Rall
O filme do diretor José Padilha, busca mostrar a violência que grassa os aparelhos de segurança do Estado, associada a uma corrupção crônica que se estende ao Executivo, Legislativo e, menos evidente, ao Judiciário. O filme se desenrola contando a história das milícias do Rio de Janeiro, que surgem a partir da relação de militares com o crime organizado. Observam que os criminosos montaram nas favelas uma eficiente empresa que se ocupa não só da venda de drogas, mas também do monopólio da distribuição de gás, venda de ligações clandestinas de TV a cabo e de outros lucrativos comércios. Os policiais de um batalhão, não satisfeitos com o valor da propina paga pelo tráfico, resolve tomar uma favela e assumir o comércio dito informal, expulsando os traficantes e instituindo um Estado paralelo, com cobrança de “impostos” para garantir a segurança do cidadão.
Não demora e o achado que promete “segurança” à população e muito dinheiro para os envolvidos, chega ao núcleo do poder político (1) cujos membros se aliam as milícias e passam a ordenar a ocupação das favelas pelas tropas de elites, deixando o território livre para instalação de bandos armados, acobertando o crime organizado gestado nas corporações militares. Os políticos ganham com a repercussão manipulada dos fatos e com a divisão do butim. Apesar de o filme tentar retratar a situação particular do Rio de Janeiro, capta uma realidade mais geral em movimento, não restrita só aos Estados brasileiros, mas que hoje atinge todo o mundo globalizado. Daí uma das qualidades do filme como obra cinematográfica.
A crise pela qual passa a sociedade capitalista tem evidenciado o quanto Estado e mercado se complementam inclusive na bandalheira. Os trilhões de dólares e outras moedas transferidas pelos estados em todo mundo para cobrir os prejuízos do mercado com papéis podres e pirâmides financeiras mostra que a lógica é a mesma, só muda a forma: fazer dinheiro, mesmo que fictício, sem importar-se o custo humano e social.
A concorrência que se acirra com a intensificação da crise de acumulação real de capital, assume na sociedade burguesa uma dimensão espantosamente destruidora, incapaz de ser contida em seus excessos por um Estado cada vez mais contaminado por essa lógica. Portanto, a degradação do Estado que o distancia de sua forma “ideal” é o reflexo das taras de uma sociedade em profunda crise que atingem todos seus interstícios. Estado e mercado, que são partes do todo que constituem a sociedade burguesa, apesar de em alguns momentos passarem por violentas tensões resultantes das contradições inerentes, não vivem um sem o outro e alimentam-se mutualmente em sua miséria, movidos pelo fetiche do dinheiro venerado por todos. A loucura do mercado financeiro não está desacoplada da economia real como muitos desejam e (ou) como tenta convencer outro filme, “Wall Street 2: O dinheiro nunca dorme” , mas tem na crise de “valorização do valor” da economia real sua causa fundamental.
Como sair disso e nos livrar da barbárie? Com certeza não através do Estado burguês, que se degenera em grupos mafiosos violentos e nem sequer consegue mais administrar a crise, como deseja uma esquerda que se alimenta de literatura e conceitos mofados no tempo e é incapaz de romper o arcabouço ideológico ao qual estão amarradas suas fantasias. Se a crítica social não quiser sucumbir ao totalitarismo da mercadoria que nos sufoca, tem que dirigir suas baterias às formas existentes, abrindo frestas em todas as frentes para que se enxerguem outras formas de organização em formação capaz de superar o estado de coisa em que vivemos, antes que seja tarde demais para se alcançar uma verdadeira comunidade humana.
Esperamos que o próximo filme da série, o Capitão Nascimento, apesar das expectativas, não seja transformado no herói capaz de realizar a limpeza ética do Estado, que regenerado, coloca-se pronto para extirpar pelo uso da força as pontas podres do sistema. Pois essa coisa estranha e fora de controle chamando “sistema”, é a expressão de força de um Estado capitalista cada vez mais armado contra os indivíduos e a possibilidade de uma sociedade solidária, planejada e construída a partir das reais necessidades humana. Seria melhor manter nos filmes vindouros a crítica negativa aberta do que buscar um final feliz, que anestesia com imagens espetaculares a possibilidade de reflexões.
(1) Da doce ilusão à consentida mentira
25.10.2010
segunda-feira, outubro 25, 2010
domingo, outubro 10, 2010
A crise aproxima-se perigosamente do câmbio
Rall
As medidas dos governos em defesa dos mercados domésticos que tem levado a variações cambiais, sinalizam que a unidade em torno do enfrentamento da crise começa a se desfazer com a esperada retomada do crescimento econômico derrapando nas dificuldades estruturais. A chiadeira é geral: reclama-se da China que administra burocraticamente o yuan, garantido uma certa estabilidade frente a uma cesta de moedas, principalmente ao acompanhar as seguidas desvalorizações do dólar. Fala-se na necessidade de valorização do yuan permitindo um equilíbrio nos preços dos produtos das exportações chinesas que vem arruinando as indústrias dos países em desenvolvimento e dificultando a retomada da produção nos países desenvolvidos ao inundar o mundo com mercadorias baratas. Oferecem como sugestão que a China estimule o mercado interno de tal forma que o mesmo seja capaz de absorver as mercadorias que vão para fora e também o excedente de países desenvolvidos. Sugestão que não precisa de um observador muito atento à economia chinesa para entender a impossibilidade da criação desse tão cultuado mercado local nas condições dadas.
Tal desejo dos “formuladores” das políticas econômicas dos países do centro não se restringe a China, é estendido a todos os países ditos emergentes com saldo na balança comercial. Acredita-se que chegou a hora de se inverter a lógica dos circuitos deficitários, ou pelo menos de se buscar um equilíbrio mais justo nas transações comerciais corrigindo-se as distorções. É nesse contesto que devem ser analisadas as atuais ondas desvalorização do dólar.
A trajetória de queda do dólar no tempo deve-se a um conjunto de variáveis complexas. Está relacionada com a crise do dinheiro em geral que se torna mais evidente nesta moeda pelo papel que exerce de equivalente geral, cuja única âncora que lhe garante esta função com o fim da paridade ouro/dólar, passa a ser poder político/militar americano. Quando se analisa a história do dinheiro após a segunda guerra mundial, o dólar na função de dinheiro universal expressa melhor a desvalorização das moedas levada a efeito pelo aumento da produtividade, que diminui o “tempo de trabalho socialmente necessário à produção de mercadorias (Marx)”, induzindo a corrosão do valor e a consequente queda dos preços dos produtos. Enquanto “mercadoria rainha”, o dinheiro tende a acompanhar a desvalorização do valor no tempo independente das variações conjunturais. Nos mercados financeiros o dinheiro que rende juros, autonomizado em relação à produção, perde seu “status” e é transacionado como uma vulgar mercadoria. Empacotado com papéis de cores diferentes atende do mais simples ao mais refinado gosto dos investidores. Dessa forma, o dinheiro ao se multiplicar descolado do processo real de valorização gera capital fictício. Como o preço das mercadorias que oscila ao sabor das conjunturas, nas relações de mercado o dinheiro flutua em variadas situações.
São, portanto, diversas as circunstâncias que levam as moedas a flutuarem umas em relação às outras, independente da queda do valor das mercadorias pelo aumento da produtividade. Em relação ao dólar pode-se afirmar que estão relacionadas com os interesses americanos enquanto superpotência econômica e militar. Na situação atual, a fraqueza e a tendência à deflação da economia americana, mostram-se como importantes elementos que pressionam o dólar para baixo. Mas são as medidas que buscam conter esta situação, como o afrouxamento monetário com emissão sem precedente de dólar para salvar bancos e conglomerados empresariais, o principal responsável pela perda de força dessa moeda. A inflação do dólar por esse mecanismo, se por um lado busca salvar empresas e reativar o crédito, por outro repercute nas importações e exportações americanas com as alterações no câmbio.
As mudanças cambiais nos EUA repercutem em todo mundo por ser este País o maior sorvedouro de mercadorias do planeta vindas praticamente de todos os cantos da terra e por ter o dólar à função de moeda universal. Quando o dólar recua em relação às demais moedas, os produtos americanos tornam-se mais competitivos e as exportações tendem aumentar. Esse fato, porém não é verdadeiro para países que mantém sua moeda desvalorizada artificialmente por estar atrelada ao dólar como acontece com a China. Nos câmbios flutuantes, os governos geralmente superavitários, tendem a se protegerem comprando dólar e formando reservas gigantescas nessa moeda, praticamente não remuneradas que se desvalorizam. O excesso de dinheiro sem substância emitido, não absorvido pela produção e consumo nos países do centro, vem fluindo para países da periferia do capitalismo, agravando os desequilíbrios cambiais com a valorização das moedas e formando bolhas nesses mercados que não deverão se sustentar por muito tempo.
O Brasil é o exemplo mais contundente desse fenômeno. Apesar da defesa que se faz dos bons “fundamentos da economia” (o que se quer dizer com isso numa economia globalizada?) quando se trata de exportação, observa-se que na relação entre bens industriais e produtos primários o pêndulo vem se deslocando no sentido dos últimos(1). A perda de competitividade da indústria brasileira relacionada com a baixa produtividade, infraestrutura precária, agravada agora com os desequilíbrios cambiais salta aos olhos. A saída via desvalorização do Real por medidas administrativas ou pelo previsto déficit na balança comercial nos próximos anos, pode se mostrar insuficiente para enfrentar a enxurrada de mercadorias vindas de toda parte do mundo, principalmente da China. Com os ânimos acirrados os interesses nacionais tendem prevalecer e fica difícil um acordo global para o câmbio como assim desejam o FMI e alguns governos.
Na China dois fenômenos manifestam-se com maior visibilidade. Pelo fato do yuan estar atrelado ao dólar, a queda deste leva a desvalorização da moeda chinesa em relação as demais, deixando seus produtos arrasadoramente competitivos quando comparados com de outros países. As mercadorias da “fábrica do mundo”, como assim é chamada a China, invadem mercados e desestruturam parques industriais em todo mundo, principalmente nos países menos desenvolvidos, compensando com isso a redução das vendas para os EUA. Por outro lado, as empresas americanas, apesar de expandir suas vendas externas favorecidas pelo câmbio, não conseguem competir internamente com os produtos chineses devido a desvalorização administrada do yuan e aos baixíssimos salários pagos aos trabalhadores, fórmula utilizada pelo governo chinês para compensa a baixa produtividade de suas indústrias e que o leva a resistir em aplicar medidas de correção do câmbio via valorização da moeda. A redução da entrada de mercadorias chinesas nos EEUU deve-se fundamentalmente ao encolhimento desse mercado com o estouro da bolha financeira.
Reverter esse quadro das relações comerciais sino-americana onde os interesses se imbricam e se conflitam, não será fácil. E entre os maiores interessados para que nada mude, além do Governo chinês estão às empresas do Japão, da Europa Ocidental e, principalmente, dos Estados Unidos instaladas na China com destino certo para suas mercadorias. Num imbróglio deste, com as trocas internacionais enfraquecidas pela redução do consumo e onde todos forçam a barra para colocar o excedente de sua produção no quintal do outro mesmo a preços módicos, a possibilidade de graves crises cambiais em países onde as moedas continuam se valorizando em relação ao dólar é uma questão de tempo. Tudo vai depender dos próximos lances na busca de acomodação dos interesses da “fábrica do mundo” e do maior mercado consumidor do planeta.
Se chegarem a um acordo é possível que a conta seja paga pelos outros. Os países mais pobres amargarão com os maiores prejuízos. Mas se o confronto se acirrar e o dólar continuar em queda livre, acompanhado de perto pelo yuan, o mercado mundial pode travar ainda mais as trocas com medidas protecionistas, com sérias repercussões na já cambaleante economia. Aí o salto não será em W como querem alguns analistas, mas num precipício aonde a escuridão não permite que se enxergue onde pousar.
(1) A tendência da indústria brasileira
10.10.2010
As medidas dos governos em defesa dos mercados domésticos que tem levado a variações cambiais, sinalizam que a unidade em torno do enfrentamento da crise começa a se desfazer com a esperada retomada do crescimento econômico derrapando nas dificuldades estruturais. A chiadeira é geral: reclama-se da China que administra burocraticamente o yuan, garantido uma certa estabilidade frente a uma cesta de moedas, principalmente ao acompanhar as seguidas desvalorizações do dólar. Fala-se na necessidade de valorização do yuan permitindo um equilíbrio nos preços dos produtos das exportações chinesas que vem arruinando as indústrias dos países em desenvolvimento e dificultando a retomada da produção nos países desenvolvidos ao inundar o mundo com mercadorias baratas. Oferecem como sugestão que a China estimule o mercado interno de tal forma que o mesmo seja capaz de absorver as mercadorias que vão para fora e também o excedente de países desenvolvidos. Sugestão que não precisa de um observador muito atento à economia chinesa para entender a impossibilidade da criação desse tão cultuado mercado local nas condições dadas.
Tal desejo dos “formuladores” das políticas econômicas dos países do centro não se restringe a China, é estendido a todos os países ditos emergentes com saldo na balança comercial. Acredita-se que chegou a hora de se inverter a lógica dos circuitos deficitários, ou pelo menos de se buscar um equilíbrio mais justo nas transações comerciais corrigindo-se as distorções. É nesse contesto que devem ser analisadas as atuais ondas desvalorização do dólar.
A trajetória de queda do dólar no tempo deve-se a um conjunto de variáveis complexas. Está relacionada com a crise do dinheiro em geral que se torna mais evidente nesta moeda pelo papel que exerce de equivalente geral, cuja única âncora que lhe garante esta função com o fim da paridade ouro/dólar, passa a ser poder político/militar americano. Quando se analisa a história do dinheiro após a segunda guerra mundial, o dólar na função de dinheiro universal expressa melhor a desvalorização das moedas levada a efeito pelo aumento da produtividade, que diminui o “tempo de trabalho socialmente necessário à produção de mercadorias (Marx)”, induzindo a corrosão do valor e a consequente queda dos preços dos produtos. Enquanto “mercadoria rainha”, o dinheiro tende a acompanhar a desvalorização do valor no tempo independente das variações conjunturais. Nos mercados financeiros o dinheiro que rende juros, autonomizado em relação à produção, perde seu “status” e é transacionado como uma vulgar mercadoria. Empacotado com papéis de cores diferentes atende do mais simples ao mais refinado gosto dos investidores. Dessa forma, o dinheiro ao se multiplicar descolado do processo real de valorização gera capital fictício. Como o preço das mercadorias que oscila ao sabor das conjunturas, nas relações de mercado o dinheiro flutua em variadas situações.
São, portanto, diversas as circunstâncias que levam as moedas a flutuarem umas em relação às outras, independente da queda do valor das mercadorias pelo aumento da produtividade. Em relação ao dólar pode-se afirmar que estão relacionadas com os interesses americanos enquanto superpotência econômica e militar. Na situação atual, a fraqueza e a tendência à deflação da economia americana, mostram-se como importantes elementos que pressionam o dólar para baixo. Mas são as medidas que buscam conter esta situação, como o afrouxamento monetário com emissão sem precedente de dólar para salvar bancos e conglomerados empresariais, o principal responsável pela perda de força dessa moeda. A inflação do dólar por esse mecanismo, se por um lado busca salvar empresas e reativar o crédito, por outro repercute nas importações e exportações americanas com as alterações no câmbio.
As mudanças cambiais nos EUA repercutem em todo mundo por ser este País o maior sorvedouro de mercadorias do planeta vindas praticamente de todos os cantos da terra e por ter o dólar à função de moeda universal. Quando o dólar recua em relação às demais moedas, os produtos americanos tornam-se mais competitivos e as exportações tendem aumentar. Esse fato, porém não é verdadeiro para países que mantém sua moeda desvalorizada artificialmente por estar atrelada ao dólar como acontece com a China. Nos câmbios flutuantes, os governos geralmente superavitários, tendem a se protegerem comprando dólar e formando reservas gigantescas nessa moeda, praticamente não remuneradas que se desvalorizam. O excesso de dinheiro sem substância emitido, não absorvido pela produção e consumo nos países do centro, vem fluindo para países da periferia do capitalismo, agravando os desequilíbrios cambiais com a valorização das moedas e formando bolhas nesses mercados que não deverão se sustentar por muito tempo.
O Brasil é o exemplo mais contundente desse fenômeno. Apesar da defesa que se faz dos bons “fundamentos da economia” (o que se quer dizer com isso numa economia globalizada?) quando se trata de exportação, observa-se que na relação entre bens industriais e produtos primários o pêndulo vem se deslocando no sentido dos últimos(1). A perda de competitividade da indústria brasileira relacionada com a baixa produtividade, infraestrutura precária, agravada agora com os desequilíbrios cambiais salta aos olhos. A saída via desvalorização do Real por medidas administrativas ou pelo previsto déficit na balança comercial nos próximos anos, pode se mostrar insuficiente para enfrentar a enxurrada de mercadorias vindas de toda parte do mundo, principalmente da China. Com os ânimos acirrados os interesses nacionais tendem prevalecer e fica difícil um acordo global para o câmbio como assim desejam o FMI e alguns governos.
Na China dois fenômenos manifestam-se com maior visibilidade. Pelo fato do yuan estar atrelado ao dólar, a queda deste leva a desvalorização da moeda chinesa em relação as demais, deixando seus produtos arrasadoramente competitivos quando comparados com de outros países. As mercadorias da “fábrica do mundo”, como assim é chamada a China, invadem mercados e desestruturam parques industriais em todo mundo, principalmente nos países menos desenvolvidos, compensando com isso a redução das vendas para os EUA. Por outro lado, as empresas americanas, apesar de expandir suas vendas externas favorecidas pelo câmbio, não conseguem competir internamente com os produtos chineses devido a desvalorização administrada do yuan e aos baixíssimos salários pagos aos trabalhadores, fórmula utilizada pelo governo chinês para compensa a baixa produtividade de suas indústrias e que o leva a resistir em aplicar medidas de correção do câmbio via valorização da moeda. A redução da entrada de mercadorias chinesas nos EEUU deve-se fundamentalmente ao encolhimento desse mercado com o estouro da bolha financeira.
Reverter esse quadro das relações comerciais sino-americana onde os interesses se imbricam e se conflitam, não será fácil. E entre os maiores interessados para que nada mude, além do Governo chinês estão às empresas do Japão, da Europa Ocidental e, principalmente, dos Estados Unidos instaladas na China com destino certo para suas mercadorias. Num imbróglio deste, com as trocas internacionais enfraquecidas pela redução do consumo e onde todos forçam a barra para colocar o excedente de sua produção no quintal do outro mesmo a preços módicos, a possibilidade de graves crises cambiais em países onde as moedas continuam se valorizando em relação ao dólar é uma questão de tempo. Tudo vai depender dos próximos lances na busca de acomodação dos interesses da “fábrica do mundo” e do maior mercado consumidor do planeta.
Se chegarem a um acordo é possível que a conta seja paga pelos outros. Os países mais pobres amargarão com os maiores prejuízos. Mas se o confronto se acirrar e o dólar continuar em queda livre, acompanhado de perto pelo yuan, o mercado mundial pode travar ainda mais as trocas com medidas protecionistas, com sérias repercussões na já cambaleante economia. Aí o salto não será em W como querem alguns analistas, mas num precipício aonde a escuridão não permite que se enxergue onde pousar.
(1) A tendência da indústria brasileira
10.10.2010
sábado, setembro 18, 2010
Na corrida pela produtividade o capital seca a fonte que o alimenta
Rall
Em tempos de Terceira Revolução Industrial a efemeridade das tecnologias é a norma. Uma plataforma de produção assentada para aumentar a produtividade de uma determinada indústria, ao entrar em funcionamento já se torna obsoleta. Geralmente, quando requisitada por outra indústria concorrente, inovações são introduzidas de tal forma que quando o ciclo se completa num determinado ramo de produção, a indústria que adquiriu a primeira plataforma da série é obrigada a se renovar tecnologicamente para que possa ficar em pé de igualdade em relação à produtividade e não ser expulsa do mercado pelas concorrentes. Nesse processo, a destruição e a criação de empregos ocorrem em velocidades diferentes e o resultado da racionalização é sempre um saldo negativo para o número de empregos novos que surgem.
A desvalorização do capital tende a acentuar-se na medida em que menos trabalho abstrato é absorvido na produção de mercadorias. Nos momentos de agudização da crise da acumulação real como a que vivemos agora, além do agravamento do desemprego pela redução do ritmo da economia, observa-se alguns fenômenos incrementados pela concorrência, que em sua aparência pode levar a intepretações equivocadas. Vejamos o que vem sendo observado na oferta de vagas no mercado de trabalho americano: “O índice de criação de vagas, ou seja, uma medida do número de empregos disponíveis em relação ao total de vagas na economia – ocupadas ou vazias - subiu de 1,8% um ano atrás para 2,2% em 2010, em vez de cair ainda mais, como era esperado. Apesar disso o desemprego aumentou no mesmo período”.
As vagas disponibilizadas numa velocidade maior do que o esperado pode ser um indicador de que as indústrias buscam agora sair da crise aumentando a produtividade, acelerando a introdução de novas tecnologias. Como o mercado de trabalho leva algum tempo para se adaptar as mudanças tecnológicas introduzidas com grande agilidade, “sobram” empregos em alguns ramos de produção. O que não se enxerga quando se fala de vagas “sobrando”, é que o balanço entre empregos criados e destruídos é negativo para empregos criados com as inovações tecnológicas. Esse fenômeno, observado de forma mais evidente na economia americana e pouco entendido por alguns analistas, mostra que a crise, ao acirrar a concorrência, leva os capitais individuais a buscar na renovação tecnológica a saída para baixa rentabilidade. Agravam, porém, no médio prazo, as dificuldades de acumulação do capital total pela racionalização do trabalho abstrato na produção global.
