domingo, março 07, 2010

A Europa do euro mostra as suas desigualdades

Rall


A crise na zona do euro mostrou o que vinha sendo encoberto nos anos das vacas gordas: as desigualdades entre as nações que são partes desse território. O euro surge como um passo a mais na direção da unificação do Mercado Comum Europeu. Deixando de lado as implicações políticas da unificação, que devem ser levadas em consideração em uma região que foi o palco de duas guerras mundiais, o euro surgiu como reforço ao protecionismo econômico, que beneficia principalmente a Alemanha e em seguida a França. Pode ser entendido como um movimento da Europa moderna posicionando-se em relação à globalização, mas também como uma força à integração do mercado mundial. Num momento de dinheiro farto, os países mais periféricos foram favorecidos com um grande aporte de recursos que impulsionou suas economias. Mas, quando a fonte secou, foram os primeiros a sentirem o impacto, pois, já endividados, com o agravamento da crise se viram obrigados a aumentar a dívida pública sem nenhuma salvaguarda externa.

O endividamento da Grécia, Portugal, Espanha, Itália, Irlanda e dos países do Leste Europeu, que com o espasmo da crise sistêmica ameaçam perigosamente ultrapassar ou já ultrapassaram o valor do PIB, têm efeito bem mais perverso do que as dívidas dos países do centro da zona do euro. São parcos os recursos e forças que dispõem para enfrentarem as apostas da especulação financeira. O que é exigido pelos guardiões do euro para reequilibrar as finanças, o rebaixamento salarial e cortes nos benefícios, são medidas que se aplicadas podem ser inviabilizadas politicamente pela esperada resistência dos atingidos.

Fica evidente na ameaça de implosão da dívida “soberana”(1), a distância tecnológica entre alguns países do euro, com impacto na produtividade. Isso se reflete nas diferenças salariais que apesar de não serem tão grandes quando comparadas com as de países como a China, existem e são significativas quando confrontamos a situação dos salários pagos em Portugal, Grécia, Eslováquia, Eslovênia e mesmo na Espanha, com os da Alemanha e França entre outros. Critica-se a evolução do custo da hora trabalhada na Grécia nos últimos anos, mas esconde-se o fato de que se paga por hora trabalhada neste País bem menos que na Alemanha. O contra-argumento é que a produtividade na Alemanha permite níveis salariais diferenciados.

Daí vem o remédio amargo para a solução das tensões trazidas pela dívida desses Estados: arrocho salarial e corte nos benefícios sociais, para que seus produtos com a redução de custos tornem-se competitivos enquanto não melhora a produtividade. Mas será possível alcançar níveis de produtividade próximo dos trabalhadores alemães que permitam uma recuperação salarial? Só se o parque industrial e o Governo alemão ficassem parados esperando que os outros o alcançasse. Mas não é essa a lógica entre empresas e países capitalistas. O veneno da competição, entranhado na alma da sociedade da mercadoria, permite a cooperação até certo limite. Quando é possível os mais atrasados se aproximarem do nível de produtividade dos mais avançados, estes últimos já deram um salto e se distanciaram dos parentes mais pobres intensificando o capital constante, mesmo que tenham que dispensar o último trabalhador da produção com as inovações tecnológicas.

Pode-se argumentar que as empresas dos países mais avançados optem em migrar para aqueles que oferecerem salários baixos levando tecnologia e, conseqüentemente, melhorando a produtividade e salários. De fato isso tem acontecido. Porém, apesar da melhoria da produtividade em alguns ramos industriais, a produtividade geral continua bem abaixo da dos países de onde migraram essas empresas. A China é o exemplo mais contundente dessa realidade. Apesar da transferência de tecnologia com a migração de empresas principalmente do Japão e EUA, só consegue ser competitiva no mercado global pelos baixíssimos salários pagos aos trabalhadores em regime de semi-escravidão e pelo câmbio administrado que mantém o yuan artificialmente desvalorizado. Se partirmos de um ponto zero, a produtividade média do trabalho na China é de 67, Japão 428, EUA 434 e Reino Unido 458*.

Mesmo sendo a China e similares o melhor dos mundos para o capital, onde a mais-valia relativa e absoluta trabalham juntas na acumulação, é impossível por razões diversas a transferência de todo um parque industrial de uma nação para tais oásis do capitalismo, principalmente as empresas de alta tecnologia onde, na contabilidade destas, o trabalho pouco pesa nos custos finais dos produtos se comparado com o capital fixo empregado. O movimento de capitais nos mercados comuns, sempre em busca de maior rentabilidade, pode ter algum êxito como tentativa de defender-se dos outros, mas não de si mesmo: devoram-se do mesmo jeito na briga pela valorização.

*Fontes: Bloom, Mahajan, McKenzie e Roberts (2010)

(1) A bolha estatal na longa jornada da crise

07.03.2010

segunda-feira, janeiro 25, 2010

O despertar de um inflamado dragão chinês

Rall

O mais festejado país do grupo denominado de BRIC, a China, começa a dar sinais de que o crescimento em pleno espasmo da crise mundial tem pés de barro. Do quarteto, quem de fato tem certo peso na engrenagem da economia mundial é a China e, em seguida bem distante, a Índia. No entanto, não se compara em importância às economias americana e européia, que continuam na lona apesar dos trilhões de euros e dólares despejados pelos bancos centrais. Mas, é na China que a grande esperança é depositada como alavanca que possa movimentar a economia mundial. Grande importadora de commodities, a mágica produtora de mercadorias para o mercado mundial cujos preços finais não pagam os custos de produção em outros países, da China está sendo esperada a reversão do caos econômico instalado e seus dirigentes acreditam nisso.

Tanto acreditam no poder mágico de sua economia que dizem fazer “dançar as cadeiras”, que despejaram até agora 9,590 trilhões de yuans no mercado interno, na “maior flexibilização monetária da história” segundo alguns estudiosos, como forma de compensar a queda das importações americanas, ampliando o mercado interno, e animar a economia mundial. Parte desse dinheiro foi para os bens de consumo de luxo, como automóveis, para infraestrutura que teve investimentos antecipados, para setores produtivos com retorno duvidoso, agravando o excesso de capacidade produtiva, um problema já presente nas indústrias chinesas. Mas, acredita-se que o grosso destinou-se a especulação imobiliária. Em Pequim, nos últimos 12 meses, os preços de imóveis de aproximadamente 65 m², os mais procurados, duplicaram ou triplicaram conforme o bairro. Em outras cidades chinesas a situação não é diferente, e vem sendo estimulada pela venda de terrenos públicos pelas prefeituras para cobrir déficits orçamentários. Estima-se que metades das receitas dos governos locais são geradas das vendas dos terrenos pertencentes ao Estado.

Todos estão querendo aproveitar a onda para surfar ganhando alguns trocados a mais. As empresas, que viram os seus lucros desabarem com a queda das exportações, não conseguindo compensar o mercado externo com a expansão do consumo interno, passaram a desviar dinheiro para especulação imobiliária. A indústria de ferro, cimento móveis entre outras ligadas à construção civil, vêem na bolha que se expande a solução para os seus problemas. O PIB em 2009 teve um crescimento considerado espetacular, 8,7%, acima do esperado pelos analistas e pelo Governo. O mercado global de commodities, sujeito a toda forma de especulação reanima-se, e as bolsas passam a ser o investimento mais lucrativo apesar das dificuldades na produção, principalmente as ações das empresas exportadoras, mesmo aquelas em que as exportações não passam de uma possibilidade.

Mas, quando todos parecem felizes, excetuando os 2/3 de chineses pobres que não conseguem se beneficiar da bolha imobiliária, ouve-se o arquejante rugir de um assustador dragão colérico que parecia adormecido, e costuma dar muito trabalho aos governos no seu despertar. A inflação dos preços aos consumidores que vinha em queda saltou de 0,6 % para 1,9% em novembro. Nos meses seguintes, apesar de algumas variações para baixo, não deixou de subir se comparado com os meses anteriores a novembro. O impacto negativo nos baixos salários dos chineses pobres já se faz sentir, e veio se juntar a massa dos desempregados pela crise que foram obrigados a retorna ao campo para cultivar lavoura em solo infértil em franco processo de desertificação em vastas regiões. Esperava-se, em prazo não tão curto, com a imensa expansão monetária na China e no resto do mundo(1), o retorno da inflação que se acreditava moderada.

O Governo chinês encontra-se num impasse: ou à paulada faz dormir o maldoso dragão antes deste acordar por inteiro, esvaziando de forma “controlada” a bolha com juros altos e redirecionando a política fiscal reduzindo os incentivos, freando o consumo interno com repercussão nada interessante para o mercado global, ou deixa a bolha e o consumo se expandir, até o estouro final sem controle que pode agravar a crise e levar a China e o mundo a uma profunda depressão. Os arranjos keynesianos de “cavar e tapar buracos” para conter a crise, não se mostraram suficientemente forte para reverter o quadro econômico. Antes de completar a tão esperada obra, os monstruosos e insustentáveis déficits fiscais começam a assustar, a inflação dá os primeiros sinais que pode pipocar com força, principalmente nos países onde se mantém a esperança de um crescimento “sustentado”, e os governos são obrigados discutir a reversão das políticas anticrise sem que estas tenham atingido o fim almejado.

(1) Inflação ou deflação, para onde caminha a crise?

25.11.2010.

domingo, janeiro 17, 2010

Haiti, a nódoa escondida do capitalismo mundial

Rall


A miséria que assola o segundo País ao declarar-se independente nas Américas, para se mostrar em sua plenitude, foi necessário um desastre natural de proporções inéditas. Às portas da maior potência capitalista do mundo, estava ali, flutuando no Oceano Atlântico, desacoplado do mercado mundial e esquecido pelo capital por não ser rentável. O Haiti, refugo do capitalismo global, há muito já vinha se desagregando enquanto nação. Um Estado antes apropriado pela família Duvalier, que usava o exército e os terríveis Tontons Macoutes para as mais abjetas formas de violência e exploração da população, garantia certa coesão com o uso do terror, assassinando e amedrontando psicologicamente, pois se difundia junto à população supersticiosa que François Duvalier, o Papa Doc, além de suas tropas genocidas, tinha a seu dispor um exército de zumbis prontos para entrarem em ação em defesa do pai de todos.

Na periferia do mundo capitalista patriarcal, surgem aberrações toleradas pelos países do centro, apesar de aparentarem o contrário, por fazerem parte da ordem mundial necessária à acumulação. Por isso, toda espécie de ditadores, mesmos os mais sanguinários que tem em comum o gosto de serem tratados como pai de todos, foram pouco molestados na história recente. O reino de terror e obscurantismo em que mergulhou o Haiti por décadas, quando começou desmoronar a ordem imposta pela família Duvalier e seus aliados, foi substituído pelo terror das gangues rivais armadas, antes coesas em torno do chefe supremo, a maioria originada no aparelho estatal e nas forças militares em desagregação. Essa situação consolidou-se, quando após a queda de Baby Doc, o ditador filho, as facções começaram a competir mortamente pelo espólio com a mesma violência a que estavam habituadas tratar a população.

