domingo, janeiro 17, 2010

Haiti, a nódoa escondida do capitalismo mundial

Rall


A miséria que assola o segundo País ao declarar-se independente nas Américas, para se mostrar em sua plenitude, foi necessário um desastre natural de proporções inéditas. Às portas da maior potência capitalista do mundo, estava ali, flutuando no Oceano Atlântico, desacoplado do mercado mundial e esquecido pelo capital por não ser rentável. O Haiti, refugo do capitalismo global, há muito já vinha se desagregando enquanto nação. Um Estado antes apropriado pela família Duvalier, que usava o exército e os terríveis Tontons Macoutes para as mais abjetas formas de violência e exploração da população, garantia certa coesão com o uso do terror, assassinando e amedrontando psicologicamente, pois se difundia junto à população supersticiosa que François Duvalier, o Papa Doc, além de suas tropas genocidas, tinha a seu dispor um exército de zumbis prontos para entrarem em ação em defesa do pai de todos.

Na periferia do mundo capitalista patriarcal, surgem aberrações toleradas pelos países do centro, apesar de aparentarem o contrário, por fazerem parte da ordem mundial necessária à acumulação. Por isso, toda espécie de ditadores, mesmos os mais sanguinários que tem em comum o gosto de serem tratados como pai de todos, foram pouco molestados na história recente. O reino de terror e obscurantismo em que mergulhou o Haiti por décadas, quando começou desmoronar a ordem imposta pela família Duvalier e seus aliados, foi substituído pelo terror das gangues rivais armadas, antes coesas em torno do chefe supremo, a maioria originada no aparelho estatal e nas forças militares em desagregação. Essa situação consolidou-se, quando após a queda de Baby Doc, o ditador filho, as facções começaram a competir mortamente pelo espólio com a mesma violência a que estavam habituadas tratar a população.

Foi necessário um arrasador terremoto para que se descobrisse que o Haiti é aqui. Que tamanha miséria não se encontra só no Continente Africano, igualmente esquecido por não ser rentável, mas também no coração das Américas, nos outros continentes e dentro de cada um dos países mesmo nos ditos desenvolvidos. O furacão que arrasou Nova Orleans expôs com crueza um Haiti escondido nos EUA. A crescente exclusão do mercado global de regiões, países e até mesmo continentes, faz parte da lógica do desenvolvimento capitalista na medida em que a competição pelo lucro faz crescer o capital constante, principalmente pelo o aumento das maquinarias e automações, e reduz propocionalmente o capital variável, ou seja, a força de trabalho que cria valor e mais-valia, pressionando para baixo a taxa de lucro. Por outro lado, em contradição com o crescente potencial das forças produtivas, o universo dos não rentáveis tende a se expandir junto com o consumo improdutivo, impactando ainda mais negativamente na taxa de lucro. Em última instância, o que conta para acumulação real do capital é o trabalho produtor de mais-valia e o consumo produtivo daí decorrente.

Mas quando praticamente inexiste trabalho produtivo, quando a mais-valia futura (uma miragem) não pode ser antecipada através do crédito, quando não é possível alimentar o consumo mesmo que improdutivo para o capital através das chamadas "políticas compensatórias" financiadas pelo Estado, no capitalismo, o resultado imediato é morte pela fome e pelas doenças da miséria. No Haiti, quase um décimo das crianças morrem antes de completar cinco anos. Outros tantos são assassinados fazendo com que a expectativa de vida não passe de 54 anos. O retrato do Haiti, como também dos bolsões de miséria dos países em desenvolvimento, cujos indicadores não são diferentes, tende a se espalhar como uma nódoa, inclusive para os países desenvolvidos, à medida que a crise do trabalho se agrava e a força de trabalho torna-se supérflua. Para libertarmo-nos dos fetiches que nos assombram, temos que aprender a pensar para além dos limites que nos é permitido pela sociedade produtora de mercadoria, afastando-nos dos administradores da crise.

17.01.2010

2 comentários:

Nogueira Netto disse...

Já vi defensores do sistema econômico capitalista argumentarem que o Haiti é pobre por ser um dos países mais fechados do mundo, e graças ao liberalismo cada vez mais países saem do estado de pobreza, o que você tem a dizer sobre isso?

Adyneusa Moura disse...

A história do capitalismo, mostra que sua base é a desigualdade e concentração de renda em poucas mãos.
Para alguém ser rico no capitalismo, outro tem que ser pobre.País para serem desenvolvidos, tem que ter países em desenvolvimento, emergentes e pobres.

O Haiti é a periferia do capitalismo, como muitos outros países.
O capitalismo prega a igualdade e liberdade, mas será que andam juntas? claro que não. Pregam o liberalismo, outra faceta do capitalismo, para impulsionar a sociedade, a mão de obra trabalhadora, que sem ela, nenhum fica rico, sem a exploração da mão de obra.

Por isso que existe a luta de classes, a burguesia x operária.
Não tem como todos serem grandes empresários nesse sistema, quem iria trabalhar para eles?
Mas vai chegar o momento que entrará em colapso, e os trabalhadores do mundo, entrarão em revolução.
Esse é o sistema que mais explora o ser humano, que mais promove desigualdade, e que mais mata no mundo.
Não estou defendendo outro sistema, todos tem seu lado ruim, o que defendo é uma reestruturação do sistema, um estudo, um abrir mão dos mais ricos, um debate a nível de sociedade mundial.
Do jeto que está não dá mais.