Rall
Quem não assistiu na mostra Inlad Empire (Império dos Sonhos) de David Lynch corra aos cinemas quando entrar em circuito comercial. Muitos vão ter vontade de sair no meio da sessão ou vão agüentar firme três horas de projeção como se estivesse olhando a vida através de um espelho com lentes de aumento. Fantasia e realidade fundem-se num todo de contornos indefinidos, sem dar direito ao espectador um fio condutor que lhe permita sair do labirinto em que se meteu ao espiar a imagem espelhada de um mundo esquizofrênico.
David Lynch talvez não saiba, mas parodia, entre tantas coisas, as agruras da vida econômica, onde a ficção vira de pernas pro ar a realidade e resolve ela mesma ser o real. Não é à toa que só se fala num mercado que compra papéis, gera novos papéis e vende papéis, num galopante movimento circular de criação de “riqueza fictícia”, uma abstração da abstração.
Quando a economia real é mencionada, parece uma tentativa de se restabelecer a convicção de que alguma coisa palpável ainda existe. Mas, mesmo quando o produto não é papel, ou um arremedo contábil que nada representa, o valor-de-uso, enquanto veículo do valor-de-troca, não tem nenhum valor enquanto objeto sensível se não for capaz de se transformar em riqueza abstrata no mundo das mercadorias.
Na atual sociedade capitalista a utilidade dos objetos já não conta mais ou conta muito pouco, inclusive o trabalho enquanto mercadoria especial capaz de produzir mais-valor. Resulta daí uma engrenagem movida por sujeitos “automáticos” que se por um lado avança destruindo rapidamente a natureza, por outro já não separa mais o lixo tóxico de produtos consumíveis. Tudo pode, não importa quantos morram e quanto de veneno será jogado no meio, desde que o produto final seja uma mercadoria que pintada pela propaganda e marketing com cores para todos os gostos, disfarça seu desejo mórbido ao abraçar o encantado consumidor, transformando-se em dinheiro.
As coisas tornam-se mais absurdas nos mercados de papéis. Uma transação que se iniciou com um ativo-objeto, por exemplo, o financiamento de uma casa que gerou uma hipoteca, pode “derivar” dessa transação uma série de “produtos” financeiros numa infindável cadeia de geração de dinheiro fictício sem nenhum controle, que só se sabe onde se iniciou, mas não onde termina. No pouco tempo em que a economia global opera com derivativos, o dinheiro fictício aí produzido já corresponde a oito vezes o valor do PIB mundial.
Se considerarmos as outras operações nas bolsas de valores, de mercadoria e futuro, no comércio internacional, na especulação imobiliária, nas mais variadas operações de crédito, nas dívidas públicas e privadas onde a cada instante geram-se milhões em dinheiro fictício, é impossível calcular o montante dessa “riqueza” sem substância. Uma aproximada avaliação só acontece, quando nas grandes crises, violentas contrações dessa aparente riqueza expõem a materialidade da economia real que ela esconde. Daí a dificuldade de se avaliar o tamanho da crise imobiliária americana, e seu impacto ao redor do mundo, enquanto todo processo não se completa.
Os problemas que se avolumam, a perplexidade das autoridades financeiras e dos analistas de plantão mostram que a crise só começou, e que os bilhões de dólares (fala-se em aproximadamente um trilhão) posto pelos bancos centrais dos países “desenvolvidos” no mercado para salvar grandes empresas financeiras do colapso, não mudam o curso, no máximo retarda do desfecho final. A tênue linha divisória entre a realidade sensível e a “abstração real” (Marx) do mundo das mercadorias, que se apaga no filme de David Lynch e nos processos sociais fetichisados, pode, nesses momentos, se vislumbrada, renovar a esperança de que a realidade esquizofrênica que nos domina e violenta possa ser superada.
22.11.2007
quinta-feira, novembro 22, 2007
domingo, novembro 04, 2007
O leite mijo de vaca e a lógica do capital
Rall
Já não basta aumentar o volume de leite com água contaminada como se sabia. Para não azedar rápido, a fórmula do químico consultor de grupos multinacionais inclusive, exige soda cáustica e água oxigenada. Acrescenta-se ainda a branca natureza do precioso líquido soro cultura-de-bactéria, refugo da produção de queijos, e mijo de vaca para realçar o sabor. Eis o leite oferecido pelo mercado em fina sintonia com refinados paladares.