A rápida retomada da indústria de automação, cujas encomendas não param de crescer contrasta com uma economia mundial cambaleante. As medidas de demissões em massa da força-de-trabalho como aconteceu no apogeu da crise, cede lugar a uma dispensa mais planejada, porém permanente ao se buscar outros níveis de produtividade pela intensificação do capital constante (1). O barateamento das mercadorias pelo excesso de produção e por uma nova onda de produtividade, não deverá ampliar suficientemente o mercado de tal forma que permita uma retomada autônoma da acumulação do capital pelo aumento do consumo, pois acompanha esse processo uma grande redução da utilização global do trabalho vivo criador de mais-valia.
O que pode acontecer nessa fuga solitária das empresas na direção de uma maior produtividade, empurradas pela acirrada concorrência, são as mais ágeis e eficientes destruírem suas rivais e, consequentemente, postos de trabalho, mantendo individualmente uma vantagem provisória em relação ao lucro, que logo desaparece quando a nova técnica de produção se generaliza e faz cair os preços das mercadorias. Portanto, com o agravamento da crise de valorização do valor na economia real, para manter o seu artificial movimento de acumulação simulada, a economia mundial exigirá do Estado e do mercado a geração constante de capital fictício em bolhas cada vez mais curtas e destrutivas.
(1) A bolha estatal na longa jornada da crise
18.09.2010
Em tempos de Terceira Revolução Industrial a efemeridade das tecnologias é a norma. Uma plataforma de produção assentada para aumentar a produtividade de uma determinada indústria, ao entrar em funcionamento já se torna obsoleta. Geralmente, quando requisitada por outra indústria concorrente, inovações são introduzidas de tal forma que quando o ciclo se completa num determinado ramo de produção, a indústria que adquiriu a primeira plataforma da série é obrigada a se renovar tecnologicamente para que possa ficar em pé de igualdade em relação à produtividade e não ser expulsa do mercado pelas concorrentes. Nesse processo, a destruição e a criação de empregos ocorrem em velocidades diferentes e o resultado da racionalização é sempre um saldo negativo para o número de empregos novos que surgem.
A desvalorização do capital tende a acentuar-se na medida em que menos trabalho abstrato é absorvido na produção de mercadorias. Nos momentos de agudização da crise da acumulação real como a que vivemos agora, além do agravamento do desemprego pela redução do ritmo da economia, observa-se alguns fenômenos incrementados pela concorrência, que em sua aparência pode levar a intepretações equivocadas. Vejamos o que vem sendo observado na oferta de vagas no mercado de trabalho americano: “O índice de criação de vagas, ou seja, uma medida do número de empregos disponíveis em relação ao total de vagas na economia – ocupadas ou vazias - subiu de 1,8% um ano atrás para 2,2% em 2010, em vez de cair ainda mais, como era esperado. Apesar disso o desemprego aumentou no mesmo período”.
As vagas disponibilizadas numa velocidade maior do que o esperado pode ser um indicador de que as indústrias buscam agora sair da crise aumentando a produtividade, acelerando a introdução de novas tecnologias. Como o mercado de trabalho leva algum tempo para se adaptar as mudanças tecnológicas introduzidas com grande agilidade, “sobram” empregos em alguns ramos de produção. O que não se enxerga quando se fala de vagas “sobrando”, é que o balanço entre empregos criados e destruídos é negativo para empregos criados com as inovações tecnológicas. Esse fenômeno, observado de forma mais evidente na economia americana e pouco entendido por alguns analistas, mostra que a crise, ao acirrar a concorrência, leva os capitais individuais a buscar na renovação tecnológica a saída para baixa rentabilidade. Agravam, porém, no médio prazo, as dificuldades de acumulação do capital total pela racionalização do trabalho abstrato na produção global.
A rápida retomada da indústria de automação, cujas encomendas não param de crescer contrasta com uma economia mundial cambaleante. As medidas de demissões em massa da força-de-trabalho como aconteceu no apogeu da crise, cede lugar a uma dispensa mais planejada, porém permanente ao se buscar outros níveis de produtividade pela intensificação do capital constante (1). O barateamento das mercadorias pelo excesso de produção e por uma nova onda de produtividade, não deverá ampliar suficientemente o mercado de tal forma que permita uma retomada autônoma da acumulação do capital pelo aumento do consumo, pois acompanha esse processo uma grande redução da utilização global do trabalho vivo criador de mais-valia.
O que pode acontecer nessa fuga solitária das empresas na direção de uma maior produtividade, empurradas pela acirrada concorrência, são as mais ágeis e eficientes destruírem suas rivais e, consequentemente, postos de trabalho, mantendo individualmente uma vantagem provisória em relação ao lucro, que logo desaparece quando a nova técnica de produção se generaliza e faz cair os preços das mercadorias. Portanto, com o agravamento da crise de valorização do valor na economia real, para manter o seu artificial movimento de acumulação simulada, a economia mundial exigirá do Estado e do mercado a geração constante de capital fictício em bolhas cada vez mais curtas e destrutivas.
(1) A bolha estatal na longa jornada da crise
18.09.2010
sábado, agosto 21, 2010
A complexidade da crise confunde governos e analistas
Rall
As notícias sobre a crise que começaram a escassear voltam às páginas dos jornas com a queda global da produção industrial, a percepção do agravamento das dificuldades financeiras de estados europeus e os indicadores negativos do mercado de trabalho da América do Norte. A instabilidade das bolsas, com seu humor bipolar que reflete as incertezas conjunturais, mostra quão pouco é o controle que se tem sobre os fatos econômicos. Num primeiro momento parecia para os desavisados, que a entrada do Estado em cena em socorro ao seu irmão siamês, o mercado, tudo estaria resolvido. Agora, sem que os problemas do mercado tenham sido solucionados, apesar dos trilhões de dólares fabricados e despejados pelos bancos centrais ao redor do mundo, a crise assume uma feição mais grave, pois sem que a economia tenha se recuperado, as ações de socorro dos estados ou se esgotam ou simplesmente deixam de existir pelo colapso financeiro que os atingem.
Torna-se monótono a ladainha dos analistas oficiais sobre a crise, que aparenta na grande imprensa a retomada autônoma da acumulação, apesar da marcha lente da produção e do comércio nos EUA e Europa. A crise parece ter sido superada quando vista pelo olhar de observadores confiantes no desempenho dos países em desenvolvimento. Fatos novos que abalassem esta fé pareciam distantes. No entanto, enquanto o tilintar dos copos festejam o futuro promissor, desconsiderando um tumultuado passado e sem querer olhar as dificuldades do presente, forças tectônicas destruidoras acumulam-se velozmente em todas as direções enquanto se estreitam a possibilidade de novas intervenções para conter abalos no mercado que possam empurrar a economia no precipício.
A forma de manifestação da crise tende ser diferente nas diversas economias, apesar da essência ser a mesma: a crise da valorização do valor na economia real. Isso ficou claro no último encontro do G20 onde o que parecia consenso no enfrentamento da crise, transformou-se em divergências entre os Países Europeus e a América, principalmente entre EUA e Inglaterra, em relação à manutenção dos estímulos estatais e aplicar ou não planos de ajuste a dívida pública. É possível às economias se auto-sustentarem sem as transferências maciças de recursos dos Estados para os mercados? Apesar de aparentar o contrário, a maioria das autoridades financeiras acredita que não, ou, timidamente, defende a redução do déficit público carregada de dúvidas sobre a possibilidade de uma retomada autônoma da acumulação.
A questão, porém, é que o déficit público na maioria dos países fez crescer de tal forma a dívida pública que pode levar a insolvência e consequentemente ao calote, Estados tidos antes como seguros para o mercado. Os primeiros sinais desse novo fenômeno da crise vieram da Europa, sendo a Grécia, por ser parte do elo mais frágil, a primeira vítima. Outros virão na esteira destruidora da crise, não importa o tempo. A Europa, que pela história passada da dívida pública associada à hiperinflação e também a guerra, tende a lidar de forma diferente dos EUA quando se trata de déficits. A experiência americana é outra. Na segunda guerra mundial a dívida pública superou 100% do PIB, mesmo assim, no pós-guerra, o País continuou com crescimento acelerado e reduziu significativamente a relação dívida/PIB. Essa história aparentemente bem sucedida mantém-se viva na memória desse povo. Há sempre, porém o risco de histórias passadas se repetirem como farsa.
Não tendo em que se segurar por ter esgotado todas as possibilidades das políticas neokeynesiana e monetarista, os Governos dos países desenvolvidos, principalmente o americano, passa acreditar no impacto que as reformas financeiras e as regulações resultantes destas deverão trazer na movimentação do capital. Há a esperança de que os capitais saiam da especulação e aporte na produção. O capital aporta onde lhe oferece rentabilidade, a vontade dos governos não será suficiente para que este mude de rumo. Sua enlouquecida movimentação nos mais recônditos cantos do globo é determinada pelo ilimitado desejo de se multiplicar. E se não é isso que lhes oferece a economia real, vai continuar em seu movimento especulativo, mesmo que aí só se gere capital fictício e bolhas financeiras prontas para estourar. O desenrolar misteriso da crise tem mostrado que o homem não controla os fatos econômicos que agem às suas costas, apesar de terem sido induzidos pelas ações do própio homem.
21.08.2010
As notícias sobre a crise que começaram a escassear voltam às páginas dos jornas com a queda global da produção industrial, a percepção do agravamento das dificuldades financeiras de estados europeus e os indicadores negativos do mercado de trabalho da América do Norte. A instabilidade das bolsas, com seu humor bipolar que reflete as incertezas conjunturais, mostra quão pouco é o controle que se tem sobre os fatos econômicos. Num primeiro momento parecia para os desavisados, que a entrada do Estado em cena em socorro ao seu irmão siamês, o mercado, tudo estaria resolvido. Agora, sem que os problemas do mercado tenham sido solucionados, apesar dos trilhões de dólares fabricados e despejados pelos bancos centrais ao redor do mundo, a crise assume uma feição mais grave, pois sem que a economia tenha se recuperado, as ações de socorro dos estados ou se esgotam ou simplesmente deixam de existir pelo colapso financeiro que os atingem.
Torna-se monótono a ladainha dos analistas oficiais sobre a crise, que aparenta na grande imprensa a retomada autônoma da acumulação, apesar da marcha lente da produção e do comércio nos EUA e Europa. A crise parece ter sido superada quando vista pelo olhar de observadores confiantes no desempenho dos países em desenvolvimento. Fatos novos que abalassem esta fé pareciam distantes. No entanto, enquanto o tilintar dos copos festejam o futuro promissor, desconsiderando um tumultuado passado e sem querer olhar as dificuldades do presente, forças tectônicas destruidoras acumulam-se velozmente em todas as direções enquanto se estreitam a possibilidade de novas intervenções para conter abalos no mercado que possam empurrar a economia no precipício.
A forma de manifestação da crise tende ser diferente nas diversas economias, apesar da essência ser a mesma: a crise da valorização do valor na economia real. Isso ficou claro no último encontro do G20 onde o que parecia consenso no enfrentamento da crise, transformou-se em divergências entre os Países Europeus e a América, principalmente entre EUA e Inglaterra, em relação à manutenção dos estímulos estatais e aplicar ou não planos de ajuste a dívida pública. É possível às economias se auto-sustentarem sem as transferências maciças de recursos dos Estados para os mercados? Apesar de aparentar o contrário, a maioria das autoridades financeiras acredita que não, ou, timidamente, defende a redução do déficit público carregada de dúvidas sobre a possibilidade de uma retomada autônoma da acumulação.
A questão, porém, é que o déficit público na maioria dos países fez crescer de tal forma a dívida pública que pode levar a insolvência e consequentemente ao calote, Estados tidos antes como seguros para o mercado. Os primeiros sinais desse novo fenômeno da crise vieram da Europa, sendo a Grécia, por ser parte do elo mais frágil, a primeira vítima. Outros virão na esteira destruidora da crise, não importa o tempo. A Europa, que pela história passada da dívida pública associada à hiperinflação e também a guerra, tende a lidar de forma diferente dos EUA quando se trata de déficits. A experiência americana é outra. Na segunda guerra mundial a dívida pública superou 100% do PIB, mesmo assim, no pós-guerra, o País continuou com crescimento acelerado e reduziu significativamente a relação dívida/PIB. Essa história aparentemente bem sucedida mantém-se viva na memória desse povo. Há sempre, porém o risco de histórias passadas se repetirem como farsa.
Não tendo em que se segurar por ter esgotado todas as possibilidades das políticas neokeynesiana e monetarista, os Governos dos países desenvolvidos, principalmente o americano, passa acreditar no impacto que as reformas financeiras e as regulações resultantes destas deverão trazer na movimentação do capital. Há a esperança de que os capitais saiam da especulação e aporte na produção. O capital aporta onde lhe oferece rentabilidade, a vontade dos governos não será suficiente para que este mude de rumo. Sua enlouquecida movimentação nos mais recônditos cantos do globo é determinada pelo ilimitado desejo de se multiplicar. E se não é isso que lhes oferece a economia real, vai continuar em seu movimento especulativo, mesmo que aí só se gere capital fictício e bolhas financeiras prontas para estourar. O desenrolar misteriso da crise tem mostrado que o homem não controla os fatos econômicos que agem às suas costas, apesar de terem sido induzidos pelas ações do própio homem.
21.08.2010
segunda-feira, maio 17, 2010
A crise, insensível aos apelos por moderação, segue seu caminho

Rall
Era previsível que o rompimento da bolha estatal em formação acontecesse nos elos mais frágeis da cadeia dos Estados endividados. O tempo não mais surpreende na medida em que a tendência do capitalismo, em crise de valorização do valor, é gerar e estourar em seus interstícios bolhas de capital fictício, em espaço de tempo cada vez mais curto.
Os países com dívidas crescentes, formadas para compensar os estragos feitos na economia pelas bolhas imobiliárias e de crédito, tem na Grécia uma imagem do que pode ser seu futuro próximo. As dívidas dos países ricos já atingem soma astronômica de 43 trilhões de dólares segundo a OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico), a maior da história para um PIB mundial de aproximadamente 57,9 trilhões de dólares conforme dados do FMI (Fundo Monetário Internacional). Ou seja, a dívida desses países corresponde a 75% do que é produzido no mundo em um ano.
A formação da dívida dos Estados, intimamente associada à geração de capital fictício, funciona mais ou menos assim nos períodos de crise: os Estados, além de aumentarem seu consumo “abrindo e fechando buracos” (Keynes), emprestam a juros zero ou compram papeis podres de empresas e bancos. Artificialmente irrigados, os bancos destinam parte desse dinheiro ao crédito, mas o grosso termina de fato alimentando novas bolhas no mercado, as filhas do dinheiro estatal, como as de commodities, ações, operações de câmbio, derivativos e especulação imobiliária.
Outra parte, em alguns países nada desprezíveis, termina voltando às contas dos governos na forma de empréstimos, agora com juros positivos que beneficiam os bancos e aumenta a escalada da dívida pública. Esses são os mecanismos mais visíveis de criação de capital fictício, que vem operando após o estouro das bolhas do mercado, cujos limites são determinados pelo tamanho das dívidas dos Estados.
O problema é que a dívida “soberana” já atingiu seus limites em alguns Estados e está próxima disso em outros, sem, no entanto ter a economia mundial dado sinais de numa nova acumulação autônoma do capital. Tirar o dinheiro estatal do jogo simulado da acumulação pode empurrar a economia no precipício. Manter a dinâmica atual de financiamento público dos mercados com arrecadação em queda deverá levar outros Estados ao colapso, de forma talvez até mais grave do que estamos presenciando na Grécia. Para os países com dívidas em moeda estrangeira ou aqueles que compartilham uma mesma moeda, a deflação é uma possibilidade resultante do dramático arrocho interno. Para os detentores de moeda própria o risco imediato é a inflação. No entanto, dependendo dos fatos conjunturais, a mudança de uma situação para outra pode ocorrer rapidamente no tempo.
Os trilhões em euro e dólares emprestados pelos bancos aos Estados até 2008, quando o capital financeiro gerado pelas bolhas do mercado era farto, e as dívidas mais recentes das medidas anti-cíclicas, tornam-se impagáveis e vem sendo rolados a juros exorbitantes à medida que a situação se agrava. Com isso os bancos privados em pânico, imploram socorro aos bancos centrais ainda em condições de emitirem moeda com alguma segurança (Banco Central Europeu e Federal Reserve) e ao FMI.
Essa realidade díspar tem levado a apelos contraditórios: ora exige-se que os bancos centrais despejem mais dinheiro para diminuir a fúria especulativa e salvar os Estados insolventes e, por conseguinte, os bancos privados com estes comprometidos, como agora presenciamos na mobilização da União Européia que disponibilizou 750 bilhões de euros para este fim. Em direção contrária, apela-se pela imediata redução dos déficits fiscais em crescimento vertiginoso para que a crise da dívida pública não se alastre sem controle, como tem advertido os organismos internacionais.
Estreitam-se rapidamente as margens de manobra dos Estados e do mercado para se ajudarem mutuamente. A dualidade estado/mercado, que mascara a lógica totalitária do capitalismo escondida pelo denso nevoeiro da aparência, torna-se tênue, deixando os irmãos siameses ainda mais parecidos na caminhada implacável da crise, cujo desfecho ainda está por vir.
17.05.2010
terça-feira, abril 20, 2010
Grécia, Brasil e outros rincões...
Rall
A crise do Estado grego trouxe à tona as diferenças na Zona do Euro e a questão da competitividade. Repetidas vezes foi noticiada que a baixa competitividade desse país estava associada a salários relativamente altos, quando considerado a produtividades de suas indústrias , que deixam seus produtos relativamente caros se comparados com similares produzidos na Alemanha e França e em alguns outros países que adotaram o euro. Como surtos de produtividade não se dão em passe de mágica, a exigência dos sócios ricos (Alemanha e França) para emprestar dinheiro e evitar a insolvência, foi de que o governo grego teria de compensar a baixa produtividade cortando despesas, mas, fundamentalmente, racionalizando trabalho e reduzindo salários, utilizando-se de meios sobre os quais o governo acredita ter controle, inclusive aqueles que possam desencadear processo deflacionário, com risco de grave contração econômica.
A forma como vem se manifestando a crise dos países menos ricos que adotaram o euro, vinha em gestação desde a criação da moeda única. Apesar dos fartos recursos liberados para investimentos, principalmente em infra-instrutora, quase nada foi feito para corrigir a distância tecnológica que separa os países do centro dos mais periféricos. Se considerarmos as relações comerciais da Alemanha superavitária com os países da Zona do Euro com déficits em conta-corrente, todos tiveram seus mercados invadidos por mercadorias mais baratas vindas desse País altamente industrializado e de outros concorrentes de fora da Europa menos produtivos, porém competitivos pelos baixos salários pagos. Parte desses produtos importados são “bens de capital”, mas o grosso são mercadorias triviais, de consumo imediato, que ao substituir produtos nacionais podem levar desindustrialização.
Tem sido prática no comércio mundial usar a desvalorização do câmbio como recurso para fazer frente aos déficits nas balanças comerciais, além das medidas internas de redução de custos de produção e despesas do estado. É sempre um recurso provisório, que se não acompanhado de aumento da produtividade perde-se no tempo. Mas, como nos países de moeda única não é possível a utilização desse artifício, e como o arrocho nos países em dificuldade não será suficiente para o reequilíbrio financeiro, resta saber se os mais competitivos vão querer inflacionar os preços de seus produtos com aumentos salariais como defende alguns analistas, reduzindo com isso o lucro de suas empresas e o superávit comercial, mesmo considerando-se um possível aumento do consumo com ampliação do mercado interno.
Países em atraso tecnológico tornar-se-ão competitivos em médio prazo, se, ao utilizarem a produtividade possível de suas empresas, associá-las a uma exploração brutal da força de trabalho. Foi assim na história recente do capitalismo dos “tigres asiáticos”, do Brasil dos militares, do Chile de Pinochet, só para citar alguns exemplos. O que existe em comum são as interferências repressivas nas relações de trabalho e o "subsídio" ao capital pelo Estado com recurso arrancado à força da sociedade em favor das empresas privadas ou estatais para compensar a baixa produtividade, fórmula que ainda hoje faz sucesso na tão contemplada China e em outras nações menores citadas como exemplo de capitalismo que dá lucro.
Mas mesmo aonde não é possível a ditadura política ou militar, o estado democrático, cego pela concorrência, entra com a função de faxineiro do capital, desregulamentando a legislação trabalhista e reduzindo os benefícios sociais, vistos como barreira a acumulação e a produção de mercadoria barata para o mercado mundial. Com o persistente desemprego e o movimento sindical a fazer concessões sem limites, o capital que reina absoluto, com o respaldo do poder estatal (sempre é bom frisar), faz o resto na busca incessante da autovalorização, não importa os meios a serem utilizados.
Portanto, não é só na China que se observa o retorno da mais-valia absoluta através da extensão da jornada de trabalho e contenção salarial com o apoio do estado autoritário. No Brasil, como em muitos outros países democráticos, o alargamento da jornada de trabalho, com ou sem uso de horas extras, e a prática de rotatividade no emprego são utilizadas sem nenhum limite pelas empresas para anular qualquer ganho salarial e compensar a queda da rentabilidade. Para aquelas profissões onde o impacto da racionalização é mais sentido e existe um forte excedente de força de trabalho no mercado, a redução salarial pra os trabalhadores mais antigos pode ser superior a 50% nos períodos de dissídios.
