutivo. O que assistimos é a lógica destruidora e excludente do capital levada ao extremo, sem nenhuma possibilidade de controle consciente dentro de fronteiras que não nos permite pensar de forma diferente do que nos impõe a socialização pelo valor. Quanto mais fica claro que toda produção do capital fictício, não importa se pelo mercado ou Estado, é a forma encontrada para “compensar” a crise na economia real da “valorização do valor” (Marx), e quanto mais essa crise se aprofunda, mais os desesperados sujeitos do dinheiro alimentam a máquina de formação do capital sem substância.

Os crescentes espasmos da crise, em número e intensidade, tendem ser mais destrutivos e sem compensações posteriores que possibilitem a retomada da economia num patamar superior com geração de empregos e melhoria da rentabilidade do capital global como muitos esperam. As empresas em dificuldades, para compensarem as perdas e enfrentarem o acirramento mortal da concorrência, intensificam o capital fixo com investimentos em automação e dispensa da força de trabalho, nutrindo todo processo de desvalorização do valor que é a causa básica da geração de capital fictício. Esse círculo vicioso, crise da economia real, geração de capital fictício simulando a acumulação, agravamento da crise pela queima do capital sem substância e nova rodada de geração de capital fictício, sem a ultrapassagem dos limites impostos pelo capitalismo para se manter respirando, tornará a crise mais perigosa e destrutiva, com risco de aventuras armadas de grandes proporções como último apelo para uma retomada agora em terras calcinadas.

Para que o movimento se firme, a militância do Ocupar Wall Street além de apresentar uma plataforma viável, com poucas e objetivas palavras de ordem (e aí a redução das dívidas não só dos trabalhadores, mas também dos sem rendas, sem empregos e sem bens, os últimos sugados pela bolha imobiliária, pode ter um apelo muito forte a mobilização), deverá estender as ações a outros espaços, financeiros ou não, que representem a ordem vigente. Mesmo que num primeiro momento faltem militantes para tanto, esse movimento pode ganhar magnitude e surpreender. 


10.10.2011 

Segunda-feira, Setembro 12, 2011

O pacote de Obama e o milagre da multiplicação do dinheiro

Rall

“A redução do endividamento simultâneo do setor privado (financeiro, famílias e, em menor medida, de grandes corporações) continuará a ser o grande complicador para o crescimento econômico global nos próximos anos, avalia o Instituto Internacional de Finanças (IIF)” (1).
 “O que deve ser feito? Para uma resposta ouçamos os mercados. Eles estão dizendo: levantem empréstimos e gastem, por favor,” (2).

As políticas fiscais e monetárias, ao serem aplicadas na busca de se debelar a crise, mostraram os seus limites que se estreitam no tempo.  O estímulo à economia via política fiscal tende não se viabilizar em função dos grandes déficits nas contas dos governos. A política monetária já não surte efeito num momento em que as empresas, apesar de endividadas e da queda da produção, em geral estão superavitárias (3), e as famílias esforçam-se poupando para reduzir suas dívidas. A mobilização dos governos para investir em infraestrutura e gerar empregos, tipo pacote-Obama, esbarra no endividamento dos Estados e também, nos EUA, na feroz luta política pelo poder às vésperas das eleições.

Como não se vislumbra nenhuma revolução tecnológica como foi a revolução industrial nos primórdio do capitalismo e em seguida o fordismo, cuja produção industrial absorveu enormes contingentes de trabalhadores deslocados do campo para cidade, ampliando com isso o mercado mundial, no presente momento do capitalismo, a movimentação da economia depende do crédito crescente para que seja possível o aumento do consumo das famílias, das empresas, dos governos e a tão esperada criação de novos empregos. As bolhas financeiras costumam pegar carona nesse crédito fácil.

Mas o que se observa são dois movimentos distintos: a revolução tecnológica que teve início nos anos 80, ao contrário das demais, apesar de fazer baixar o valor dos bens e amplificar o consumo de massa, destrói mais do que constrói postos de trabalho, intensificando o chamado desemprego estrutural(4). Com a crise, o acirramento da concorrência tende aprofundar esse fenômeno ao exigir constantes aumentos da produtividade do trabalho, com repercussões negativas no emprego e na massa total de mais-valia real e, obviamente, no lucro médio das empresas e na arrecadação dos Estados na medida em que avança a crise de valorização do capital.

Todos os analistas econômicos e políticos, como também os agentes do mercado, reconhecem por motivos diversos, que o grande problema nesse momento é a fraca ou quase nenhuma geração de empregos nos países do centro do capitalismo e na vizinha periferia. Um anúncio do débil desempenho da economia na criação de novas vagas, incapazes de acomodar desempregados e os que ingressam no mercado de trabalho, é acompanhado por abalos nas bolsas, declarações pessimistas sobre o futuro e vexames políticos. Mas fica por aí mesmo, as análises se detém em lamentações e não ultrapassam a linha divisória que possa mostrar que o que está em crise é a forma de produção centrada no trabalho “abstrato” (Marx).

Por tudo isso, pacotes keynesianos de estímulo à economia, via investimentos governamentais em infraestrutura como o anunciado por Obama, pode não produzir o efeito esperado e não funcionar como motor de arranque para o setor privado retomar, de forma autônoma, o crescimento econômico e o emprego. As manifestações crescentes de que os Estados tem que continuar se endividando, que as famílias e as empresas levantem empréstimos para consumir; os apelos para que as medidas visando baixar mais ainda os juros e “jogar dinheiro de helicópteros” (afrouxamento quantitativo) sejam reeditadas, é o reconhecimento explícito de que a economia só consegue se manter em pé com o alargamento do crédito ao infinito e na companhia de bolhas financeiras.

Restar saber, contudo, se o infinito realmente existe para acumulação capitalista ou se o capital já atingiu o “limite interno da valorização na terceira revolução industrial” (Kurz), estando à economia a girar em falso por não encontrar mais saída para suas agruras, apesar do milagre de se transformar incessantemente papel em dinheiro sem ser certificado pela produção de mercadorias. Para os apóstolos do capital, se em algum tempo foi possível multiplicar os pães, é possível do nada se fazer dinheiro. Veremos até quando.   
Notas
(1)    “Endividamento menor compromete recuperação”- Jornal Valor Econômico, Assis Moreira - 06.09.2011.
(2)    “Porque devemos ouvir os mercados”- Jornal Valor Econômico, Martin Wolf - 08.09.20011.

12.09.2011                

Terça-feira, Agosto 09, 2011

O segundo grande espasmo da crise

Rall

Para assumir os prejuízos do setor financeiro e de grandes empresas e compensar a redução da arrecadação em função da queda do consumo e da produção, o Estado, elevado agora à instância salvadora do mercado, vem aumentando de forma descontrolada o déficit fiscal e a dívida pública em todo mundo, desde o último espasmo da crise, 2007/2009, para compensar a queda da arrecadação e o dinheiro liberado no resgate do setor financeiro e grandes empresas. A liquidez forçada pela pelo grande volume de dinheiro despejado pelos bancos centrais no mercado, quase não utilizado no consumo e na produção como se desejava, aportou nas bolsas e nas commodities, ensaiando novas bolhas. Induzidas pela grande bolha de crédito dos Estados, era de se esperar que durassem até os primeiros sinais de deterioração das dívidas “soberanas”.

Apesar dos Estados, tomadores/emprestadores de última instância, criarem dinheiro do nada, contabilizando em contas a pagar sem nenhuma garantia a serem liquidadas com arrecadações futuras, era previsível o surgimento de graves problemas.  Qualquer contador de boteco de esquina sabe que isso poderia resultar em inflação pelo excesso de dinheiro sem substância circulante e em incapacidade dos Estados arcarem com seus compromissos pelo tamanho do serviço da dívida, levando-os a falência e arrastando consigo a cambaleante economia. O que assistimos na Europa, com início na Grécia, alastra-se a grande velocidade para outros países e continentes, mesmo aqueles aparentemente sólidos.

Como a economia real não deu nenhum sinal de recuperação de seu estado terminal com as medidas tomadas para reanimá-la, o financiamento do Estado ficou complicado, pois a arrecadação não reagia ao mesmo tempo em que se tinha de por dinheiro no setor privado. Buscou-se como saída, incialmente na Europa e logo em seguida nos EUA, conter a farra de se jogar dinheiro de avião, mesmo que fosse este papel de coloração especial. Fato que imediatamente repercutiu negativamente nos mercados. Se a economia real estagnada não consegue produzir suficientemente riqueza abstrata (dinheiro) para a alegria de todos, as transfusões de capital fictício dos Estados para o paciente agonizante não podem parar sob o risco de um final sem retorno à acumulação simulada.