Foi necessário um arrasador terremoto para que se descobrisse que o Haiti é aqui. Que tamanha miséria não se encontra só no Continente Africano, igualmente esquecido por não ser rentável, mas também no coração das Américas, nos outros continentes e dentro de cada um dos países mesmo nos ditos desenvolvidos. O furacão que arrasou Nova Orleans expôs com crueza um Haiti escondido nos EUA. A crescente exclusão do mercado global de regiões, países e até mesmo continentes, faz parte da lógica do desenvolvimento capitalista na medida em que a competição pelo lucro faz crescer o capital constante, principalmente pelo o aumento das maquinarias e automações, e reduz propocionalmente o capital variável, ou seja, a força de trabalho que cria valor e mais-valia, pressionando para baixo a taxa de lucro. Por outro lado, em contradição com o crescente potencial das forças produtivas, o universo dos não rentáveis tende a se expandir junto com o consumo improdutivo, impactando ainda mais negativamente na taxa de lucro. Em última instância, o que conta para acumulação real do capital é o trabalho produtor de mais-valia e o consumo produtivo daí decorrente.

Mas quando praticamente inexiste trabalho produtivo, quando a mais-valia futura (uma miragem) não pode ser antecipada através do crédito, quando não é possível alimentar o consumo mesmo que improdutivo para o capital através das chamadas "políticas compensatórias" financiadas pelo Estado, no capitalismo, o resultado imediato é morte pela fome e pelas doenças da miséria. No Haiti, quase um décimo das crianças morrem antes de completar cinco anos. Outros tantos são assassinados fazendo com que a expectativa de vida não passe de 54 anos. O retrato do Haiti, como também dos bolsões de miséria dos países em desenvolvimento, cujos indicadores não são diferentes, tende a se espalhar como uma nódoa, inclusive para os países desenvolvidos, à medida que a crise do trabalho se agrava e a força de trabalho torna-se supérflua. Para libertarmo-nos dos fetiches que nos assombram, temos que aprender a pensar para além dos limites que nos é permitido pela sociedade produtora de mercadoria, afastando-nos dos administradores da crise.

17.01.2010

quinta-feira, dezembro 31, 2009

O largo espectro das paixões

Rall


“Fiquei curioso em saber como se manifestaria na prática a fúria ou o ódio desses senhores que não são apenas dirigentes de bancos; são principalmente operadores financeiros ("traders") que ganham bônus. Eles dominaram o mundo durante 30 anos, definiram as regras da "nova" racionalidade econômica baseada no velho "laissez-faire", enriqueceram-se e tornaram ainda mais ricos os rentistas a quem estavam associados, provocaram um enorme aumento da desigualdade em toda parte, aumentaram a instabilidade financeira mundial e, afinal, provocaram a crise global de 2008, que obrigou os governos a gastarem cerca de 5% do PIB mundial para salvá-los.” Do artigo “A fúria dos financista”, de Luiz Carlos Bresser Pereira, publicado no jornal Folha de São Pulo, em 21/12/2009.

Uma certa nostalgia passei nas fileiras do largo espectro que se estende da extrema direita ao o outro lado da esquerda. Uns saudosos daquele capitalismo, cujas “impurezas” que simulam a acumulação possível eram marginais na sociedade capitalista. Do tempo em que o dinheiro era dinheiro “bom”, lastreado nas riquezas produzidas pelo trabalho assalariado e era conversível em ouro. O setor “produtivo” era hegemônico e a sociedade tinha pouco espaço para os banqueiros e rentistas, atividade atribuída aos grupos minoritários como os judeus, geralmente acusados nas crises de usurpadores da riqueza dos que trabalham e de ter pouco compromisso com os princípios da nação. Sabemos no que deu isso quando da subida de Hitler e seus seguidores nazistas ao poder na Alemanha, nas primeiras décadas do século passado.

Um outro lado se enche de saudades dos tempos da luta da classe aonde os campos amigos e inimigos eram bem delimitados. Lamenta-se por não existir mais proletários prontos para o sacrifício pela classe que iria fazer a revolução socialista e abolição da sociedade de classes. Muitos já tiraram o time de campo ou simplesmente passaram acreditar que aquilo eram equívocos da juventude e para repará-los assumiram posições do outro extremo. Passaram acreditar que com o capitalismo chegou-se ao fim da história e nada mais se pode fazer que não seja consertar os danos causados ao homem e a natureza por essa forma de produção excludente. Ou quando assumem posições políticas é para defender o capitalismo de estado, tão tirânico quanto à indiferente impessoalidade do mercado, e justificar a sede de poder de dirigentes caudilhescos.

Nada melhor para reacender ou apagar paixões do que o agravamento de uma crise! Os neoliberais, ao ver seus negócios afundarem, apesar de sua aparente aversão, muda o discurso e pedem socorro ao Estado, sem nenhum escrúpulo, enquanto o mercado está em baixa. Os estatizantes, agora aparentemente hegemônicos no mundo dos negócios, bradam no ar em voz altissonante “nós tínhamos razão!” e tornam-se afoitos em suas investidas nos países em que se acham no poder culpando “imperialismo”, com o qual faz negócios, pela crise. Em sua arrogância, esquecem que no salvador Estado, o endividamento para amparar a economia do abismo, que em muitos países já ultrapassou o valor do PIB, está o germe do próximo espasmo que pode levar ao total descontrole o paciente terminal.

Mercado e Estado são faces de uma mesma moeda. A menor ou maior presença do Estado na economia está relacionada ao momento pelo qual passa a sociedade moderna. Nos momentos de crescimento econômico o mercado se apropria de atividades na infra-estrutura, na saúde, educação e segurança, antes vista como função de Estado. No agravamento da crise é chamado para intervir pelos agentes do mercado que antes o rejeitavam. Na mais liberal economia mundial, a americana, além do colossal volume de dinheiro disponibilizado para o setor privado, o Estado intervém na composição de diretorias e de conselhos de grandes empresas e bancos, situação inimaginável há dois anos. O Estado esteve presente com muita força,
inclusive militar, nos primórdios do capitalismo, sem o qual talvez este tivesse dificuldade de se consolidar. Não foi e não é diferente nos países ditos em desenvolvimento tão queridos pelo capital, onde a coerção para que acumulação seja possível é feita pela ameaça do desemprego e pela força das armas. O Estado como o conhecemos nada tem de emancipador como querem alguns.

O que muitos analistas da grande imprensa não entendem, e não poderia ser diferente, pois suas expectativas de sair da crise não ultrapassam os horizontes da sociedade capitalista, é que, para produção de mercadorias se sustentar, empurra-se com a barriga a crise estrutural que vem se arrastando desde os anos 80, com o alargamento do crédito ao infinito ao consumidor e as empresas, com a geração de bolhas financeiras cada vez maiores no mercado e através do endividamento e das emissões de moedas pelos estados, com resultados sempre catastróficos nos momentos de agudização quando esses mecanismos não mais funcionam e as bolhas estouram. Por ironia, são exatamente os financistas e rentistas, tão maus vistos pelos discursos moralistas, quem movimenta o consumo e os investimentos nos intervalos pré-crises na era da acumulação simulada e de hegemonia do capital fictício. Sem a louca competição que foge ao controle da sociedade(1), incapaz de ser contida com medidas regulatórias e levada ao extremo pelo capital financeiro que busca se reproduzir a partir do nada com invenções exóticas, e sem a pronta intervenção do Estado para cobrir os prejuízos quando necessário, a extensão da crise na “economia real” já teria sido há muito desnudada.

De qualquer forma um “próspero” ano novo para todos!

31.12.2009

(1) O leite mijo de vaca e a lógica do capital

domingo, novembro 15, 2009

A bolha estatal na longa jornada da crise

Rall


“Como a economia mundial caiu num buraco tão profundo? Está se recuperando agora, mas dolorosamente, apesar do inédito afrouxo fiscal e monetário. Além disso, qual a possibilidade de que uma economia mundial equilibrada surja dessa alimentação forçada? O próprio fato de que tais ações drásticas foram necessárias é aterrador. O fato de haver pouco espaço para repetição da política é ainda mais aterrorizante. E o pior de tudo é que esta não é a primeira vez nas últimas décadas em que a economia mundial teve de ser conduzida em meio a desmoronamento pós-bolhas.” Do artigo “Como a economia caiu tanto assim”? Martin Wolf, editor principal e comentarista econômico do Financial Times, publicado no valor econômico de 28/10/2009.

No citado artigo, o comentarista econômico do FT Martin Wolf, expressa sua perplexidade, que não é só dele, sobre as difíceis escolhas para o enfrentamento da crise econômica. Perplexidade que se estende ao que virá depois da intervenção maciça dos estados com a emissão sem precedente de dinheiro, afrouxamento fiscal e juros perto de zero na busca de salvar bancos, grandes empresas e famílias endividadas. Fala-se em US$ 14 trilhões só de ajuda aos bancos no mundo.

Se for possível pensar no que virá depois das mais recentes manifestações da crise, como querem alguns, podemos fazer algumas indagações: como o déficit público, resultante de política fiscal, creditícia e de gastos generosos tem um limite, como seria possível a crise não se agravar quando esse limite for ultrapassado? Por outro lado, se a economia não se sustenta sem esse afluxo de recursos, como mantê-los sem os efeitos colaterais de uma liquidez infinita? Ou seja, como resolver a crise sistêmica do capitalismo que hoje vivenciamos numa situação de se correr o bicho pega, se ficar o bicho come?

Os últimos dados da economia têm mostrado, que o crescimento ou queda do PIB nos países desenvolvidos e em desenvolvimento, está profundamente atrelado aos recursos estatais fartamente disponibilizados. Essa liquidez forçada e os truques contábeis, tem aparentemente reequilibrado os balanços dos grandes bancos, que captam dinheiro a custo zero para emprestar aos governos à longo prazo, cobrando juros variados conforme os países, rendendo nos EUA em torno de 3,5% ao ano. Parte desse dinheiro que deveria ser utilizado para fazer fluir o crédito, são emissões dos bancos centrais que voltam aos governos na forma de empréstimos.

Como o crédito para o consumo e produção continua sendo uma operação de risco pela indefinição dos rumos da economia, parte dessa liquidez vem sendo destinada a especulação nas bolsas, em commodities e em outros ativos. Com isso, a imensa bolha estatal vem estendendo velozmente seus tentáculos ao mercado mundial, principalmente dos países em desenvolvimento. Fala-se em US$ 10 trilhões disponíveis correndo o mundo em busca de rentabilidade mesmo que seja fictícia. São valores que tendem aumentar na medida em que os governos, principalmente dos EUA, com uma política monetária frouxa, continuam inundando os mercados com dinheiro novo e juros perto de zero ou negativos, que permite a utilização de empréstimos em dólar nas operações bilionárias de carry-trade e ataques especulativos disfarçados ou a céu aberto, impactando nos preços dos ativos mundiais.