O pacote de resgate financeiro que vem sendo montado, tendo a Alemanha como principal fiador, pode evitar em curto prazo a insolvência da Grécia, mas não resolve o problema de base que vem aumentando as desigualdades e a dívida pública dos países europeus: a dificuldade de acumulação da economia real em todo mundo(1). A luta feroz dos países para manterem suas posições econômicas no cenário internacional esbarra nesse limite, e têm no reaparecimento da mais-valia absoluta e das bolhas financeiras os sintomas mais visíveis da crise sistêmica do capitalismo.
(1)O pior já passou? Um "sim" ecoa afoito no mundo dos negócios
20.04.2010
A crise do Estado grego trouxe à tona as diferenças na Zona do Euro e a questão da competitividade. Repetidas vezes foi noticiada que a baixa competitividade desse país estava associada a salários relativamente altos, quando considerado a produtividades de suas indústrias , que deixam seus produtos relativamente caros se comparados com similares produzidos na Alemanha e França e em alguns outros países que adotaram o euro. Como surtos de produtividade não se dão em passe de mágica, a exigência dos sócios ricos (Alemanha e França) para emprestar dinheiro e evitar a insolvência, foi de que o governo grego teria de compensar a baixa produtividade cortando despesas, mas, fundamentalmente, racionalizando trabalho e reduzindo salários, utilizando-se de meios sobre os quais o governo acredita ter controle, inclusive aqueles que possam desencadear processo deflacionário, com risco de grave contração econômica.
A forma como vem se manifestando a crise dos países menos ricos que adotaram o euro, vinha em gestação desde a criação da moeda única. Apesar dos fartos recursos liberados para investimentos, principalmente em infra-instrutora, quase nada foi feito para corrigir a distância tecnológica que separa os países do centro dos mais periféricos. Se considerarmos as relações comerciais da Alemanha superavitária com os países da Zona do Euro com déficits em conta-corrente, todos tiveram seus mercados invadidos por mercadorias mais baratas vindas desse País altamente industrializado e de outros concorrentes de fora da Europa menos produtivos, porém competitivos pelos baixos salários pagos. Parte desses produtos importados são “bens de capital”, mas o grosso são mercadorias triviais, de consumo imediato, que ao substituir produtos nacionais podem levar desindustrialização.
Tem sido prática no comércio mundial usar a desvalorização do câmbio como recurso para fazer frente aos déficits nas balanças comerciais, além das medidas internas de redução de custos de produção e despesas do estado. É sempre um recurso provisório, que se não acompanhado de aumento da produtividade perde-se no tempo. Mas, como nos países de moeda única não é possível a utilização desse artifício, e como o arrocho nos países em dificuldade não será suficiente para o reequilíbrio financeiro, resta saber se os mais competitivos vão querer inflacionar os preços de seus produtos com aumentos salariais como defende alguns analistas, reduzindo com isso o lucro de suas empresas e o superávit comercial, mesmo considerando-se um possível aumento do consumo com ampliação do mercado interno.
Países em atraso tecnológico tornar-se-ão competitivos em médio prazo, se, ao utilizarem a produtividade possível de suas empresas, associá-las a uma exploração brutal da força de trabalho. Foi assim na história recente do capitalismo dos “tigres asiáticos”, do Brasil dos militares, do Chile de Pinochet, só para citar alguns exemplos. O que existe em comum são as interferências repressivas nas relações de trabalho e o "subsídio" ao capital pelo Estado com recurso arrancado à força da sociedade em favor das empresas privadas ou estatais para compensar a baixa produtividade, fórmula que ainda hoje faz sucesso na tão contemplada China e em outras nações menores citadas como exemplo de capitalismo que dá lucro.
Mas mesmo aonde não é possível a ditadura política ou militar, o estado democrático, cego pela concorrência, entra com a função de faxineiro do capital, desregulamentando a legislação trabalhista e reduzindo os benefícios sociais, vistos como barreira a acumulação e a produção de mercadoria barata para o mercado mundial. Com o persistente desemprego e o movimento sindical a fazer concessões sem limites, o capital que reina absoluto, com o respaldo do poder estatal (sempre é bom frisar), faz o resto na busca incessante da autovalorização, não importa os meios a serem utilizados.
Portanto, não é só na China que se observa o retorno da mais-valia absoluta através da extensão da jornada de trabalho e contenção salarial com o apoio do estado autoritário. No Brasil, como em muitos outros países democráticos, o alargamento da jornada de trabalho, com ou sem uso de horas extras, e a prática de rotatividade no emprego são utilizadas sem nenhum limite pelas empresas para anular qualquer ganho salarial e compensar a queda da rentabilidade. Para aquelas profissões onde o impacto da racionalização é mais sentido e existe um forte excedente de força de trabalho no mercado, a redução salarial pra os trabalhadores mais antigos pode ser superior a 50% nos períodos de dissídios.
O pacote de resgate financeiro que vem sendo montado, tendo a Alemanha como principal fiador, pode evitar em curto prazo a insolvência da Grécia, mas não resolve o problema de base que vem aumentando as desigualdades e a dívida pública dos países europeus: a dificuldade de acumulação da economia real em todo mundo(1). A luta feroz dos países para manterem suas posições econômicas no cenário internacional esbarra nesse limite, e têm no reaparecimento da mais-valia absoluta e das bolhas financeiras os sintomas mais visíveis da crise sistêmica do capitalismo.
(1)O pior já passou? Um "sim" ecoa afoito no mundo dos negócios
20.04.2010
domingo, março 07, 2010
A Europa do euro mostra as suas desigualdades
Rall
A crise na zona do euro mostrou o que vinha sendo encoberto nos anos das vacas gordas: as desigualdades entre as nações que são partes desse território. O euro surge como um passo a mais na direção da unificação do Mercado Comum Europeu. Deixando de lado as implicações políticas da unificação, que devem ser levadas em consideração em uma região que foi o palco de duas guerras mundiais, o euro surgiu como reforço ao protecionismo econômico, que beneficia principalmente a Alemanha e em seguida a França. Pode ser entendido como um movimento da Europa moderna posicionando-se em relação à globalização, mas também como uma força à integração do mercado mundial. Num momento de dinheiro farto, os países mais periféricos foram favorecidos com um grande aporte de recursos que impulsionou suas economias. Mas, quando a fonte secou, foram os primeiros a sentirem o impacto, pois, já endividados, com o agravamento da crise se viram obrigados a aumentar a dívida pública sem nenhuma salvaguarda externa.
O endividamento da Grécia, Portugal, Espanha, Itália, Irlanda e dos países do Leste Europeu, que com o espasmo da crise sistêmica ameaçam perigosamente ultrapassar ou já ultrapassaram o valor do PIB, têm efeito bem mais perverso do que as dívidas dos países do centro da zona do euro. São parcos os recursos e forças que dispõem para enfrentarem as apostas da especulação financeira. O que é exigido pelos guardiões do euro para reequilibrar as finanças, o rebaixamento salarial e cortes nos benefícios, são medidas que se aplicadas podem ser inviabilizadas politicamente pela esperada resistência dos atingidos.
Fica evidente na ameaça de implosão da dívida “soberana”(1), a distância tecnológica entre alguns países do euro, com impacto na produtividade. Isso se reflete nas diferenças salariais que apesar de não serem tão grandes quando comparadas com as de países como a China, existem e são significativas quando confrontamos a situação dos salários pagos em Portugal, Grécia, Eslováquia, Eslovênia e mesmo na Espanha, com os da Alemanha e França entre outros. Critica-se a evolução do custo da hora trabalhada na Grécia nos últimos anos, mas esconde-se o fato de que se paga por hora trabalhada neste País bem menos que na Alemanha. O contra-argumento é que a produtividade na Alemanha permite níveis salariais diferenciados.
Daí vem o remédio amargo para a solução das tensões trazidas pela dívida desses Estados: arrocho salarial e corte nos benefícios sociais, para que seus produtos com a redução de custos tornem-se competitivos enquanto não melhora a produtividade. Mas será possível alcançar níveis de produtividade próximo dos trabalhadores alemães que permitam uma recuperação salarial? Só se o parque industrial e o Governo alemão ficassem parados esperando que os outros o alcançasse. Mas não é essa a lógica entre empresas e países capitalistas. O veneno da competição, entranhado na alma da sociedade da mercadoria, permite a cooperação até certo limite. Quando é possível os mais atrasados se aproximarem do nível de produtividade dos mais avançados, estes últimos já deram um salto e se distanciaram dos parentes mais pobres intensificando o capital constante, mesmo que tenham que dispensar o último trabalhador da produção com as inovações tecnológicas.
Pode-se argumentar que as empresas dos países mais avançados optem em migrar para aqueles que oferecerem salários baixos levando tecnologia e, conseqüentemente, melhorando a produtividade e salários. De fato isso tem acontecido. Porém, apesar da melhoria da produtividade em alguns ramos industriais, a produtividade geral continua bem abaixo da dos países de onde migraram essas empresas. A China é o exemplo mais contundente dessa realidade. Apesar da transferência de tecnologia com a migração de empresas principalmente do Japão e EUA, só consegue ser competitiva no mercado global pelos baixíssimos salários pagos aos trabalhadores em regime de semi-escravidão e pelo câmbio administrado que mantém o yuan artificialmente desvalorizado. Se partirmos de um ponto zero, a produtividade média do trabalho na China é de 67, Japão 428, EUA 434 e Reino Unido 458*.
Mesmo sendo a China e similares o melhor dos mundos para o capital, onde a mais-valia relativa e absoluta trabalham juntas na acumulação, é impossível por razões diversas a transferência de todo um parque industrial de uma nação para tais oásis do capitalismo, principalmente as empresas de alta tecnologia onde, na contabilidade destas, o trabalho pouco pesa nos custos finais dos produtos se comparado com o capital fixo empregado. O movimento de capitais nos mercados comuns, sempre em busca de maior rentabilidade, pode ter algum êxito como tentativa de defender-se dos outros, mas não de si mesmo: devoram-se do mesmo jeito na briga pela valorização.
*Fontes: Bloom, Mahajan, McKenzie e Roberts (2010)
(1) A bolha estatal na longa jornada da crise
07.03.2010
A crise na zona do euro mostrou o que vinha sendo encoberto nos anos das vacas gordas: as desigualdades entre as nações que são partes desse território. O euro surge como um passo a mais na direção da unificação do Mercado Comum Europeu. Deixando de lado as implicações políticas da unificação, que devem ser levadas em consideração em uma região que foi o palco de duas guerras mundiais, o euro surgiu como reforço ao protecionismo econômico, que beneficia principalmente a Alemanha e em seguida a França. Pode ser entendido como um movimento da Europa moderna posicionando-se em relação à globalização, mas também como uma força à integração do mercado mundial. Num momento de dinheiro farto, os países mais periféricos foram favorecidos com um grande aporte de recursos que impulsionou suas economias. Mas, quando a fonte secou, foram os primeiros a sentirem o impacto, pois, já endividados, com o agravamento da crise se viram obrigados a aumentar a dívida pública sem nenhuma salvaguarda externa.
O endividamento da Grécia, Portugal, Espanha, Itália, Irlanda e dos países do Leste Europeu, que com o espasmo da crise sistêmica ameaçam perigosamente ultrapassar ou já ultrapassaram o valor do PIB, têm efeito bem mais perverso do que as dívidas dos países do centro da zona do euro. São parcos os recursos e forças que dispõem para enfrentarem as apostas da especulação financeira. O que é exigido pelos guardiões do euro para reequilibrar as finanças, o rebaixamento salarial e cortes nos benefícios, são medidas que se aplicadas podem ser inviabilizadas politicamente pela esperada resistência dos atingidos.
Fica evidente na ameaça de implosão da dívida “soberana”(1), a distância tecnológica entre alguns países do euro, com impacto na produtividade. Isso se reflete nas diferenças salariais que apesar de não serem tão grandes quando comparadas com as de países como a China, existem e são significativas quando confrontamos a situação dos salários pagos em Portugal, Grécia, Eslováquia, Eslovênia e mesmo na Espanha, com os da Alemanha e França entre outros. Critica-se a evolução do custo da hora trabalhada na Grécia nos últimos anos, mas esconde-se o fato de que se paga por hora trabalhada neste País bem menos que na Alemanha. O contra-argumento é que a produtividade na Alemanha permite níveis salariais diferenciados.
Daí vem o remédio amargo para a solução das tensões trazidas pela dívida desses Estados: arrocho salarial e corte nos benefícios sociais, para que seus produtos com a redução de custos tornem-se competitivos enquanto não melhora a produtividade. Mas será possível alcançar níveis de produtividade próximo dos trabalhadores alemães que permitam uma recuperação salarial? Só se o parque industrial e o Governo alemão ficassem parados esperando que os outros o alcançasse. Mas não é essa a lógica entre empresas e países capitalistas. O veneno da competição, entranhado na alma da sociedade da mercadoria, permite a cooperação até certo limite. Quando é possível os mais atrasados se aproximarem do nível de produtividade dos mais avançados, estes últimos já deram um salto e se distanciaram dos parentes mais pobres intensificando o capital constante, mesmo que tenham que dispensar o último trabalhador da produção com as inovações tecnológicas.
Pode-se argumentar que as empresas dos países mais avançados optem em migrar para aqueles que oferecerem salários baixos levando tecnologia e, conseqüentemente, melhorando a produtividade e salários. De fato isso tem acontecido. Porém, apesar da melhoria da produtividade em alguns ramos industriais, a produtividade geral continua bem abaixo da dos países de onde migraram essas empresas. A China é o exemplo mais contundente dessa realidade. Apesar da transferência de tecnologia com a migração de empresas principalmente do Japão e EUA, só consegue ser competitiva no mercado global pelos baixíssimos salários pagos aos trabalhadores em regime de semi-escravidão e pelo câmbio administrado que mantém o yuan artificialmente desvalorizado. Se partirmos de um ponto zero, a produtividade média do trabalho na China é de 67, Japão 428, EUA 434 e Reino Unido 458*.
Mesmo sendo a China e similares o melhor dos mundos para o capital, onde a mais-valia relativa e absoluta trabalham juntas na acumulação, é impossível por razões diversas a transferência de todo um parque industrial de uma nação para tais oásis do capitalismo, principalmente as empresas de alta tecnologia onde, na contabilidade destas, o trabalho pouco pesa nos custos finais dos produtos se comparado com o capital fixo empregado. O movimento de capitais nos mercados comuns, sempre em busca de maior rentabilidade, pode ter algum êxito como tentativa de defender-se dos outros, mas não de si mesmo: devoram-se do mesmo jeito na briga pela valorização.
*Fontes: Bloom, Mahajan, McKenzie e Roberts (2010)
(1) A bolha estatal na longa jornada da crise
07.03.2010
segunda-feira, janeiro 25, 2010
O despertar de um inflamado dragão chinês
Rall
O mais festejado país do grupo denominado de BRIC, a China, começa a dar sinais de que o crescimento em pleno espasmo da crise mundial tem pés de barro. Do quarteto, quem de fato tem certo peso na engrenagem da economia mundial é a China e, em seguida bem distante, a Índia. No entanto, não se compara em importância às economias americana e européia, que continuam na lona apesar dos trilhões de euros e dólares despejados pelos bancos centrais. Mas, é na China que a grande esperança é depositada como alavanca que possa movimentar a economia mundial. Grande importadora de commodities, a mágica produtora de mercadorias para o mercado mundial cujos preços finais não pagam os custos de produção em outros países, da China está sendo esperada a reversão do caos econômico instalado e seus dirigentes acreditam nisso.
Tanto acreditam no poder mágico de sua economia que dizem fazer “dançar as cadeiras”, que despejaram até agora 9,590 trilhões de yuans no mercado interno, na “maior flexibilização monetária da história” segundo alguns estudiosos, como forma de compensar a queda das importações americanas, ampliando o mercado interno, e animar a economia mundial. Parte desse dinheiro foi para os bens de consumo de luxo, como automóveis, para infraestrutura que teve investimentos antecipados, para setores produtivos com retorno duvidoso, agravando o excesso de capacidade produtiva, um problema já presente nas indústrias chinesas. Mas, acredita-se que o grosso destinou-se a especulação imobiliária. Em Pequim, nos últimos 12 meses, os preços de imóveis de aproximadamente 65 m², os mais procurados, duplicaram ou triplicaram conforme o bairro. Em outras cidades chinesas a situação não é diferente, e vem sendo estimulada pela venda de terrenos públicos pelas prefeituras para cobrir déficits orçamentários. Estima-se que metades das receitas dos governos locais são geradas das vendas dos terrenos pertencentes ao Estado.
Todos estão querendo aproveitar a onda para surfar ganhando alguns trocados a mais. As empresas, que viram os seus lucros desabarem com a queda das exportações, não conseguindo compensar o mercado externo com a expansão do consumo interno, passaram a desviar dinheiro para especulação imobiliária. A indústria de ferro, cimento móveis entre outras ligadas à construção civil, vêem na bolha que se expande a solução para os seus problemas. O PIB em 2009 teve um crescimento considerado espetacular, 8,7%, acima do esperado pelos analistas e pelo Governo. O mercado global de commodities, sujeito a toda forma de especulação reanima-se, e as bolsas passam a ser o investimento mais lucrativo apesar das dificuldades na produção, principalmente as ações das empresas exportadoras, mesmo aquelas em que as exportações não passam de uma possibilidade.
Mas, quando todos parecem felizes, excetuando os 2/3 de chineses pobres que não conseguem se beneficiar da bolha imobiliária, ouve-se o arquejante rugir de um assustador dragão colérico que parecia adormecido, e costuma dar muito trabalho aos governos no seu despertar. A inflação dos preços aos consumidores que vinha em queda saltou de 0,6 % para 1,9% em novembro. Nos meses seguintes, apesar de algumas variações para baixo, não deixou de subir se comparado com os meses anteriores a novembro. O impacto negativo nos baixos salários dos chineses pobres já se faz sentir, e veio se juntar a massa dos desempregados pela crise que foram obrigados a retorna ao campo para cultivar lavoura em solo infértil em franco processo de desertificação em vastas regiões. Esperava-se, em prazo não tão curto, com a imensa expansão monetária na China e no resto do mundo(1), o retorno da inflação que se acreditava moderada.
O Governo chinês encontra-se num impasse: ou à paulada faz dormir o maldoso dragão antes deste acordar por inteiro, esvaziando de forma “controlada” a bolha com juros altos e redirecionando a política fiscal reduzindo os incentivos, freando o consumo interno com repercussão nada interessante para o mercado global, ou deixa a bolha e o consumo se expandir, até o estouro final sem controle que pode agravar a crise e levar a China e o mundo a uma profunda depressão. Os arranjos keynesianos de “cavar e tapar buracos” para conter a crise, não se mostraram suficientemente forte para reverter o quadro econômico. Antes de completar a tão esperada obra, os monstruosos e insustentáveis déficits fiscais começam a assustar, a inflação dá os primeiros sinais que pode pipocar com força, principalmente nos países onde se mantém a esperança de um crescimento “sustentado”, e os governos são obrigados discutir a reversão das políticas anticrise sem que estas tenham atingido o fim almejado.
(1) Inflação ou deflação, para onde caminha a crise?
25.11.2010.
O mais festejado país do grupo denominado de BRIC, a China, começa a dar sinais de que o crescimento em pleno espasmo da crise mundial tem pés de barro. Do quarteto, quem de fato tem certo peso na engrenagem da economia mundial é a China e, em seguida bem distante, a Índia. No entanto, não se compara em importância às economias americana e européia, que continuam na lona apesar dos trilhões de euros e dólares despejados pelos bancos centrais. Mas, é na China que a grande esperança é depositada como alavanca que possa movimentar a economia mundial. Grande importadora de commodities, a mágica produtora de mercadorias para o mercado mundial cujos preços finais não pagam os custos de produção em outros países, da China está sendo esperada a reversão do caos econômico instalado e seus dirigentes acreditam nisso.
Tanto acreditam no poder mágico de sua economia que dizem fazer “dançar as cadeiras”, que despejaram até agora 9,590 trilhões de yuans no mercado interno, na “maior flexibilização monetária da história” segundo alguns estudiosos, como forma de compensar a queda das importações americanas, ampliando o mercado interno, e animar a economia mundial. Parte desse dinheiro foi para os bens de consumo de luxo, como automóveis, para infraestrutura que teve investimentos antecipados, para setores produtivos com retorno duvidoso, agravando o excesso de capacidade produtiva, um problema já presente nas indústrias chinesas. Mas, acredita-se que o grosso destinou-se a especulação imobiliária. Em Pequim, nos últimos 12 meses, os preços de imóveis de aproximadamente 65 m², os mais procurados, duplicaram ou triplicaram conforme o bairro. Em outras cidades chinesas a situação não é diferente, e vem sendo estimulada pela venda de terrenos públicos pelas prefeituras para cobrir déficits orçamentários. Estima-se que metades das receitas dos governos locais são geradas das vendas dos terrenos pertencentes ao Estado.