Portanto, desde o estouro da bolha imobiliária e outras geradas nos mercados, exigiu-se uma intervenção dos Estados(1) jamais vista mesmo em tempos de guerra, para o que foi apelidado de Grande Recessão não se transformasse em Grande Depressão. Foram utilizados todos os artifícios na geração de capital fictício para essa operação: desde a compra de toneladas de ativos tóxicos pelos bancos centrais para recapitalizar o setor financeiro em bancarrota, até mesmo a desmensurada e irresponsável impressão de dinheiro.

A ilusão de que um segundo mergulho da economia no precipício pela quebra dos Estados poderia ser amenizado com a força dos emergentes BRICs não tem fundamento. Que força rogada, quando sabemos que esses países representam menos 25% da economia mundial e dependem do mercado dos ricos cujas economias se encontram em franco declínio? Este raciocínio esbarra ainda nas complicações da inflação ascendente, que tem se mostrado resistente às políticas monetárias aplicadas nos países emergentes, por ter como um dos seus determinantes o “afrouxamento quantitativo” (ou seja, a impressão de dinheiro sem lastro), levado a cabo pelos bancos centrais dos EUA e Europa. Por outro lado, já não existem condições para mais uma onda de megainvestimentos em infraestrutura na maioria desses países, principalmente na China, que possa reanimar as economias internas. É bom lembrar que muitos dos investimentos feitos nos últimos três anos são pouco rentáveis ou não rentáveis e jamais se pagarão. A repetição do neokeynesianismo na atual conjuntura pode ser mortal para disparada inflacionária, principalmente na periferia do capitalismo.

Depois do abandonar os discursos otimistas do que o pior já passou, governantes e analistas oficiais falam, ainda pelos cantos, na possibilidade de uma longa crise mundial, que seria cozinhada em banho-maria talvez por uma década. Há, no entanto, a resistência de se reconhecer que a crise é de uma forma de produção cujo objetivo final é a acumulação de “riqueza abstrata” (Marx), e que à dificuldade em acumulá-la nesse momento do capitalismo, responde-se com mais crédito fácil e superprodução de mercadorias, turbinada com a corrida à produtividade movida pela lógica cega da concorrência. O resultado é a destruição sem limites da natureza e dos sujeitos na irracional busca de transformar tudo em mercadoria.

A crise nos remete aos anos 80, quando a revolução tecnológica ganha grande impulso e vem liberando forças que não cabem mais na forma de produção de mercadoria. À medida que o impasse prevalece e a situação se deteriora, a saída por meios violentos surge como uma possibilidade. O assassinato em massa de jovens na Noruega é um sintoma de que monstros(2) se agitam em seus casulos ao pressentirem tempos difíceis onde gostam de navegar. 
09.08.2011

Domingo, Julho 17, 2011

Nem a crise vos separa

Rall

"As explosões dos déficits ficais são predominantemente resultado de colapso na atividade econômica e nas receitas do que de socorro a bancos.  Mas a fragilidade fiscal, por seu turno, debilita os bancos, em parte porque estes detêm grandes montantes de dívida pública interna e em parte porque dependem de apoio fiscal. Os setores públicos e privados estão imbricados. A visão dos falcões republicanos nos EUA e de falcões alemães e holandeses na Europa, segundo a qual a crise tem raiz apenas fiscal é errônea. Crédito fácil acaba em crise fiscal" (1).

Se olharmos algumas décadas para traz veremos que os déficits fiscais, apesar de algumas curtas paradas, vem aumentando ou  mantendo-se em percentuais em relação ao PIB que dificilmente permitem um equilíbrio nas dívidas da maioria dos países. A arrecadação já não cobre há muito as despesas dos Estados que são obrigados a se endividarem para se manterem funcionando. A onda de privatizações que seguiu o período neoliberal onde aparentemente o mercado era soberano estar relacionada, entre outras coisas, com a necessidade dos Estados fazerem caixa e a incapacidade de investirem por escassez de recursos. O estouro da bolha em 2007, que levou a economia mundial ao colapso, acentuou o quadro do déficit fiscal e da dívida pública com os compromissos assumidos pelos governos para socorrer o setor privado e, principalmente, pela queda da arrecadação.

Essa mesma tendência ao endividamento foi observada nas famílias e nas empresas. Parte do endividamento do setor privado, que chega a ser superior a 100% do patrimônio das empresas e das famílias em muitos países, vem se deslocando para os Estados, sem nenhuma perspectiva de redução do total devido que não seja através do calote. O Estado, agora defendido por todos como última instância de salvação do capital, saiu a campo assumindo passivos podres do setor privado para conter a depressão. No entanto, não sabe o que fazer com esses papeis sem valor e com o peso dívida resultante dessa operação, que cresce rapidamente com o aumento do déficit fiscal em função da redução da atividade econômica.

Devolver ao setor privado internacional, parte dos problemas e perdas resultantes do estouro da bolha através de um default das dívidas estatais significa deprimir mais ainda a atividade econômica e, conseqüentemente, a arrecadação de impostos com repercussões negativas no déficit fiscal e na dívida pública. O imbricamento do público e do privado (irmãos siameses em eterno conflito), citado por Martin Wolf, dificulta medidas unilaterais, mas devem acontecer quando os setores públicos das nações em pior situação começarem entrar em falência. Mal se iniciou a desalavancagem do setor privado à custa do Estado, já se desenha uma crise das finanças públicas de proporção gigantesca na Europa e nos EUA. Será o segundo grande espasmo da crise, depois do estouro da bolha de crédito que alimentava o mercado imobiliário.

Está por traz do crédito ao infinito, do endividamento e insolvências, a necessidade de se manter a acumulação simulada para calar a crise da economia real. O estouro da bolha imobiliária descortinou, num primeiro momento, a crise da “valorização do valor” (Marx). A massa total de mais-valia real, que vem caindo com a redução do consumo da força de trabalho no processo de produção pela introdução das inovações tecnológicas que aumentam a produtividade (apesar de na concorrência entre agentes econômicos isolados beneficiar-se provisoriamente empresas mais produtivas), vem impactando nos lucros, juros, rendas e no financiamento do Estado. Para compensar essa queda geral de rentabilidade, a mais-valia futura é antecipada através do crédito farto a juros baixos ou negativos. Nos momentos de agudização da crise, esse movimento fica bem mais evidente.

Como a mais-valia futura é sempre empurrada para um futuro cada vez mais longínquo a se perder de vista, a atividade econômica fictícia, para simular a acumulação, está a exigir bolhas sempre maiores prontas a explodirem acompanhadas de inevitáveis estragos. O Estado e o mercado, apesar dos freqüentes estranhamentos e da predominância do mercado mundial sobre a vontade dos Estados nacionais, sempre estarão juntos nesta inconseqüente aventura humana que é o capitalismo, mesmo que sejam afetados de forma diferente.

(1) Da Itália aos EUA: realidade X utopia / Martin Wolf – Jornal Valor Econômico, quarta-feira, 13 de julho de 2011.   

17.07.2011         

Sábado, Junho 18, 2011

As possibilidades advindas da crise

Rall

“Apesar da crise, a produtividade do trabalho vem aumentando significativamente em todo mundo. Num primeiro momento, o rearranjo na organização da produção forçada pela dispensa de trabalhadores pode ser responsável por essa maior produtividade. Os não dispensados passam a produzir mais, exercendo funções dos demitidos, sem que haja ajustes salariais. ...Mas é a segunda onda de aumento da produtividade, movida pela feroz concorrência pelo que restou de mercados, que ao incorporar novas tecnologias de automação fechará mais ainda postos de trabalho”.(1)  

No momento mais agudo da crise, as empresas dos países mais atingidos, principalmente as dos EUA, readequaram a produção a um número menor de trabalhadores do que o necessário aos processos de trabalho. A quantidade dos demitidos foi superior às reais necessidades da produção naquele momento. A prova disso foi que a produtividade medida nos EUA deu um salto sem que nenhuma nova tecnologia ceifadora da força de trabalho fosse introduzida. Infere-se que os trabalhadores não demitidos passaram a fazer o trabalho que antes era distribuído por mais de um, aumentando a produtividade através da aceleração de suas atividades nas linhas de produção e extensão da jornada de trabalho. Excetuando-se alguns países europeus, em particular a Alemanha que com o apoio dos sindicatos utilizou mais a redistribuição da carga horária e a redução dos salários, nos países em que as empresas optaram pelas demissões, reproduziu-se, em maior ou menor proporção, a mesma situação.

É esse um dos “segredos” da capitalização das empresas americanas e de outros países em plena crise. Claro que a isso vem se somar outros benefícios como os incentivos via redução de impostos, juros negativos, compra de papéis podres pelos bancos centrais e os espaços garantidos para especulação dentro e fora do país, através das máquinas geradoras de capital fictício. Com dinheiro sobrando, apesar da crise e da redução das transações no mercado internacional, as empresas do centro do capitalismo buscam se reposicionar para enfrentar a acirrada concorrência internacional, principalmente as pressões vindas dos chamados emergentes que conseguem preços competitivos para os seus produtos pelos baixos salários que ainda pagam aos trabalhadores.