Esse fluxo de dinheiro tem levado a desequilíbrios cambiais graves, com a valorização das demais moedas em relação ao dólar, excetuando o yuan que com grandes intervenções de compra executadas pelo governo chinês, acompanha artificialmente os movimentos da moeda americana e faz crescer, num impulso incontido, as reservas em dólar. No entanto, a questão fundamental da fraqueza do dólar sinalizada desde o final da segunda guerra mundial, logo após as glórias em Bretton Woods, deve-se ao incessante aumento da produtividade que acarreta a queda do valor das mercadorias com as quais este se relaciona enquanto equivalente universal, e a expansão desmedida da circulação dessa moeda que há muito se deslocara da riqueza real que pretende expressar enquanto dinheiro mundial sustentado no poder político-militar dos EUA.

É um quadro que só tende a se agravar na medida em que os espasmos da crise terminal do capitalismo, ao aprofundar a competição entre empresas, alavancam a produtividade do trabalho incorporando novas tecnologias que levam ao desemprego estrutural e a não valorização real do capital. Há ainda a propensão do capitalismo pela extração da mais valia absoluta, que se manifesta quando trabalhadores são obrigados nas crises, para manterem seus empregos, aumentar a produtividade executando tarefas que seriam de responsabilidade de dois ou mais, numa racionalizalção empresarial selvagem para reduzir custos.

É claro que a inflação do dólar, e a conseqüente desvalorização, tende exacerbar-se se as emissões e os incentivos forem mantidos. Há, no entanto, e não sem razão, toda uma gritaria para que tudo continue como está, apesar dos indicadores apontarem que a bolha estatal, mãe de todas, não ter se mostrado como a melhor ignição para por em movimento a produção e o consumo de mercadorias por exigir custos adicionais futuros muito grandes. Essa gritaria está relacionada com a percepção de que só com mais dinheiro e os incentivos estatais é possível manter a ilusão de que o pior ficou para traz, como dizem. E ainda: que a economia real em crise profunda, não consegue manter-se em pé sem bolhas(1) altamente destrutivas, que tendem expandir-se ràpidamente em tempos de vida cada vez mais curtos.


15.11.2009

(1) Procura-se uma nova bolha

quinta-feira, agosto 27, 2009

O que antes era marginal agora domina a cena

Rall

Dos vários artigos sobre a economia que me obrigo a ler todos os dias, chamou-me atenção o de autoria de José Carlos de Assis, “Uma nova bolha no horizonte” escrito no Jornal Valor de 11 de agosto passado. O articulista levanta algumas questões importantes, pouco discutidas na grande impressa, mas derrapa nas conclusões: “a crise assinalou uma mudança de paradigma no coração do capitalismo, mas muitos tomam com simples retórica. Não se percebe que a decolagem do sistema financeiro especulativo do sistema real, origem da crise, aponta na direção de uma contradição fundamental que, na prática, só se resolverá com perdas patrimoniais incomensuráveis”, diz. Mais na frente: “os governos enterraram bilhões de dólares para salvar seus sistemas bancários. Contudo, os governos pouco fizeram para eliminar a contradição entre finanças especulativas e economia real.”

Tem alguns pontos que precisam ser esclarecidos. O Sr. Assis, fala da economia real como vítima do malvado sistema financeiro, que criou asas e dela se apartou para depois castigá-la sem piedade. Sim, de fato, o estouro das bolhas financeiras repercutiu na produção. No entanto, não entende o Sr. Assis e outros articulistas de esquerda que acusam o capital financeiro dos males do mundo, que as bolhas surgiram exatamente como a mão salvadora da economia real. Com a crise do capitalismo a partir dos anos 80, o processo de acumulação expresso pela equação D-M-D’ (dinheiro-mercadoria-mais dinheiro), cede lugar a um ativo mercado de papeis melhor representado pela fórmula D-D’ (dinheiro-mais dinheiro). A economia real para sustentar-se em pernas bambas, passa a alimentar-se de capital fictício gerado pela expansão do sistema creditício e pelas bolhas financeiras, como forma de compensar a estagnação e empurrar para frente a crise que se gestava. Em sua história, o capitalismo sempre lidou com bolhas que se manifestavam marginalmente e eram purgadas nas crises. Agora dominam a cena em frenética agitação financeira.

Na medida em que o capital disponível no mundo não achava mais na produção de bens materiais e imateriais o porto seguro para sua reprodução, foi encontrando outros meios de se multiplicar ficticiamente. Parte desse capital sem substância finca o pé na economia real, reciclando-se e buscando na base material da economia sustentação para formação de bolhas, como aconteceu no setor imobiliário. Outra parte aporta em países “em desenvolvimento” como a China, aonde a rentabilidade ainda é possível a custa de mais valia absoluta, extraída mobilizando-se em escala gigantesca força de trabalho antes adormecida no campo, que se deslocam para as cidades em movimentos migratórios jamais vistos com conseqüências imprevisíveis. Através do disciplinamento extremo utilizando-se toda forma de coerção, a exploração do trabalhador atinge o limite do esgotamento físico em países cantados em versos e prosa por uma esquerda desorientada.

A produção transcende os estados nacionais e seus nexos intercontinentais formam então, circuitos deficitários (1) que se auto-alimentam. Numa ponta encontram-se os países que recebem investimentos maciços de capital para produção de mercadorias a preços competitivos pelo uso intensivo de mão-de-obra barata; na outra, os países receptores dessas mercadorias, principalmente os EEUU, e do dinheiro dos superávits gerados por esse circuito, que ajuda alimentar o consumo interno através da expansão do crédito ao infinito e das bolhas nos diversos setores da economia. Essa movimentação fantástica de capital no globo, fictício ou não, só foi possível com a revolução da informática, que também revolucionou a produção com a automação das empresas e dispensa do trabalho. Não foi a pressa subjetiva pelo rápido enriquecimento, como fazem crer os moralistas, responsável pela crise, mas a crise da “valorização do valor” advinda dessa revolução, que em parte dispensou a mediação da mercadoria/trabalho na formação do capital, quem acelerou as ações do “sujeito automático” (Marx) em direção às pirâmides financeira.

O descolamento do “sistema financeiro especulativo do sistema real” é, portanto, bastante relativo. A lógica de produção de capital fictício, que numa análise apressada aparente uma coisa a parte, compõe um todo do qual não se exclui a produção real. Ou melhor, foi à crise da acumulação na economia real que alimentou esse processo e as mudanças de paradigmas, ao contrário do que sugere o Sr. Assis. Há muito tempo as empresas financeiras deixaram de só financiar e se apropriaram de parte cada vez maior da produção, e as empresas produtoras de bens e serviços não-financeiros passaram a ter seus próprios bancos ou a eles se associaram para garantirem o fechamento no azul de seus balanços com o capital fictício advindo da especulação. A crise contábil das empresas brasileiras que jogavam com derivativos, com a inversão da tendência do câmbio em 2008, é um exemplo miúdo de uma realidade bem mais complexa e pouco revelada. É só ver o volume de derivativos e ativos financeiros que continuam sendo negociados e em circulação, como bem assinala o articulista (US$ 650 trilhões de derivativos e US$ 160 trilhões de ativos), muitas vezes superior ao PIB Mundial estimado em US$ 50 trilhões.

Demonizar o capital financeiro e achar que é possível com regulações de toda ordem por cabresto na besta-fera e domá-la em benefício do lado “bom” da economia é pura ilusão de quem não está enxergando que a crise é uma crise estrutural profunda do capitalismo, com suas ondulações conjunturais que se manifesta na queda da economia, no desemprego crônico e crescente, no esgotamento dos recursos naturais e nas mudanças climáticas cada vez mais perigosas com o aquecimento progressivo da terra, pelos bilhões dos subprodutos degradados devolvidos diariamente a natureza por essa forma cega de produção.

(1) O circuito asiático da economia mundial

(Resposta ao artigo "Uma nova bolha no horizonte", do Sr. José Carlos de Assis, publicado em 11 de agosto de 09 no Jornal Valor)

27.08.2009

domingo, agosto 16, 2009

Armadilha do pensar, limites do agir

Rall

As formas de sofrimento psíquico na sociedade moderna podem ser entendidas, em seu limite, como uma reação desesperada da mente aprisionada por um “substrato”, construído de sensações passadas e presentes, de prazer e frustração, e, principalmente, elaborado e reelaborado por estímulos coercitivos da sociedade do trabalho. Estabelece-se como um pano de fundo tecido com mil linhas sem orientações precisas, e funciona como armadilha do pensar destroçado. Essa forma caótica que aprisiona e move o pensamento, cimentada pela lógica de "fazer dinheiro", transforma todos em “sujeitos automáticos” da razão burguesa. Quanto mais se aprofunda a crise do trabalho na sociedade capitalista, mais fictício torna-se o que antes poderia ser chamado de valor. Essa “abstração real” (Marx), "escondida" em relações sociais fetichizadas, age como importante determinante das ações humanas no fazer da história, sem que dela se tome consciência.

No decorrer dos séculos de implantação do capitalismo, ganhar dinheiro passou a ser a única virtude inconteste entre os homens que justifica os meios. Permite-se quase tudo no mundo da acumulação simulada: o roubo institucionalizou-se em todos os níveis da sociedade, da corrupção estatal às mais absurdas formas de transações empresariais. O discurso ridículo de moralização dessas relações através de normas está fadado ao fracasso, pois isso não são “desvios de condutas”, mas parte da lógica intrínseca do sistema que não resistiria se lhe amarrassem as pernas com normatizações jurídicas, que na verdade são feitas para lhe desatar as amarras e dar garantias contra o imprevisível.

O jogo da mudança tem que ser jogado olhando-se para dentro, na busca de entendê-lo, mas também para fora desse substrato. É um jogo contra-hegemônico com seus perigos e incertezas. Não se encontra elaborada e nem se pode querer para ele uma teoria-guia, pronta e acabada como as ideologias. Mas as teorias (1) são importantes, pois se não dão conta da totalidade, apesar de que devem apontar para, podem dar pistas significantes para o movimento social, que se move dentro do leque de opções que lhe é dado, prisioneiro que é dos fetiches da sociedade burguesa. Observa-se depois de alguns ensaios onde se tateiam os caminhos da emancipação, a queda no vazio e o desânimo dos sujeitos. Brotam daí os fundamentalismos sejam militantes, sejam narcísicos, como saída desesperada para o nada.