Todos estão querendo aproveitar a onda para surfar ganhando alguns trocados a mais. As empresas, que viram os seus lucros desabarem com a queda das exportações, não conseguindo compensar o mercado externo com a expansão do consumo interno, passaram a desviar dinheiro para especulação imobiliária. A indústria de ferro, cimento móveis entre outras ligadas à construção civil, vêem na bolha que se expande a solução para os seus problemas. O PIB em 2009 teve um crescimento considerado espetacular, 8,7%, acima do esperado pelos analistas e pelo Governo. O mercado global de commodities, sujeito a toda forma de especulação reanima-se, e as bolsas passam a ser o investimento mais lucrativo apesar das dificuldades na produção, principalmente as ações das empresas exportadoras, mesmo aquelas em que as exportações não passam de uma possibilidade.
Mas, quando todos parecem felizes, excetuando os 2/3 de chineses pobres que não conseguem se beneficiar da bolha imobiliária, ouve-se o arquejante rugir de um assustador dragão colérico que parecia adormecido, e costuma dar muito trabalho aos governos no seu despertar. A inflação dos preços aos consumidores que vinha em queda saltou de 0,6 % para 1,9% em novembro. Nos meses seguintes, apesar de algumas variações para baixo, não deixou de subir se comparado com os meses anteriores a novembro. O impacto negativo nos baixos salários dos chineses pobres já se faz sentir, e veio se juntar a massa dos desempregados pela crise que foram obrigados a retorna ao campo para cultivar lavoura em solo infértil em franco processo de desertificação em vastas regiões. Esperava-se, em prazo não tão curto, com a imensa expansão monetária na China e no resto do mundo(1), o retorno da inflação que se acreditava moderada.
O Governo chinês encontra-se num impasse: ou à paulada faz dormir o maldoso dragão antes deste acordar por inteiro, esvaziando de forma “controlada” a bolha com juros altos e redirecionando a política fiscal reduzindo os incentivos, freando o consumo interno com repercussão nada interessante para o mercado global, ou deixa a bolha e o consumo se expandir, até o estouro final sem controle que pode agravar a crise e levar a China e o mundo a uma profunda depressão. Os arranjos keynesianos de “cavar e tapar buracos” para conter a crise, não se mostraram suficientemente forte para reverter o quadro econômico. Antes de completar a tão esperada obra, os monstruosos e insustentáveis déficits fiscais começam a assustar, a inflação dá os primeiros sinais que pode pipocar com força, principalmente nos países onde se mantém a esperança de um crescimento “sustentado”, e os governos são obrigados discutir a reversão das políticas anticrise sem que estas tenham atingido o fim almejado.
(1) Inflação ou deflação, para onde caminha a crise?
25.11.2010.
domingo, janeiro 17, 2010
Haiti, a nódoa escondida do capitalismo mundial
Rall
A miséria que assola o segundo País ao declarar-se independente nas Américas, para se mostrar em sua plenitude, foi necessário um desastre natural de proporções inéditas. Às portas da maior potência capitalista do mundo, estava ali, flutuando no Oceano Atlântico, desacoplado do mercado mundial e esquecido pelo capital por não ser rentável. O Haiti, refugo do capitalismo global, há muito já vinha se desagregando enquanto nação. Um Estado antes apropriado pela família Duvalier, que usava o exército e os terríveis Tontons Macoutes para as mais abjetas formas de violência e exploração da população, garantia certa coesão com o uso do terror, assassinando e amedrontando psicologicamente, pois se difundia junto à população supersticiosa que François Duvalier, o Papa Doc, além de suas tropas genocidas, tinha a seu dispor um exército de zumbis prontos para entrarem em ação em defesa do pai de todos.
Na periferia do mundo capitalista patriarcal, surgem aberrações toleradas pelos países do centro, apesar de aparentarem o contrário, por fazerem parte da ordem mundial necessária à acumulação. Por isso, toda espécie de ditadores, mesmos os mais sanguinários que tem em comum o gosto de serem tratados como pai de todos, foram pouco molestados na história recente. O reino de terror e obscurantismo em que mergulhou o Haiti por décadas, quando começou desmoronar a ordem imposta pela família Duvalier e seus aliados, foi substituído pelo terror das gangues rivais armadas, antes coesas em torno do chefe supremo, a maioria originada no aparelho estatal e nas forças militares em desagregação. Essa situação consolidou-se, quando após a queda de Baby Doc, o ditador filho, as facções começaram a competir mortamente pelo espólio com a mesma violência a que estavam habituadas tratar a população.
Foi necessário um arrasador terremoto para que se descobrisse que o Haiti é aqui. Que tamanha miséria não se encontra só no Continente Africano, igualmente esquecido por não ser rentável, mas também no coração das Américas, nos outros continentes e dentro de cada um dos países mesmo nos ditos desenvolvidos. O furacão que arrasou Nova Orleans expôs com crueza um Haiti escondido nos EUA. A crescente exclusão do mercado global de regiões, países e até mesmo continentes, faz parte da lógica do desenvolvimento capitalista na medida em que a competição pelo lucro faz crescer o capital constante, principalmente pelo o aumento das maquinarias e automações, e reduz propocionalmente o capital variável, ou seja, a força de trabalho que cria valor e mais-valia, pressionando para baixo a taxa de lucro. Por outro lado, em contradição com o crescente potencial das forças produtivas, o universo dos não rentáveis tende a se expandir junto com o consumo improdutivo, impactando ainda mais negativamente na taxa de lucro. Em última instância, o que conta para acumulação real do capital é o trabalho produtor de mais-valia e o consumo produtivo daí decorrente.
Mas quando praticamente inexiste trabalho produtivo, quando a mais-valia futura (uma miragem) não pode ser antecipada através do crédito, quando não é possível alimentar o consumo mesmo que improdutivo para o capital através das chamadas "políticas compensatórias" financiadas pelo Estado, no capitalismo, o resultado imediato é morte pela fome e pelas doenças da miséria. No Haiti, quase um décimo das crianças morrem antes de completar cinco anos. Outros tantos são assassinados fazendo com que a expectativa de vida não passe de 54 anos. O retrato do Haiti, como também dos bolsões de miséria dos países em desenvolvimento, cujos indicadores não são diferentes, tende a se espalhar como uma nódoa, inclusive para os países desenvolvidos, à medida que a crise do trabalho se agrava e a força de trabalho torna-se supérflua. Para libertarmo-nos dos fetiches que nos assombram, temos que aprender a pensar para além dos limites que nos é permitido pela sociedade produtora de mercadoria, afastando-nos dos administradores da crise.
17.01.2010
A miséria que assola o segundo País ao declarar-se independente nas Américas, para se mostrar em sua plenitude, foi necessário um desastre natural de proporções inéditas. Às portas da maior potência capitalista do mundo, estava ali, flutuando no Oceano Atlântico, desacoplado do mercado mundial e esquecido pelo capital por não ser rentável. O Haiti, refugo do capitalismo global, há muito já vinha se desagregando enquanto nação. Um Estado antes apropriado pela família Duvalier, que usava o exército e os terríveis Tontons Macoutes para as mais abjetas formas de violência e exploração da população, garantia certa coesão com o uso do terror, assassinando e amedrontando psicologicamente, pois se difundia junto à população supersticiosa que François Duvalier, o Papa Doc, além de suas tropas genocidas, tinha a seu dispor um exército de zumbis prontos para entrarem em ação em defesa do pai de todos.
Na periferia do mundo capitalista patriarcal, surgem aberrações toleradas pelos países do centro, apesar de aparentarem o contrário, por fazerem parte da ordem mundial necessária à acumulação. Por isso, toda espécie de ditadores, mesmos os mais sanguinários que tem em comum o gosto de serem tratados como pai de todos, foram pouco molestados na história recente. O reino de terror e obscurantismo em que mergulhou o Haiti por décadas, quando começou desmoronar a ordem imposta pela família Duvalier e seus aliados, foi substituído pelo terror das gangues rivais armadas, antes coesas em torno do chefe supremo, a maioria originada no aparelho estatal e nas forças militares em desagregação. Essa situação consolidou-se, quando após a queda de Baby Doc, o ditador filho, as facções começaram a competir mortamente pelo espólio com a mesma violência a que estavam habituadas tratar a população.
Foi necessário um arrasador terremoto para que se descobrisse que o Haiti é aqui. Que tamanha miséria não se encontra só no Continente Africano, igualmente esquecido por não ser rentável, mas também no coração das Américas, nos outros continentes e dentro de cada um dos países mesmo nos ditos desenvolvidos. O furacão que arrasou Nova Orleans expôs com crueza um Haiti escondido nos EUA. A crescente exclusão do mercado global de regiões, países e até mesmo continentes, faz parte da lógica do desenvolvimento capitalista na medida em que a competição pelo lucro faz crescer o capital constante, principalmente pelo o aumento das maquinarias e automações, e reduz propocionalmente o capital variável, ou seja, a força de trabalho que cria valor e mais-valia, pressionando para baixo a taxa de lucro. Por outro lado, em contradição com o crescente potencial das forças produtivas, o universo dos não rentáveis tende a se expandir junto com o consumo improdutivo, impactando ainda mais negativamente na taxa de lucro. Em última instância, o que conta para acumulação real do capital é o trabalho produtor de mais-valia e o consumo produtivo daí decorrente.
Mas quando praticamente inexiste trabalho produtivo, quando a mais-valia futura (uma miragem) não pode ser antecipada através do crédito, quando não é possível alimentar o consumo mesmo que improdutivo para o capital através das chamadas "políticas compensatórias" financiadas pelo Estado, no capitalismo, o resultado imediato é morte pela fome e pelas doenças da miséria. No Haiti, quase um décimo das crianças morrem antes de completar cinco anos. Outros tantos são assassinados fazendo com que a expectativa de vida não passe de 54 anos. O retrato do Haiti, como também dos bolsões de miséria dos países em desenvolvimento, cujos indicadores não são diferentes, tende a se espalhar como uma nódoa, inclusive para os países desenvolvidos, à medida que a crise do trabalho se agrava e a força de trabalho torna-se supérflua. Para libertarmo-nos dos fetiches que nos assombram, temos que aprender a pensar para além dos limites que nos é permitido pela sociedade produtora de mercadoria, afastando-nos dos administradores da crise.
17.01.2010
quinta-feira, dezembro 31, 2009
O largo espectro das paixões
Rall
“Fiquei curioso em saber como se manifestaria na prática a fúria ou o ódio desses senhores que não são apenas dirigentes de bancos; são principalmente operadores financeiros ("traders") que ganham bônus. Eles dominaram o mundo durante 30 anos, definiram as regras da "nova" racionalidade econômica baseada no velho "laissez-faire", enriqueceram-se e tornaram ainda mais ricos os rentistas a quem estavam associados, provocaram um enorme aumento da desigualdade em toda parte, aumentaram a instabilidade financeira mundial e, afinal, provocaram a crise global de 2008, que obrigou os governos a gastarem cerca de 5% do PIB mundial para salvá-los.” Do artigo “A fúria dos financista”, de Luiz Carlos Bresser Pereira, publicado no jornal Folha de São Pulo, em 21/12/2009.
Uma certa nostalgia passei nas fileiras do largo espectro que se estende da extrema direita ao o outro lado da esquerda. Uns saudosos daquele capitalismo, cujas “impurezas” que simulam a acumulação possível eram marginais na sociedade capitalista. Do tempo em que o dinheiro era dinheiro “bom”, lastreado nas riquezas produzidas pelo trabalho assalariado e era conversível em ouro. O setor “produtivo” era hegemônico e a sociedade tinha pouco espaço para os banqueiros e rentistas, atividade atribuída aos grupos minoritários como os judeus, geralmente acusados nas crises de usurpadores da riqueza dos que trabalham e de ter pouco compromisso com os princípios da nação. Sabemos no que deu isso quando da subida de Hitler e seus seguidores nazistas ao poder na Alemanha, nas primeiras décadas do século passado.
Um outro lado se enche de saudades dos tempos da luta da classe aonde os campos amigos e inimigos eram bem delimitados. Lamenta-se por não existir mais proletários prontos para o sacrifício pela classe que iria fazer a revolução socialista e abolição da sociedade de classes. Muitos já tiraram o time de campo ou simplesmente passaram acreditar que aquilo eram equívocos da juventude e para repará-los assumiram posições do outro extremo. Passaram acreditar que com o capitalismo chegou-se ao fim da história e nada mais se pode fazer que não seja consertar os danos causados ao homem e a natureza por essa forma de produção excludente. Ou quando assumem posições políticas é para defender o capitalismo de estado, tão tirânico quanto à indiferente impessoalidade do mercado, e justificar a sede de poder de dirigentes caudilhescos.
Nada melhor para reacender ou apagar paixões do que o agravamento de uma crise! Os neoliberais, ao ver seus negócios afundarem, apesar de sua aparente aversão, muda o discurso e pedem socorro ao Estado, sem nenhum escrúpulo, enquanto o mercado está em baixa. Os estatizantes, agora aparentemente hegemônicos no mundo dos negócios, bradam no ar em voz altissonante “nós tínhamos razão!” e tornam-se afoitos em suas investidas nos países em que se acham no poder culpando “imperialismo”, com o qual faz negócios, pela crise. Em sua arrogância, esquecem que no salvador Estado, o endividamento para amparar a economia do abismo, que em muitos países já ultrapassou o valor do PIB, está o germe do próximo espasmo que pode levar ao total descontrole o paciente terminal.
Mercado e Estado são faces de uma mesma moeda. A menor ou maior presença do Estado na economia está relacionada ao momento pelo qual passa a sociedade moderna. Nos momentos de crescimento econômico o mercado se apropria de atividades na infra-estrutura, na saúde, educação e segurança, antes vista como função de Estado. No agravamento da crise é chamado para intervir pelos agentes do mercado que antes o rejeitavam. Na mais liberal economia mundial, a americana, além do colossal volume de dinheiro disponibilizado para o setor privado, o Estado intervém na composição de diretorias e de conselhos de grandes empresas e bancos, situação inimaginável há dois anos. O Estado esteve presente com muita força,
inclusive militar, nos primórdios do capitalismo, sem o qual talvez este tivesse dificuldade de se consolidar. Não foi e não é diferente nos países ditos em desenvolvimento tão queridos pelo capital, onde a coerção para que acumulação seja possível é feita pela ameaça do desemprego e pela força das armas. O Estado como o conhecemos nada tem de emancipador como querem alguns.
O que muitos analistas da grande imprensa não entendem, e não poderia ser diferente, pois suas expectativas de sair da crise não ultrapassam os horizontes da sociedade capitalista, é que, para produção de mercadorias se sustentar, empurra-se com a barriga a crise estrutural que vem se arrastando desde os anos 80, com o alargamento do crédito ao infinito ao consumidor e as empresas, com a geração de bolhas financeiras cada vez maiores no mercado e através do endividamento e das emissões de moedas pelos estados, com resultados sempre catastróficos nos momentos de agudização quando esses mecanismos não mais funcionam e as bolhas estouram. Por ironia, são exatamente os financistas e rentistas, tão maus vistos pelos discursos moralistas, quem movimenta o consumo e os investimentos nos intervalos pré-crises na era da acumulação simulada e de hegemonia do capital fictício. Sem a louca competição que foge ao controle da sociedade(1), incapaz de ser contida com medidas regulatórias e levada ao extremo pelo capital financeiro que busca se reproduzir a partir do nada com invenções exóticas, e sem a pronta intervenção do Estado para cobrir os prejuízos quando necessário, a extensão da crise na “economia real” já teria sido há muito desnudada.
De qualquer forma um “próspero” ano novo para todos!
31.12.2009
(1) O leite mijo de vaca e a lógica do capital
“Fiquei curioso em saber como se manifestaria na prática a fúria ou o ódio desses senhores que não são apenas dirigentes de bancos; são principalmente operadores financeiros ("traders") que ganham bônus. Eles dominaram o mundo durante 30 anos, definiram as regras da "nova" racionalidade econômica baseada no velho "laissez-faire", enriqueceram-se e tornaram ainda mais ricos os rentistas a quem estavam associados, provocaram um enorme aumento da desigualdade em toda parte, aumentaram a instabilidade financeira mundial e, afinal, provocaram a crise global de 2008, que obrigou os governos a gastarem cerca de 5% do PIB mundial para salvá-los.” Do artigo “A fúria dos financista”, de Luiz Carlos Bresser Pereira, publicado no jornal Folha de São Pulo, em 21/12/2009.
Uma certa nostalgia passei nas fileiras do largo espectro que se estende da extrema direita ao o outro lado da esquerda. Uns saudosos daquele capitalismo, cujas “impurezas” que simulam a acumulação possível eram marginais na sociedade capitalista. Do tempo em que o dinheiro era dinheiro “bom”, lastreado nas riquezas produzidas pelo trabalho assalariado e era conversível em ouro. O setor “produtivo” era hegemônico e a sociedade tinha pouco espaço para os banqueiros e rentistas, atividade atribuída aos grupos minoritários como os judeus, geralmente acusados nas crises de usurpadores da riqueza dos que trabalham e de ter pouco compromisso com os princípios da nação. Sabemos no que deu isso quando da subida de Hitler e seus seguidores nazistas ao poder na Alemanha, nas primeiras décadas do século passado.
Um outro lado se enche de saudades dos tempos da luta da classe aonde os campos amigos e inimigos eram bem delimitados. Lamenta-se por não existir mais proletários prontos para o sacrifício pela classe que iria fazer a revolução socialista e abolição da sociedade de classes. Muitos já tiraram o time de campo ou simplesmente passaram acreditar que aquilo eram equívocos da juventude e para repará-los assumiram posições do outro extremo. Passaram acreditar que com o capitalismo chegou-se ao fim da história e nada mais se pode fazer que não seja consertar os danos causados ao homem e a natureza por essa forma de produção excludente. Ou quando assumem posições políticas é para defender o capitalismo de estado, tão tirânico quanto à indiferente impessoalidade do mercado, e justificar a sede de poder de dirigentes caudilhescos.
Nada melhor para reacender ou apagar paixões do que o agravamento de uma crise! Os neoliberais, ao ver seus negócios afundarem, apesar de sua aparente aversão, muda o discurso e pedem socorro ao Estado, sem nenhum escrúpulo, enquanto o mercado está em baixa. Os estatizantes, agora aparentemente hegemônicos no mundo dos negócios, bradam no ar em voz altissonante “nós tínhamos razão!” e tornam-se afoitos em suas investidas nos países em que se acham no poder culpando “imperialismo”, com o qual faz negócios, pela crise. Em sua arrogância, esquecem que no salvador Estado, o endividamento para amparar a economia do abismo, que em muitos países já ultrapassou o valor do PIB, está o germe do próximo espasmo que pode levar ao total descontrole o paciente terminal.
Mercado e Estado são faces de uma mesma moeda. A menor ou maior presença do Estado na economia está relacionada ao momento pelo qual passa a sociedade moderna. Nos momentos de crescimento econômico o mercado se apropria de atividades na infra-estrutura, na saúde, educação e segurança, antes vista como função de Estado. No agravamento da crise é chamado para intervir pelos agentes do mercado que antes o rejeitavam. Na mais liberal economia mundial, a americana, além do colossal volume de dinheiro disponibilizado para o setor privado, o Estado intervém na composição de diretorias e de conselhos de grandes empresas e bancos, situação inimaginável há dois anos. O Estado esteve presente com muita força,
inclusive militar, nos primórdios do capitalismo, sem o qual talvez este tivesse dificuldade de se consolidar. Não foi e não é diferente nos países ditos em desenvolvimento tão queridos pelo capital, onde a coerção para que acumulação seja possível é feita pela ameaça do desemprego e pela força das armas. O Estado como o conhecemos nada tem de emancipador como querem alguns.
O que muitos analistas da grande imprensa não entendem, e não poderia ser diferente, pois suas expectativas de sair da crise não ultrapassam os horizontes da sociedade capitalista, é que, para produção de mercadorias se sustentar, empurra-se com a barriga a crise estrutural que vem se arrastando desde os anos 80, com o alargamento do crédito ao infinito ao consumidor e as empresas, com a geração de bolhas financeiras cada vez maiores no mercado e através do endividamento e das emissões de moedas pelos estados, com resultados sempre catastróficos nos momentos de agudização quando esses mecanismos não mais funcionam e as bolhas estouram. Por ironia, são exatamente os financistas e rentistas, tão maus vistos pelos discursos moralistas, quem movimenta o consumo e os investimentos nos intervalos pré-crises na era da acumulação simulada e de hegemonia do capital fictício. Sem a louca competição que foge ao controle da sociedade(1), incapaz de ser contida com medidas regulatórias e levada ao extremo pelo capital financeiro que busca se reproduzir a partir do nada com invenções exóticas, e sem a pronta intervenção do Estado para cobrir os prejuízos quando necessário, a extensão da crise na “economia real” já teria sido há muito desnudada.
De qualquer forma um “próspero” ano novo para todos!
31.12.2009
(1) O leite mijo de vaca e a lógica do capital
domingo, novembro 15, 2009
A bolha estatal na longa jornada da crise
Rall
“Como a economia mundial caiu num buraco tão profundo? Está se recuperando agora, mas dolorosamente, apesar do inédito afrouxo fiscal e monetário. Além disso, qual a possibilidade de que uma economia mundial equilibrada surja dessa alimentação forçada? O próprio fato de que tais ações drásticas foram necessárias é aterrador. O fato de haver pouco espaço para repetição da política é ainda mais aterrorizante. E o pior de tudo é que esta não é a primeira vez nas últimas décadas em que a economia mundial teve de ser conduzida em meio a desmoronamento pós-bolhas.” Do artigo “Como a economia caiu tanto assim”? Martin Wolf, editor principal e comentarista econômico do Financial Times, publicado no valor econômico de 28/10/2009.