Como o aumento da produtividade pela sobrecarga de trabalho chegou ao limite, qualquer aumento da produção ou vantagem competitiva, vai exigir das empresas contratação de mão-de-obra ou investimentos em inovações tecnológicas. Vejamos o que diz Dan Mishek, diretor da Vista Technologies, em Minesota, Estados Unidos: “tudo deve ser tão automatizado quanto possível. Não podemos nos dar o luxo de competir com países como a China no quesito custo de trabalho, especialmente quando os trabalhadores se tornam cada vez mais caro” (do artigo: Empresa americana investe em máquina, não em gente. Folha de S. Paulo, 11.06.2011). De fato, os investimentos em softwares e equipamentos vêm crescendo significativamente nos EUA, e não pode ser diferente noutros países, inclusive nos emergentes, facilitado pelos incentivos fiscais, excesso de liquidez, juros baixos, prazo para crédito a se perder de vista e queda nos preços de equipamentos para automação e softwares.

Dois anos após o ápice da crise de 2008 o processo de contratação nos EUA continua lento. A taxa de desemprego em torno de 9,1% salta para casa dos 16% quando são considerados nas projeções os que desistiram de procurar emprego. Segundo o Departamento de Comércio americano, o total de gasto com empregados cresceu 2% e com equipamentos e softwares 26%, fenômeno observando só uma vez após a recessão de 1982, momento de grande impulso da Terceira Revolução Industrial. Isso é um indicador de que a revolução da microeletrônica, dispensadora de força de trabalho, está longe de seu esgotamento. Não é á toa que o debate sobre o desemprego estrutural, antes adormecido pela ilusão do pleno emprego sustentado pelas bolhas, surge com muita força nos meios de comunicação. Existe quase um consenso entre os analistas, mesmo entre os que acreditam numa recuperação plena da economia mundial(2), de que o mundo não voltará aos níveis de emprego observado antes do estouro da bolha imobiliária, quando considerado o balanço geral.

É possível que o salto tecnológico e de produtividade que começa a tomar forma, mude definitivamente os rumos da história. Diferentemente de 1982 quando ainda encontrávamos governos que exercitavam certa proteção sobre mercado interno (a China e o Brasil são claros exemplos desse período), e que a globalização sustentada no enorme aparato de comunicação e automação que vivenciamos ainda engatinhava, hoje, esse movimento rumo as tecnologias científicas que aumentam a produtividade tende a se difundir com força em todos os sentidos da economia global. Nos países mais atrasados, que buscando tornarem-se viáveis não deverão ficar fora desse processo, o impacto no emprego com o fechamento de postos de trabalho será enorme quando seus parques industriais de baixa densidade tecnológica começarem a ser substituídos ou simplesmente desaparecerem. A produção que se sustenta no uso intensivo de força de trabalho e ainda consegue ser competitiva pelos baixíssimos salários pagos, deverá reestruturar-se com investimento em capital fixo e em inovações tecnológicas ou ficará fora do mercado. Não haverá escapatória e nenhum país conseguirá sobreviver fechando-se em si mesmo.

Vivemos num momento rico que merece uma atenção especial, onde observamos a conjunção de tremendas forças que empurrarão o mundo na direção de mudanças importantes: ondas de choque resultantes do estouro das bolhas percorrem o globo, represando-se aqui e acolá, ameaçam com novos tremores tectónicos romper o dique e produzir estragos significativos; nas economias nacionais, a procura de saídas para crise utilizando-se de tecnologias que possam aumentar a produtividade para fazer frente à concorrência global. As duas situações devem agravar mais ainda o desemprego e a queda da “valorização do valor”. O leque de opção para a saída da crise no campo do capitalismo deve estreitar-se enormemente. É possível que se crie condições de rompimento do círculo de ferro que nos aprisiona e paralisa, e nos dirijamos para construção de uma sociedade solidária, onde possamos ter mais controle sobre os produtos de nossas ações que no capitalismo transformam-se em monstros enlouquecidos prontos a nos devorar. Há o risco também de não encontrarmos saídas que ultrapassem os limites da lógica destrutiva da sociedade produtora de mercadorias e nos afundemos mais ainda na barbárie.           

(2) O pior já passou? Um "sim" ecoa afoito no mundo dos negócios


18.06.2011                  

Quarta-feira, Junho 01, 2011

A morte melhorada de uma velha senhora

Rall

Nasci numa pequena Cidade do interior, cuja autoridade sanitária era o farmacêutico com seus conhecimentos práticos adquiridos na compra e venda de medicamentos. Nos feriados, visitava com certa regularidade a Cidade, um médico militar proprietário de alguns alqueires de terra nas imediações. Contavam os antigos, que tinham como referências para o tratamento dos encharques da família o farmacêutico, que o referido médico gostava, vestido em seu fardão, de percorrer a pé as estreitas ruas distribuindo receitas como se estivesse dando ordens a um batalhão. Nos feriados seguintes, que não eram muito distantes um do outro, aparecia querendo saber como estava sendo cumprido o que foi determinado. Mesmo não havendo melhora, a tendência das famílias era dizer que o doente, muitas vezes até pior, tinha sarado para evitar a ladainha que viria em seguida acusando-as de não ter administrado adequadamente a medicação.

Certa vez, uma família em desespero, resolveu confiar aos conhecimentos do médico militar a saúde de um de seus membros, apesar da insistência do arguto farmacêutico de que a medicação prescrita poderia não ser adequada para aquele caso. Semanas seguintes, o médico grato pela confiança da família foi visitar o paciente, e aí encontrou os parentes na calçada onde ocorreu o seguinte diálogo: “e então, minha paciente já levantou”?  “Não doutor, não levantou!” “Já sei, não administraram o remédio...” “Compramos e foi dado como o senhor mandou, só que ela morreu”. “Mas morreu melhorada”, respondeu o médico que seguiu em marcha acreditando que seu ato tinha servido para alguma coisa apesar da morte da velha senhora.

As medidas tomadas pelas autoridades financeiras na tentativa de superar a crise lembra-me sempre essa história.  À doente terminal, a economia capitalista, é injetado todo tipo de droga que se não recupera a moribunda, traz a sensação para os seus prescritores de uma “morte melhorada”. Bolhas são formadas nos mercados financeiros, imobiliários e de commoditeis, com tempo de vida que se encurta e com efeitos colaterais arrasadores. Os estados vergam sobre dívidas impensáveis e com a impressão de moedas, buscam consertar os rastros de destruição deixado pelo estouro das bolhas. O capital fictício, gerado nos mercados e nos estados por esses mecanismos, como o remédio milagroso para sustentar a economia capitalista em crise, não funciona como esperado. Se alguma reação é observada, mesmo que aparente, logo em seguida os efeitos colaterais anulam qualquer possibilidade de recuperação. Vejamos.        

Para não irmos muito longe, vamos nos ater a entrada do Século XXl quando estourou a bolha pontocom. O Fed (Federal Reserve) reage prontamente baixando os juros com a certeza de que a bolha imobiliária que se delineava ganharia a dimensão necessária  e substituiria a da internet em declínio. As bolsas, antes de atingirem o fundo do poço, recuperaram-se e seguiram os passos do mercado imobiliário em ebulição. Sabemos o ar de surpresa dos que acreditavam em novos paradigmas de uma economia que cresceria sem limites e sem obstáculos, quando o impiedoso espasmo de 2008 desfez instantaneamente as ilusões acumuladas. O mercado atônito, não reagiu criando novas bolhas que pudessem substituir em dimensões a do mercado imobiliário. Os preços das commoditeis ensaiaram alçar voo, mas não se sustentaram. A saída foi o apelo desesperado ao Estado, mesmo por aqueles que acreditavam estar no mercado o Lapis Philosophorum que com um simples toque tudo podia ser tranformado em ouro.  

O Estado, que forma com o mercado um conjunto binário inseparável, reagiu prontamente, pois sabia que a morte do seu par era também a sua morte. Como o dinheiro disponível para ser emprestado era insuficiente, o Estado foi obrigado apelar para casa da moeda que pôs suas máquinas em ação, “imprimindo” um volume sem precedente de dinheiro sem substância. Os bancos que conseguiram sobreviver ao primeiro impacto passaram a trocar com o Fed, BCE (Banco Central Europeu) e os outros bancos centrais, os créditos podres por dinheiro vivo e a receberem empréstimos a juros negativos. Por sua vez, parte desse dinheiro volta novamente aos bancos centrais, quando os bancos, num movimento inverso, compram papéis das dívidas dos governos, agora remunerados a juros positivos.