As ridículas declarações da ANVISA (agência reguladora da vigilância sanitária), de que soda cáustica e água oxigenada quando ingeridas no leite não prejudica a saúde, dirigidas para amainar o escândalo e acalmar os consumidores, satisfazem a devida mistura dos interesses econômicos. Mistura que é só a ponta do iceberg da lógica absurda da sociedade capitalista, que pouco importa o que se produz e como se produz, desde que produto final seja uma mercadoria.
Que diferença faz se um país vende armas que alimenta a criminalidade e as guerras fratricidas ou vende produtos orgânicos com selos verdes acenando para o consumidor? Ambos são mercadorias que nas transações permutam-se e no final garantem um acréscimo, um lucro, ou seja, a “valorização do valor” como afirmava Marx. Por isso as empresas de um mesmo país que vendem produtos orgânicos porque tem um mercado à espera, vendem também armas para os extermínios e disseminação da violência com a certeza de que estão fazendo um grande negócio.
A fórmula simples de Marx, D-M-D’ (dinheiro-mercadoria-mais dinheiro), expressa a essência da sociedade capitalista: fazer dinheiro, não importa se os meios para atingir esse fim possam levar a morte de pessoas e a destruição do planeta. É claro que a pressão social faz com que o impulso de fazer dinheiro seja mais liberado ou mais contido nas sociedades produtoras de mercadorias. Mas está aí, presente nas relações sociais. O “espírito animal” (coitado dos bichos), como assim define um certo ministro a louca corrida pelo dinheiro imanente ao capitalismo, invade e domina a todos.
O impulso destrutivo, que se aloja nos mais recônditos do inconsciente na socialização dos sujeitos e move o ser rentável em sua missão terrena, é fruto de relações sociais reais fetichizadas que dominam os homens e só permitem que estes se movam automaticamente dentro das fronteiras pré-estabelecidas pela lógica do capital. Manifesta toda sua potência nos momentos de crise, quando se acentua a concorrência e o sistema torna-se mais irracional, produzindo alimentos que matam, brinquedos que envenenam crianças, remédios que não curam e todo tipo de violência de grupos e institucional.
Os gritos de guerra do nazismo, “pátria ou morte”, ou do capitalismo de Estado que pode ser tão brutal quanto o laissez-faire, “socialismo ou morte”, são ecos de ruídos produzidos por aqueles que com gosto de sangue na boca e sede de poder, movimentam-se nos limites que lhes impõem o capital. É preciso pensar para além da sociedade produtora de mercadorias para sair da crise.
04.11.2007
Já não basta aumentar o volume de leite com água contaminada como se sabia. Para não azedar rápido, a fórmula do químico consultor de grupos multinacionais inclusive, exige soda cáustica e água oxigenada. Acrescenta-se ainda a branca natureza do precioso líquido soro cultura-de-bactéria, refugo da produção de queijos, e mijo de vaca para realçar o sabor. Eis o leite oferecido pelo mercado em fina sintonia com refinados paladares.
As ridículas declarações da ANVISA (agência reguladora da vigilância sanitária), de que soda cáustica e água oxigenada quando ingeridas no leite não prejudica a saúde, dirigidas para amainar o escândalo e acalmar os consumidores, satisfazem a devida mistura dos interesses econômicos. Mistura que é só a ponta do iceberg da lógica absurda da sociedade capitalista, que pouco importa o que se produz e como se produz, desde que produto final seja uma mercadoria.
Que diferença faz se um país vende armas que alimenta a criminalidade e as guerras fratricidas ou vende produtos orgânicos com selos verdes acenando para o consumidor? Ambos são mercadorias que nas transações permutam-se e no final garantem um acréscimo, um lucro, ou seja, a “valorização do valor” como afirmava Marx. Por isso as empresas de um mesmo país que vendem produtos orgânicos porque tem um mercado à espera, vendem também armas para os extermínios e disseminação da violência com a certeza de que estão fazendo um grande negócio.