No citado artigo, o comentarista econômico do FT Martin Wolf, expressa sua perplexidade, que não é só dele, sobre as difíceis escolhas para o enfrentamento da crise econômica. Perplexidade que se estende ao que virá depois da intervenção maciça dos estados com a emissão sem precedente de dinheiro, afrouxamento fiscal e juros perto de zero na busca de salvar bancos, grandes empresas e famílias endividadas. Fala-se em US$ 14 trilhões só de ajuda aos bancos no mundo.
Se for possível pensar no que virá depois das mais recentes manifestações da crise, como querem alguns, podemos fazer algumas indagações: como o déficit público, resultante de política fiscal, creditícia e de gastos generosos tem um limite, como seria possível a crise não se agravar quando esse limite for ultrapassado? Por outro lado, se a economia não se sustenta sem esse afluxo de recursos, como mantê-los sem os efeitos colaterais de uma liquidez infinita? Ou seja, como resolver a crise sistêmica do capitalismo que hoje vivenciamos numa situação de se correr o bicho pega, se ficar o bicho come?
Os últimos dados da economia têm mostrado, que o crescimento ou queda do PIB nos países desenvolvidos e em desenvolvimento, está profundamente atrelado aos recursos estatais fartamente disponibilizados. Essa liquidez forçada e os truques contábeis, tem aparentemente reequilibrado os balanços dos grandes bancos, que captam dinheiro a custo zero para emprestar aos governos à longo prazo, cobrando juros variados conforme os países, rendendo nos EUA em torno de 3,5% ao ano. Parte desse dinheiro que deveria ser utilizado para fazer fluir o crédito, são emissões dos bancos centrais que voltam aos governos na forma de empréstimos.
Como o crédito para o consumo e produção continua sendo uma operação de risco pela indefinição dos rumos da economia, parte dessa liquidez vem sendo destinada a especulação nas bolsas, em commodities e em outros ativos. Com isso, a imensa bolha estatal vem estendendo velozmente seus tentáculos ao mercado mundial, principalmente dos países em desenvolvimento. Fala-se em US$ 10 trilhões disponíveis correndo o mundo em busca de rentabilidade mesmo que seja fictícia. São valores que tendem aumentar na medida em que os governos, principalmente dos EUA, com uma política monetária frouxa, continuam inundando os mercados com dinheiro novo e juros perto de zero ou negativos, que permite a utilização de empréstimos em dólar nas operações bilionárias de carry-trade e ataques especulativos disfarçados ou a céu aberto, impactando nos preços dos ativos mundiais.
Esse fluxo de dinheiro tem levado a desequilíbrios cambiais graves, com a valorização das demais moedas em relação ao dólar, excetuando o yuan que com grandes intervenções de compra executadas pelo governo chinês, acompanha artificialmente os movimentos da moeda americana e faz crescer, num impulso incontido, as reservas em dólar. No entanto, a questão fundamental da fraqueza do dólar sinalizada desde o final da segunda guerra mundial, logo após as glórias em Bretton Woods, deve-se ao incessante aumento da produtividade que acarreta a queda do valor das mercadorias com as quais este se relaciona enquanto equivalente universal, e a expansão desmedida da circulação dessa moeda que há muito se deslocara da riqueza real que pretende expressar enquanto dinheiro mundial sustentado no poder político-militar dos EUA.
É um quadro que só tende a se agravar na medida em que os espasmos da crise terminal do capitalismo, ao aprofundar a competição entre empresas, alavancam a produtividade do trabalho incorporando novas tecnologias que levam ao desemprego estrutural e a não valorização real do capital. Há ainda a propensão do capitalismo pela extração da mais valia absoluta, que se manifesta quando trabalhadores são obrigados nas crises, para manterem seus empregos, aumentar a produtividade executando tarefas que seriam de responsabilidade de dois ou mais, numa racionalizalção empresarial selvagem para reduzir custos.
É claro que a inflação do dólar, e a conseqüente desvalorização, tende exacerbar-se se as emissões e os incentivos forem mantidos. Há, no entanto, e não sem razão, toda uma gritaria para que tudo continue como está, apesar dos indicadores apontarem que a bolha estatal, mãe de todas, não ter se mostrado como a melhor ignição para por em movimento a produção e o consumo de mercadorias por exigir custos adicionais futuros muito grandes. Essa gritaria está relacionada com a percepção de que só com mais dinheiro e os incentivos estatais é possível manter a ilusão de que o pior ficou para traz, como dizem. E ainda: que a economia real em crise profunda, não consegue manter-se em pé sem bolhas(1) altamente destrutivas, que tendem expandir-se ràpidamente em tempos de vida cada vez mais curtos.
15.11.2009
(1) Procura-se uma nova bolha
“Como a economia mundial caiu num buraco tão profundo? Está se recuperando agora, mas dolorosamente, apesar do inédito afrouxo fiscal e monetário. Além disso, qual a possibilidade de que uma economia mundial equilibrada surja dessa alimentação forçada? O próprio fato de que tais ações drásticas foram necessárias é aterrador. O fato de haver pouco espaço para repetição da política é ainda mais aterrorizante. E o pior de tudo é que esta não é a primeira vez nas últimas décadas em que a economia mundial teve de ser conduzida em meio a desmoronamento pós-bolhas.” Do artigo “Como a economia caiu tanto assim”? Martin Wolf, editor principal e comentarista econômico do Financial Times, publicado no valor econômico de 28/10/2009.
No citado artigo, o comentarista econômico do FT Martin Wolf, expressa sua perplexidade, que não é só dele, sobre as difíceis escolhas para o enfrentamento da crise econômica. Perplexidade que se estende ao que virá depois da intervenção maciça dos estados com a emissão sem precedente de dinheiro, afrouxamento fiscal e juros perto de zero na busca de salvar bancos, grandes empresas e famílias endividadas. Fala-se em US$ 14 trilhões só de ajuda aos bancos no mundo.
Se for possível pensar no que virá depois das mais recentes manifestações da crise, como querem alguns, podemos fazer algumas indagações: como o déficit público, resultante de política fiscal, creditícia e de gastos generosos tem um limite, como seria possível a crise não se agravar quando esse limite for ultrapassado? Por outro lado, se a economia não se sustenta sem esse afluxo de recursos, como mantê-los sem os efeitos colaterais de uma liquidez infinita? Ou seja, como resolver a crise sistêmica do capitalismo que hoje vivenciamos numa situação de se correr o bicho pega, se ficar o bicho come?
Os últimos dados da economia têm mostrado, que o crescimento ou queda do PIB nos países desenvolvidos e em desenvolvimento, está profundamente atrelado aos recursos estatais fartamente disponibilizados. Essa liquidez forçada e os truques contábeis, tem aparentemente reequilibrado os balanços dos grandes bancos, que captam dinheiro a custo zero para emprestar aos governos à longo prazo, cobrando juros variados conforme os países, rendendo nos EUA em torno de 3,5% ao ano. Parte desse dinheiro que deveria ser utilizado para fazer fluir o crédito, são emissões dos bancos centrais que voltam aos governos na forma de empréstimos.
Como o crédito para o consumo e produção continua sendo uma operação de risco pela indefinição dos rumos da economia, parte dessa liquidez vem sendo destinada a especulação nas bolsas, em commodities e em outros ativos. Com isso, a imensa bolha estatal vem estendendo velozmente seus tentáculos ao mercado mundial, principalmente dos países em desenvolvimento. Fala-se em US$ 10 trilhões disponíveis correndo o mundo em busca de rentabilidade mesmo que seja fictícia. São valores que tendem aumentar na medida em que os governos, principalmente dos EUA, com uma política monetária frouxa, continuam inundando os mercados com dinheiro novo e juros perto de zero ou negativos, que permite a utilização de empréstimos em dólar nas operações bilionárias de carry-trade e ataques especulativos disfarçados ou a céu aberto, impactando nos preços dos ativos mundiais.
Esse fluxo de dinheiro tem levado a desequilíbrios cambiais graves, com a valorização das demais moedas em relação ao dólar, excetuando o yuan que com grandes intervenções de compra executadas pelo governo chinês, acompanha artificialmente os movimentos da moeda americana e faz crescer, num impulso incontido, as reservas em dólar. No entanto, a questão fundamental da fraqueza do dólar sinalizada desde o final da segunda guerra mundial, logo após as glórias em Bretton Woods, deve-se ao incessante aumento da produtividade que acarreta a queda do valor das mercadorias com as quais este se relaciona enquanto equivalente universal, e a expansão desmedida da circulação dessa moeda que há muito se deslocara da riqueza real que pretende expressar enquanto dinheiro mundial sustentado no poder político-militar dos EUA.
É um quadro que só tende a se agravar na medida em que os espasmos da crise terminal do capitalismo, ao aprofundar a competição entre empresas, alavancam a produtividade do trabalho incorporando novas tecnologias que levam ao desemprego estrutural e a não valorização real do capital. Há ainda a propensão do capitalismo pela extração da mais valia absoluta, que se manifesta quando trabalhadores são obrigados nas crises, para manterem seus empregos, aumentar a produtividade executando tarefas que seriam de responsabilidade de dois ou mais, numa racionalizalção empresarial selvagem para reduzir custos.
É claro que a inflação do dólar, e a conseqüente desvalorização, tende exacerbar-se se as emissões e os incentivos forem mantidos. Há, no entanto, e não sem razão, toda uma gritaria para que tudo continue como está, apesar dos indicadores apontarem que a bolha estatal, mãe de todas, não ter se mostrado como a melhor ignição para por em movimento a produção e o consumo de mercadorias por exigir custos adicionais futuros muito grandes. Essa gritaria está relacionada com a percepção de que só com mais dinheiro e os incentivos estatais é possível manter a ilusão de que o pior ficou para traz, como dizem. E ainda: que a economia real em crise profunda, não consegue manter-se em pé sem bolhas(1) altamente destrutivas, que tendem expandir-se ràpidamente em tempos de vida cada vez mais curtos.
15.11.2009
(1) Procura-se uma nova bolha
quinta-feira, agosto 27, 2009
O que antes era marginal agora domina a cena
Rall
Dos vários artigos sobre a economia que me obrigo a ler todos os dias, chamou-me atenção o de autoria de José Carlos de Assis, “Uma nova bolha no horizonte” escrito no Jornal Valor de 11 de agosto passado. O articulista levanta algumas questões importantes, pouco discutidas na grande impressa, mas derrapa nas conclusões: “a crise assinalou uma mudança de paradigma no coração do capitalismo, mas muitos tomam com simples retórica. Não se percebe que a decolagem do sistema financeiro especulativo do sistema real, origem da crise, aponta na direção de uma contradição fundamental que, na prática, só se resolverá com perdas patrimoniais incomensuráveis”, diz. Mais na frente: “os governos enterraram bilhões de dólares para salvar seus sistemas bancários. Contudo, os governos pouco fizeram para eliminar a contradição entre finanças especulativas e economia real.”
Tem alguns pontos que precisam ser esclarecidos. O Sr. Assis, fala da economia real como vítima do malvado sistema financeiro, que criou asas e dela se apartou para depois castigá-la sem piedade. Sim, de fato, o estouro das bolhas financeiras repercutiu na produção. No entanto, não entende o Sr. Assis e outros articulistas de esquerda que acusam o capital financeiro dos males do mundo, que as bolhas surgiram exatamente como a mão salvadora da economia real. Com a crise do capitalismo a partir dos anos 80, o processo de acumulação expresso pela equação D-M-D’ (dinheiro-mercadoria-mais dinheiro), cede lugar a um ativo mercado de papeis melhor representado pela fórmula D-D’ (dinheiro-mais dinheiro). A economia real para sustentar-se em pernas bambas, passa a alimentar-se de capital fictício gerado pela expansão do sistema creditício e pelas bolhas financeiras, como forma de compensar a estagnação e empurrar para frente a crise que se gestava. Em sua história, o capitalismo sempre lidou com bolhas que se manifestavam marginalmente e eram purgadas nas crises. Agora dominam a cena em frenética agitação financeira.
Na medida em que o capital disponível no mundo não achava mais na produção de bens materiais e imateriais o porto seguro para sua reprodução, foi encontrando outros meios de se multiplicar ficticiamente. Parte desse capital sem substância finca o pé na economia real, reciclando-se e buscando na base material da economia sustentação para formação de bolhas, como aconteceu no setor imobiliário. Outra parte aporta em países “em desenvolvimento” como a China, aonde a rentabilidade ainda é possível a custa de mais valia absoluta, extraída mobilizando-se em escala gigantesca força de trabalho antes adormecida no campo, que se deslocam para as cidades em movimentos migratórios jamais vistos com conseqüências imprevisíveis. Através do disciplinamento extremo utilizando-se toda forma de coerção, a exploração do trabalhador atinge o limite do esgotamento físico em países cantados em versos e prosa por uma esquerda desorientada.
A produção transcende os estados nacionais e seus nexos intercontinentais formam então, circuitos deficitários (1) que se auto-alimentam. Numa ponta encontram-se os países que recebem investimentos maciços de capital para produção de mercadorias a preços competitivos pelo uso intensivo de mão-de-obra barata; na outra, os países receptores dessas mercadorias, principalmente os EEUU, e do dinheiro dos superávits gerados por esse circuito, que ajuda alimentar o consumo interno através da expansão do crédito ao infinito e das bolhas nos diversos setores da economia. Essa movimentação fantástica de capital no globo, fictício ou não, só foi possível com a revolução da informática, que também revolucionou a produção com a automação das empresas e dispensa do trabalho. Não foi a pressa subjetiva pelo rápido enriquecimento, como fazem crer os moralistas, responsável pela crise, mas a crise da “valorização do valor” advinda dessa revolução, que em parte dispensou a mediação da mercadoria/trabalho na formação do capital, quem acelerou as ações do “sujeito automático” (Marx) em direção às pirâmides financeira.
O descolamento do “sistema financeiro especulativo do sistema real” é, portanto, bastante relativo. A lógica de produção de capital fictício, que numa análise apressada aparente uma coisa a parte, compõe um todo do qual não se exclui a produção real. Ou melhor, foi à crise da acumulação na economia real que alimentou esse processo e as mudanças de paradigmas, ao contrário do que sugere o Sr. Assis. Há muito tempo as empresas financeiras deixaram de só financiar e se apropriaram de parte cada vez maior da produção, e as empresas produtoras de bens e serviços não-financeiros passaram a ter seus próprios bancos ou a eles se associaram para garantirem o fechamento no azul de seus balanços com o capital fictício advindo da especulação. A crise contábil das empresas brasileiras que jogavam com derivativos, com a inversão da tendência do câmbio em 2008, é um exemplo miúdo de uma realidade bem mais complexa e pouco revelada. É só ver o volume de derivativos e ativos financeiros que continuam sendo negociados e em circulação, como bem assinala o articulista (US$ 650 trilhões de derivativos e US$ 160 trilhões de ativos), muitas vezes superior ao PIB Mundial estimado em US$ 50 trilhões.
Demonizar o capital financeiro e achar que é possível com regulações de toda ordem por cabresto na besta-fera e domá-la em benefício do lado “bom” da economia é pura ilusão de quem não está enxergando que a crise é uma crise estrutural profunda do capitalismo, com suas ondulações conjunturais que se manifesta na queda da economia, no desemprego crônico e crescente, no esgotamento dos recursos naturais e nas mudanças climáticas cada vez mais perigosas com o aquecimento progressivo da terra, pelos bilhões dos subprodutos degradados devolvidos diariamente a natureza por essa forma cega de produção.
(1) O circuito asiático da economia mundial
(Resposta ao artigo "Uma nova bolha no horizonte", do Sr. José Carlos de Assis, publicado em 11 de agosto de 09 no Jornal Valor)
27.08.2009
Dos vários artigos sobre a economia que me obrigo a ler todos os dias, chamou-me atenção o de autoria de José Carlos de Assis, “Uma nova bolha no horizonte” escrito no Jornal Valor de 11 de agosto passado. O articulista levanta algumas questões importantes, pouco discutidas na grande impressa, mas derrapa nas conclusões: “a crise assinalou uma mudança de paradigma no coração do capitalismo, mas muitos tomam com simples retórica. Não se percebe que a decolagem do sistema financeiro especulativo do sistema real, origem da crise, aponta na direção de uma contradição fundamental que, na prática, só se resolverá com perdas patrimoniais incomensuráveis”, diz. Mais na frente: “os governos enterraram bilhões de dólares para salvar seus sistemas bancários. Contudo, os governos pouco fizeram para eliminar a contradição entre finanças especulativas e economia real.”
Tem alguns pontos que precisam ser esclarecidos. O Sr. Assis, fala da economia real como vítima do malvado sistema financeiro, que criou asas e dela se apartou para depois castigá-la sem piedade. Sim, de fato, o estouro das bolhas financeiras repercutiu na produção. No entanto, não entende o Sr. Assis e outros articulistas de esquerda que acusam o capital financeiro dos males do mundo, que as bolhas surgiram exatamente como a mão salvadora da economia real. Com a crise do capitalismo a partir dos anos 80, o processo de acumulação expresso pela equação D-M-D’ (dinheiro-mercadoria-mais dinheiro), cede lugar a um ativo mercado de papeis melhor representado pela fórmula D-D’ (dinheiro-mais dinheiro). A economia real para sustentar-se em pernas bambas, passa a alimentar-se de capital fictício gerado pela expansão do sistema creditício e pelas bolhas financeiras, como forma de compensar a estagnação e empurrar para frente a crise que se gestava. Em sua história, o capitalismo sempre lidou com bolhas que se manifestavam marginalmente e eram purgadas nas crises. Agora dominam a cena em frenética agitação financeira.
Na medida em que o capital disponível no mundo não achava mais na produção de bens materiais e imateriais o porto seguro para sua reprodução, foi encontrando outros meios de se multiplicar ficticiamente. Parte desse capital sem substância finca o pé na economia real, reciclando-se e buscando na base material da economia sustentação para formação de bolhas, como aconteceu no setor imobiliário. Outra parte aporta em países “em desenvolvimento” como a China, aonde a rentabilidade ainda é possível a custa de mais valia absoluta, extraída mobilizando-se em escala gigantesca força de trabalho antes adormecida no campo, que se deslocam para as cidades em movimentos migratórios jamais vistos com conseqüências imprevisíveis. Através do disciplinamento extremo utilizando-se toda forma de coerção, a exploração do trabalhador atinge o limite do esgotamento físico em países cantados em versos e prosa por uma esquerda desorientada.
A produção transcende os estados nacionais e seus nexos intercontinentais formam então, circuitos deficitários (1) que se auto-alimentam. Numa ponta encontram-se os países que recebem investimentos maciços de capital para produção de mercadorias a preços competitivos pelo uso intensivo de mão-de-obra barata; na outra, os países receptores dessas mercadorias, principalmente os EEUU, e do dinheiro dos superávits gerados por esse circuito, que ajuda alimentar o consumo interno através da expansão do crédito ao infinito e das bolhas nos diversos setores da economia. Essa movimentação fantástica de capital no globo, fictício ou não, só foi possível com a revolução da informática, que também revolucionou a produção com a automação das empresas e dispensa do trabalho. Não foi a pressa subjetiva pelo rápido enriquecimento, como fazem crer os moralistas, responsável pela crise, mas a crise da “valorização do valor” advinda dessa revolução, que em parte dispensou a mediação da mercadoria/trabalho na formação do capital, quem acelerou as ações do “sujeito automático” (Marx) em direção às pirâmides financeira.
O descolamento do “sistema financeiro especulativo do sistema real” é, portanto, bastante relativo. A lógica de produção de capital fictício, que numa análise apressada aparente uma coisa a parte, compõe um todo do qual não se exclui a produção real. Ou melhor, foi à crise da acumulação na economia real que alimentou esse processo e as mudanças de paradigmas, ao contrário do que sugere o Sr. Assis. Há muito tempo as empresas financeiras deixaram de só financiar e se apropriaram de parte cada vez maior da produção, e as empresas produtoras de bens e serviços não-financeiros passaram a ter seus próprios bancos ou a eles se associaram para garantirem o fechamento no azul de seus balanços com o capital fictício advindo da especulação. A crise contábil das empresas brasileiras que jogavam com derivativos, com a inversão da tendência do câmbio em 2008, é um exemplo miúdo de uma realidade bem mais complexa e pouco revelada. É só ver o volume de derivativos e ativos financeiros que continuam sendo negociados e em circulação, como bem assinala o articulista (US$ 650 trilhões de derivativos e US$ 160 trilhões de ativos), muitas vezes superior ao PIB Mundial estimado em US$ 50 trilhões.
Demonizar o capital financeiro e achar que é possível com regulações de toda ordem por cabresto na besta-fera e domá-la em benefício do lado “bom” da economia é pura ilusão de quem não está enxergando que a crise é uma crise estrutural profunda do capitalismo, com suas ondulações conjunturais que se manifesta na queda da economia, no desemprego crônico e crescente, no esgotamento dos recursos naturais e nas mudanças climáticas cada vez mais perigosas com o aquecimento progressivo da terra, pelos bilhões dos subprodutos degradados devolvidos diariamente a natureza por essa forma cega de produção.