Mesmo aberto os caminhos, não há nenhuma garantia que possam ser percorridos. Os obstáculos aparentam intransponíveis, e o mundo paralisado pode afundar-se mais ainda na barbárie, onde resistirão as fortalezas de produção capitalista, armadas até os dentes, prontas a reagirem com violência, dentro ou fora de seu território a qualquer sinal de ameaça. O substrato que move o sujeito, introjetado através dos séculos de modernidade pela violência física e psíquica, das ameaças das baionetas à morte pela fome; pelo disciplinamento no ensino, no campo, nas fábricas, na clínica, nas cadeias, nos quartéis para que se aceite o trabalho assalariado, transforma o indivíduo em sujeito desse imperativo.

Estamos piores do que nossos ancestrais nômades que pelo menos eram solidários na luta pela sobrevivência. A aparente liberdade individual, que supostamente nos liberou dos chefes imperiais, ou mesmo da opressão tribal, é pura ilusão: deixamos uma forma de escravidão para cair noutra pior, no fetiche da mercadoria, do dinheiro. Aos “não-rentáveis” (Kurz) só resta à morte física ou social, onde a vergonha aos olhos dos outros pelos insucessos, de ser um desempregado, um perdedor, não tem limites. É visto com desprezo e desconfiança pelos que ainda trabalham. O medo de antes, de ver o parceiro ocupando seu posto levado pela mortal concorrência, passa à desconfiança das intenções malévolas do outro, que num acesso pode tirar-lhe os objetos fruto do suado trabalho, ou até mesmo a vida, o que não deixa de ser verdade.

Essa brutalidade, movida pela cega competição por um lugar ao sol na sociedade do trabalho, intensificada ao absurdo nos tempos neoliberais ultra-individualista, ocupa todos os poros da sociedade, transformando mesmo os mais próximos num ajuntamento desagradável de indivíduos barbarizados por interesses monetários e de poder. Quanto mais se aprofunda a crise, não é o sentido de solidariedade que prevalece, mas o desejo de morte do outro que ameaça ou obstrui o caminho, e um medo que deixa todos impotentes e acovardados para enfrentar esse estado de coisa. Mesmo assim é preciso enfrentá-lo!

(1) Breves reflexões sobre teoria e prática


15.08.2009

segunda-feira, julho 27, 2009

A retração da economia e a destruição de empregos

Rall

Alguns estudos mostram que o tempo que decorre entre o início das crises agudas do capitalismo e o fechamento dos postos de trabalho nas empresas, tem se reduzido dramaticamente nas últimas três décadas. Antes da Terceira Revolução Industrial, as demissões aconteciam, mas tinha um tempo, relativamente longo se comparado com os padrões atuais, entre o surgimento da crise e a perda do emprego. Na fase atual do capitalismo, a resposta é imediata: o desemprego, como a forma mais fácil de cortar custos, aumenta antes mesmo das empresas sentirem o efeito da crise em seus negócios. Os empregados part-time, os contratados por tempo determinado e outras formas de vínculos precários são os primeiros da lista. Logo em seguida, e sem demora, os empregos mais estáveis, se é que podemos considerar ainda a existência dessa categoria. Nos Estados Unidos, as estatísticas mostram que do início da recessão até dezembro de 2007, o desemprego aumentou 5% para uma retração 2,5% da economia, situação que não deve ser diferente nos outros países.

Por outro lado, já se fala a partir também de observações pregressas, que de forma nenhuma os empregos votam aos patamares anteriores, mesmo se a produção e o mercado mundial recuperassem o fôlego perdido, o que é duvidoso. Tem-se observado, apesar da crise, que a produtividade do trabalho vem aumentando significativamente em todo mundo. Num primeiro momento, os rearranjos na organização da produção forçada pela dispensa de trabalhadores, podem ser responsáveis por essa maior produtividade. Os não dispensados passam a produzir mais, exercendo funções dos demitidos, sem que haja ajustes salariais. Ou seja, os mecanismos de aumento da mais-valia absoluta são acionados e aceitos sem contestação pelos que ficam, coagidos pelo medo de serem desligados.

Isso dura tempo suficiente, e independe de novos investimentos que venham ser feitos em capital fixo para aumentar ainda mais a produtividade, agora por conta de novas máquinas e equipamentos de automação da produção. Não é à toa que empresas que vendem tecnologia de automação e as que fabricam modernas plataformas de produção, começam a sentir aumento nas encomendas. Os balanços positivos que tem surpreendido os analistas são a combinação do aumento da produtividade do trabalho dos que ficam e substituem as funções dos dispensados, das políticas fiscais generosas e dos ajustes contábeis feitos com dinheiro público fartamente distribuído pelos governos a juros na maioria das vezes negativos. Mas é a segunda onda de aumento da produtividade, movida pela feroz concorrência pelo que restou de mercados, que ao incorporar novas tecnologias de automação, fechará mais ainda postos de trabalho.

Essa lógica a qual está subordinada o capital, mais evidente na atualidade, de serrar o galho em que está sentado com o aumento sem limites da produtividade e destruição incessante de empregos, tem suas conseqüências: na produção, a intensificação da crise de “valorização do valor” pela expulsão do trabalho vivo com a revolução da informática e aumento do trabalho morto; na circulação, a dificuldade de realização da mais-valia pela redução cada vez maior do número de consumidores produtivos. Para esse impasse, buscou-se como saída o consumo improdutivo, financiado pelo crédito infinito e por bolhas de tamanho crescentes, que a cada estouro mostra a inviabilidade dessa fórmula como solução para crise do capitalismo, deixando como legado rastros de destruição e sofrimentos.

A crise, longa e lenta, gera a cada espasmo do paciente em agonia, além do desemprego, montanha de crédito podre advindo desse dinheiro sem substância, que tem que ser limpo pelos faxineiros do capital. O Estado, à custa de um endividamento contínuo e sem precedente, impossível de ser pago por gerações futuras, é obrigado a engolir a fedentina vomitada pelo mercado e, ao mesmo tempo, alimentá-lo boca a boca com capital fictício produzido em suas entranhas, mesmo sabendo que mais na frente virão outros espasmos bem mais dolorosos e o risco de um colapso total.


27.07.2009

sábado, junho 27, 2009

O pior já passou? Um "sim" ecoa afoito no mundo dos negócios

Rall

O endividamento em que vem se enredando os Estados Unidos e os outros países do centro e da periferia, na ilusão de assim driblarem a crise, é a bolha do momento. O que são as bolhas se não a geração de capital sem substância, seja pelo mercado, pelo Estado ou simultaneamente pelos dois pólos da sociedade da mercadoria? Isso mostra a impossibilidade do capitalismo em crise terminal desde os anos 80, sustentar-se sem produzir montanha de capital fictício. A expansão monetária global que ora assistimos para segurar a economia, à custa do endividamento dos estados e sem precedente na história do capitalismo, jamais será paga com parcelas de mais valia futura transformada em impostos.

O acirramento da concorrência entre os capitais, forçando num primeiro momento a queda dos preços e o deslocamento de mercadorias para mercados antes pouco cobiçados, pode levar ao protecionismo ou a desindustrialização(1) de regiões inteiras. Os primeiros sinais desse fenômeno são observados na América Latina e em outros Continentes com a chegada principalmente dos produtos chineses. Num segundo momento, a competição violenta entre as empresas forçará o aumento da produtividade, introduzindo novas tecnologias dispensadoras de trabalho na produção de bens, agravando o processo de “valorização do valor”, ou seja, de formação de capital, o que torna o aperto fiscal para cobrir o déficit público mais difícil no futuro.

Quando o peso da dívida aumentar o risco de colapso dos estados sem condições fiscais de resolverem o problema do déficit orçamentário, as emissões fiduciárias continuam e a inflação surgirá galopante para infringir a sociedade, principalmente às populações desprotegidas, a fúria do "terceiro cavaleiro do apocalipse". Por enquanto este se mantém a espreita, esperando o momento oportuno para cavalgar cuspindo fogo em todas as direções.

Essa mudança de perspectiva, de deflação de ativos para inflação, é a forma perversa do deslocamento dos custos da crise para as costas da população menos favorecida, já atormentada pelo desemprego. As carências deverão se agravar com os estados descolando-se cada vez mais de qualquer compromisso social, principalmente na área da saúde, educação e aposentadoria, para cobrir os rombos no mercado. Mas, antes dessa chegada, a produção poderá cair menos ou até mesmo se estabilizar e ganhar um certo fôlego com a formação da bolha estatal que ajudará alimentar filhotes de bolhas no mercado, iludindo os tolos como sendo o início de uma retumbante retomada. As bolsas mostram essa tendência.

O discurso agora tão em voga de que o pior já passou, expressa as dificuldades e os limites que tem os teóricos do mercado de variadas matizes, de avançarem na análise da crise do capitalismo e as expectativas quase religiosas de soluções milagrosas imediatas. E não poderia ser diferente se para eles a história é a história da eterna sociedade produtora de mercadorias, não existindo o antes nem o depois que não sejam variações dessa forma de produção. Desse modo de pensar e analisar a realidade não estão salvos os auto-intitulados economistas de esquerda.

27.06.2009

(1) A tendência da indústria brasileira

domingo, maio 10, 2009

O súbito otimismo dos agentes do mercado

Rall

Às sombras do outono no jardim das fantasias, cogita-se uma rápida retomada da economia mundial. A leve brisa que sopra aplacando o calor emanado pela queima sem precedente de capital, já é visto por alguns como uma luz no fim do túnel. Ou, como diz um incorrigível otimista, o comentarista da Globo News George Vidor: pelo menos a luminescência de um vagalume. Realmente, seria difícil nada acontecer com tanto dinheiro sendo posto pelos governos para tapar os buracos do mercado. Apesar da recessão, sinais de aumento de liquidez começam aparece, com repercussões altistas nas bolsas e aparente melhora contábil de setores da economia.

As crises que acometem o mundo a partir dos anos 80 na forma de desastres financeiros globais, não podem ser vista como as crises cíclicas clássicas de curto prazo, que vem sempre acompanhada de uma retomada rápida do crescimento após a economia beijar o fundo do poço. A situação é mais complexa por serem esses desarranjos manifestações da crise estrutural do capitalismo, que no seu bojo abriga momentos de expansão e retração da atividade econômica, como convulsões de um moribundo que teima em não morrer.

Mas o capitalismo que vivenciamos, cada vez mais impossibilitado pela revolução tecnológica de ampliar a produção de mais valia, tendência agravada a cada espasmo da crise, só se porá em lento movimento apoiado no crédito sem limite no tempo e em novas bolhas, fenômenos intrinsecamente relacionados. O crédito, no entanto não flui, encontra-se empoçado como diz a gíria do mercado, apesar do derrame de papel-moeda em todo globo pelos bancos centrais.