A fórmula simples de Marx, D-M-D’ (dinheiro-mercadoria-mais dinheiro), expressa a essência da sociedade capitalista: fazer dinheiro, não importa se os meios para atingir esse fim possam levar a morte de pessoas e a destruição do planeta. É claro que a pressão social faz com que o impulso de fazer dinheiro seja mais liberado ou mais contido nas sociedades produtoras de mercadorias. Mas está aí, presente nas relações sociais. O “espírito animal” (coitado dos bichos), como assim define um certo ministro a louca corrida pelo dinheiro imanente ao capitalismo, invade e domina a todos.
O impulso destrutivo, que se aloja nos mais recônditos do inconsciente na socialização dos sujeitos e move o ser rentável em sua missão terrena, é fruto de relações sociais reais fetichizadas que dominam os homens e só permitem que estes se movam automaticamente dentro das fronteiras pré-estabelecidas pela lógica do capital. Manifesta toda sua potência nos momentos de crise, quando se acentua a concorrência e o sistema torna-se mais irracional, produzindo alimentos que matam, brinquedos que envenenam crianças, remédios que não curam e todo tipo de violência de grupos e institucional.
Os gritos de guerra do nazismo, “pátria ou morte”, ou do capitalismo de Estado que pode ser tão brutal quanto o laissez-faire, “socialismo ou morte”, são ecos de ruídos produzidos por aqueles que com gosto de sangue na boca e sede de poder, movimentam-se nos limites que lhes impõem o capital. É preciso pensar para além da sociedade produtora de mercadorias para sair da crise.
04.11.2007
sexta-feira, setembro 28, 2007
A falência da política e o mito do homem público
Rall
Num certo dia, nas minhas poucas relações com a televisão, entrei num desses canais pagos e me deparei com uma entrevista do ex-Ministro da Cultura de Jacques Chirac (se não me falha a memória Jean-Jacques Aillagon), que sinceramente dizia que noventa e nove por cento de sua atividade à frente do Ministério da Cultura da França era dedicada a relações públicas e um por cento a algum tipo de realização. Afirmara ainda que isso não era diferente nos outros Ministérios, e que a grande preocupação de seus assessores era com a entrevista marcada para tal jornal ou revista, com a visita programada a alguma instituição e a abertura de um determinado evento. Acreditava ser mais útil aos franceses escrevendo livros. Talvez não soubesse, mas estava ele revelando, de forma espontânea, a falta de respostas da política para questões atuais. E se olhado com uma lupa, esse um por cento da “capacidade empreendedora” de seu ministério não passa de adaptações às exigências do capital.
A fala do referido ministro lembrou-me as funções das agências reguladoras e para quem “regulam” o mercado. As exigências das empresas de criação dessas agências, autônomas em relação ao Estado, para que possam investir com segurança, mostra a serviço de quem são constituídas. O recente acidente da TAM e os escândalos que se seguiram denunciando a estreita colaboração entre os diretores dessa agência e os interesses das empresas de aviação, pondo em risco a vida dos passageiros pelo que se deduz do vasto noticiário, é só a ponta do iceberg dessa intricada relação. Quando analisamos a conduta de outras agências veremos que essa é a norma. Não é necessário ir muito longe, basta analisar aquela que é responsável por um dos custos que mais severamente atinge o bolso de vastas camadas da população e que quando mais precisa é expulsa do sistema pelos preços das mensalidades: a agência que regula os planos de saúde. Veremos que elas estão aí para arbitrar a favor do capital nas incertezas do mercado, sem ouvido para consumidores angustiados que não tem com quem reclamar.
A atuação dos órgãos reguladores criados pelo Estado e a defesa que deles fazem os representantes do capital, com ameaças de não investir na ausência de “marcos regulatórios” que garantam bons retornos e pouco riscos, mostra a impossibilidade de se separar as políticas públicas do interesses privados, apesar dos discursos contrários e da gradação encontrada nos países de diferentes culturas. É daí, da incapacidade de se definir fronteiras entre o público e o privado, que aflora a corrupção crônica atingindo todos segmentos e que se intensifica na medida em que separação formal entre o capital e o Estado tende a se dissipar, mostrando-se, capital e Estado, como faces de uma mesma moeda. O homem público burguês é cada vez mais privado nas suas ações, evidenciado-se seus interesses particulares. Se a nível material essa separação nunca existiu na sociedade burguesa, também no nível formal já não é mais possível manter as aparências, jogando por terra o mito do homem público e a impossibilidade de uma ética na política. Torna-se, portanto, vazio o discurso aparentemente moralista da grande imprensa e de políticos da oposição contra os seus pares, já que todos se movem impulsionados por uma mesma lógica.