São várias as consequências desse jogo esquizofrênico. Chama atenção, como já referido, a simulação de lucro quando os bancos tomam emprestado dinheiro dos bancos centrais a juros negativos, e reemprestam parte desse dinheiro a juros positivos aos mesmos bancos centrais. Aí, os juros não são parte da mais-valia como era de se esperar numa economia capitalista, mas dinheiro fictício, gerado nas entranhas do mercado e Estado e justificado com manobras contábeis. Isso mostra a fragilidade do sistema bancário mundial, mesmo considerando ser essa prática mais comum nos EUA, favorecida pela chamada “expansão quantitativa”, nome pomposo dado à impressão de moeda sem nenhuma relação com a produção. Independente dessa generosidade, os estados são grandes tomadores de empréstimos da rede bancária para cobrir os déficits fiscais, já que a parcela da massa total de mais-valia, transformada em impostos, há muito não é capaz de cobrir as despesas correntes.        

O dinheiro farto vindo dos bancos centrais e impresso nos tesouros aumenta a liquidez e é direcionado para especulação nas bolsas, commodities, e tardiamente, ao setor imobiliário dos países emergentes. Uma parcela menor aparece como investimento, reciclando-se na produção. Por outro lado, juros altos e moeda valorizando-se como no Brasil, atrai capital de curto prazo num processo chamado carry trade, onde o dinheiro tomado fora a custo zero entra e sai muito bem remunerado pelos juros e diferença cambial. O excesso de liquidez distribui-se de forma desigual entre os países e está relacionada com a atração que os mercados e os juros locais exercem sobre as moedas estrangeiras, principalmente o dólar, e a política monetária interna. Esse dinheiro excedente, que não contém nenhum átimo de valor, mais tarde ou mais cedo será transformado em cinzas na fogueira da inflação ou deflação.

Além do risco de estagflação que ronda o centro do capitalismo, o agravamento da crise com a insolvência de países europeus ao não suportarem mais o peso da dívida, é real e palpável. A previsão é que a dívida na Grécia chegue a 160% do PIB em pouco tempo; não deve ser diferente nos outros países em situação semelhante que só conseguem dinheiro no mercado absurdamente caro para cobrir os déficits ficais.  Sendo esse o cenário, os bancos europeus serão atingidos em cheio. As ondas destruidoras deverão alcançar bancos da América do Norte. Esse segundo momento de colapso do sistema financeiro pode ser pior do que o primeiro, com o agravante de que as medidas tomadas pelos bancos centrais após a falência do Lehman Brothers encontram-se esgotadas. A outra ponta utilizada para que o mundo não afundasse em uma depressão, as medidas anticíclicas que garantiram aos países emergentes retomarem o crescimento, serão muito mais difíceis num momento em que estes desaceleram para controlar a inflação. Mesmo assim há sinais de que as medidas de arrocho não tem surtido o efeito esperado, apesar dos discursos oficiais otimistas.

Saindo da superestrutura financeira e penetrando na economia real, veremos que é aí que mora o problema. Depois da Segunda Guerra Mundial, a expansão fordista só foi possível com o endividamento do Estado, das empresas e das famílias, apesar da expansão do mercado de trabalho. Nos anos oitenta, com a revolução tecnológica, acelerou-se a automação das atividades industriais, do campo com a mecanização do plantio e da colheita, e, mais tardiamente dos serviços, tendo no setor financeiro o exemplo mais marcante. Portanto, forçada pela concorrência, a produtividade do trabalho dá um salto gigantesco com a “cientifização” da produção. Começa então a estagnação do mercado de trabalho e o declínio do trabalho produtivo com o desaparecimento de antigas atividades agora incorporadas as máquinas e com novas formas de organização do processo de trabalho, repercutindo na formação da mais-valia total, e, consequentemente, na acumulação de capital e no financiamento do Estado.

Vários foram os espasmos da crise antes de 2001, quando entrou em colapso a indústria do pontocom. Cada doloroso momento de destruição foi seguido da expansão do crédito em todos os segmentos do capitalismo global: às empresas, forçadas pela concorrência, para aquisição de novas máquinas que aumentassem a produtividade, aos estados para cobrir os déficits fiscais e às famílias para manter o consumo em alta. Como não existia dinheiro real para sustentar tudo isso, a saída foi expandir o crédito ao infinito, desencadeando uma pirâmide financeira coletiva de financiamento e refinanciamento de dívidas, e desatar os nós que dificultavam a geração de capital fictício. Vieram então as medidas de desregulação financeira. Ressalve-se, no entanto, que o papel dos legisladores nesse processo foi de avalizar o que o mercado já tinha feito, ou seja, limpar o “entulho” que não se aplicava a mais nada.

Sob os efeitos das bolhas que nesse ambiente pululavam, a economia real iniciou um falso movimento em direção ao desconhecido. Acoplou-se definitivamente ao capital fictício que alimentava o crédito fácil e seguiu sua rota. O capital fictício não era mais uma anomalia do desenvolvimento capitalista que precisava ser purgado nas crises cíclicas, para que a acumulação seguisse seu caminho livre de eventos perturbadores. Ao contrario, a economia real transformara-se gradativamente em apêndice do capital fictício, e passara depender deste como o cristão do batismo. Isso impossibilita qualquer regulação que ponha em risco a formação do capital sem substância. Só os estoques de derivativos supera em dez vezes o PIB mundial e continuam crescendo. 

Mas, como vimos, depois do “efeito riqueza”, as bolhas explodem deixando um rastro de destruição que o mercado acredita reparar com novas formações. Os estados, ao tornarem-se insolventes, podem desabar sobre o peso da dívida. Vivemos um momento singular: no mercado, as bolhas explodindo quase na mesma velocidade que se formam deixam uma terra arrasada sem grandes chances de nela se cultivar alguma coisa. Os estados, no limite do endividamento, apelam para máquina de imprimir moedas, cujo efeito colateral pode ser a hiperinflação com mais destruição. Os pulmões de aço que injetam oxigênio, capital fictício, na economia real moribunda começam a falhar sem que outros mecanismos surjam para substituí-los. A sociedade capitalista, ao contrário da velha senhora, pode não “morrer melhorada” como desejava o médico militar. Pode ser precedida de um interminável sofrimento se não soubermos agir para um desaparecimento sereno que no futuro seja um evento lembrado com alegria e não com saudade do passado.

01.06.2011

Domingo, Abril 17, 2011

Regulanção e desregulação, a serviço de quem?

Rall

A aplicação da lei Dodd-Frank aprovada pelo Congresso Americano, que propõe regulamentar o mercado financeiro nos EUA, acirra o debate entre defensores e contra a dita lei. No entanto, regulamentar o mercado financeiro globalizado, cuja complexidade é incapaz de ser compreendida em sua totalidade pelos operadores desse mercado, pelos funcionários das agências regulatórias e também pelos legisladores, como tem mostrado a crise em processo, será difícil mesmo se a lei fosse aplicada a todos os mercados. Torna-se menos provável seu sucesso quando sabemos que a legislação está restrita a um único País, embora seja este o maior detentor mercado financeiro do mundo.

Regulação pode funcionar em determinadas situações, mesmo que não plenamente, quando aplicada de forma restrita em defesa do capital e sua lógica, contra as intervenções governamentais consideradas indevidas e abusos de grupos privados que possam afetar a rentabilidade do capital do setor regulamentado como um todo. As empresas, de um modo geral, aceitam investir quando através de legislação tem a garantia de que as regras dos mercados serão respeitadas pelos governos. Essa é a regulação possível. No entanto, como mercado financeiro e o Estado no momento atual do capitalismo funcionam como motores da geração de capital fictício necessário à manutenção simulada da economia real, a aplicação de normas que se contraponham a essa tendência, ou não pega, pois logo vai se encontrar meios capazes de facilitar a fuga das restrições impostas, ou jogará o mundo em depressão pelo corte do suprimento do capital sem substância que mantem a economia respirando nas três últimas décadas. O mais provável é a legislação não firmar-se ou ser mutilada de tal forma na regulamentação para sua aplicação que nenhum impacto será sentido pelo mercado financeiro.

No fundo os legisladores que aprovaram a lei Dodd-Frank, não entendem que a desregulação financeira impelida pelas leis cegas do mercado, pois fim a uma legislação que já não dava conta de uma nova realidade. O “entulho”, como assim gostavam de chamar os neoliberais às leis que aparentavam dificultar que o novo aflorasse com toda força, já tinha sido superado pela dinâmica da realidade que se impunham ao mercado. Que realidade era essa? O chamado capital fictício, ou seja, todo capital que não é gerado pela real “valorização do valor” (Marx), sempre esteve presente desde os primórdios do capitalismo. Com a crise do trabalho produtivo, gerador de mais-valia, o capital fictício, antes tido como um evento efêmero que era purgado nas crises cíclicas do capitalismo, a partir dos anos 80, com a revolução tecnológica passa a ser determinante na manutenção do movimento, mesmo que falseado, da engrenagem de acumulação de capital.