(1) O circuito asiático da economia mundial
(Resposta ao artigo "Uma nova bolha no horizonte", do Sr. José Carlos de Assis, publicado em 11 de agosto de 09 no Jornal Valor)
27.08.2009
domingo, agosto 16, 2009
Armadilha do pensar, limites do agir
Rall
As formas de sofrimento psíquico na sociedade moderna podem ser entendidas, em seu limite, como uma reação desesperada da mente aprisionada por um “substrato”, construído de sensações passadas e presentes, de prazer e frustração, e, principalmente, elaborado e reelaborado por estímulos coercitivos da sociedade do trabalho. Estabelece-se como um pano de fundo tecido com mil linhas sem orientações precisas, e funciona como armadilha do pensar destroçado. Essa forma caótica que aprisiona e move o pensamento, cimentada pela lógica de "fazer dinheiro", transforma todos em “sujeitos automáticos” da razão burguesa. Quanto mais se aprofunda a crise do trabalho na sociedade capitalista, mais fictício torna-se o que antes poderia ser chamado de valor. Essa “abstração real” (Marx), "escondida" em relações sociais fetichizadas, age como importante determinante das ações humanas no fazer da história, sem que dela se tome consciência.
No decorrer dos séculos de implantação do capitalismo, ganhar dinheiro passou a ser a única virtude inconteste entre os homens que justifica os meios. Permite-se quase tudo no mundo da acumulação simulada: o roubo institucionalizou-se em todos os níveis da sociedade, da corrupção estatal às mais absurdas formas de transações empresariais. O discurso ridículo de moralização dessas relações através de normas está fadado ao fracasso, pois isso não são “desvios de condutas”, mas parte da lógica intrínseca do sistema que não resistiria se lhe amarrassem as pernas com normatizações jurídicas, que na verdade são feitas para lhe desatar as amarras e dar garantias contra o imprevisível.
O jogo da mudança tem que ser jogado olhando-se para dentro, na busca de entendê-lo, mas também para fora desse substrato. É um jogo contra-hegemônico com seus perigos e incertezas. Não se encontra elaborada e nem se pode querer para ele uma teoria-guia, pronta e acabada como as ideologias. Mas as teorias (1) são importantes, pois se não dão conta da totalidade, apesar de que devem apontar para, podem dar pistas significantes para o movimento social, que se move dentro do leque de opções que lhe é dado, prisioneiro que é dos fetiches da sociedade burguesa. Observa-se depois de alguns ensaios onde se tateiam os caminhos da emancipação, a queda no vazio e o desânimo dos sujeitos. Brotam daí os fundamentalismos sejam militantes, sejam narcísicos, como saída desesperada para o nada.
Mesmo aberto os caminhos, não há nenhuma garantia que possam ser percorridos. Os obstáculos aparentam intransponíveis, e o mundo paralisado pode afundar-se mais ainda na barbárie, onde resistirão as fortalezas de produção capitalista, armadas até os dentes, prontas a reagirem com violência, dentro ou fora de seu território a qualquer sinal de ameaça. O substrato que move o sujeito, introjetado através dos séculos de modernidade pela violência física e psíquica, das ameaças das baionetas à morte pela fome; pelo disciplinamento no ensino, no campo, nas fábricas, na clínica, nas cadeias, nos quartéis para que se aceite o trabalho assalariado, transforma o indivíduo em sujeito desse imperativo.
Estamos piores do que nossos ancestrais nômades que pelo menos eram solidários na luta pela sobrevivência. A aparente liberdade individual, que supostamente nos liberou dos chefes imperiais, ou mesmo da opressão tribal, é pura ilusão: deixamos uma forma de escravidão para cair noutra pior, no fetiche da mercadoria, do dinheiro. Aos “não-rentáveis” (Kurz) só resta à morte física ou social, onde a vergonha aos olhos dos outros pelos insucessos, de ser um desempregado, um perdedor, não tem limites. É visto com desprezo e desconfiança pelos que ainda trabalham. O medo de antes, de ver o parceiro ocupando seu posto levado pela mortal concorrência, passa à desconfiança das intenções malévolas do outro, que num acesso pode tirar-lhe os objetos fruto do suado trabalho, ou até mesmo a vida, o que não deixa de ser verdade.
Essa brutalidade, movida pela cega competição por um lugar ao sol na sociedade do trabalho, intensificada ao absurdo nos tempos neoliberais ultra-individualista, ocupa todos os poros da sociedade, transformando mesmo os mais próximos num ajuntamento desagradável de indivíduos barbarizados por interesses monetários e de poder. Quanto mais se aprofunda a crise, não é o sentido de solidariedade que prevalece, mas o desejo de morte do outro que ameaça ou obstrui o caminho, e um medo que deixa todos impotentes e acovardados para enfrentar esse estado de coisa. Mesmo assim é preciso enfrentá-lo!
(1) Breves reflexões sobre teoria e prática
15.08.2009
As formas de sofrimento psíquico na sociedade moderna podem ser entendidas, em seu limite, como uma reação desesperada da mente aprisionada por um “substrato”, construído de sensações passadas e presentes, de prazer e frustração, e, principalmente, elaborado e reelaborado por estímulos coercitivos da sociedade do trabalho. Estabelece-se como um pano de fundo tecido com mil linhas sem orientações precisas, e funciona como armadilha do pensar destroçado. Essa forma caótica que aprisiona e move o pensamento, cimentada pela lógica de "fazer dinheiro", transforma todos em “sujeitos automáticos” da razão burguesa. Quanto mais se aprofunda a crise do trabalho na sociedade capitalista, mais fictício torna-se o que antes poderia ser chamado de valor. Essa “abstração real” (Marx), "escondida" em relações sociais fetichizadas, age como importante determinante das ações humanas no fazer da história, sem que dela se tome consciência.
No decorrer dos séculos de implantação do capitalismo, ganhar dinheiro passou a ser a única virtude inconteste entre os homens que justifica os meios. Permite-se quase tudo no mundo da acumulação simulada: o roubo institucionalizou-se em todos os níveis da sociedade, da corrupção estatal às mais absurdas formas de transações empresariais. O discurso ridículo de moralização dessas relações através de normas está fadado ao fracasso, pois isso não são “desvios de condutas”, mas parte da lógica intrínseca do sistema que não resistiria se lhe amarrassem as pernas com normatizações jurídicas, que na verdade são feitas para lhe desatar as amarras e dar garantias contra o imprevisível.
O jogo da mudança tem que ser jogado olhando-se para dentro, na busca de entendê-lo, mas também para fora desse substrato. É um jogo contra-hegemônico com seus perigos e incertezas. Não se encontra elaborada e nem se pode querer para ele uma teoria-guia, pronta e acabada como as ideologias. Mas as teorias (1) são importantes, pois se não dão conta da totalidade, apesar de que devem apontar para, podem dar pistas significantes para o movimento social, que se move dentro do leque de opções que lhe é dado, prisioneiro que é dos fetiches da sociedade burguesa. Observa-se depois de alguns ensaios onde se tateiam os caminhos da emancipação, a queda no vazio e o desânimo dos sujeitos. Brotam daí os fundamentalismos sejam militantes, sejam narcísicos, como saída desesperada para o nada.
Mesmo aberto os caminhos, não há nenhuma garantia que possam ser percorridos. Os obstáculos aparentam intransponíveis, e o mundo paralisado pode afundar-se mais ainda na barbárie, onde resistirão as fortalezas de produção capitalista, armadas até os dentes, prontas a reagirem com violência, dentro ou fora de seu território a qualquer sinal de ameaça. O substrato que move o sujeito, introjetado através dos séculos de modernidade pela violência física e psíquica, das ameaças das baionetas à morte pela fome; pelo disciplinamento no ensino, no campo, nas fábricas, na clínica, nas cadeias, nos quartéis para que se aceite o trabalho assalariado, transforma o indivíduo em sujeito desse imperativo.
Estamos piores do que nossos ancestrais nômades que pelo menos eram solidários na luta pela sobrevivência. A aparente liberdade individual, que supostamente nos liberou dos chefes imperiais, ou mesmo da opressão tribal, é pura ilusão: deixamos uma forma de escravidão para cair noutra pior, no fetiche da mercadoria, do dinheiro. Aos “não-rentáveis” (Kurz) só resta à morte física ou social, onde a vergonha aos olhos dos outros pelos insucessos, de ser um desempregado, um perdedor, não tem limites. É visto com desprezo e desconfiança pelos que ainda trabalham. O medo de antes, de ver o parceiro ocupando seu posto levado pela mortal concorrência, passa à desconfiança das intenções malévolas do outro, que num acesso pode tirar-lhe os objetos fruto do suado trabalho, ou até mesmo a vida, o que não deixa de ser verdade.
Essa brutalidade, movida pela cega competição por um lugar ao sol na sociedade do trabalho, intensificada ao absurdo nos tempos neoliberais ultra-individualista, ocupa todos os poros da sociedade, transformando mesmo os mais próximos num ajuntamento desagradável de indivíduos barbarizados por interesses monetários e de poder. Quanto mais se aprofunda a crise, não é o sentido de solidariedade que prevalece, mas o desejo de morte do outro que ameaça ou obstrui o caminho, e um medo que deixa todos impotentes e acovardados para enfrentar esse estado de coisa. Mesmo assim é preciso enfrentá-lo!
(1) Breves reflexões sobre teoria e prática
15.08.2009
segunda-feira, julho 27, 2009
A retração da economia e a destruição de empregos
Rall
Alguns estudos mostram que o tempo que decorre entre o início das crises agudas do capitalismo e o fechamento dos postos de trabalho nas empresas, tem se reduzido dramaticamente nas últimas três décadas. Antes da Terceira Revolução Industrial, as demissões aconteciam, mas tinha um tempo, relativamente longo se comparado com os padrões atuais, entre o surgimento da crise e a perda do emprego. Na fase atual do capitalismo, a resposta é imediata: o desemprego, como a forma mais fácil de cortar custos, aumenta antes mesmo das empresas sentirem o efeito da crise em seus negócios. Os empregados part-time, os contratados por tempo determinado e outras formas de vínculos precários são os primeiros da lista. Logo em seguida, e sem demora, os empregos mais estáveis, se é que podemos considerar ainda a existência dessa categoria. Nos Estados Unidos, as estatísticas mostram que do início da recessão até dezembro de 2007, o desemprego aumentou 5% para uma retração 2,5% da economia, situação que não deve ser diferente nos outros países.
Por outro lado, já se fala a partir também de observações pregressas, que de forma nenhuma os empregos votam aos patamares anteriores, mesmo se a produção e o mercado mundial recuperassem o fôlego perdido, o que é duvidoso. Tem-se observado, apesar da crise, que a produtividade do trabalho vem aumentando significativamente em todo mundo. Num primeiro momento, os rearranjos na organização da produção forçada pela dispensa de trabalhadores, podem ser responsáveis por essa maior produtividade. Os não dispensados passam a produzir mais, exercendo funções dos demitidos, sem que haja ajustes salariais. Ou seja, os mecanismos de aumento da mais-valia absoluta são acionados e aceitos sem contestação pelos que ficam, coagidos pelo medo de serem desligados.
Isso dura tempo suficiente, e independe de novos investimentos que venham ser feitos em capital fixo para aumentar ainda mais a produtividade, agora por conta de novas máquinas e equipamentos de automação da produção. Não é à toa que empresas que vendem tecnologia de automação e as que fabricam modernas plataformas de produção, começam a sentir aumento nas encomendas. Os balanços positivos que tem surpreendido os analistas são a combinação do aumento da produtividade do trabalho dos que ficam e substituem as funções dos dispensados, das políticas fiscais generosas e dos ajustes contábeis feitos com dinheiro público fartamente distribuído pelos governos a juros na maioria das vezes negativos. Mas é a segunda onda de aumento da produtividade, movida pela feroz concorrência pelo que restou de mercados, que ao incorporar novas tecnologias de automação, fechará mais ainda postos de trabalho.
Essa lógica a qual está subordinada o capital, mais evidente na atualidade, de serrar o galho em que está sentado com o aumento sem limites da produtividade e destruição incessante de empregos, tem suas conseqüências: na produção, a intensificação da crise de “valorização do valor” pela expulsão do trabalho vivo com a revolução da informática e aumento do trabalho morto; na circulação, a dificuldade de realização da mais-valia pela redução cada vez maior do número de consumidores produtivos. Para esse impasse, buscou-se como saída o consumo improdutivo, financiado pelo crédito infinito e por bolhas de tamanho crescentes, que a cada estouro mostra a inviabilidade dessa fórmula como solução para crise do capitalismo, deixando como legado rastros de destruição e sofrimentos.
A crise, longa e lenta, gera a cada espasmo do paciente em agonia, além do desemprego, montanha de crédito podre advindo desse dinheiro sem substância, que tem que ser limpo pelos faxineiros do capital. O Estado, à custa de um endividamento contínuo e sem precedente, impossível de ser pago por gerações futuras, é obrigado a engolir a fedentina vomitada pelo mercado e, ao mesmo tempo, alimentá-lo boca a boca com capital fictício produzido em suas entranhas, mesmo sabendo que mais na frente virão outros espasmos bem mais dolorosos e o risco de um colapso total.
27.07.2009
Alguns estudos mostram que o tempo que decorre entre o início das crises agudas do capitalismo e o fechamento dos postos de trabalho nas empresas, tem se reduzido dramaticamente nas últimas três décadas. Antes da Terceira Revolução Industrial, as demissões aconteciam, mas tinha um tempo, relativamente longo se comparado com os padrões atuais, entre o surgimento da crise e a perda do emprego. Na fase atual do capitalismo, a resposta é imediata: o desemprego, como a forma mais fácil de cortar custos, aumenta antes mesmo das empresas sentirem o efeito da crise em seus negócios. Os empregados part-time, os contratados por tempo determinado e outras formas de vínculos precários são os primeiros da lista. Logo em seguida, e sem demora, os empregos mais estáveis, se é que podemos considerar ainda a existência dessa categoria. Nos Estados Unidos, as estatísticas mostram que do início da recessão até dezembro de 2007, o desemprego aumentou 5% para uma retração 2,5% da economia, situação que não deve ser diferente nos outros países.
Por outro lado, já se fala a partir também de observações pregressas, que de forma nenhuma os empregos votam aos patamares anteriores, mesmo se a produção e o mercado mundial recuperassem o fôlego perdido, o que é duvidoso. Tem-se observado, apesar da crise, que a produtividade do trabalho vem aumentando significativamente em todo mundo. Num primeiro momento, os rearranjos na organização da produção forçada pela dispensa de trabalhadores, podem ser responsáveis por essa maior produtividade. Os não dispensados passam a produzir mais, exercendo funções dos demitidos, sem que haja ajustes salariais. Ou seja, os mecanismos de aumento da mais-valia absoluta são acionados e aceitos sem contestação pelos que ficam, coagidos pelo medo de serem desligados.
Isso dura tempo suficiente, e independe de novos investimentos que venham ser feitos em capital fixo para aumentar ainda mais a produtividade, agora por conta de novas máquinas e equipamentos de automação da produção. Não é à toa que empresas que vendem tecnologia de automação e as que fabricam modernas plataformas de produção, começam a sentir aumento nas encomendas. Os balanços positivos que tem surpreendido os analistas são a combinação do aumento da produtividade do trabalho dos que ficam e substituem as funções dos dispensados, das políticas fiscais generosas e dos ajustes contábeis feitos com dinheiro público fartamente distribuído pelos governos a juros na maioria das vezes negativos. Mas é a segunda onda de aumento da produtividade, movida pela feroz concorrência pelo que restou de mercados, que ao incorporar novas tecnologias de automação, fechará mais ainda postos de trabalho.
Essa lógica a qual está subordinada o capital, mais evidente na atualidade, de serrar o galho em que está sentado com o aumento sem limites da produtividade e destruição incessante de empregos, tem suas conseqüências: na produção, a intensificação da crise de “valorização do valor” pela expulsão do trabalho vivo com a revolução da informática e aumento do trabalho morto; na circulação, a dificuldade de realização da mais-valia pela redução cada vez maior do número de consumidores produtivos. Para esse impasse, buscou-se como saída o consumo improdutivo, financiado pelo crédito infinito e por bolhas de tamanho crescentes, que a cada estouro mostra a inviabilidade dessa fórmula como solução para crise do capitalismo, deixando como legado rastros de destruição e sofrimentos.
A crise, longa e lenta, gera a cada espasmo do paciente em agonia, além do desemprego, montanha de crédito podre advindo desse dinheiro sem substância, que tem que ser limpo pelos faxineiros do capital. O Estado, à custa de um endividamento contínuo e sem precedente, impossível de ser pago por gerações futuras, é obrigado a engolir a fedentina vomitada pelo mercado e, ao mesmo tempo, alimentá-lo boca a boca com capital fictício produzido em suas entranhas, mesmo sabendo que mais na frente virão outros espasmos bem mais dolorosos e o risco de um colapso total.
27.07.2009
sábado, junho 27, 2009
O pior já passou? Um "sim" ecoa afoito no mundo dos negócios
Rall
O endividamento em que vem se enredando os Estados Unidos e os outros países do centro e da periferia, na ilusão de assim driblarem a crise, é a bolha do momento. O que são as bolhas se não a geração de capital sem substância, seja pelo mercado, pelo Estado ou simultaneamente pelos dois pólos da sociedade da mercadoria? Isso mostra a impossibilidade do capitalismo em crise terminal desde os anos 80, sustentar-se sem produzir montanha de capital fictício. A expansão monetária global que ora assistimos para segurar a economia, à custa do endividamento dos estados e sem precedente na história do capitalismo, jamais será paga com parcelas de mais valia futura transformada em impostos.
O acirramento da concorrência entre os capitais, forçando num primeiro momento a queda dos preços e o deslocamento de mercadorias para mercados antes pouco cobiçados, pode levar ao protecionismo ou a desindustrialização(1) de regiões inteiras. Os primeiros sinais desse fenômeno são observados na América Latina e em outros Continentes com a chegada principalmente dos produtos chineses. Num segundo momento, a competição violenta entre as empresas forçará o aumento da produtividade, introduzindo novas tecnologias dispensadoras de trabalho na produção de bens, agravando o processo de “valorização do valor”, ou seja, de formação de capital, o que torna o aperto fiscal para cobrir o déficit público mais difícil no futuro.
Quando o peso da dívida aumentar o risco de colapso dos estados sem condições fiscais de resolverem o problema do déficit orçamentário, as emissões fiduciárias continuam e a inflação surgirá galopante para infringir a sociedade, principalmente às populações desprotegidas, a fúria do "terceiro cavaleiro do apocalipse". Por enquanto este se mantém a espreita, esperando o momento oportuno para cavalgar cuspindo fogo em todas as direções.
Essa mudança de perspectiva, de deflação de ativos para inflação, é a forma perversa do deslocamento dos custos da crise para as costas da população menos favorecida, já atormentada pelo desemprego. As carências deverão se agravar com os estados descolando-se cada vez mais de qualquer compromisso social, principalmente na área da saúde, educação e aposentadoria, para cobrir os rombos no mercado. Mas, antes dessa chegada, a produção poderá cair menos ou até mesmo se estabilizar e ganhar um certo fôlego com a formação da bolha estatal que ajudará alimentar filhotes de bolhas no mercado, iludindo os tolos como sendo o início de uma retumbante retomada. As bolsas mostram essa tendência.
O discurso agora tão em voga de que o pior já passou, expressa as dificuldades e os limites que tem os teóricos do mercado de variadas matizes, de avançarem na análise da crise do capitalismo e as expectativas quase religiosas de soluções milagrosas imediatas. E não poderia ser diferente se para eles a história é a história da eterna sociedade produtora de mercadorias, não existindo o antes nem o depois que não sejam variações dessa forma de produção. Desse modo de pensar e analisar a realidade não estão salvos os auto-intitulados economistas de esquerda.
27.06.2009
(1) A tendência da indústria brasileira
O endividamento em que vem se enredando os Estados Unidos e os outros países do centro e da periferia, na ilusão de assim driblarem a crise, é a bolha do momento. O que são as bolhas se não a geração de capital sem substância, seja pelo mercado, pelo Estado ou simultaneamente pelos dois pólos da sociedade da mercadoria? Isso mostra a impossibilidade do capitalismo em crise terminal desde os anos 80, sustentar-se sem produzir montanha de capital fictício. A expansão monetária global que ora assistimos para segurar a economia, à custa do endividamento dos estados e sem precedente na história do capitalismo, jamais será paga com parcelas de mais valia futura transformada em impostos.
O acirramento da concorrência entre os capitais, forçando num primeiro momento a queda dos preços e o deslocamento de mercadorias para mercados antes pouco cobiçados, pode levar ao protecionismo ou a desindustrialização(1) de regiões inteiras. Os primeiros sinais desse fenômeno são observados na América Latina e em outros Continentes com a chegada principalmente dos produtos chineses. Num segundo momento, a competição violenta entre as empresas forçará o aumento da produtividade, introduzindo novas tecnologias dispensadoras de trabalho na produção de bens, agravando o processo de “valorização do valor”, ou seja, de formação de capital, o que torna o aperto fiscal para cobrir o déficit público mais difícil no futuro.
Quando o peso da dívida aumentar o risco de colapso dos estados sem condições fiscais de resolverem o problema do déficit orçamentário, as emissões fiduciárias continuam e a inflação surgirá galopante para infringir a sociedade, principalmente às populações desprotegidas, a fúria do "terceiro cavaleiro do apocalipse". Por enquanto este se mantém a espreita, esperando o momento oportuno para cavalgar cuspindo fogo em todas as direções.