A volta do Estado à cena política, fabricando e distribuindo dinheiro como nunca para irriga o crédito e maquiar os balanços dos grandes aglomerados econômicos, pode estar gestando a mãe de todas as bolhas, inflada por um conjunto de medidas anti-recessivas. Agora, sem subterfúgios e sem a mediação dos mercados financeiros colapsados, os governos imprimem papel-pintado que chamam dinheiro e põem na conta do Estado, aumentando o déficit fiscal que deverá ser coberto num longínquo futuro por impostos arrecadados de uma mais valia que não se realizará já mais.

Se essa conta, como todos sabem, é impossível ser paga pelas produções vindoura de mercadorias, a tendência é ter-se dinheiro sobrando sem lastro na riqueza real. E dinheiro que excede a riqueza além de um certo limite, não importa a origem, é inflação que como a deflação são os sinais mais visíveis da crise global do capitalismo. Apesar de tudo, aparentemente nada de novo se apresenta até agora capaz de substituir o modo de produção vigente. A saída via Estado, defendida por "socialistas" de países da América Latina, só diferem das medidas dos países ricos, da Europa aos Estados Unidos, pelo grau de intervenção (muito maior nos últimos), e pela arrogância de seus pequenos dirigentes que acreditam estar mudando o mundo.

10.05.2009

sábado, março 28, 2009

Por que a crise atual é pior do que a de 29?

Rall


Oitenta anos separam 1929 de 2009. Tempo insuficiente para entender-se os acontecimentos daquele período, muito menos os anos posteriores que deram origem ao nazi-facismo na Europa e segui-se à segunda guerra mundial com todos os seus horrores, o capitalismo já encontra-se imerso na maior crise de sua existência. Olhando pela janela da história nosso passado recente, não precisamos de nenhuma expertise para enxergar as diferenças fenomenais entre aquele mundo, onde as formações pré-capitalistas abundavam, e o de hoje, de absoluta hegemonia do capital, que traz como efeitos colaterais desequilíbrios ecológicos assombrosos.

Em 29, e até após a segunda guerra mundial, parte significativa da população de um planeta muito menos povoado vivia no campo, mesmo na Europa, principalmente na Central, na Rússia e nos países do Leste que com ela formavam o bloco Soviético. Nações continentais como a Índia e a China eram praticamente agrárias. A situação não era diferente no restante da Ásia, América Latina. Os EUA, que despontava como a grande potência industrial pós-guerra, o peso do campo era importante. Parte do que se produzia ia para o mercado mundial (como o café e o açúcar aqui no Brasil), mas a economia de subsistência tinha ainda um peso muito grande, ou seja, significativos agregados humanos só marginalmente se relacionava com o mercado. A troca do excedente produzido em muitas áreas rurais ainda se dava sem a mediação do dinheiro, o trabalho assalariado avançava, mas não tinha aí se consolidado.

Depois da segunda guerra mundial, o fluxo migratório em um mesmo país, ou entre países, sempre se deu no sentido campo-cidade. O avanço da monocultura de produtos para o mercado mundial, e, mais recentemente, o emprego intensivo de capital e de novas tecnologias no campo, movimentou imensos contingentes humanos em direção as cidades, que resultou em megalópoles com problemas infindáveis, principalmente nos países de terceiro mundo. Toda uma população que antes vivia no campo e pouco dependia do dinheiro para sobreviver, passa agora depender da produção capitalista e, conseqüentemente, do vil metal sem o qual põe em risco sua sobrevivência.

A crise de 29 se alastrou pelo mundo, mas foi sentida mais intensamente na Europa Ocidental e EUA. Se compararmos o PIB mundial daquele período com o atual como também a extensão da crise, veremos que a destruição de capital em 29 foi infinitamente inferior ao que hoje vivenciamos. O desmoronamento do sistema financeiro e a violenta retração da produção que continua em curso é global. Não existem regiões, países ou populações menos afetados como foi observado em 29. A cidade e o campo contorcem-se com a mesma dor, basta analisar o comportamento dos preços das commodities de toda espécie que vem despencando pelo fraco desempenho do mercado mundial.

Ao colapso das empresas seguir-se-á o colapso de países e regiões inteiras apesar das instituições anticíclicas criadas antes e após a segunda guerra mundial. Países literalmente falidos já fazem fila e batem de pires na mão na porta do FMI, dos bancos centrais europeus e americano em busca de salvação. Será possível? Em terras arrasadas, depois de revolvidas, pode nascer alguma coisa, mesmo que seja erva daninha. Mas o custo social, que ainda não cobrou seu preço, será devastador! O desemprego, já agravado pela terceira revolução industrial, pode atingir números dramáticos e os governos dificilmente conseguirão manter benefícios para todos desempregados, mesmo porque a prioridade é utilizar os recursos financeiros, fictícios ou não, para manter a máquina capitalista autofágica funcionando.

O caminho que seguem com determinação para salvar o capitalismo global em crise continua o mesmo: mais bolhas. Antes estimuladas pelos governos e geradas nos mercados é agora de vez assumida pelos Estados que já não escondem a impressão de dinheiro sem substância em suas casas da moeda em magnitudes jamais vistas sob o aplauso de todos. O capitalismo em fase terminal, para manter-se morto-vivo teve que fraudar a acumulação com toda espécie de bolhas e esticar o crédito ao infinito nas últimas décadas. Sem milagres a vista, a toada continua a mesma, agora sob a batuta dos governos até que um novo estouro recobre o real sentido da crise.


Sábado, 28 de março de 2009.

sexta-feira, março 13, 2009

Os zumbis da economia em crise

Rall


"Hoje o mundo é totalmente dependente do capital internacionalizado para qualquer investimento. O chamado capital nacional é uma ficção. O problema é que o capital não tem mais como se reproduzir na economia “real”. Seu destino é girar em falso, sem rumo como um zumbi, produzindo bolhas financeiras aqui e acolá, simulando acumulação. É a forma que encontrou de se manter morto-vivo na sociedade do trabalho em crise."
Rumores da Crise - Rall: Um Zumbi assombra o mundo – 08/05/2004

"Vamos ser diretos aqui. Há uma chance razoável, não uma certeza, de que Citi e BofA, juntos, percam centenas de bilhões de dólares nos próximos poucos anos. E seu capital não é nem remotamente suficiente para cobrir as possíveis perdas. De fato, a única razão pela qual ainda não quebraram é a de que o governo está agindo como um esteio, implicitamente garantindo suas obrigações. Mas são bancos zumbis, incapazes de fornecer o crédito de que a economia precisa."
Folha de S.Paulo – Paul Krugman: Os bancos diante do precipício - 24/02/2009

Essa polêmica sobre zumbis lembra-me de um filme, se não me engano de Paul Morrissey, sobre o Conde Drácula que doente, acredita recuperar-se bebendo sangue de virgem. Com a escassez de mulheres castas na Romênia, resolve viajar da Transilvânia até uma remota fazenda italiana, depois de receber uma carta informando-o que um pai ambicioso, zelava pela castidade das filhas, cobiçando casá-las com nobres que oferecessem uma merecida recompensa pela preciosa raridade. Numa viagem cheia de percalços e confusões, o moribundo Conde a duras penas consegue chegar ao destino. Num estado de excitação que fazia todo corpo tremer, é apresentado às garotas e de pronto se apaixona pela mais velha que num gesto provocante, sacode o cabelo e deixa nu todo um lado do belo pescoço. O Conde, na mesma noite, crava os dentes ferinos no sensual pescoço, e solta um grito agoniado quando o sangue esguicha em sua boca. Ao passar dos dias, vai ficando cada vez mais angustiado à medida em outros pescoços são mordidos e o sangue que jorra é rejeitado por seu refinado paladar. Sabe como morto-vivo, que se não encontrar o precioso alimento logo só restará um espectro de vampiro a vagar sem rumo por um estranho mundo, um verdadeiro zumbi.

O capital, nos seus estertores, apresenta comportamento semelhante. Não tendo aonde aporte para sugar trabalho vivo que conserve e faça crescer o morto, sofre como o Drácula de nossa história em busca de sangue virgem. O trabalho vivo, alimento essencial a reprodução do morto-vivo capital, vem rareando com a corrida pelo aumento da produtividade imposto pela concorrência global na terceira revolução industrial. O Conde Drácula, na desesperada busca de sangue virgem, compete com o mundo dos homens e se dá mal. Os capitais, em busca de competitividade, guerreiam entre si expulsando seu alimento da produção, portanto parte de seu ser. O requintado Vampiro, ao rejeitar o sangue de não virgens apesar da abundância, sabe que não sobreviverá. O capital, ao não suportar sequer o cheiro do suor dos “não-rentáveis” (Kurz), que no desespero famélico oferecem-se aos montões para serem consumidos como mercadoria barata, terá o mesmo destino. No encanto pelas máquinas esquece que o trabalho humano abstrato é seu alimento e que na sociedade burguesa o homem para consumir os meios necessários a sua reprodução tem que vender seu trabalho ou morrem de fome, homem e capital.

Na concorrência empresarial, a tendência é refazer-se a composição orgânica do capital, reduzindo-se o capital variável e aumentando o fixo. Ao tornar mais oneroso os custos dos investimentos com o aumento do capital fixo (máquinas, equipamentos etc.), reforçar-se então a importância do crédito. O “valor valorizado” (Marx) definha, seu espectro se liberta e como um zumbi assombra o mundo simulando acumulação na forma de capital fictício. Zumbi não são só bancos insolventes, mas todo capital financeiro que não aportando na produção aonde a rentabilidade é insuficiente, simula em suas entranhas a acumulação, reproduzindo papéis destituídos de substância de valor. O Sr. Krugman em seu artigo, parece acreditar que a ganância e as más decisões são responsáveis pelo castigo que nos impõe a crise. Apesar de reconhecer as incertezas que o mundo nos submete, não ultrapassa em suas análises os limites nos quais os homens são obrigados a se mover na sociedade burguesa.

A ilusão de que a estatização é a solução para crise do crédito, ao qual se atribui os motivos da crise sistêmica, reside no fato de os teóricos da economia rejeitar o trabalho abstrato como substância do valor, de renegar inclusive as descobertas de seus economistas mais lúcidos como Ricardo e Adam Smith. O que se observa com o movimento dos neoliberais em direção ao Estado “empreendedor”, que deixa amuada a esquerda estatizante, é a busca de uma nova bolha, já que no mercado todas explodiram e não se vislumbra outras. Bolha que vem se formando com a ajuda das instâncias financeiras dos Estados e por elas geridas, consensuada pelos governos e agentes econômico, deverá servir de base para as reformas articuladas pelos países do Centro. Pelo enorme volume de dinheiro sem lastro colocado a disposição e impressos nas casas da moeda, no momento certo essa bolha estatal também explodirá, talvez na forma de hiperinflação, sem, contudo, estancar a crise que é dos limites da acumulação do capital cuja expansão do crédito ao infinito foi um dos seus sintomas.