Os neoliberais foram os primeiros, ajudados pela crença fanática em relação ao poder da “mão invisível do mercado”, a levantarem a bandeira da desregulação. A direita moderna compreendeu “institivamente” a incapacidade de a regulação dar conta da realidade que emergia, e utilizou a favor de seus objetivos conceitos e valores que lhe convinham. Equivocara-se ao querer varrer qualquer coisa que cheirasse interferência do Estado na economia, como se este fosse um ente estranho que se contrapunha ao bom funcionamento das leis do mercado. Descobrira tardiamente numa experiência dolorosa com os espasmos da crise em 2008/2009, que o Estado era a outra face da sociedade capitalista, não existia só o festejado mercado. Sem nenhum escrúpulo, e rapidamente se desfazendo de todo o arsenal teórico quando se vira com dólar furado no bolso, estendeu ansiosamente o pires para as gordas esmolas daquele que tanto combatia.

O entusiasmo pelo mercado, no ápice do período neoliberal, alastrara-se aos sociais democratas, socialistas e aparentados. A esquerda desorientada inventava moda como a “Terceira Via” e até cunhara um termo “socialismo de mercado”, uma forma acanhada de dizer ao que tinha renunciado. Com a queda do muro de Berlim decretara-se o “fim da história” e o mercado já absoluto passou a ser eterno. A arrogância neoliberal, que arrasta consigo uma social-democracia resmungona e sem norte, triunfou até ser abalada no segundo ato.

A hegemonia neoliberal, agora reconhecendo a importância do Estado que antes tanto combatia e desprezava, refez alguns conceitos para se adaptar aos novos tempos, mas continua em frente acreditando ter a solução para crise. E a esquerda “tradicional”? Essa ainda atarantada segue acreditando em fórmulas do passado como meios de superação da crise. Com o dedo em riste, fica a apontar para o suposto inimigo e a dizer-lhe que estava com a razão em sua defesa do Estado, como se este estivesse acima de qualquer suspeita e distante da contaminação pelo vírus mercantil. Exige medidas regulatórias que possam encabrestar o sistema financeiro. Não consegue entender que são essas amarras rompidas pelo mercado e pelo Estado com novas regulamentações, que garantem há muito a formação do capital fictício que alimenta a economia real em crise.

Enquanto não se buscar saída além dos limites de funcionamento da sociedade capitalista, a crise persistirá ou na forma de estouro de bolhas no mercado ou de endividamento insustentável dos Estados. Irlanda, Grécia, Portugal, Espanha e outros Estados já assinalados como os próximos da lista de socorro financeiro são a ponta do iceberg de uma crise bem maior das dívidas “soberanas”. A tendência é o encurtamento do tempo entre um espasmo e outro da crise, jogando um número cada vez maior de indivíduos na miséria, até o rompimento total do tecido social já dilacerado. Aí a guerra civil ou entre nações pode surgir como uma enorme possibilidade se não se encontrar caminhos para uma sociedade emancipada do fetiche do valor, capaz de romper a “gaiola de ferro” (Weber) em que nos metemos. Rebeliões como as do Oriente Médio e do Norte da África, que ainda buscam saída nos limites da sociedade capitalista, podem cair na armadilha onde todos mudam para continuar como estar. Quando descobrirem o engodo, há risco de confrontos violentos como vazão às frustações misturadas a um tipo de motivação religiosa que explora o desespero com fins políticos.

17.04.2011

Domingo, Fevereiro 13, 2011

A rebelião dos jovens desempregados do Norte da África

Rall

“A única cura infalível para o desemprego entre jovens, porém, é um crescimento econômico forte e sustentado, que gere tanta demanda por mão de obra que os empregadores não tenham escolha a não ser contratar os jovens.” Do artigo: “Desemprego de jovens se torna epidemia mundial.” Do articulista Peter Coy, Bloomberg Businessweek.

É comovente assistir em tempo real os desenrolar dos fatos no Egito, que culminou com a derrubada de Mubarak do poder após 30 anos de regime autoritário de partido único, para quem vivenciou situação semelhante. Mas, as emoções que afloram dessa explosão espontânea, não podem embotar a consciência crítica nem criar ilusões sob o desfecho dessa rebeldia juvenil. Como fenômeno mundial, qual a relação entre os jovens rebeldes dos subúrbios da França que incendeiam carros e os que derrubam governos como os da Tunísia e do Egito? A primeira é que se trata, em grande maioria, de jovens desempregados, frustrados por serem excluídos do mercado e do consumo. Aspirações consideradas legítimas para quem vive em uma sociedade, que se não consegue trocar sua força de trabalho por outras mercadorias, mesmo que seja só para garantir o necessário para repor as energias gastas, põe em risco à sobrevivência social e física.

Esses jovens, porém, tem seu horizonte limitado ao estabelecido, e suas reivindicações se deparam com um caudaloso rio, cujas correntezas aumentam à medida que se tenta vencê-las, e empurra todos para traz. Nesses países, o crescimento do PIB não é suficiente para tirar os jovens do desemprego como alguns acreditam, mesmo que num primeiro momento isso aparente real. A tendência é o rio caudaloso, com a competição internacional e a intensificação da produtividade com novas tecnologias de produção chegando às fábricas, jogar jovens e não jovens em idade produtiva para o capital longe de seu leito. Essa segunda questão está relacionada com o desemprego chamado estrutural que atinge de forma diferente, indivíduos de todas as idades, com tendência a se agravar globalmente. Esse é um dos grandes impasses do capitalismo que emergiu com a revolução tecnológica: quanto mais produz mais dispensa força de trabalho, substância do valor(1).

A terceira, a insatisfação que explode em rebeliões localizadas ou nacionais, são sintomas de reação ao rastro destruidor e resistência à administração autoritária da crise. Países como o Egito e a Tunísia, pelo tamanho do desemprego, mesmo pequenas variações negativas no crescimento econômico, repercutem fortemente no mercado de trabalho e no consumo das famílias. A solidariedade intrafamiliar é maior que no Ocidente, e como as redes de proteção social do Estado são precárias ou inexistentes, o salário de um membro da família empregado pode ser o único rendimento regular do agregado familiar. A rebelião nesses países, como também se assistiu no Irã, geralmente são reprimidas com muita violência e mortes. Apesar disso foi possível resistir e derrubar dois governos extremamente repressivos e autocráticos, enquanto os serviços de segurança interno e dos aliados americanos e europeus, como os analistas econômicos antes do espasmo da crise, acreditavam que tudo era céu de brigadeiro.

Na França(2) e em outros países da Europa, a repressão tem direcionado sua força contra os imigrantes, geralmente desempregados, muitos vindos do Continente Africano e do Oriente Médio, que reagem de forma caótica, destruído o que encontram pela frente em suas manifestações. O discurso no mínimo discriminatório de muitos governantes tem aumentado o clima de desconfiança entre o homem branco europeu e os imigrantes e descendentes. Medidas claramente racistas, antes só defendidas por partidos de extrema direita e agora aplicadas por partidos ditos de centro e de esquerda, tem tido o apoio das populações locais, apoio que se amplia à medida que o espectro de aprofundamento da crise se mantém como ameaça. Culpar os imigrantes pelos empregos perdidos é fórmula demagógica encontrada pelos políticos de vários credos, que acreditam assim convencer a população com explicações simplificadas para complexos problemas, e desvia o olhar de questões fundamentais relacionadas com a crise.

Buscar saída para o desemprego entre os jovens num “crescimento econômico forte e sustentado” como propõe Peter Coy, é uma ilusão no momento atual do capitalismo. Mesmo no transcorrer de seu artigo, onde constata que o desemprego é um fenômeno mundial que atinge brutalmente os jovens, ao comentar várias experiências e estudos de especialistas mostra o quanto é difícil à solução, quando se pensa em opções dentro dos limites do capitalismo. É precisa ficar claro que a derrubada de Mubarak, mesmo que haja eleições livres e limpas, ainda uma dúvida, não significa nenhuma “ruptura com o contínuum da história” (Walter Benjamin). As formas de dominação e sofrimentos poderão perpetuar-se e dificilmente haverá solução para o desemprego, cuja tendência é acentuar-se com a crescente automação da produção. A rebelião, porém, consolidando-se como movimento de resistência ao que estar aí, tem importante papel ao tirar debaixo do tapete, forçando uma pauta, questões que incomodam os gestores da crise do capitalismo.