A sucessão de casos de corrupção, cada vez mais difícil de serem contidos por regras morais abstratas, se aumenta o niilismo na sociedade, deixa os meios de comunicação furiosos ao verem a imagem forjada dos políticos “honestos” e das instituições que representam se desfazer a cada escândalo como bolhas de sabão em um dia ensolarado. É preciso manter as aparências, da qual faz parte o espetáculo midiático, de que a política ainda funciona, como é preciso que a economia de bolhas mantenha-se inflada, com o dinheiro vazio de substância multiplicando-se sem controle, abençoado pelos setores regulatórios, aparentando que tudo vai muito bem com a acumulação do capital. Os níveis de corrupção que atingem o Estado e as corporações privadas em todo mundo caminham de mãos dadas nas sombrias vielas onde se forja o capital fictício. É impossível, a despeito do desejo de alguns, separar uma coisa da outra, pois ambas são facetas de um mesmo engodo real sobre o qual não se tem controle.
28.09.2007
Num certo dia, nas minhas poucas relações com a televisão, entrei num desses canais pagos e me deparei com uma entrevista do ex-Ministro da Cultura de Jacques Chirac (se não me falha a memória Jean-Jacques Aillagon), que sinceramente dizia que noventa e nove por cento de sua atividade à frente do Ministério da Cultura da França era dedicada a relações públicas e um por cento a algum tipo de realização. Afirmara ainda que isso não era diferente nos outros Ministérios, e que a grande preocupação de seus assessores era com a entrevista marcada para tal jornal ou revista, com a visita programada a alguma instituição e a abertura de um determinado evento. Acreditava ser mais útil aos franceses escrevendo livros. Talvez não soubesse, mas estava ele revelando, de forma espontânea, a falta de respostas da política para questões atuais. E se olhado com uma lupa, esse um por cento da “capacidade empreendedora” de seu ministério não passa de adaptações às exigências do capital.
A fala do referido ministro lembrou-me as funções das agências reguladoras e para quem “regulam” o mercado. As exigências das empresas de criação dessas agências, autônomas em relação ao Estado, para que possam investir com segurança, mostra a serviço de quem são constituídas. O recente acidente da TAM e os escândalos que se seguiram denunciando a estreita colaboração entre os diretores dessa agência e os interesses das empresas de aviação, pondo em risco a vida dos passageiros pelo que se deduz do vasto noticiário, é só a ponta do iceberg dessa intricada relação. Quando analisamos a conduta de outras agências veremos que essa é a norma. Não é necessário ir muito longe, basta analisar aquela que é responsável por um dos custos que mais severamente atinge o bolso de vastas camadas da população e que quando mais precisa é expulsa do sistema pelos preços das mensalidades: a agência que regula os planos de saúde. Veremos que elas estão aí para arbitrar a favor do capital nas incertezas do mercado, sem ouvido para consumidores angustiados que não tem com quem reclamar.
A atuação dos órgãos reguladores criados pelo Estado e a defesa que deles fazem os representantes do capital, com ameaças de não investir na ausência de “marcos regulatórios” que garantam bons retornos e pouco riscos, mostra a impossibilidade de se separar as políticas públicas do interesses privados, apesar dos discursos contrários e da gradação encontrada nos países de diferentes culturas. É daí, da incapacidade de se definir fronteiras entre o público e o privado, que aflora a corrupção crônica atingindo todos segmentos e que se intensifica na medida em que separação formal entre o capital e o Estado tende a se dissipar, mostrando-se, capital e Estado, como faces de uma mesma moeda. O homem público burguês é cada vez mais privado nas suas ações, evidenciado-se seus interesses particulares. Se a nível material essa separação nunca existiu na sociedade burguesa, também no nível formal já não é mais possível manter as aparências, jogando por terra o mito do homem público e a impossibilidade de uma ética na política. Torna-se, portanto, vazio o discurso aparentemente moralista da grande imprensa e de políticos da oposição contra os seus pares, já que todos se movem impulsionados por uma mesma lógica.