13.03.2009

domingo, fevereiro 15, 2009

O Protecionismo e seus conteúdos

Rall

Os primeiros gritos em defesa do emprego e da produção nacional começam ecoar nos países europeus e nos EUA. É um indicador importante da incapacidade dos políticos e das camadas dirigentes reverterem a crise sistêmica com os mecanismos monetários ou keynesianos conhecidos. Buscam-se remédios antigos para uma situação que vinha se acumulando desde o início dos anos 80, quando se acelera a destruição de empregos com o impacto das novas tecnologias utilizadas na produção de mercadorias. A cada sinal da crise que estava por vir, aumenta-se a produtividade e novos postos de trabalho são fechados; a concorrência, em todos os níveis da sociedade, torna-se cada vez mais feroz, e, para compensar a queda da massa total de mais valia e lucro, infla-se ativos reais e imaginários, como forma enganosa de garantir o crédito em expansão para os próximos séculos, e com isso o consumo.

Já vejo o indignado leitor, com o dedo no gatilho, oferecendo-se para ser parte do pelotão de fuzilamento pronto a ajustar contas com aqueles que trapacearam o mundo. Calma senhores, não é bem assim! Quantos de nós nos locupletamos utilizando as vantagens oferecidas pelo sistema financeiro para fazer nosso dinheiro “crescer”? O que investimos em papéis, mesmo que sejam os restos de um minguado salário, obedece à mesma lógica do mega-investidor de bilhões de dólares. Essa lógica, que é a lógica do capital de fazer mais dinheiro, fictício ou não, se estabelece na sociedade capitalista independente das vontades mais poderosas. O discurso, culpando a especulação financeira pelos sofrimentos do “bom capital produtivo” é demagógico, pois, apesar de toda reclamação continuam pondo trilhões de dólares no sistema colapsado. É perigoso, pois desvia a atenção dos motivos reais da crise e elege setores da sociedade como bode expiatório de uma lógica cega e destrutiva, sem nenhum átomo de crítica.

Nas crises do capitalismo, em particular essa pela sua dimensão global e pela dificuldade de se enxergar no horizonte saídas, onde se destrói sem piedade capitais e milhões de empregos, pondo em risco a sobrevivência de parte da população do planeta, traz à tona não só o medo, mas o que há de pior gerado no cotidiano barbarizado e recalcado em tempos “normais”. Os acenos dos governos ao protecionismo refletem a incapacidade de gerenciarem a crise, mas também as pressões daqueles que ao verem seus empregos ameaçados, buscam no outro o motivo de sua miséria. O conflito se estabelece não só com o outro de fora, mas também com o outro de dentro, o imigrante. E o outro de dentro já não é só mais o imigrante dos continentes distantes: África, Ásia, América Latina, esse há muito saco de pancada dos grupos e partidos de direita de conotação racista e fascista. O outro de dentro é o próprio europeu do leste, mesmo aqueles dos países que fazem parte da União Européia.

A crise ainda não mostrou sua verdadeira face, mas as notícias do ressentimento de trabalhadores da Europa Ocidental contra os que ocupam postos de trabalho por uma mísera remuneração são cada vez mais evidentes. É como fossem estes os culpados pela destruição de empregos e precarização do trabalho e não a busca incessante do capital por maior rentabilidade. O aumento da intolerância dos governos com os imigrantes é o outro lado da moeda. Aonde se assume mais abertamente a repressão ao imigrante, como na Itália de Berlusconi, são os primeiros sinais do que está por vir com o agravamento da situação. Acusar os imigrantes e outros grupos minoritários pela crise do trabalho e pela insegurança na sociedade, é uma estratégia nada desprezível para se ganhar o apoio das massas ameaçadas pelo desemprego ou já desempregada, deixando incólume o capitalismo de uma crítica mais categorial. O alimentado medo do terrorismo completa o cerco que se fecha na Europa contra extrangeiros e filhos destes já há muito estabelecidos.

Nesse caldo de cultura, a generalização da violência de grupos nacionalista, racistas e protofacistas, hoje esporádica, é uma possibilidade, como também o crescimento dos partidos de direita xenófobos, que com seus discursos belicosos e simplistas aumentam as tensões contra os de “fora”, acusando-os de invadir a sociedade ocidental com mercadorias baratas, principalmente a tão parcamente remunerada força de trabalho, ameaçando os sagrados empregos do homem branco ocidental. Corre ainda nesse rio caudaloso, pronto a se tingir de vermelho, um antissemitismo surdo e rancoroso, nunca totalmente extirpado da sociedade européia, principalmente nesse momento em que no capital financeiro são depositadas todas as mazelas da crise global do capitalismo. Nos momentos mais destrutivos da crise, a guerra interna e externa, como forma extrema da política na sociedade burguesa, é sempre uma solução, regressiva, mas racionalmente planejada.

15.02.2009

sexta-feira, dezembro 26, 2008

A economia nos tempos de crise do valor

Rall


Os fatos sucedem-se. Dessa vez acerta no coração da Wall Street. Seu algoz, o mais respeitado de todos: Bernard Madoff. Cinqüenta bilhões de dólares evaporam-se num passe de mágica e mesmo assim não deixa tão rico seu fraudador. Envolvidos nessas perdas não estão investidores desinformados, mas grandes financistas, investidores institucionais, profundos conhecedores do mercado de papéis e entusiastas de obscuras aplicações. São eles que captam dinheiro de desavisados ou não, ávidos por ganhos fáceis, e repassam aos Madoff para multiplicação. Os rituais milagrosos nos terreiros dos Maldoff, das Eron e tantos outros que haverão de se sucederem, é a história do capitalismo dos anos 80 para cá, do capital fictício simulando a acumulação.

Foi à forma que o capitalismo e seus agentes encontraram para acobertar a crise da chamada “economia real”, que com a crise do valor há muito já não é mais rentável. A expansão da atividade econômica e o lucro presumível das empresas só foram possíveis nos últimos 25 anos com o jogo financeiro. Nesse período, no decorrer dos anos, torna-se cada vez mais difícil a produção vantajosa de mercadorias descolada dos investimentos no mercado de papéis. Hoje, em todo mundo, é raro encontrar-se uma empresa não associada a um banco ou financeira, que lhe garantam o crédito fácil e o rateio do “lucro” das aplicações.

A fusão da atividade produtiva com a financeira, que no jargão dos tempos virou indústria, passa a ser total. A atividade empresarial transforma-se em apêndice da “indústria financeira” e passa a depender desesperadamente dos movimentos especulativos dessa para ser “rentável”. Os chamados ativos reais, geralmente associados a bens materiais ou imateriais, são lastros virtuais do capital fictício, e só existem enquanto valor na ficção contábil como mostra o estouro da bolha imobiliária. O tempo de trabalho socialmente necessário torna-se obsoleto como medida do valor, apesar de nas mercadorias ainda encontrar-se vestígios do trabalho abstrato.

Como crêem sair da crise?

O que se delineia não resolve o problema da não coincidência entre produção e consumo. As medidas articuladas para se contrapor a depressão podem alimentar novas bolhas. Nessa empreitada os governos assumiram a dianteira: baixam juros e jogam dinheiro à rodo no mercado, impressos nas casas da moeda, para compensar o capital que queima e as cinzas se espalham sem deixar rastros. Não obstante os tão em voga discursos demagógicos contra os especuladores, era esse capital evaporado, antes cobiçado e agora criticado, que sustentava o crédito fácil, alimentava o consumo desmedido e financiava governos. Sem ele, a atividade econômica é deprimida, o consumo e os investimentos param, e a deflação bate à porta assustando a todos.

O dinheiro fartamente distribuído pelos tesouros e bancos centrais, não passa de papel impresso sem nenhuma substância de valor, é capital fictício que se num primeiro momento estancar a deflação, pode mais na frente fazer explodir a inflação, mesmo considerando-se os mecanismos de contenção da expansão monetária que dispõe os bancos centrais. Portanto, as intervenções estatais estão longe de mudar a trajetória da crise. Podem até aliviar os sintomas, mas não cura o paciente moribundo.

Por outro lado, a esquerda tradicional, solapada pelas iniciativas da direita, se conforma em pintar com corres menos vivas os pacotes de interesse do capital. Aplaudem as medidas como o fim do neoliberalismo e clamam por um retorno ao bom capitalismo produtivo, livre da especulação financeira e regulado pelo Estado. Não é capaz de enxergar que é na produção de mercadorias que está o problema, que todo esse imbróglio financeiro surgiu como forma de empurrar para frente o trem capitalista emperrado pela baixa rentabilidade como resultado da desvalorização do valor. Avivada pela crise, a concorrência global busca novos mercados e uma maior produtividade, aprofundando a revolução tecnológica em todos os níveis da sociedade. Aumentam-se os investimentos na concentração dos meios de produção, intensificam-se as dispensas da força de trabalho, que motiva a queda da taxa de lucro realimentando a crise.


26.12.2008

domingo, novembro 16, 2008

As ações dos Estados são capazes de conter a crise após a explosão das bolhas?

Rall

A crise se alastra muito rapidamente para todos os setores da economia mundial. Não se fala mais em socorro só dos estabelecimentos financeiros, mas também de gigantes da indústria e comércio como a General Motors, Ford, importantes redes de varejo para não irem à falência. As informações são da redução da atividade industrial ou do fechamento de milhares de empresas pelo mundo a fora, principalmente na China e nos EUA. As estatísticas sempre prontas para esconder o pior, já não conseguem mais negar a velocidade do desemprego galopante. Numa crise estrutural, a passagem da deflação para inflação e vice-versa, dar-se-á em grande velocidade, como também é possível a convivência de ambas em setores diversos num mesmo país ou em países diferentes.

O volume de papéis circulante que faz às vezes do dinheiro é inflacionário. Se acrescido de dinheiro impresso que nada expressa pode ser catastrófico. Num primeiro momento, esse dinheiro que não representa valor pode parecer a salvação quando se raciocina em termos contábeis. Uma empresa que necessita de bilhões em capital para cobrir rombos financeiros vai ficar satisfeita ao recebê-lo. Mas, ao entra em circulação, rapidamente se desvaloriza pelo aumento dos preços das mercadorias que no processo de troca se ajustam ao excesso de dinheiro circulante. Os mecanismos monetários utilizados pelos bancos centrais para enxugar o mercado podem não ser acionados, pois, aparentemente, o mercado insolvente sofre por falta de liquidez. Surge então o risco da estaginflação.