(1)Na corrida pela produtividade o capital seca o fonte que o alimenta
(2)Furedi e a rebelião dos jovens na França

13.02.2011

Terça-feira, Janeiro 25, 2011

O retorno do emprego na indústria ou saudades de um passado que não volta mais

Rall

Começa surgir na imprensa um forte debate sobre qual capitalismo deverá ressurgir após o tão esperado estancamento da crise. Dizem que Obama e sua corte de economistas preferem que nas cinzas ainda em brasa seja erguido um novo edifício aonde se priorize a indústria com vistas ao mercado externo. É voz corrente entre assíduos frequentadores dos salões palaciano da Casa Branca, que o Presidente americano assumiu a tese da necessidade da expansão do emprego industrial como forma de reduzir o desemprego e se contrapor ao surgimento de novas bolhas. A economia americana, centrada em serviços, com a indústria contribuindo com apenas 8% do total de empregos, teria que elevar esse número para aproximadamente 25%, segundo os defensores da tese de que só com esses níveis de emprego industrial seria possível barrar o surgimento de outras bolhas e melhorar a média salarial do trabalhador americano. Parece haver uma importante contribuição dos desenvolvimentistas tupiniquins ao que hoje é defendido na América do Norte.

Porém, os detratores dos industrialistas tradicionais, ao atacarem, dizem que poucos sabem sobre a tendência “natural” aos serviços das economias maduras. Para eles não é a indústria produtora da vulgar e palpável mercadoria que deve receber a atenção do Governo, estas podem ser fabricadas a preços módicos no sujo e ávido por lucro mundo em desenvolvimento e ainda culpa-los pelos desastres sociais e ecológicos que ceifam vidas. Acreditam que a atenção deve ser dirigida as indústrias de bens imateriais, como Facebook, Google etc., e aquelas que se propõe gerar energia limpa para ansiosos consumidores. Centrar o esforço nas indústrias de alta tecnologia, inclusive a militar, para suprir o mercado interno e exportar, é o que defendem.

Suponhamos que a expansão da indústria fosse o caminho para diminuição do desemprego e a sustentada retomada como querem os primeiros. Mas será que os produtos americanos conseguiriam, no mercado mundial, competir com os similares chineses e de outros países que pagam baixos salários? Mantendo as condições atuais das indústrias, seria necessário que as empresas americanas aproximassem os salários de seus funcionários aos dos trabalhadores chineses, missão difícil apesar da depressão salarial que vem afetando os trabalhadores não qualificados.

A outra saída seria a intensificação ao extremo da produtividade através de novas tecnologias capazes de compensar os baixos salários dos países da periferia do capitalismo, que garante preços competitivos para suas mercadorias. Isso significaria altos investimentos em capital fixo, que só seria possível com mais endividamentos. Provavelmente não seria a solução para o desemprego na indústria local e, ainda, poderia fazê-lo aumentar em outros países. Mesmo assim, a tendência dos países em desenvolvimento em investir em máquinas e equipamentos para aumentar a produtividade, mantendo dentro do possível baixos os salários dos que ficam, dificultaria tais intenções.

A opção de aumentar a fatia do emprego industrial no mercado interno, considerando a alta “lucratividade” no momento do setor empresarial, fruto da política expansionista e generosa do Federal Reserve, das demissões e da desvalorização do dólar que facilita as exportações, exigiria um afastamento das indústrias americanas da zona de conforto fora de suas fronteiras, onde uma certa rentabilidade ainda é possível com investimentos menores. O movimento que se observa é uma fuga das empresas globais para áreas mais carentes do terceiro mundo em busca de baixos salários e de Estados autoritários que mantêm todos sob controle. Na Ásia, a corrida já se desloca do mercado de trabalho chinês com custos salariais em ascensão, para Bengladesh, Laos, Camboja e Vietnam, onde os salários são mais baixos e os trabalhadores habituados à férrea disciplina militar da caserna, adaptam-se as fábricas sem resistências. Mesmo os ramos industriais de ponta, que não apresentam essa mobilidade e se mantem nos países-sede, acossados pelo fogo cerrado da concorrência, são obrigados, sempre recorrendo ao crédito, fazerem enormes investimentos em automação para aumentar a produtividade, expulsando trabalho, substância do valor, da engrenagem de valorização do capital.

Com a contração do mercado interno, tem sido possível o aumento das exportações americanas para os países que tem suas moedas apreciadas em relação ao dólar e vem expandindo o PIB. Se os rumos mudam, não há nenhuma garantia do prosseguimento desse movimento que nem sequer tem parado as demissões, apesar de todo estímulo do Governo visando à criação de novos postos de trabalho.

A percepção dos analistas burgueses, que associam a queda do emprego na indústria com o surgimento das bolhas é parcial, como dizem: veem as árvores, mas não enxergam a floresta. Sabem que a rentabilidade vem caindo, mas só percebem no crescimento do trabalho improdutivo, ou seja, no trabalho que não gera mais valia, o problema. A acelerada expansão das terceirizações nas últimas décadas foi a aparente saída, encontrada pelo neoliberalismo, para este impasse. No entanto, isso não impediu o aprofundamento da crise e os apelos às bolhas, todas, direta ou indiretamente, ligadas a necessidade de crédito sem limites como forma de manter em andamento a acumulação simulada.

Conclusões baseadas em observações que desconsideram a análise da lógica interna do funcionamento do capitalismo e a história dessa forma específica de produção, que irreversivelmente, forçada pela concorrência, aumenta a produtividade liberando força de trabalho, são insuficientes por não revelar as tendências imanentes à dinâmica do capital verificadas a longo prazo. Portanto, para decepção dos saudosistas de direita e esquerda, é pouco provável essa volta ao passado do emprego industrial com os rearranjos da economia mundial, aos níveis desejados nos EUA e em outros países desenvolvidos.

25.01.2011

Terça-feira, Dezembro 14, 2010

A caixa mágica de Bernard Madoff

Rall


O aumento da produtividade pela incorporação de novas tecnologias impulsionada pela concorrência global, tornando supérfluo o “trabalho abstrato” na produção de mercadorias, manifesta-se nos negócios como aumento do capital fixo em detrimento da força de trabalho, desemprego estrutural e queda da rentabilidade na economia real. Como não há capitalismo sem lucro empresarial, ou seja, sem produção de mais-valia, busca-se na criação de capital fictício um simulacro da acumulação em crise. A partir daí, qualquer absurdo que aparentemente possa contribuir para o não desmoronamento do sistema é aceito como lógico, mesmo que no dia seguinte seja descartado como lixo. É nesse contexto que certas criações do mercado só aparecem como “loucura” a posteriori, quando devoram seus criadores.

Uma dessas invenções, o caso Madoff, um fundo com mais de 50 bilhões de dólares, por envolver grupos financeiros e gente considerada importante no mercado, sendo ele mesmo uma dessas personagens referenciadas na Wall Street, é o que mais repercutiu no show midiático dos últimos anos. Antes de se desfazer no ar, aparecia aos olhos de ambiciosos investidores como uma caixa mágica onde seu dinheiro entrava e saia duplicado. Como lá dentro não existiam máquinas da casa da moeda capazes de transformar papel em branco em notas verdes, todos sabiam que algum tipo de fraude era praticado. Inclusive grandes bancos como o HSBC, onde 33% de todos os recursos encaminhados para o fundo Madoff passaram por suas subsidiárias.

Somam-se ao HSBC uma longa lista de outros bancos americanos e europeus: Santander, JPMorgan, UBS, Citigroup, UniCredit e o Sonja Kohn, só para citar alguns, que com seus fundos alimentavam a trama sabendo que o esquema era insustentável, segundo denuncia de Irving Picard, administrador encarregado de recuperar o dinheiro perdido. Como fora possível a aceitação de tamanha fraude por investidores e instituições que conheciam as regras do mercado e pareciam fora de qualquer suspeita aos olhos da sociedade? Perguntam-se atônitos alguns analistas.

O esquema Ponzi como o aplicado por Madoff, onde um fundo de investimento paga gordos rendimentos aos primeiros investidores com o dinheiro investido pelos últimos a entrarem, é mais comum no aparente sério mundo dos negócios do que imaginam alguns mortais. É a forma extrema de se “multiplicar” o dinheiro sem nenhuma mediação, movido pela lógica da geração de capital fictício. Nesse mercado de ilusões, o real só aparenta ser real nos momentos de crise. Mesmo assim de forma passageira, fugaz, mas com suficiente força para causar estragos significativos. Passado este momento tudo continua movendo-se como dantes até um novo terremoto.

A prática do esquema Ponzi são formas não mais encobertas pelo véu da dissimulação, que esconde a fraude do capital em processo de interrupção da acumulação na economia real. Quando revelado, geralmente ultrapassa os limites aceitos na simulada acumulação das bolhas de todo espécie e na impressão de dinheiro sem substância pelos Estados nacionais. Impelido pela mesma lógica especulativa que faz a máquina do capital fictício mover-se, deixa os investidores seguros, mesmo aqueles com mais consciência do risco, pois é parte do jogo do mercado. Só se manifesta como “escândalo”, quando esgotado, desmorona transformando em cinzas o dinheiro investido, sacudindo da letargia os sistemas regulatórios que tudo sabiam, mas se recusavam investigar, achando que deveria ficar por conta do mercado corrigir o que poderia ser considerado aberrações, das quais provavelmente se beneficiavam.