Essa mudança de perspectiva, de deflação de ativos para inflação, é a forma perversa do deslocamento dos custos da crise para as costas da população menos favorecida, já atormentada pelo desemprego. As carências deverão se agravar com os estados descolando-se cada vez mais de qualquer compromisso social, principalmente na área da saúde, educação e aposentadoria, para cobrir os rombos no mercado. Mas, antes dessa chegada, a produção poderá cair menos ou até mesmo se estabilizar e ganhar um certo fôlego com a formação da bolha estatal que ajudará alimentar filhotes de bolhas no mercado, iludindo os tolos como sendo o início de uma retumbante retomada. As bolsas mostram essa tendência.
O discurso agora tão em voga de que o pior já passou, expressa as dificuldades e os limites que tem os teóricos do mercado de variadas matizes, de avançarem na análise da crise do capitalismo e as expectativas quase religiosas de soluções milagrosas imediatas. E não poderia ser diferente se para eles a história é a história da eterna sociedade produtora de mercadorias, não existindo o antes nem o depois que não sejam variações dessa forma de produção. Desse modo de pensar e analisar a realidade não estão salvos os auto-intitulados economistas de esquerda.
27.06.2009
(1) A tendência da indústria brasileira
domingo, maio 10, 2009
O súbito otimismo dos agentes do mercado
Rall
Às sombras do outono no jardim das fantasias, cogita-se uma rápida retomada da economia mundial. A leve brisa que sopra aplacando o calor emanado pela queima sem precedente de capital, já é visto por alguns como uma luz no fim do túnel. Ou, como diz um incorrigível otimista, o comentarista da Globo News George Vidor: pelo menos a luminescência de um vagalume. Realmente, seria difícil nada acontecer com tanto dinheiro sendo posto pelos governos para tapar os buracos do mercado. Apesar da recessão, sinais de aumento de liquidez começam aparece, com repercussões altistas nas bolsas e aparente melhora contábil de setores da economia.
As crises que acometem o mundo a partir dos anos 80 na forma de desastres financeiros globais, não podem ser vista como as crises cíclicas clássicas de curto prazo, que vem sempre acompanhada de uma retomada rápida do crescimento após a economia beijar o fundo do poço. A situação é mais complexa por serem esses desarranjos manifestações da crise estrutural do capitalismo, que no seu bojo abriga momentos de expansão e retração da atividade econômica, como convulsões de um moribundo que teima em não morrer.
Mas o capitalismo que vivenciamos, cada vez mais impossibilitado pela revolução tecnológica de ampliar a produção de mais valia, tendência agravada a cada espasmo da crise, só se porá em lento movimento apoiado no crédito sem limite no tempo e em novas bolhas, fenômenos intrinsecamente relacionados. O crédito, no entanto não flui, encontra-se empoçado como diz a gíria do mercado, apesar do derrame de papel-moeda em todo globo pelos bancos centrais.
A volta do Estado à cena política, fabricando e distribuindo dinheiro como nunca para irriga o crédito e maquiar os balanços dos grandes aglomerados econômicos, pode estar gestando a mãe de todas as bolhas, inflada por um conjunto de medidas anti-recessivas. Agora, sem subterfúgios e sem a mediação dos mercados financeiros colapsados, os governos imprimem papel-pintado que chamam dinheiro e põem na conta do Estado, aumentando o déficit fiscal que deverá ser coberto num longínquo futuro por impostos arrecadados de uma mais valia que não se realizará já mais.
Se essa conta, como todos sabem, é impossível ser paga pelas produções vindoura de mercadorias, a tendência é ter-se dinheiro sobrando sem lastro na riqueza real. E dinheiro que excede a riqueza além de um certo limite, não importa a origem, é inflação que como a deflação são os sinais mais visíveis da crise global do capitalismo. Apesar de tudo, aparentemente nada de novo se apresenta até agora capaz de substituir o modo de produção vigente. A saída via Estado, defendida por "socialistas" de países da América Latina, só diferem das medidas dos países ricos, da Europa aos Estados Unidos, pelo grau de intervenção (muito maior nos últimos), e pela arrogância de seus pequenos dirigentes que acreditam estar mudando o mundo.
10.05.2009
Às sombras do outono no jardim das fantasias, cogita-se uma rápida retomada da economia mundial. A leve brisa que sopra aplacando o calor emanado pela queima sem precedente de capital, já é visto por alguns como uma luz no fim do túnel. Ou, como diz um incorrigível otimista, o comentarista da Globo News George Vidor: pelo menos a luminescência de um vagalume. Realmente, seria difícil nada acontecer com tanto dinheiro sendo posto pelos governos para tapar os buracos do mercado. Apesar da recessão, sinais de aumento de liquidez começam aparece, com repercussões altistas nas bolsas e aparente melhora contábil de setores da economia.
As crises que acometem o mundo a partir dos anos 80 na forma de desastres financeiros globais, não podem ser vista como as crises cíclicas clássicas de curto prazo, que vem sempre acompanhada de uma retomada rápida do crescimento após a economia beijar o fundo do poço. A situação é mais complexa por serem esses desarranjos manifestações da crise estrutural do capitalismo, que no seu bojo abriga momentos de expansão e retração da atividade econômica, como convulsões de um moribundo que teima em não morrer.
Mas o capitalismo que vivenciamos, cada vez mais impossibilitado pela revolução tecnológica de ampliar a produção de mais valia, tendência agravada a cada espasmo da crise, só se porá em lento movimento apoiado no crédito sem limite no tempo e em novas bolhas, fenômenos intrinsecamente relacionados. O crédito, no entanto não flui, encontra-se empoçado como diz a gíria do mercado, apesar do derrame de papel-moeda em todo globo pelos bancos centrais.
A volta do Estado à cena política, fabricando e distribuindo dinheiro como nunca para irriga o crédito e maquiar os balanços dos grandes aglomerados econômicos, pode estar gestando a mãe de todas as bolhas, inflada por um conjunto de medidas anti-recessivas. Agora, sem subterfúgios e sem a mediação dos mercados financeiros colapsados, os governos imprimem papel-pintado que chamam dinheiro e põem na conta do Estado, aumentando o déficit fiscal que deverá ser coberto num longínquo futuro por impostos arrecadados de uma mais valia que não se realizará já mais.
Se essa conta, como todos sabem, é impossível ser paga pelas produções vindoura de mercadorias, a tendência é ter-se dinheiro sobrando sem lastro na riqueza real. E dinheiro que excede a riqueza além de um certo limite, não importa a origem, é inflação que como a deflação são os sinais mais visíveis da crise global do capitalismo. Apesar de tudo, aparentemente nada de novo se apresenta até agora capaz de substituir o modo de produção vigente. A saída via Estado, defendida por "socialistas" de países da América Latina, só diferem das medidas dos países ricos, da Europa aos Estados Unidos, pelo grau de intervenção (muito maior nos últimos), e pela arrogância de seus pequenos dirigentes que acreditam estar mudando o mundo.
10.05.2009
sábado, março 28, 2009
Por que a crise atual é pior do que a de 29?
Rall
Oitenta anos separam 1929 de 2009. Tempo insuficiente para entender-se os acontecimentos daquele período, muito menos os anos posteriores que deram origem ao nazi-facismo na Europa e segui-se à segunda guerra mundial com todos os seus horrores, o capitalismo já encontra-se imerso na maior crise de sua existência. Olhando pela janela da história nosso passado recente, não precisamos de nenhuma expertise para enxergar as diferenças fenomenais entre aquele mundo, onde as formações pré-capitalistas abundavam, e o de hoje, de absoluta hegemonia do capital, que traz como efeitos colaterais desequilíbrios ecológicos assombrosos.
Em 29, e até após a segunda guerra mundial, parte significativa da população de um planeta muito menos povoado vivia no campo, mesmo na Europa, principalmente na Central, na Rússia e nos países do Leste que com ela formavam o bloco Soviético. Nações continentais como a Índia e a China eram praticamente agrárias. A situação não era diferente no restante da Ásia, América Latina. Os EUA, que despontava como a grande potência industrial pós-guerra, o peso do campo era importante. Parte do que se produzia ia para o mercado mundial (como o café e o açúcar aqui no Brasil), mas a economia de subsistência tinha ainda um peso muito grande, ou seja, significativos agregados humanos só marginalmente se relacionava com o mercado. A troca do excedente produzido em muitas áreas rurais ainda se dava sem a mediação do dinheiro, o trabalho assalariado avançava, mas não tinha aí se consolidado.
Depois da segunda guerra mundial, o fluxo migratório em um mesmo país, ou entre países, sempre se deu no sentido campo-cidade. O avanço da monocultura de produtos para o mercado mundial, e, mais recentemente, o emprego intensivo de capital e de novas tecnologias no campo, movimentou imensos contingentes humanos em direção as cidades, que resultou em megalópoles com problemas infindáveis, principalmente nos países de terceiro mundo. Toda uma população que antes vivia no campo e pouco dependia do dinheiro para sobreviver, passa agora depender da produção capitalista e, conseqüentemente, do vil metal sem o qual põe em risco sua sobrevivência.
A crise de 29 se alastrou pelo mundo, mas foi sentida mais intensamente na Europa Ocidental e EUA. Se compararmos o PIB mundial daquele período com o atual como também a extensão da crise, veremos que a destruição de capital em 29 foi infinitamente inferior ao que hoje vivenciamos. O desmoronamento do sistema financeiro e a violenta retração da produção que continua em curso é global. Não existem regiões, países ou populações menos afetados como foi observado em 29. A cidade e o campo contorcem-se com a mesma dor, basta analisar o comportamento dos preços das commodities de toda espécie que vem despencando pelo fraco desempenho do mercado mundial.
Ao colapso das empresas seguir-se-á o colapso de países e regiões inteiras apesar das instituições anticíclicas criadas antes e após a segunda guerra mundial. Países literalmente falidos já fazem fila e batem de pires na mão na porta do FMI, dos bancos centrais europeus e americano em busca de salvação. Será possível? Em terras arrasadas, depois de revolvidas, pode nascer alguma coisa, mesmo que seja erva daninha. Mas o custo social, que ainda não cobrou seu preço, será devastador! O desemprego, já agravado pela terceira revolução industrial, pode atingir números dramáticos e os governos dificilmente conseguirão manter benefícios para todos desempregados, mesmo porque a prioridade é utilizar os recursos financeiros, fictícios ou não, para manter a máquina capitalista autofágica funcionando.
O caminho que seguem com determinação para salvar o capitalismo global em crise continua o mesmo: mais bolhas. Antes estimuladas pelos governos e geradas nos mercados é agora de vez assumida pelos Estados que já não escondem a impressão de dinheiro sem substância em suas casas da moeda em magnitudes jamais vistas sob o aplauso de todos. O capitalismo em fase terminal, para manter-se morto-vivo teve que fraudar a acumulação com toda espécie de bolhas e esticar o crédito ao infinito nas últimas décadas. Sem milagres a vista, a toada continua a mesma, agora sob a batuta dos governos até que um novo estouro recobre o real sentido da crise.
Sábado, 28 de março de 2009.
Oitenta anos separam 1929 de 2009. Tempo insuficiente para entender-se os acontecimentos daquele período, muito menos os anos posteriores que deram origem ao nazi-facismo na Europa e segui-se à segunda guerra mundial com todos os seus horrores, o capitalismo já encontra-se imerso na maior crise de sua existência. Olhando pela janela da história nosso passado recente, não precisamos de nenhuma expertise para enxergar as diferenças fenomenais entre aquele mundo, onde as formações pré-capitalistas abundavam, e o de hoje, de absoluta hegemonia do capital, que traz como efeitos colaterais desequilíbrios ecológicos assombrosos.
Em 29, e até após a segunda guerra mundial, parte significativa da população de um planeta muito menos povoado vivia no campo, mesmo na Europa, principalmente na Central, na Rússia e nos países do Leste que com ela formavam o bloco Soviético. Nações continentais como a Índia e a China eram praticamente agrárias. A situação não era diferente no restante da Ásia, América Latina. Os EUA, que despontava como a grande potência industrial pós-guerra, o peso do campo era importante. Parte do que se produzia ia para o mercado mundial (como o café e o açúcar aqui no Brasil), mas a economia de subsistência tinha ainda um peso muito grande, ou seja, significativos agregados humanos só marginalmente se relacionava com o mercado. A troca do excedente produzido em muitas áreas rurais ainda se dava sem a mediação do dinheiro, o trabalho assalariado avançava, mas não tinha aí se consolidado.
Depois da segunda guerra mundial, o fluxo migratório em um mesmo país, ou entre países, sempre se deu no sentido campo-cidade. O avanço da monocultura de produtos para o mercado mundial, e, mais recentemente, o emprego intensivo de capital e de novas tecnologias no campo, movimentou imensos contingentes humanos em direção as cidades, que resultou em megalópoles com problemas infindáveis, principalmente nos países de terceiro mundo. Toda uma população que antes vivia no campo e pouco dependia do dinheiro para sobreviver, passa agora depender da produção capitalista e, conseqüentemente, do vil metal sem o qual põe em risco sua sobrevivência.
A crise de 29 se alastrou pelo mundo, mas foi sentida mais intensamente na Europa Ocidental e EUA. Se compararmos o PIB mundial daquele período com o atual como também a extensão da crise, veremos que a destruição de capital em 29 foi infinitamente inferior ao que hoje vivenciamos. O desmoronamento do sistema financeiro e a violenta retração da produção que continua em curso é global. Não existem regiões, países ou populações menos afetados como foi observado em 29. A cidade e o campo contorcem-se com a mesma dor, basta analisar o comportamento dos preços das commodities de toda espécie que vem despencando pelo fraco desempenho do mercado mundial.
Ao colapso das empresas seguir-se-á o colapso de países e regiões inteiras apesar das instituições anticíclicas criadas antes e após a segunda guerra mundial. Países literalmente falidos já fazem fila e batem de pires na mão na porta do FMI, dos bancos centrais europeus e americano em busca de salvação. Será possível? Em terras arrasadas, depois de revolvidas, pode nascer alguma coisa, mesmo que seja erva daninha. Mas o custo social, que ainda não cobrou seu preço, será devastador! O desemprego, já agravado pela terceira revolução industrial, pode atingir números dramáticos e os governos dificilmente conseguirão manter benefícios para todos desempregados, mesmo porque a prioridade é utilizar os recursos financeiros, fictícios ou não, para manter a máquina capitalista autofágica funcionando.
O caminho que seguem com determinação para salvar o capitalismo global em crise continua o mesmo: mais bolhas. Antes estimuladas pelos governos e geradas nos mercados é agora de vez assumida pelos Estados que já não escondem a impressão de dinheiro sem substância em suas casas da moeda em magnitudes jamais vistas sob o aplauso de todos. O capitalismo em fase terminal, para manter-se morto-vivo teve que fraudar a acumulação com toda espécie de bolhas e esticar o crédito ao infinito nas últimas décadas. Sem milagres a vista, a toada continua a mesma, agora sob a batuta dos governos até que um novo estouro recobre o real sentido da crise.
Sábado, 28 de março de 2009.
sexta-feira, março 13, 2009
Os zumbis da economia em crise
Rall
"Hoje o mundo é totalmente dependente do capital internacionalizado para qualquer investimento. O chamado capital nacional é uma ficção. O problema é que o capital não tem mais como se reproduzir na economia “real”. Seu destino é girar em falso, sem rumo como um zumbi, produzindo bolhas financeiras aqui e acolá, simulando acumulação. É a forma que encontrou de se manter morto-vivo na sociedade do trabalho em crise."
Rumores da Crise - Rall: Um Zumbi assombra o mundo – 08/05/2004
"Vamos ser diretos aqui. Há uma chance razoável, não uma certeza, de que Citi e BofA, juntos, percam centenas de bilhões de dólares nos próximos poucos anos. E seu capital não é nem remotamente suficiente para cobrir as possíveis perdas. De fato, a única razão pela qual ainda não quebraram é a de que o governo está agindo como um esteio, implicitamente garantindo suas obrigações. Mas são bancos zumbis, incapazes de fornecer o crédito de que a economia precisa."
Folha de S.Paulo – Paul Krugman: Os bancos diante do precipício - 24/02/2009
Essa polêmica sobre zumbis lembra-me de um filme, se não me engano de Paul Morrissey, sobre o Conde Drácula que doente, acredita recuperar-se bebendo sangue de virgem. Com a escassez de mulheres castas na Romênia, resolve viajar da Transilvânia até uma remota fazenda italiana, depois de receber uma carta informando-o que um pai ambicioso, zelava pela castidade das filhas, cobiçando casá-las com nobres que oferecessem uma merecida recompensa pela preciosa raridade. Numa viagem cheia de percalços e confusões, o moribundo Conde a duras penas consegue chegar ao destino. Num estado de excitação que fazia todo corpo tremer, é apresentado às garotas e de pronto se apaixona pela mais velha que num gesto provocante, sacode o cabelo e deixa nu todo um lado do belo pescoço. O Conde, na mesma noite, crava os dentes ferinos no sensual pescoço, e solta um grito agoniado quando o sangue esguicha em sua boca. Ao passar dos dias, vai ficando cada vez mais angustiado à medida em outros pescoços são mordidos e o sangue que jorra é rejeitado por seu refinado paladar. Sabe como morto-vivo, que se não encontrar o precioso alimento logo só restará um espectro de vampiro a vagar sem rumo por um estranho mundo, um verdadeiro zumbi.
O capital, nos seus estertores, apresenta comportamento semelhante. Não tendo aonde aporte para sugar trabalho vivo que conserve e faça crescer o morto, sofre como o Drácula de nossa história em busca de sangue virgem. O trabalho vivo, alimento essencial a reprodução do morto-vivo capital, vem rareando com a corrida pelo aumento da produtividade imposto pela concorrência global na terceira revolução industrial. O Conde Drácula, na desesperada busca de sangue virgem, compete com o mundo dos homens e se dá mal. Os capitais, em busca de competitividade, guerreiam entre si expulsando seu alimento da produção, portanto parte de seu ser. O requintado Vampiro, ao rejeitar o sangue de não virgens apesar da abundância, sabe que não sobreviverá. O capital, ao não suportar sequer o cheiro do suor dos “não-rentáveis” (Kurz), que no desespero famélico oferecem-se aos montões para serem consumidos como mercadoria barata, terá o mesmo destino. No encanto pelas máquinas esquece que o trabalho humano abstrato é seu alimento e que na sociedade burguesa o homem para consumir os meios necessários a sua reprodução tem que vender seu trabalho ou morrem de fome, homem e capital.
Na concorrência empresarial, a tendência é refazer-se a composição orgânica do capital, reduzindo-se o capital variável e aumentando o fixo. Ao tornar mais oneroso os custos dos investimentos com o aumento do capital fixo (máquinas, equipamentos etc.), reforçar-se então a importância do crédito. O “valor valorizado” (Marx) definha, seu espectro se liberta e como um zumbi assombra o mundo simulando acumulação na forma de capital fictício. Zumbi não são só bancos insolventes, mas todo capital financeiro que não aportando na produção aonde a rentabilidade é insuficiente, simula em suas entranhas a acumulação, reproduzindo papéis destituídos de substância de valor. O Sr. Krugman em seu artigo, parece acreditar que a ganância e as más decisões são responsáveis pelo castigo que nos impõe a crise. Apesar de reconhecer as incertezas que o mundo nos submete, não ultrapassa em suas análises os limites nos quais os homens são obrigados a se mover na sociedade burguesa.
A ilusão de que a estatização é a solução para crise do crédito, ao qual se atribui os motivos da crise sistêmica, reside no fato de os teóricos da economia rejeitar o trabalho abstrato como substância do valor, de renegar inclusive as descobertas de seus economistas mais lúcidos como Ricardo e Adam Smith. O que se observa com o movimento dos neoliberais em direção ao Estado “empreendedor”, que deixa amuada a esquerda estatizante, é a busca de uma nova bolha, já que no mercado todas explodiram e não se vislumbra outras. Bolha que vem se formando com a ajuda das instâncias financeiras dos Estados e por elas geridas, consensuada pelos governos e agentes econômico, deverá servir de base para as reformas articuladas pelos países do Centro. Pelo enorme volume de dinheiro sem lastro colocado a disposição e impressos nas casas da moeda, no momento certo essa bolha estatal também explodirá, talvez na forma de hiperinflação, sem, contudo, estancar a crise que é dos limites da acumulação do capital cuja expansão do crédito ao infinito foi um dos seus sintomas.
13.03.2009
"Hoje o mundo é totalmente dependente do capital internacionalizado para qualquer investimento. O chamado capital nacional é uma ficção. O problema é que o capital não tem mais como se reproduzir na economia “real”. Seu destino é girar em falso, sem rumo como um zumbi, produzindo bolhas financeiras aqui e acolá, simulando acumulação. É a forma que encontrou de se manter morto-vivo na sociedade do trabalho em crise."
Rumores da Crise - Rall: Um Zumbi assombra o mundo – 08/05/2004
"Vamos ser diretos aqui. Há uma chance razoável, não uma certeza, de que Citi e BofA, juntos, percam centenas de bilhões de dólares nos próximos poucos anos. E seu capital não é nem remotamente suficiente para cobrir as possíveis perdas. De fato, a única razão pela qual ainda não quebraram é a de que o governo está agindo como um esteio, implicitamente garantindo suas obrigações. Mas são bancos zumbis, incapazes de fornecer o crédito de que a economia precisa."