De certa forma é o que estamos observando na economia global: os governos, na tentativa estimular as atividades econômicas em recessão, reduz os juros e põem dinheiro no mercado apesar dos sinais latentes ou explícitos de inflação. Como os agentes econômicos e o Estado burguês entendem que a inflação seria a forma menos grave de a economia purgar seus "excessos", mesmo sendo esta devastadora para as vastas camadas da população que não tem condições de se proteger contra a alta dos preços e corrosão dos salários, tendem optar por medidas inflacionárias que se contraponham a deflação, acreditando inclusive na possibilidade de aí exercer um melhor controle. Essa é também forma de pensar dos economistas chamados desenvolvimentistas ao defenderem a modernização dos países atrasados.

Nas bolhas, o dinheiro fictício, encontra-se de certa forma contido enquanto os mecanismos de remuneração funcionam. Numa situação de “normalidade financeira” vai se reciclando sob controle quando utilizado no consumo ou em investimentos. No entanto, nas intervenções dos tesouros e bancos centrais, utilizando fartamente dinheiro público para irrigar o crédito deprimido e resgatar empresas, quando os Estados já ultrapassaram sua capacidade de endividamento presente e futura, os governos são tentados imprimir papel-moeda sem limites, tornando grande o risco de uma explosão inflacionária, pois esse dinheiro é jogado diretamente no mercado, sem as mediações encontradas nas bolhas que retardam sua entrada em circulação. Portanto, as máquinas de “falsificar” dinheiro dos governos não são capazes de substituir com eficácia as bolhas na simulação da acumulação, sem o risco de hiperinflação.

Como no horizonte não se enxerga nenhuma bolha capaz de ancorar a economia em crise e como a tendência atual dos Estados é buscar substituir os mecanismos de formação de capital fictício das bolhas por dinheiro “falso”, o suspiro momentâneo do paciente terminal reanimado pela injeção de placebos, pode se transformar logo em seguida em desastre econômico de proporções inimaginável. Dependendo da velocidade em que se dá a queima e a reposição do capital sem substância, a deflação e a inflação, como formas fenomênicas da crise, em diferentes momentos transmutam-se por se encontrarem em equilíbrio precário. E como não se vislumbra nenhuma revolução tecnológica capaz de reaquecer a máquina capitalista de “valorização do valor” (Marx), é possível uma convivência diária com esses fenômenos que manifestam a cronificação da crise, até que a sociedade tome novos rumos ou resolva se afundar na barbárie.

16.11.2008

quarta-feira, outubro 22, 2008

A crise que não se deixa administrar

Rall


Os sinais de recessão que assolam o mundo ainda são por conta do peso do setor financeiro no PIB. Apesar das demissões nesse setor, o impacto maior será sentido quando o consumo e os investimentos sentirem toda força da escassez do crédito. Os investimentos serão atingidos duplamente: pela escassez do crédito e pela redução do consumo. É nesse momento que o desemprego atingirá com força a economia real com a redução da produção e o fechamento de fábricas. Parte dos assalariados que continuarão empregados terão seus salários achatados e reduzirão o consumo inibindo mais ainda a produção. Os estados endividados terão dificuldade de executar programas keynesianos sem o risco de uma explosão de preços. Configura-se uma situação perigosa que num primeiro momento tende acirrar ferozmente a competição, destruindo os poucos e frágeis laços de solidariedade que possam existir. Com o esgotamento dos instrumentos anti-crise do mercado e do Estado burguês, setores belicistas estarão mais ativos do que nunca.

A expansão monetária ao infinito, através da formação de bolhas, levando o dinheiro a se multiplicar sem a mediação da mercadoria, eterno desejo dos “sujeitos automáticos”, entrou em violento conflito com o dinheiro equivalente-geral, expressão do trabalho abstrato. Obrigada a se contrair de forma drástica, leva consigo a economia real que verga com a crise do valor e usa o artifício das bolhas para se manter em movimento. A crise estrutural, diferentemente das crises de crescimento, está longe do fim e mostra que o capitalismo mundial que há muito já ultrapassou as últimas fronteiras da acumulação, corre o risco de desabar sobre si. O discurso do descolamento dos países em desenvolvimento, totalmente desqualificado pelos fatos, mostra que as análises locais, apesar de necessárias, não dão conta da totalidade.

A compreensão do momento exige um esforço teórico maior do que discursos ideológicos vazios de conteúdo, muitas vezes perigosamente mobilizadores pelas simplificações e pelos apelos a soluções mágicas. Exige uma ampla e cuidadosa discussão, dentro da perspectiva de uma aliança capaz de pensar além da sociedade da mercadoria. Se a ilusão da luta de classe como “motor da história” já não convence, merece ser aprofundada a crítica considerando-se as diferenças sociais e a existência de grupos vulneráveis formados pelos expelidos da produção ou destituídos de rendimentos de qualquer espécie. A crise, ao sugar massas enormes de capital, ao destruir poderes, desestrutura sujeitos levando-os a loucura competitiva e autodestrutiva, carregada de desejos mórbidos que podem arrastar multidões sem rumo ao sofrimento. Não devemos esquecer que o espírito de Auschwitz, a “indústria da morte”, continua em ação por outros meios antes mesmo do agravamento da crise, como mostram as guerras de extermínio em algumas regiões do terceiro mundo e dos Bálcãs em pleno coração da Europa e a violência nos grandes centros urbanos.

A economia, enquanto esfera estruturante da sociedade capitalista, com a intensificação da crise, todas as atenções e recursos vão estar mobilizados para salvá-la da ruína. Resgatar um banco hoje não vai reduzir o risco de milhões passarem fome, mas pode manter o crédito que garante o funcionamento da máquina de “valorização do valor”. A população não rentável, que mais e mais se desacopla da produção, muito rapidamente será abandonada à própria sorte. Os programas sociais já restritos, nesse contexto tornam-se supérfluos. A crise pode ser ainda a justificativa para que a destruição do meio ambiente continue sem restrição. O acirramento da concorrência e a busca de novos mercados pelos países exportadores levarão a desertificação industrial de regiões inteiras. O capitalismo-cassino onde todos os jogadores ganhavam foi o atalho encontrado para o dinheiro farto e barato. Mas essa banca um dia haveria de quebrar e quebra num momento em que os indivíduos, as empresas e o Estado já não suportam mais o peso da dívida o que dificulta a saída da crise pelas vias tradicionais como querem os arautos da economia.

22.10.2008

sexta-feira, outubro 03, 2008

A linguagem da crise

Rall

A procura de uma linguagem para explicar a crise e as fórmulas abstratas irreais que buscam justificar a formação de preços dos papeis apodrecidos do capital fictício, tem levado os analista a uma descrição cada vez mais obscura e ininteligível dos fatos econômicos. O que nos disparates da fúria descritiva não se consegue explicar é transformado em gíria logo aderida por todos e o fictício torna-se ficção de qualidade duvidosa. Isso é possível quando os pressupostos da descrição da crise estão carregados de justificativas de um mundo fora controle, movido por uma lógica que passa ao largo da vontade humana.
Em sua trajetória ascendente, a crise da acumulação do capital na economia real, encontrou na formação de capital fictício a partir dos anos 80, um jeito, mesmo que enganoso, de dribla a estagnação. Foi o tempo das grandes invenções financeiras como os derivativos e outros papéis, justificados com complexas fórmulas matemáticas descoladas da produção real e sustentadas por operações do tipo carry trade entre muitas. Hoje, postas em cheque pela crise, há uma tentativa de se recriar essas abstrações através de uma linguagem esotérica, na tentativa de elucidar a crise e dela sair negando a realidade da mesma.
Se nas ùltimas décadas a saída para crise da “valorização do valor” foram as bolhas de capital fictício, alimentadas com papeis sem lastro gerados no setor público e privado, com a queima desses ativos financeiros pela deflação e com a impossibilidades do surgimento de uma nova bolha capaz de dà continuidade ao processo de formação do capital sem substância, pelo menos em curto e médio prazo, buscam-se culpados e soluções mágicas que possam preservar o mundo das mercadorias. E aí, além da obtusa linguagem, se estabelece uma arenga para ver com quem fica a pecha de bode expiatório.
Sob o açoite da crise, o discurso neoliberal se transmuta em seu contrário e os agentes do soberano mercado suplicam pela intervenção do antes ineficaz Estado. Estatizações de monta jamais vistas são realizadas para salvar setores privados inteiros, como sempre aconteceu no capitalismo em crise. O discurso estatizante tão arraigado no imaginário das esquerdas em todo mundo é solapado pela direita para salvar o capitalismo, mostrando a verdadeira face do Estado.
As dimensões da crise ainda não se delinearam. A montanha de dinheiro postos pelos governos nos mercados vem mostrando-se incapaz de garantir estabilidade do setor financeiro e o aumento da liquidez. Mesmo que isso venha acontecer por um curto período, quando o impacto da falta de crédito atingir o ápice na economia mundial, com sérias implicações para o consumo e investimentos, é provável um novo tombo das bolsas e bancos retroalimentado pelo agravamento na crise da economia real. Isso pode levar a necessidade de novos aportes de capital para o setor financeiro, que se suprido por dinheiro impresso pelos Tesouros, aumentará enormemente o risco de uma inflação descontrolada.
Paris, 03.10.2008

quinta-feira, julho 17, 2008

Inflação ou deflação, para onde caminha a crise?

Rall


As surpresas da crise têm deixado tontos analistas econômicos de várias tendências. Alguns convivem angustiados com a inflação, outros vaticinam uma deflação mundial como o verdadeiro Nosferatu da crise. Esquecem, ou não enxergam, que inflação e deflação são formas de manifestação da crise(1), e que o deslocamento para um lado ou para o outro, vai depender das circunstâncias. Se olharmos como a crise vem se desenrolando nos EUA, veremos isso com mais clareza.

No estouro da bolha imobiliária, um setor inteiro, talvez o mais importante da economia americana, entra em deflação com desabamento dos preços dos imóveis em geral. Segue-se a queda dos preços de ativos financeiros a eles relacionados, negociados nos mercados em todo mundo. Parte do capital que consegue se safar de virar pó, foge para ativos reais, já que os papéis de toda espécie apresentam-se altamente inflamável ao menor atrito na economia.

E um desses ativos mais seguro é o ouro, que como outros metais preciosos não derretem fácil às altas temperaturas da crise. O ouro que volta a cena com todo esplendor, ameaça a assumir o papel de equivalente geral no mundo das mercadorias com a fraqueza do dólar. Capitaneia commoditieis metálicas em seu salto para o além, que já vinham com preços acelerados pela demanda aquecida.

Mas, como forma mais acabada da mercadoria-dinheiro, o ouro, e também seus pares metálicos, não brilham em quantidade suficiente para o capital que corre solto em busca de garantias. Brota então o ouro negro para reforçar a bolha das commoditieis. Como ainda sobra dinheiro inseguro de sua função, e dessa vez não é possível guardar dólar em baixo dos colchões pela rápida desvalorização do mesmo, aposta-se nas commodities agrícolas. Daí a inflação que se espalha por outros setores da economia.