A discussão entre os que defendem que sejam utilizados os mecanismos do mercado para coibir os excessos e os que defendem a intervenção regulatória do Estado para corrigir as imperfeições, é vazia de conteúdo. Pois o Estado quando regula, ou é chamado para tanto geralmente nas crises, busca intervir não contra o capital, mas para garantir sua reprodução. Não podendo ser impeditiva da acumulação, a regulação torna-se, entretanto, um problema para capitalismo em crise que já não mais consegue sobreviver sem crédito ao infinito, bolhas e endividamento estatal, fábricas de capital fictício. O excesso que deveria ser reprimido, a profusão de capital fictício, funciona hoje como pulmão artificial que produz o oxigênio necessário à economia real moribunda. Cortando-se este suprimento o paciente pode morrer, e os agentes do Estado e do mercado sabem muito bem disso, daí o insucesso das tentativas recentes de aplicar regras mais rigorosas na regulação.

É, portanto, a crise da economia real, que ao gerar a necessidade de circulação de dinheiro sem substância para manter as aparências de que o valor não sofreu descontinuidade e continua em seu movimento de valorização, quem alimenta a formação de capital fictício e o surgimento das pirâmides financeiras. Quando olhamos acuradamente as engrenagens do capital financeiro que sustenta precariamente o funcionamento do capitalismo mundial, veremos que a caixa mágica de Bernard Madoff, não é nem mais, nem menos absurda do que o sistema que a gerou.

14.12.2010

Segunda-feira, Novembro 22, 2010

A debacle do Panamericano, banco do grupo Sílvio Santos e o momento econômico

Rall

Há alguma relação entre a contida falência do banco Panamericano e a situação da economia mundial?

A surpresa foi total, dos contribuintes do baú da felicidade aos renomados analistas, todos perplexos perguntaram-se como pode um banco de um grupo aparentemente sólido ter que ser socorrido de um rombo de mais dois e meio bilhões de reais para não falir! Do espectador passivo, que recebe como verdadeiras as imagens escolhidas e repetidas pela mídia (para não esquecer Derbord), em que na tela, o principal proprietário desse grupo, distribui espetacularmente dinheiro e convence os seus seguidores que consumindo suas mercadorias estão comprando bilhetes premiados da felicidade, não se poderia esperar manifestação diferente. Para os analistas, habituados a palpitar com tanta segurança sobre os fundamentos da economia brasileira, a surpresa é um momento de estranhamento entre suas convicções e o comportamento dos fatos econômicos que fogem ao esperado, mesmo que tais fatos aparentem uma manifestação isolada da fraqueza de uma empresa. Isto os leva a ver apressadamente, na malversação dos recursos por interesses particulares à única causa da derrocada de uma empresa.

Os executivos dos bancos, corretores e gerentes, da mesma forma que os agentes de qualquer outra instituição não financeira, não separam seus interesses privados dos interesses das empresas para a qual trabalham. Podemos afirmar que é isso que os motiva. Acreditam alguns analistas que estes podem exceder os limites aceitáveis e levados por incentivos, enveredarem pelo chamado “risco moral”, quando de posse de informações privilegiadas se beneficiam financeiramente em detrimento dos acionistas e dos proprietários. É o problema das informações assimétricas que quando não controladas pode matar a galinha dos ovos de ouro, situação geralmente associadas à má gestão. No entanto, no capitalismo não há uma questão ética, mas de acumulação de capital. O termo “risco moral”, expressa, de forma incompleta, como se manifesta à superfície dos fatos a lógica cega que move os agentes econômico, "a valorização do valor como sujeito automático da sociedade (Marx).”

Mas as dificuldades dos pequenos bancos não devem estar só relacionadas com a usura de poucos e a incompetência gerencial como quer a grande imprensa. Pode ser um agravante, sem dúvida, porém não se deve esquecer que com o encarecimento do dinheiro nas operações interbancárias em 2007 e 2008, associado a apostas ariscadas anteriores a este período, praticadas livremente por todos, deve ter afetado profundamente os balanços dos pequenos bancos. O repetido discurso oficial de que os bancos brasileiros são suficientemente sólidos e estão preparados para enfrentar a instabilidade financeira que assola o mundo não é verdadeiro(1). Os primeiros desmentidos vieram da forçada fusão do Itaú com o Unibanco, cujo real motivo, o efeito da crise, só recentemente foi revelado por um diretor do Banco Centra, logo em seguida demitido, em matéria publicada no Jornal Valor Econômico.

As crises financeiras se propagam em ondas pelo globo. Atingem de forma desigual na intensidade e no tempo países e continentes, dependendo da integração de suas economias. Em certos momentos, águas que pareciam calmas tornam-se revoltas como agora assistimos na Europa. No Brasil, os diques velozmente erguidos pelo Governo com as estacas dos bancos estatais, para impedir que as ondas açoitassem com mais força a economia local, nem por isso deixou de fazê-lo. É só lembrar, entre outras, os enormes prejuízos com derivativos que atingiu grandes empresas e forçou a fusão da Sadia com a Perdigão. Mas no sobe e desce do balanço contínuo, os diques estatais podem soçobrar à energia das ondas, transbordando ou rompendo-se por não suportar a pressão. A debacle do Panamericano pode ser o primeiro sinal. As dificuldades no câmbio na luta feroz pelos mercados, agravadas pelas recorrentes emissões de dinheiro sem substância pelo Fed e o endividamento público das nações sem precedente em tempo de paz, tende intensificar mais ainda a força destruidora crise financeira mundial. E o que parecia uma “marolinha” para o atual Presidente, pode transformar-se em um tsunami para sua sucessora.

(1) O Brasil está imune à crise?

21.11.2010

Segunda-feira, Outubro 25, 2010

Tropa de elite e a degradação do Estado

Rall

O segundo filme do diretor José Padilha, busca mostrar a violência que grassa os aparelhos de segurança do Estado, associada a uma corrupção crônica que se estende ao Executivo, Legislativo e, menos evidente, ao Judiciário. O filme se desenrola contado a história das milícias do Rio de Janeiro, que surgem a partir da relação de militares com o crime organizado. Observam que os criminosos montaram nas favelas uma eficiente empresa que se ocupa não só da venda de drogas, mas também do monopólio da distribuição de gás, venda de ligações clandestinas de TV a cabo e de outros lucrativos comércios. Os policiais de um batalhão, não satisfeitos com o valor da propina paga pelo tráfico, resolve tomar uma favela e assumir o comércio dito informal, expulsando os traficantes e instituindo um Estado paralelo, com cobrança de “impostos” para garantir a segurança do cidadão.

Não demora e o achado que promete “segurança” à população e muito dinheiro para os envolvidos, chega ao núcleo do poder político (1) cujos membros se aliam as milícias e passam a ordenar a ocupação das favelas pelas tropas de elites, deixando o território livre para instalação de bandos armados, acobertando o crime organizado gestado nas corporações militares. Os políticos ganham com a repercussão manipulada dos fatos e com a divisão do butim. Apesar de o filme tentar retratar a situação particular do Rio de Janeiro, capta uma realidade mais geral em movimento, não restrita só aos Estados brasileiros, mas que hoje atinge todo o mundo globalizado. Daí uma das qualidades do filme como obra cinematográfica.

A crise pela qual passa a sociedade capitalista tem evidenciado o quanto Estado e mercado se complementam inclusive na bandalheira. Os trilhões de dólares e outras moedas transferidas pelos estados em todo mundo para cobrir os prejuízos do mercado com papéis podres e pirâmides financeiras mostra que a lógica é a mesma, só muda a forma: fazer dinheiro, mesmo que fictício, sem importar-se o custo humano e social.

A concorrência que se acirra com a intensificação da crise de acumulação real de capital, assume na sociedade burguesa uma dimensão espantosamente destruidora, incapaz de ser contida em seus excessos por um Estado cada vez mais contaminado por essa lógica. Portanto, a degradação do Estado que o distancia de sua forma “ideal” é o reflexo das taras de uma sociedade em profunda crise que atingem todos seus interstícios. Estado e mercado, que são partes do todo que constituem a sociedade burguesa, apesar de em alguns momentos passarem por violentas tensões resultantes das contradições inerentes, não vivem um sem o outro e alimentam-se mutualmente em sua miséria, movidos pelo fetiche do dinheiro venerado por todos. A loucura do mercado financeiro não está desacoplada da economia real como muitos desejam e (ou) como tenta convencer outro filme, “Wall Street 2: O dinheiro nunca dorme” , mas tem na crise de “valorização do valor” da economia real sua causa fundamental.