A sucessão de casos de corrupção, cada vez mais difícil de serem contidos por regras morais abstratas, se aumenta o niilismo na sociedade, deixa os meios de comunicação furiosos ao verem a imagem forjada dos políticos “honestos” e das instituições que representam se desfazer a cada escândalo como bolhas de sabão em um dia ensolarado. É preciso manter as aparências, da qual faz parte o espetáculo midiático, de que a política ainda funciona, como é preciso que a economia de bolhas mantenha-se inflada, com o dinheiro vazio de substância multiplicando-se sem controle, abençoado pelos setores regulatórios, aparentando que tudo vai muito bem com a acumulação do capital. Os níveis de corrupção que atingem o Estado e as corporações privadas em todo mundo caminham de mãos dadas nas sombrias vielas onde se forja o capital fictício. É impossível, a despeito do desejo de alguns, separar uma coisa da outra, pois ambas são facetas de um mesmo engodo real sobre o qual não se tem controle.
28.09.2007
domingo, setembro 09, 2007
O Brasil está imune à crise?
Rall
O Governo tem se esforçado na busca de convencer os mercados, que estamos imunes à crise que se iniciou no setor imobiliário americano e se alastra para economia mundial, através da fala de seus ministros e do próprio Presidente Lula. Seria verdade se vivêssemos numa redoma, com uma economia isolada e auto-suficiente, estruturada à Robinson Crusoé, sem tomar conhecimento do mundo exterior. Mas essa não é a realidade, estamos mais inseridos (e só assim podemos sobreviver como país capitalista) a economia mundial do que expressa a fala das autoridades. Hoje, o espirro americano, a diarréia asiática ou a cefaléia da zona do euro, atingem os mais recônditos países, por insignificante que sejam, pois as doenças são sistêmicas numa economia globalizada, já não se autolimitam, mesmo que sejam na ponta do pé de algumas dessas regiões.
O discurso de que uma recessão nos EEUU, epicentro dos atuais abalos, não atingiria o restante do mundo, muita vezes defendido também por analistas da grande mídia, ou é hipócrita na busca de acalmar o mercado financeiro dando tempo para o reposicionamento de grupos, ou não se estar entendendo a seriedade do momento. Fala-se da China e de outros países em desenvolvimento, inclusive do Brasil, como contraponto à recessão mundial. Ora, talvez seja a China o país que mais sinta com a redução da atividade econômica americana. Vale lembrar que o grosso da produção chinesa para exportação destina-se a esse mercado. Os países asiáticos, com a China e o Japão à frente, formam o maior circuito deficitário de todos os tempos nas relações comerciais com os EEUU, tendo este como sorvedouro das mercadorias aí produzidas.
A contração das atividades econômicas provavelmente reduzirá as importações para USA e deve pressionar no sentido de reequilibrar a balança comercial deficitária, principalmente nos negócios com a China. Isso pode atingir em cheio a produção desse país, que não tem condições de ser absorvida pelo mercado interno ou pela ampliação do mercado com outras nações. A inibição das atividades econômicas na América e na China é o suficiente para impactar negativamente nos preços e nas exportações das commodities, com exceção talvez do petróleo pela escassez do produto e por se encontrar sua extração em zonas de conflitos. Mas não fica por aí: na crise sistêmica, Europa e demais países asiáticos serão atingidos, agravando mais ainda a situação dos exportadores de matéria prima ou de produtos semi-acabados como o Brasil.
Mesmo sem a crise mostrar toda sua força destrutiva, contornada provisoriamente pelas medidas tomadas pelos bancos centrais do mundo rico que injetam todos os dias bilhões de dólares para garantir liquidez, a volatilidade das bolsas com tendência de queda já dificulta os projetos de ampliação da produção de empresas que viam aí a forma adequada de captar recursos para novos investimentos no Brasil. Se considerarmos a probabilidade de numa economia globalizada os bancos nacionais ou os que aqui atuam, por mais que neguem, dificilmente deixarão de ter em suas carteiras derivativos lastreados em papeis da indústria imobiliária da América do Norte, a expansão do crédito que vem ajudando a sustentar o consumo interno pode sofrer um revés. Os sinais de uma possível freada na queda das taxas de juros e a pressão de alguns grandes bancos nacionais nesse sentido podem ser um indicativo das dificuldades que estão por vir.