Folha de S.Paulo – Paul Krugman: Os bancos diante do precipício - 24/02/2009
Essa polêmica sobre zumbis lembra-me de um filme, se não me engano de Paul Morrissey, sobre o Conde Drácula que doente, acredita recuperar-se bebendo sangue de virgem. Com a escassez de mulheres castas na Romênia, resolve viajar da Transilvânia até uma remota fazenda italiana, depois de receber uma carta informando-o que um pai ambicioso, zelava pela castidade das filhas, cobiçando casá-las com nobres que oferecessem uma merecida recompensa pela preciosa raridade. Numa viagem cheia de percalços e confusões, o moribundo Conde a duras penas consegue chegar ao destino. Num estado de excitação que fazia todo corpo tremer, é apresentado às garotas e de pronto se apaixona pela mais velha que num gesto provocante, sacode o cabelo e deixa nu todo um lado do belo pescoço. O Conde, na mesma noite, crava os dentes ferinos no sensual pescoço, e solta um grito agoniado quando o sangue esguicha em sua boca. Ao passar dos dias, vai ficando cada vez mais angustiado à medida em outros pescoços são mordidos e o sangue que jorra é rejeitado por seu refinado paladar. Sabe como morto-vivo, que se não encontrar o precioso alimento logo só restará um espectro de vampiro a vagar sem rumo por um estranho mundo, um verdadeiro zumbi.
O capital, nos seus estertores, apresenta comportamento semelhante. Não tendo aonde aporte para sugar trabalho vivo que conserve e faça crescer o morto, sofre como o Drácula de nossa história em busca de sangue virgem. O trabalho vivo, alimento essencial a reprodução do morto-vivo capital, vem rareando com a corrida pelo aumento da produtividade imposto pela concorrência global na terceira revolução industrial. O Conde Drácula, na desesperada busca de sangue virgem, compete com o mundo dos homens e se dá mal. Os capitais, em busca de competitividade, guerreiam entre si expulsando seu alimento da produção, portanto parte de seu ser. O requintado Vampiro, ao rejeitar o sangue de não virgens apesar da abundância, sabe que não sobreviverá. O capital, ao não suportar sequer o cheiro do suor dos “não-rentáveis” (Kurz), que no desespero famélico oferecem-se aos montões para serem consumidos como mercadoria barata, terá o mesmo destino. No encanto pelas máquinas esquece que o trabalho humano abstrato é seu alimento e que na sociedade burguesa o homem para consumir os meios necessários a sua reprodução tem que vender seu trabalho ou morrem de fome, homem e capital.
Na concorrência empresarial, a tendência é refazer-se a composição orgânica do capital, reduzindo-se o capital variável e aumentando o fixo. Ao tornar mais oneroso os custos dos investimentos com o aumento do capital fixo (máquinas, equipamentos etc.), reforçar-se então a importância do crédito. O “valor valorizado” (Marx) definha, seu espectro se liberta e como um zumbi assombra o mundo simulando acumulação na forma de capital fictício. Zumbi não são só bancos insolventes, mas todo capital financeiro que não aportando na produção aonde a rentabilidade é insuficiente, simula em suas entranhas a acumulação, reproduzindo papéis destituídos de substância de valor. O Sr. Krugman em seu artigo, parece acreditar que a ganância e as más decisões são responsáveis pelo castigo que nos impõe a crise. Apesar de reconhecer as incertezas que o mundo nos submete, não ultrapassa em suas análises os limites nos quais os homens são obrigados a se mover na sociedade burguesa.
A ilusão de que a estatização é a solução para crise do crédito, ao qual se atribui os motivos da crise sistêmica, reside no fato de os teóricos da economia rejeitar o trabalho abstrato como substância do valor, de renegar inclusive as descobertas de seus economistas mais lúcidos como Ricardo e Adam Smith. O que se observa com o movimento dos neoliberais em direção ao Estado “empreendedor”, que deixa amuada a esquerda estatizante, é a busca de uma nova bolha, já que no mercado todas explodiram e não se vislumbra outras. Bolha que vem se formando com a ajuda das instâncias financeiras dos Estados e por elas geridas, consensuada pelos governos e agentes econômico, deverá servir de base para as reformas articuladas pelos países do Centro. Pelo enorme volume de dinheiro sem lastro colocado a disposição e impressos nas casas da moeda, no momento certo essa bolha estatal também explodirá, talvez na forma de hiperinflação, sem, contudo, estancar a crise que é dos limites da acumulação do capital cuja expansão do crédito ao infinito foi um dos seus sintomas.
13.03.2009
domingo, fevereiro 15, 2009
O Protecionismo e seus conteúdos
Rall
Os primeiros gritos em defesa do emprego e da produção nacional começam ecoar nos países europeus e nos EUA. É um indicador importante da incapacidade dos políticos e das camadas dirigentes reverterem a crise sistêmica com os mecanismos monetários ou keynesianos conhecidos. Buscam-se remédios antigos para uma situação que vinha se acumulando desde o início dos anos 80, quando se acelera a destruição de empregos com o impacto das novas tecnologias utilizadas na produção de mercadorias. A cada sinal da crise que estava por vir, aumenta-se a produtividade e novos postos de trabalho são fechados; a concorrência, em todos os níveis da sociedade, torna-se cada vez mais feroz, e, para compensar a queda da massa total de mais valia e lucro, infla-se ativos reais e imaginários, como forma enganosa de garantir o crédito em expansão para os próximos séculos, e com isso o consumo.
Já vejo o indignado leitor, com o dedo no gatilho, oferecendo-se para ser parte do pelotão de fuzilamento pronto a ajustar contas com aqueles que trapacearam o mundo. Calma senhores, não é bem assim! Quantos de nós nos locupletamos utilizando as vantagens oferecidas pelo sistema financeiro para fazer nosso dinheiro “crescer”? O que investimos em papéis, mesmo que sejam os restos de um minguado salário, obedece à mesma lógica do mega-investidor de bilhões de dólares. Essa lógica, que é a lógica do capital de fazer mais dinheiro, fictício ou não, se estabelece na sociedade capitalista independente das vontades mais poderosas. O discurso, culpando a especulação financeira pelos sofrimentos do “bom capital produtivo” é demagógico, pois, apesar de toda reclamação continuam pondo trilhões de dólares no sistema colapsado. É perigoso, pois desvia a atenção dos motivos reais da crise e elege setores da sociedade como bode expiatório de uma lógica cega e destrutiva, sem nenhum átomo de crítica.
Nas crises do capitalismo, em particular essa pela sua dimensão global e pela dificuldade de se enxergar no horizonte saídas, onde se destrói sem piedade capitais e milhões de empregos, pondo em risco a sobrevivência de parte da população do planeta, traz à tona não só o medo, mas o que há de pior gerado no cotidiano barbarizado e recalcado em tempos “normais”. Os acenos dos governos ao protecionismo refletem a incapacidade de gerenciarem a crise, mas também as pressões daqueles que ao verem seus empregos ameaçados, buscam no outro o motivo de sua miséria. O conflito se estabelece não só com o outro de fora, mas também com o outro de dentro, o imigrante. E o outro de dentro já não é só mais o imigrante dos continentes distantes: África, Ásia, América Latina, esse há muito saco de pancada dos grupos e partidos de direita de conotação racista e fascista. O outro de dentro é o próprio europeu do leste, mesmo aqueles dos países que fazem parte da União Européia.
A crise ainda não mostrou sua verdadeira face, mas as notícias do ressentimento de trabalhadores da Europa Ocidental contra os que ocupam postos de trabalho por uma mísera remuneração são cada vez mais evidentes. É como fossem estes os culpados pela destruição de empregos e precarização do trabalho e não a busca incessante do capital por maior rentabilidade. O aumento da intolerância dos governos com os imigrantes é o outro lado da moeda. Aonde se assume mais abertamente a repressão ao imigrante, como na Itália de Berlusconi, são os primeiros sinais do que está por vir com o agravamento da situação. Acusar os imigrantes e outros grupos minoritários pela crise do trabalho e pela insegurança na sociedade, é uma estratégia nada desprezível para se ganhar o apoio das massas ameaçadas pelo desemprego ou já desempregada, deixando incólume o capitalismo de uma crítica mais categorial. O alimentado medo do terrorismo completa o cerco que se fecha na Europa contra extrangeiros e filhos destes já há muito estabelecidos.
Nesse caldo de cultura, a generalização da violência de grupos nacionalista, racistas e protofacistas, hoje esporádica, é uma possibilidade, como também o crescimento dos partidos de direita xenófobos, que com seus discursos belicosos e simplistas aumentam as tensões contra os de “fora”, acusando-os de invadir a sociedade ocidental com mercadorias baratas, principalmente a tão parcamente remunerada força de trabalho, ameaçando os sagrados empregos do homem branco ocidental. Corre ainda nesse rio caudaloso, pronto a se tingir de vermelho, um antissemitismo surdo e rancoroso, nunca totalmente extirpado da sociedade européia, principalmente nesse momento em que no capital financeiro são depositadas todas as mazelas da crise global do capitalismo. Nos momentos mais destrutivos da crise, a guerra interna e externa, como forma extrema da política na sociedade burguesa, é sempre uma solução, regressiva, mas racionalmente planejada.
15.02.2009
Os primeiros gritos em defesa do emprego e da produção nacional começam ecoar nos países europeus e nos EUA. É um indicador importante da incapacidade dos políticos e das camadas dirigentes reverterem a crise sistêmica com os mecanismos monetários ou keynesianos conhecidos. Buscam-se remédios antigos para uma situação que vinha se acumulando desde o início dos anos 80, quando se acelera a destruição de empregos com o impacto das novas tecnologias utilizadas na produção de mercadorias. A cada sinal da crise que estava por vir, aumenta-se a produtividade e novos postos de trabalho são fechados; a concorrência, em todos os níveis da sociedade, torna-se cada vez mais feroz, e, para compensar a queda da massa total de mais valia e lucro, infla-se ativos reais e imaginários, como forma enganosa de garantir o crédito em expansão para os próximos séculos, e com isso o consumo.
Já vejo o indignado leitor, com o dedo no gatilho, oferecendo-se para ser parte do pelotão de fuzilamento pronto a ajustar contas com aqueles que trapacearam o mundo. Calma senhores, não é bem assim! Quantos de nós nos locupletamos utilizando as vantagens oferecidas pelo sistema financeiro para fazer nosso dinheiro “crescer”? O que investimos em papéis, mesmo que sejam os restos de um minguado salário, obedece à mesma lógica do mega-investidor de bilhões de dólares. Essa lógica, que é a lógica do capital de fazer mais dinheiro, fictício ou não, se estabelece na sociedade capitalista independente das vontades mais poderosas. O discurso, culpando a especulação financeira pelos sofrimentos do “bom capital produtivo” é demagógico, pois, apesar de toda reclamação continuam pondo trilhões de dólares no sistema colapsado. É perigoso, pois desvia a atenção dos motivos reais da crise e elege setores da sociedade como bode expiatório de uma lógica cega e destrutiva, sem nenhum átomo de crítica.
Nas crises do capitalismo, em particular essa pela sua dimensão global e pela dificuldade de se enxergar no horizonte saídas, onde se destrói sem piedade capitais e milhões de empregos, pondo em risco a sobrevivência de parte da população do planeta, traz à tona não só o medo, mas o que há de pior gerado no cotidiano barbarizado e recalcado em tempos “normais”. Os acenos dos governos ao protecionismo refletem a incapacidade de gerenciarem a crise, mas também as pressões daqueles que ao verem seus empregos ameaçados, buscam no outro o motivo de sua miséria. O conflito se estabelece não só com o outro de fora, mas também com o outro de dentro, o imigrante. E o outro de dentro já não é só mais o imigrante dos continentes distantes: África, Ásia, América Latina, esse há muito saco de pancada dos grupos e partidos de direita de conotação racista e fascista. O outro de dentro é o próprio europeu do leste, mesmo aqueles dos países que fazem parte da União Européia.
A crise ainda não mostrou sua verdadeira face, mas as notícias do ressentimento de trabalhadores da Europa Ocidental contra os que ocupam postos de trabalho por uma mísera remuneração são cada vez mais evidentes. É como fossem estes os culpados pela destruição de empregos e precarização do trabalho e não a busca incessante do capital por maior rentabilidade. O aumento da intolerância dos governos com os imigrantes é o outro lado da moeda. Aonde se assume mais abertamente a repressão ao imigrante, como na Itália de Berlusconi, são os primeiros sinais do que está por vir com o agravamento da situação. Acusar os imigrantes e outros grupos minoritários pela crise do trabalho e pela insegurança na sociedade, é uma estratégia nada desprezível para se ganhar o apoio das massas ameaçadas pelo desemprego ou já desempregada, deixando incólume o capitalismo de uma crítica mais categorial. O alimentado medo do terrorismo completa o cerco que se fecha na Europa contra extrangeiros e filhos destes já há muito estabelecidos.
Nesse caldo de cultura, a generalização da violência de grupos nacionalista, racistas e protofacistas, hoje esporádica, é uma possibilidade, como também o crescimento dos partidos de direita xenófobos, que com seus discursos belicosos e simplistas aumentam as tensões contra os de “fora”, acusando-os de invadir a sociedade ocidental com mercadorias baratas, principalmente a tão parcamente remunerada força de trabalho, ameaçando os sagrados empregos do homem branco ocidental. Corre ainda nesse rio caudaloso, pronto a se tingir de vermelho, um antissemitismo surdo e rancoroso, nunca totalmente extirpado da sociedade européia, principalmente nesse momento em que no capital financeiro são depositadas todas as mazelas da crise global do capitalismo. Nos momentos mais destrutivos da crise, a guerra interna e externa, como forma extrema da política na sociedade burguesa, é sempre uma solução, regressiva, mas racionalmente planejada.
15.02.2009
sexta-feira, dezembro 26, 2008
A economia nos tempos de crise do valor
Rall
Os fatos sucedem-se. Dessa vez acerta no coração da Wall Street. Seu algoz, o mais respeitado de todos: Bernard Madoff. Cinqüenta bilhões de dólares evaporam-se num passe de mágica e mesmo assim não deixa tão rico seu fraudador. Envolvidos nessas perdas não estão investidores desinformados, mas grandes financistas, investidores institucionais, profundos conhecedores do mercado de papéis e entusiastas de obscuras aplicações. São eles que captam dinheiro de desavisados ou não, ávidos por ganhos fáceis, e repassam aos Madoff para multiplicação. Os rituais milagrosos nos terreiros dos Maldoff, das Eron e tantos outros que haverão de se sucederem, é a história do capitalismo dos anos 80 para cá, do capital fictício simulando a acumulação.
Foi à forma que o capitalismo e seus agentes encontraram para acobertar a crise da chamada “economia real”, que com a crise do valor há muito já não é mais rentável. A expansão da atividade econômica e o lucro presumível das empresas só foram possíveis nos últimos 25 anos com o jogo financeiro. Nesse período, no decorrer dos anos, torna-se cada vez mais difícil a produção vantajosa de mercadorias descolada dos investimentos no mercado de papéis. Hoje, em todo mundo, é raro encontrar-se uma empresa não associada a um banco ou financeira, que lhe garantam o crédito fácil e o rateio do “lucro” das aplicações.
A fusão da atividade produtiva com a financeira, que no jargão dos tempos virou indústria, passa a ser total. A atividade empresarial transforma-se em apêndice da “indústria financeira” e passa a depender desesperadamente dos movimentos especulativos dessa para ser “rentável”. Os chamados ativos reais, geralmente associados a bens materiais ou imateriais, são lastros virtuais do capital fictício, e só existem enquanto valor na ficção contábil como mostra o estouro da bolha imobiliária. O tempo de trabalho socialmente necessário torna-se obsoleto como medida do valor, apesar de nas mercadorias ainda encontrar-se vestígios do trabalho abstrato.
Como crêem sair da crise?
O que se delineia não resolve o problema da não coincidência entre produção e consumo. As medidas articuladas para se contrapor a depressão podem alimentar novas bolhas. Nessa empreitada os governos assumiram a dianteira: baixam juros e jogam dinheiro à rodo no mercado, impressos nas casas da moeda, para compensar o capital que queima e as cinzas se espalham sem deixar rastros. Não obstante os tão em voga discursos demagógicos contra os especuladores, era esse capital evaporado, antes cobiçado e agora criticado, que sustentava o crédito fácil, alimentava o consumo desmedido e financiava governos. Sem ele, a atividade econômica é deprimida, o consumo e os investimentos param, e a deflação bate à porta assustando a todos.
O dinheiro fartamente distribuído pelos tesouros e bancos centrais, não passa de papel impresso sem nenhuma substância de valor, é capital fictício que se num primeiro momento estancar a deflação, pode mais na frente fazer explodir a inflação, mesmo considerando-se os mecanismos de contenção da expansão monetária que dispõe os bancos centrais. Portanto, as intervenções estatais estão longe de mudar a trajetória da crise. Podem até aliviar os sintomas, mas não cura o paciente moribundo.
Por outro lado, a esquerda tradicional, solapada pelas iniciativas da direita, se conforma em pintar com corres menos vivas os pacotes de interesse do capital. Aplaudem as medidas como o fim do neoliberalismo e clamam por um retorno ao bom capitalismo produtivo, livre da especulação financeira e regulado pelo Estado. Não é capaz de enxergar que é na produção de mercadorias que está o problema, que todo esse imbróglio financeiro surgiu como forma de empurrar para frente o trem capitalista emperrado pela baixa rentabilidade como resultado da desvalorização do valor. Avivada pela crise, a concorrência global busca novos mercados e uma maior produtividade, aprofundando a revolução tecnológica em todos os níveis da sociedade. Aumentam-se os investimentos na concentração dos meios de produção, intensificam-se as dispensas da força de trabalho, que motiva a queda da taxa de lucro realimentando a crise.
26.12.2008
Os fatos sucedem-se. Dessa vez acerta no coração da Wall Street. Seu algoz, o mais respeitado de todos: Bernard Madoff. Cinqüenta bilhões de dólares evaporam-se num passe de mágica e mesmo assim não deixa tão rico seu fraudador. Envolvidos nessas perdas não estão investidores desinformados, mas grandes financistas, investidores institucionais, profundos conhecedores do mercado de papéis e entusiastas de obscuras aplicações. São eles que captam dinheiro de desavisados ou não, ávidos por ganhos fáceis, e repassam aos Madoff para multiplicação. Os rituais milagrosos nos terreiros dos Maldoff, das Eron e tantos outros que haverão de se sucederem, é a história do capitalismo dos anos 80 para cá, do capital fictício simulando a acumulação.
Foi à forma que o capitalismo e seus agentes encontraram para acobertar a crise da chamada “economia real”, que com a crise do valor há muito já não é mais rentável. A expansão da atividade econômica e o lucro presumível das empresas só foram possíveis nos últimos 25 anos com o jogo financeiro. Nesse período, no decorrer dos anos, torna-se cada vez mais difícil a produção vantajosa de mercadorias descolada dos investimentos no mercado de papéis. Hoje, em todo mundo, é raro encontrar-se uma empresa não associada a um banco ou financeira, que lhe garantam o crédito fácil e o rateio do “lucro” das aplicações.
A fusão da atividade produtiva com a financeira, que no jargão dos tempos virou indústria, passa a ser total. A atividade empresarial transforma-se em apêndice da “indústria financeira” e passa a depender desesperadamente dos movimentos especulativos dessa para ser “rentável”. Os chamados ativos reais, geralmente associados a bens materiais ou imateriais, são lastros virtuais do capital fictício, e só existem enquanto valor na ficção contábil como mostra o estouro da bolha imobiliária. O tempo de trabalho socialmente necessário torna-se obsoleto como medida do valor, apesar de nas mercadorias ainda encontrar-se vestígios do trabalho abstrato.
Como crêem sair da crise?
O que se delineia não resolve o problema da não coincidência entre produção e consumo. As medidas articuladas para se contrapor a depressão podem alimentar novas bolhas. Nessa empreitada os governos assumiram a dianteira: baixam juros e jogam dinheiro à rodo no mercado, impressos nas casas da moeda, para compensar o capital que queima e as cinzas se espalham sem deixar rastros. Não obstante os tão em voga discursos demagógicos contra os especuladores, era esse capital evaporado, antes cobiçado e agora criticado, que sustentava o crédito fácil, alimentava o consumo desmedido e financiava governos. Sem ele, a atividade econômica é deprimida, o consumo e os investimentos param, e a deflação bate à porta assustando a todos.
O dinheiro fartamente distribuído pelos tesouros e bancos centrais, não passa de papel impresso sem nenhuma substância de valor, é capital fictício que se num primeiro momento estancar a deflação, pode mais na frente fazer explodir a inflação, mesmo considerando-se os mecanismos de contenção da expansão monetária que dispõe os bancos centrais. Portanto, as intervenções estatais estão longe de mudar a trajetória da crise. Podem até aliviar os sintomas, mas não cura o paciente moribundo.
Por outro lado, a esquerda tradicional, solapada pelas iniciativas da direita, se conforma em pintar com corres menos vivas os pacotes de interesse do capital. Aplaudem as medidas como o fim do neoliberalismo e clamam por um retorno ao bom capitalismo produtivo, livre da especulação financeira e regulado pelo Estado. Não é capaz de enxergar que é na produção de mercadorias que está o problema, que todo esse imbróglio financeiro surgiu como forma de empurrar para frente o trem capitalista emperrado pela baixa rentabilidade como resultado da desvalorização do valor. Avivada pela crise, a concorrência global busca novos mercados e uma maior produtividade, aprofundando a revolução tecnológica em todos os níveis da sociedade. Aumentam-se os investimentos na concentração dos meios de produção, intensificam-se as dispensas da força de trabalho, que motiva a queda da taxa de lucro realimentando a crise.
26.12.2008
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