domingo, fevereiro 13, 2011

A rebelião dos jovens desempregados do Norte da África

Rall

“A única cura infalível para o desemprego entre jovens, porém, é um crescimento econômico forte e sustentado, que gere tanta demanda por mão de obra que os empregadores não tenham escolha a não ser contratar os jovens.” Do artigo: “Desemprego de jovens se torna epidemia mundial.” Do articulista Peter Coy, Bloomberg Businessweek.

É comovente assistir em tempo real os desenrolar dos fatos no Egito, que culminou com a derrubada de Mubarak do poder após 30 anos de regime autoritário de partido único, para quem vivenciou situação semelhante. Mas, as emoções que afloram dessa explosão espontânea, não podem embotar a consciência crítica nem criar ilusões sob o desfecho dessa rebeldia juvenil. Como fenômeno mundial, qual a relação entre os jovens rebeldes dos subúrbios da França que incendeiam carros e os que derrubam governos como os da Tunísia e do Egito? A primeira é que se trata, em grande maioria, de jovens desempregados, frustrados por serem excluídos do mercado e do consumo. Aspirações consideradas legítimas para quem vive em uma sociedade, que se não consegue trocar sua força de trabalho por outras mercadorias, mesmo que seja só para garantir o necessário para repor as energias gastas, põe em risco à sobrevivência social e física.

Esses jovens, porém, tem seu horizonte limitado ao estabelecido, e suas reivindicações se deparam com um caudaloso rio, cujas correntezas aumentam à medida que se tenta vencê-las, e empurra todos para traz. Nesses países, o crescimento do PIB não é suficiente para tirar os jovens do desemprego como alguns acreditam, mesmo que num primeiro momento isso aparente real. A tendência é o rio caudaloso, com a competição internacional e a intensificação da produtividade com novas tecnologias de produção chegando às fábricas, jogar jovens e não jovens em idade produtiva para o capital longe de seu leito. Essa segunda questão está relacionada com o desemprego chamado estrutural que atinge de forma diferente, indivíduos de todas as idades, com tendência a se agravar globalmente. Esse é um dos grandes impasses do capitalismo que emergiu com a revolução tecnológica: quanto mais produz mais dispensa força de trabalho, substância do valor(1).

A terceira, a insatisfação que explode em rebeliões localizadas ou nacionais, são sintomas de reação ao rastro destruidor e resistência à administração autoritária da crise. Países como o Egito e a Tunísia, pelo tamanho do desemprego, mesmo pequenas variações negativas no crescimento econômico, repercutem fortemente no mercado de trabalho e no consumo das famílias. A solidariedade intrafamiliar é maior que no Ocidente, e como as redes de proteção social do Estado são precárias ou inexistentes, o salário de um membro da família empregado pode ser o único rendimento regular do agregado familiar. A rebelião nesses países, como também se assistiu no Irã, geralmente são reprimidas com muita violência e mortes. Apesar disso foi possível resistir e derrubar dois governos extremamente repressivos e autocráticos, enquanto os serviços de segurança interno e dos aliados americanos e europeus, como os analistas econômicos antes do espasmo da crise, acreditavam que tudo era céu de brigadeiro.

Na França(2) e em outros países da Europa, a repressão tem direcionado sua força contra os imigrantes, geralmente desempregados, muitos vindos do Continente Africano e do Oriente Médio, que reagem de forma caótica, destruído o que encontram pela frente em suas manifestações. O discurso no mínimo discriminatório de muitos governantes tem aumentado o clima de desconfiança entre o homem branco europeu e os imigrantes e descendentes. Medidas claramente racistas, antes só defendidas por partidos de extrema direita e agora aplicadas por partidos ditos de centro e de esquerda, tem tido o apoio das populações locais, apoio que se amplia à medida que o espectro de aprofundamento da crise se mantém como ameaça. Culpar os imigrantes pelos empregos perdidos é fórmula demagógica encontrada pelos políticos de vários credos, que acreditam assim convencer a população com explicações simplificadas para complexos problemas, e desvia o olhar de questões fundamentais relacionadas com a crise.

Buscar saída para o desemprego entre os jovens num “crescimento econômico forte e sustentado” como propõe Peter Coy, é uma ilusão no momento atual do capitalismo. Mesmo no transcorrer de seu artigo, onde constata que o desemprego é um fenômeno mundial que atinge brutalmente os jovens, ao comentar várias experiências e estudos de especialistas mostra o quanto é difícil à solução, quando se pensa em opções dentro dos limites do capitalismo. É preciso ficar claro que a derrubada de Mubarak, mesmo que haja eleições livres e limpas, ainda uma dúvida, não significa nenhuma “ruptura com o contínuum da história” (Walter Benjamin). As formas de dominação e sofrimentos poderão perpetuar-se e dificilmente haverá solução para o desemprego, cuja tendência é acentuar-se com a crescente automação da produção. A rebelião, porém, consolidando-se como movimento de resistência ao que está aí, tem importante papel ao tirar debaixo do tapete, forçando uma pauta, questões que incomodam os gestores da crise do capitalismo.

(1)Na corrida pela produtividade o capital seca o fonte que o alimenta
(2)Furedi e a rebelião dos jovens na França

13.02.2011

2 comentários:

Crítica Social disse...

De fato, condordo plenamente com o seu pensamento, porque a encruzilhada egípcia nos mostra que a questão social é a questão do futuro do capitalismo em crise há muito tempo.

Abraço do Atanásio

Crítica Social disse...

Este é o ponto, uma sociedade que anseia pelo ingresso no capitalismo tardio e pelo capitalismo em crise, cujo colapso se avizinha. Concordo com seu pensamento.

Atanásio