Uma redução das transações comerciais no circuito deficitário asiático significa um aumento da competitividade internacional com queda nos preços das mercadorias. O Brasil, além do risco de redução das exportações de commodities que sustentam o saldo da balança comercial, vai ter quer lidar no mercado interno e externo com a invasão de mercadorias vindas da China e da Índia principalmente, que não encontrando destino nos tradicionais mercados importadores tomarão outros rumos. Com a produtividade em queda quando comparado com outros países, dificilmente setores da indústria tupiniquim suportarão mais esse embate. Pode-se estar pensando num rearranjo do câmbio, desvalorizando o real. Num primeiro momento, com a fuga de capitais de curto prazo isso é verdadeiro. Não esqueçamos, porém, que a trajetória de queda do dólar em relação às outras moedas que vem acontecendo em função dos desajustes na balança comercial americana, tende a acelerar se houver um aprofundamento da crise, restabelecendo a valorização do real.
Esse momento deve abrir espaço para atuação mais agressiva dos fundos "soberanos", com aquisições hostis ou não de ações de empresas em dificuldades financeiras. Os fundos private equity e os hedge funds como estão intimamente ligados ao sistema bancário e ao crédito farto e barato, podem ter problemas a curto prazo. Não é à toa que o mercado de fusões e aquisições de firmas, bancado pelos private equitys, que vinha motivando as altas nas bolsas em todo mundo, encontra-se praticamente parado. Quanto aos fundos “soberanos”, na verdade fundos estatais de países superavitários, carregados com trilhões de dólares, encontram-se prontos para aportar onde for possível qualquer rentabilidade ou em áreas estratégicas da economia mundial.
A resistência dos governos dos países capitalistas avançados aos fundos “soberanos”, com medo que por trás existam estratégias de dominação das riquezas do globo, só vai até o primeiro ato. Se as empresas ocidentais pedirem água, as portas abrem-se para os intrusos regata-las, mesmo sabendo-se dos riscos futuros. Talvez esteja aí germinando a nova bolha da salvação tão procurada para animar a ficção econômica, já que “não há muito a fazer contra a propensão humana a criar bolhas”, como diz Greenspan ex-presidente do FED. Para homens do mercado seria mais correto dizer que não há muito a fazer senão rezar para que novas bolhas ventilem o corpo insepulto de uma economia que não mais valoriza o valor.
09.09.2007
O Governo tem se esforçado na busca de convencer os mercados, que estamos imunes à crise que se iniciou no setor imobiliário americano e se alastra para economia mundial, através da fala de seus ministros e do próprio Presidente Lula. Seria verdade se vivêssemos numa redoma, com uma economia isolada e auto-suficiente, estruturada à Robinson Crusoé, sem tomar conhecimento do mundo exterior. Mas essa não é a realidade, estamos mais inseridos (e só assim podemos sobreviver como país capitalista) a economia mundial do que expressa a fala das autoridades. Hoje, o espirro americano, a diarréia asiática ou a cefaléia da zona do euro, atingem os mais recônditos países, por insignificante que sejam, pois as doenças são sistêmicas numa economia globalizada, já não se autolimitam, mesmo que sejam na ponta do pé de algumas dessas regiões.
O discurso de que uma recessão nos EEUU, epicentro dos atuais abalos, não atingiria o restante do mundo, muita vezes defendido também por analistas da grande mídia, ou é hipócrita na busca de acalmar o mercado financeiro dando tempo para o reposicionamento de grupos, ou não se estar entendendo a seriedade do momento. Fala-se da China e de outros países em desenvolvimento, inclusive do Brasil, como contraponto à recessão mundial. Ora, talvez seja a China o país que mais sinta com a redução da atividade econômica americana. Vale lembrar que o grosso da produção chinesa para exportação destina-se a esse mercado. Os países asiáticos, com a China e o Japão à frente, formam o maior circuito deficitário de todos os tempos nas relações comerciais com os EEUU, tendo este como sorvedouro das mercadorias aí produzidas.