Como sair disso e nos livrar da barbárie? Com certeza não através do Estado burguês, que se degenera em grupos mafiosos violentos e nem sequer consegue mais administrar a crise, como deseja uma esquerda que se alimenta de literatura e conceitos mofados no tempo e é incapaz de romper o arcabouço ideológico ao qual estão amarradas suas fantasias. Se a crítica social não quiser sucumbir ao totalitarismo da mercadoria que nos sufoca, tem que dirigir suas baterias às formas existentes, abrindo frestas em todas as frentes para que se enxerguem outras formas de organização em formação capaz de superar o estado de coisa em que vivemos, antes que seja tarde demais para se alcançar uma verdadeira comunidade humana.

Esperamos que o próximo filme da série, o Capitão Nascimento, apesar das expectativas, não seja transformado no herói capaz de realizar a limpeza ética do Estado, que regenerado, coloca-se pronto para extirpar pelo uso da força as pontas podres do sistema. Pois essa coisa estranha e fora de controle chamando “sistema”, é a expressão de força de um Estado capitalista cada vez mais armado contra os indivíduos e a possibilidade de uma sociedade solidária, planejada e construída a partir das reais necessidades humana. Seria melhor manter nos filmes vindouros a crítica negativa aberta do que buscar um final feliz, que anestesia com imagens espetaculares a possibilidade de reflexões.

(1) Da doce ilusão à consentida mentira

25.10.2010

Domingo, Outubro 10, 2010

A crise aproxima-se perigosamente do câmbio

Rall

As medidas dos governos em defesa dos mercados domésticos que tem levado a variações cambiais, sinalizam que a unidade em torno do enfrentamento da crise começa a se desfazer com a esperada retomada do crescimento econômico derrapando nas dificuldades estruturais. A chiadeira é geral: reclama-se da China que administra burocraticamente o yuan, garantido uma certa estabilidade frente a uma cesta de moedas, principalmente ao acompanhar as seguidas desvalorizações do dólar. Fala-se na necessidade de valorização do yuan permitindo um equilíbrio nos preços dos produtos das exportações chinesas que vem arruinando as indústrias dos países em desenvolvimento e dificultando a retomada da produção nos países desenvolvidos ao inundar o mundo com mercadorias baratas. Oferecem como sugestão que a China estimule o mercado interno de tal forma que o mesmo seja capaz de absorver as mercadorias que vão para fora e também o excedente de países desenvolvidos. Sugestão que não precisa de um observador muito atento à economia chinesa para entender a impossibilidade da criação desse tão cultuado mercado local nas condições dadas.

Tal desejo dos “formuladores” das políticas econômicas dos países do centro não se restringe a China, é estendido a todos os países ditos emergentes com saldo na balança comercial. Acredita-se que chegou a hora de se inverter a lógica dos circuitos deficitários, ou pelo menos de se buscar um equilíbrio mais justo nas transações comerciais corrigindo-se as distorções. É nesse contesto que devem ser analisadas as atuais ondas desvalorização do dólar.

A trajetória de queda do dólar no tempo deve-se a um conjunto de variáveis complexas. Está relacionada com a crise do dinheiro em geral que se torna mais evidente nesta moeda pelo papel que exerce de equivalente geral, cuja única âncora que lhe garante esta função com o fim da paridade ouro/dólar, passa a ser poder político/militar americano. Quando se analisa a história do dinheiro após a segunda guerra mundial, o dólar na função de dinheiro universal expressa melhor a desvalorização das moedas levada a efeito pelo aumento da produtividade, que diminui o “tempo de trabalho socialmente necessário à produção de mercadorias (Marx)”, induzindo a corrosão do valor e a consequente queda dos preços dos produtos. Enquanto “mercadoria rainha”, o dinheiro tende a acompanhar a desvalorização do valor no tempo independente das variações conjunturais. Nos mercados financeiros o dinheiro que rende juros, autonomizado em relação à produção, perde seu “status” e é transacionado como uma vulgar mercadoria. Empacotado com papéis de cores diferentes atende do mais simples ao mais refinado gosto dos investidores. Dessa forma, o dinheiro ao se multiplicar descolado do processo real de valorização gera capital fictício. Como o preço das mercadorias que oscila ao sabor das conjunturas, nas relações de mercado o dinheiro flutua em variadas situações.

São, portanto, diversas as circunstâncias que levam as moedas a flutuarem umas em relação às outras, independente da queda do valor das mercadorias pelo aumento da produtividade. Em relação ao dólar pode-se afirmar que estão relacionadas com os interesses americanos enquanto superpotência econômica e militar. Na situação atual, a fraqueza e a tendência à deflação da economia americana, mostram-se como importantes elementos que pressionam o dólar para baixo. Mas são as medidas que buscam conter esta situação, como o afrouxamento monetário com emissão sem precedente de dólar para salvar bancos e conglomerados empresariais, o principal responsável pela perda de força dessa moeda. A inflação do dólar por esse mecanismo, se por um lado busca salvar empresas e reativar o crédito, por outro repercute nas importações e exportações americanas com as alterações no câmbio.

As mudanças cambiais nos EUA repercutem em todo mundo por ser este País o maior sorvedouro de mercadorias do planeta vindas praticamente de todos os cantos da terra e por ter o dólar à função de moeda universal. Quando o dólar recua em relação às demais moedas, os produtos americanos tornam-se mais competitivos e as exportações tendem aumentar. Esse fato, porém não é verdadeiro para países que mantém sua moeda desvalorizada artificialmente por estar atrelada ao dólar como acontece com a China. Nos câmbios flutuantes, os governos geralmente superavitários, tendem a se protegerem comprando dólar e formando reservas gigantescas nessa moeda, praticamente não remuneradas que se desvalorizam. O excesso de dinheiro sem substância emitido, não absorvido pela produção e consumo nos países do centro, vem fluindo para países da periferia do capitalismo, agravando os desequilíbrios cambiais com a valorização das moedas e formando bolhas nesses mercados que não deverão se sustentar por muito tempo.

O Brasil é o exemplo mais contundente desse fenômeno. Apesar da defesa que se faz dos bons “fundamentos da economia” (o que se quer dizer com isso numa economia globalizada?) quando se trata de exportação, observa-se que na relação entre bens industriais e produtos primários o pêndulo vem se deslocando no sentido dos últimos(1). A perda de competitividade da indústria brasileira relacionada com a baixa produtividade, infraestrutura precária, agravada agora com os desequilíbrios cambiais salta aos olhos. A saída via desvalorização do Real por medidas administrativas ou pelo previsto déficit na balança comercial nos próximos anos, pode se mostrar insuficiente para enfrentar a enxurrada de mercadorias vindas de toda parte do mundo, principalmente da China. Com os ânimos acirrados os interesses nacionais tendem prevalecer e fica difícil um acordo global para o câmbio como assim desejam o FMI e alguns governos.

Na China dois fenômenos manifestam-se com maior visibilidade. Pelo fato do yuan estar atrelado ao dólar, a queda deste leva a desvalorização da moeda chinesa em relação as demais, deixando seus produtos arrasadoramente competitivos quando comparados com de outros países. As mercadorias da “fábrica do mundo”, como assim é chamada a China, invadem mercados e desestruturam parques industriais em todo mundo, principalmente nos países menos desenvolvidos, compensando com isso a redução das vendas para os EUA. Por outro lado, as empresas americanas, apesar de expandir suas vendas externas favorecidas pelo câmbio, não conseguem competir internamente com os produtos chineses devido a desvalorização administrada do yuan e aos baixíssimos salários pagos aos trabalhadores, fórmula utilizada pelo governo chinês para compensa a baixa produtividade de suas indústrias e que o leva a resistir em aplicar medidas de correção do câmbio via valorização da moeda. A redução da entrada de mercadorias chinesas nos EEUU deve-se fundamentalmente ao encolhimento desse mercado com o estouro da bolha financeira.

Reverter esse quadro das relações comerciais sino-americana onde os interesses se imbricam e se conflitam, não será fácil. E entre os maiores interessados para que nada mude, além do Governo chinês estão às empresas do Japão, da Europa Ocidental e, principalmente, dos Estados Unidos instaladas na China com destino certo para suas mercadorias. Num imbróglio deste, com as trocas internacionais enfraquecidas pela redução do consumo e onde todos forçam a barra para colocar o excedente de sua produção no quintal do outro mesmo a preços módicos, a possibilidade de graves crises cambiais em países onde as moedas continuam se valorizando em relação ao dólar é uma questão de tempo. Tudo vai depender dos próximos lances na busca de acomodação dos interesses da “fábrica do mundo” e do maior mercado consumidor do planeta.

Se chegarem a um acordo é possível que a conta seja paga pelos outros. Os países mais pobres amargarão com os maiores prejuízos. Mas se o confronto se acirrar e o dólar continuar em queda livre, acompanhado de perto pelo yuan, o mercado mundial pode travar ainda mais as trocas com medidas protecionistas, com sérias repercussões na já cambaleante economia. Aí o salto não será em W como querem alguns analistas, mas num precipício aonde a escuridão não permite que se enxergue onde pousar.

(1) A tendência da indústria brasileira

10.10.2010