Mas se parte da população mundial deixar de se alimentar, os abastados não encherem os tanques de seus carros bebedores de gasolina e álcool na velocidade em que faziam, os impulsivos consumistas não comprarem objetos de pouca utilidade que só poluem e evenenam o planeta, vai sobrar mercadoria e os preços podem desabar. E então, a outra face da crise, a deflação, pode se manifestar com força.

Esses espasmos que fazem o capitalismo em crise e seus agentes contorcerem-se de dor, parecem querer mostrar os limites a que está sujeito a acumulação real na terceira revolução industrial. O fogaréu que consome o capital fictício, ora com a intensificação da inflação, ora com a deflação em países diferentes, ou em setores diferentes de um mesmo país, pode chamuscar os bolsos fartos de alguns e jogar na miséria e na fome multidões de Continentes inteiros.

Se no horizonte não surgir à possibilidade de uma bolha de longa duração, pois a bolha das commodities pode rapidamente se esvair, e pouco restar do capital fictício das que estouraram, deve predominar mundialmente a deflação. Neste cenário, Estados endividados entrarão em colapso e não haverá outra saída se não aumentar a impressão de moedas sem lastro, que pode levar a hiperinflação, sem, no entanto, impedir a queda relativa dos preços.

Essa forma de inflação, velha conhecida dos países do terceiro mundo, em particular dos brasileiros, funciona como um tributo perverso que transfere renda dos mais pobres para financiar os gastos do Estado e das camadas mais ricas da população, muitas das quais só sobrevivem na sombra estatal.

(1)O beco sem saída da economia americana

17.07.2007

terça-feira, julho 08, 2008

Bolhas, buracos negros e inflação

Rall


As bolhas financeiras quando em crescimento, funcionam como diques de contenção do capital excedentário. Quando se rompem, o capital contido e multiplicado sai atrás de tudo que aparentemente reluz. As bolhas são como buracos negros, sugam toda matéria que possa ser alcançada por sua força de atração, mas a mantém contida pela energia aí gerada. Se explodem, joga tudo para fora - nesse caso as bolhas, pois não se tem conhecimento de explosões de buracos negros apesar de ser um evento possível. A matéria, o dinheiro expelido, busca acomodar-se em outros buracos que lhes sejam rentáveis, não sem antes causar distúrbios por vezes violentos.

A diferença da crise atual para as anteriores, causadas também por estouro de bolhas financeiras, é que agora todos os papéis parecem suspeitos, o que tem levado o capital a se dirigir e aportar em ativos reais, principalmente aqueles, que por motivos diversos, podem ou vem sofrendo alguma pressão de demanda. O exemplo mais evidente é o do petróleo, aonde os preços já vinham subindo em função da escassez na natureza e das incertezas políticas nos países produtores. Mas só o desequilíbrio entre a oferta e a procura, não é, de forma nenhuma, suficiente para explicar o salto absurdo dos preços logo após o estouro da bolha imobiliária nos EUA, como pregam alguns arautos do sistema.

O petróleo, como outras commodities, sobe num momento em que a expectativa é a redução do crescimento mundial, ou seja, de redução da demanda, o que aponta para a existência de uma bolha. O problema é que a bolha das commodities, em particular do petróleo, é altamente inflacionária, pois sendo este a matriz energética do mundo e matéria-prima de um grande número de produtos industrializados, a inflação tende a disseminar-se por todos os setores da economia. Para tomarmos consciência da importância do petróleo na produção de mercadorias é só olhar além dos tanques de combustíveis de nossos carros, para os objetos que nos cercam, os alimentos que ingerimos e veremos o que significa o aumento de preços desse produto.

A bolha das commodities difere das demais pelo fato de o aumento dos preços se espalharem por todo planeta, não se restringindo a alguns países por ter a economia capitalista no petróleo a sua principal base sustentação. Quanto ao aumento dos preços dos alimentos, pode ter alguma relação com o consumo, mas é preciso levar em consideração os preços dos transportes, da armazenagem, dos insumos, principalmente dos fertilizantes, que direta ou indiretamente tem alguma relação com o petróleo. Mas não pode ser deixado de lado, de forma alguma, o impacto da utilização das commodities como refúgio do capital que foge dos estragos causados nas bolsas, no setor financeiro e em seus exóticos “produtos”, pela crise imobiliária americana. É só analisar a velocidade de negociação das commodities alimentares nas bolsas de mercadoria (1), e a voraz compra de terras produtivas e meios de produção pelos fundos em todo mundo e no Brasil.

É possível assistirmos aqui situação semelhante a dos anos setenta(2), quando no lançamento do Pró-álcool, terras destinadas ao cultivo de alimentos pelos pequenos agricultores e suas famílias, foram “expropriadas” pelo capital, que via na monocultura da cana-de-açúcar e na produção de álcool uma alternativa para aumentar a rentabilidade. Com o entusiasmo do governo pelos biocombustíveis e o capital global à solta, ávido por novas oportunidades, tudo fica mais fácil. Só estamos no início de um processo e a compra de terras por empresas, fundos nacionais e estrangeiros, que vão de vastas extensões a pequenos sítios, já fez subir significativamente o preço do hectare, o que deve complicar mais ainda a produção de alimentos e a inflação. As condições são propícias para uma nova onda de concentração da propriedade fundiária.

O discurso de um desajuste causado na economia pelo “choque de oferta” e pressão de demanda, como único responsável pelo aumento dos preços das commodities, não entende, ou intencionalmente tenta deixa de lado, a importância do violento movimento do capital, fictício ou não, em busca de rentabilidade na crise atual. A fragilidade do dólar frente às outras moedas, que busca compensar a queda das vendas internas americanas com as exportações, e, ao mesmo tempo, reverter o déficit na balança comercial, tende a agravar mais ainda a situação, pois a depreciação do dólar, que funciona como dinheiro universal, é causa e efeito dessa nova realidade.

29.06.2008

(1) Nem que todos morram de fome...
(2) Uma breve história da expulsão do homem do campo pelo capital

terça-feira, junho 24, 2008

O fantasma de 29 e a crise atual

Rall


A inflação antes restrita a alguns países, torna-se um fenômeno mundial e volta a assustar. A sombra da crise de 29, que arrastou o mundo à carnificina da segunda guerra mundial e parecia esquecida, assume contornos bizarros no horizonte e já é avistada com assombro por alguns. E é ela bem mais real do que os desejos de muitos analistas e governantes. Na velocidade em que vem se formando o capital fictício a partir dos anos 80, apesar dos mecanismos de contenção, chegaria o momento que este transbordaria e mostraria sua outra face: a inflação. Tão pouco esperada para um momento em que a economia americana e mundial dá sinais de desaceleração, a inflação tem vários determinantes, mas vamos nos ater ao que achamos no momento importante.

O dinheiro excedente, gerado de diversas formas, principalmente nas bolhas e nas máquinas dos governos para ser generosamente distribuído, deve ser levado em consideração quando se fala em retomada da inflação. Vale uma ressalva antes de prosseguirmos: com a terceira revolução industrial, a produção atual de mercadoria depende da formação de capital fictício. Na fórmula clássica D-M-D’, mais dinheiro (D’) só é possível por ser a força de trabalho uma mercadoria capaz de produzir mais valor. Com a automação da produção que tende a aumentar o capital fixo e a dispensar cada vez mais trabalho do processo produtivo, a formação de mais dinheiro (D’) como expressão da “valorização do valor” entra em crise. Daí o surgimento das “máquinas” de produção de capital fictício na economia mundial que não se restringem à impressão de papel-moeda pelos governos. Foram se constituindo mecanismos sofisticados de geração dessa forma de capital, que aparentam uma relação mais direta com a produção de mercadorias do que as impressoras das casas de moedas.

Um desses mecanismos é a relação econômica dos EUA com os países asiáticos, principalmente China e Japão, onde o enorme déficit comercial americano é coberto com uma montanha de dinheiro barato vindo desses países. Outros são os juros negativos praticados pelo Fed (e outros bancos centrais), os subsídios e cortes de impostos, medidas sempre tomadas todas as vezes que a economia entra ou corre o risco de recessão. O volume de capital que passa a circular a partir daí, ofertado a longo prazo as famílias e as empresas, ultrapassa a capacidade de consumo e investimentos, permitindo liquidez para especulação de toda ordem e formação de bolhas em vários setores da economia. Essas bolhas, ao devolverem mais dinheiro mesmo que fictício ao mercado, realimentam o consumo e os investimentos, aumentando também o tamanho e a possibilidade de outras, numa crescente bola de neve que parece não ter fim. Mas, um bom observador verá que a ascensão das bolhas e o crescimento econômico a ela acoplada, são sempre acompanhados de estouros e da queda da economia.

Esse parece ter sido o meio encontrado, pela economia global, para superar as dificuldades geradas com a crise do trabalho na era da revolução tecnológica, que leva a paralisia na formação de capital, entendido como trabalho morto acumulado. Não é um processo linear. Na competição sem limites por mercados, o capital está sempre em movimento na busca de novos espaços que lhes sejam favoráveis na produção de mercadorias. Por outro lado, mesmo com o “efeito bolha”, empregos não são criados em quantidade suficiente capazes de compensar o fechamento de postos de trabalho produtivos pela introdução de novas tecnologias, que pode ser indiretamente medido pelo grande aumento da produtividade do trabalho observado nas últimas décadas em todo mundo. Esse fenômeno não impede que ondas de empregos emerjam em certos momentos do capitalismo mundial como observado até recentemente. São empregos, em grande parte, improdutivos no sentido de não gerarem mais valia, e empregos precarizados como indica a estabilidade ou mesmo a queda da massa salarial na maioria dos países.

Se por um lado essa enorme quantidade de dinheiro supérfluo empurra para frente a possibilidade de uma crise sem retorno da forma capitalista de produção, quando não devidamente contido pelos vários mecanismos financeiros pode levar a inflação, como agora observamos após o estouro da bolha imobiliária que obrigou os capitais se deslocarem para ativos reais, inflando aos céus os preços das commodities metálicas, químicas (petróleo e derivados) e de alimentos. Situação agravada com os juros negativos, principalmente nos EUA e Japão, e pela ação dos bancos mundiais dos países ditos desenvolvidos que despejaram no mercado mais de um trilhão de dólares sem, no entanto, conseguir reverter a crise do sistema financeiro nem aquecer, como se esperava, suas economias. Os velhos remédios keinesianos ou monetaristas já não funcionam mais. Juros baixos e mais dinheiro para o consumo na situação atual significa mais inflação; arrocho monetário e juros altos mais recessão sem a garantia da queda dos preços. É a crise autonomizada dando sinais de sua verdadeira dimensão, mostrando que não se deixa facilmente controlar pelas vontades das elites e dos governos.


24.06.2008