A contração das atividades econômicas provavelmente reduzirá as importações para USA e deve pressionar no sentido de reequilibrar a balança comercial deficitária, principalmente nos negócios com a China. Isso pode atingir em cheio a produção desse país, que não tem condições de ser absorvida pelo mercado interno ou pela ampliação do mercado com outras nações. A inibição das atividades econômicas na América e na China é o suficiente para impactar negativamente nos preços e nas exportações das commodities, com exceção talvez do petróleo pela escassez do produto e por se encontrar sua extração em zonas de conflitos. Mas não fica por aí: na crise sistêmica, Europa e demais países asiáticos serão atingidos, agravando mais ainda a situação dos exportadores de matéria prima ou de produtos semi-acabados como o Brasil.
Mesmo sem a crise mostrar toda sua força destrutiva, contornada provisoriamente pelas medidas tomadas pelos bancos centrais do mundo rico que injetam todos os dias bilhões de dólares para garantir liquidez, a volatilidade das bolsas com tendência de queda já dificulta os projetos de ampliação da produção de empresas que viam aí a forma adequada de captar recursos para novos investimentos no Brasil. Se considerarmos a probabilidade de numa economia globalizada os bancos nacionais ou os que aqui atuam, por mais que neguem, dificilmente deixarão de ter em suas carteiras derivativos lastreados em papeis da indústria imobiliária da América do Norte, a expansão do crédito que vem ajudando a sustentar o consumo interno pode sofrer um revés. Os sinais de uma possível freada na queda das taxas de juros e a pressão de alguns grandes bancos nacionais nesse sentido podem ser um indicativo das dificuldades que estão por vir.
Uma redução das transações comerciais no circuito deficitário asiático significa um aumento da competitividade internacional com queda nos preços das mercadorias. O Brasil, além do risco de redução das exportações de commodities que sustentam o saldo da balança comercial, vai ter quer lidar no mercado interno e externo com a invasão de mercadorias vindas da China e da Índia principalmente, que não encontrando destino nos tradicionais mercados importadores tomarão outros rumos. Com a produtividade em queda quando comparado com outros países, dificilmente setores da indústria tupiniquim suportarão mais esse embate. Pode-se estar pensando num rearranjo do câmbio, desvalorizando o real. Num primeiro momento, com a fuga de capitais de curto prazo isso é verdadeiro. Não esqueçamos, porém, que a trajetória de queda do dólar em relação às outras moedas que vem acontecendo em função dos desajustes na balança comercial americana, tende a acelerar se houver um aprofundamento da crise, restabelecendo a valorização do real.
Esse momento deve abrir espaço para atuação mais agressiva dos fundos "soberanos", com aquisições hostis ou não de ações de empresas em dificuldades financeiras. Os fundos private equity e os hedge funds como estão intimamente ligados ao sistema bancário e ao crédito farto e barato, podem ter problemas a curto prazo. Não é à toa que o mercado de fusões e aquisições de firmas, bancado pelos private equitys, que vinha motivando as altas nas bolsas em todo mundo, encontra-se praticamente parado. Quanto aos fundos “soberanos”, na verdade fundos estatais de países superavitários, carregados com trilhões de dólares, encontram-se prontos para aportar onde for possível qualquer rentabilidade ou em áreas estratégicas da economia mundial.
A resistência dos governos dos países capitalistas avançados aos fundos “soberanos”, com medo que por trás existam estratégias de dominação das riquezas do globo, só vai até o primeiro ato. Se as empresas ocidentais pedirem água, as portas abrem-se para os intrusos regata-las, mesmo sabendo-se dos riscos futuros. Talvez esteja aí germinando a nova bolha da salvação tão procurada para animar a ficção econômica, já que “não há muito a fazer contra a propensão humana a criar bolhas”, como diz Greenspan ex-presidente do FED. Para homens do mercado seria mais correto dizer que não há muito a fazer senão rezar para que novas bolhas ventilem o corpo insepulto de uma economia que não mais valoriza o valor.
09.09.2007
quinta-feira, agosto 16, 2007
PROCURA-SE UMA NOVA BOLHA
Rall
A crise do mercado imobiliário americano tem sido a notícia da vez na grande imprensa. Há um ar de surpresa nos analistas e ao mesmo tempo tentam transmitir a confiança de que tudo não passa de um rearranjo do setor financeiro sem grandes conseqüências para a economia real. Alguns chegam a defender como salutar tal freada, ‘uma forma de pôr a casa em ordem’ dizem, como se nada existisse no ‘ar além dos aviões de carreira’.
Para falar da crise atual temos que voltar um pouco no tempo, nos finais dos anos noventa e início do século XXI, quando estourou a bolha ponto.com, após a economia mundial ter amargado dois grandes tombos com a queda nas bolsas do Japão (1980) e do leste asiático (meados dos anos 90). As ações das empresas de informática e similares aumentavam de preço a cada pregão e arrastavam consigo a economia americana que crescia com parte do mundo. Falava-se em novo paradigma, artigos eram escritos e opiniões emitidas pelas mais respeitadas agencias de risco mostrando que esse impulso da economia tinha fundamentos sólidos e poucos eram os riscos. Sufocadas pelo otimismo geral, vozes isoladas alertavam que mais uma bolha financeiro estava preste a estourar. E estourou.
A economia americana entrou em recessão levando junto as demais. O FED e o Governo agiram rápido, inundando o mercado de dinheiro com cortes de impostos e juros quase negativos e foram ajudados pela intensificação na compra de papeis do tesouro dos EEUU pelos países superavitários do circuito deficitário asiático, principalmente China e Japão, que precisavam desse mercado para seus produtos. Em 2000, com dinheiro farto e barato, ganhou grande impulso a bolha do mercado imobiliário, que vinha se desenvolvendo desde o início dos anos noventa. Novamente a economia real pega uma carona na expansão jamais vista do capital fictício e ganha fôlego. A cada ano os indicadores econômicos mostram que novos países se acoplam ao bonde do crescimento fazendo a alegria geral. A China, e um pouco menos a Índia, são festejadas como os grandes baluartes da história, como os novos grandes consumidores das riquezas naturais do globo e agravantes da crise ecológica. O Brasil entra mais tardiamente, quando os obstáculos capazes de levar a uma freada brusca já eram visíveis.
Timidamente, instituições internacionais começam chamar atenção para algumas situações incômodas. Calcula-se que os derivativos, “operações financeiras cujo valor de negociação deriva de outros ativos, denominados de ativos-objeto”(P. Sandroni), beira a casa dos 400 trilhões enquanto o PIB mundial está em torno de 50 trilhões de dólares. E um desses ativos-objeto mais negociados no mundo são as hipotecas das casas dos cidadãos americanos, que são jogadas em fundos milagrosos, cujas cotas são oferecidas a outros cidadãos ávidos por lucro, em uma cadeia sem fim que socializa perdas e ganhos. Atentem que nesse tipo de operações (com derivativos) tem papéis diversos para comprar oito vezes as mercadorias do mundo, é o dinheiro reproduzindo-se sem contato com a produção.
Mas, como se faz tanto dinheiro desacoplado da acumulação real? Vale lembrar histórias recentes para um melhor entendimento. A bandeira do neoliberalismo, levantada nos anos oitenta, tinha como objetivo maior atacar os setores ‘improdutivos’, limpando ao máximo o trabalho não gerador de mais-valia nas empresas e no Estado, ou transformando o trabalho improdutivo necessário à acumulação do capital, em trabalho produtivo gerador de mais-valia através da terceirização. Iniciou-se aí um grande movimento de passar a terceiros setores inteiros que antes eram de responsabilidade do Estado, as famigeradas privatizações que ocorreram e ainda ocorrem no mundo inteiro. As empresas, seguindo a mesma política, passaram a entregar os serviços-meios, e logo em seguida outros setores a terceiros, que reduziram salários e aumentaram a carga horária dos funcionários terceirizados, restabelecendo a mais-valia absoluta como forma de se tornarem rentáveis.
O ataque neoliberal ao trabalho improdutivo, segundo a lógica do capital, não foi suficiente para reverter a queda da rentabilidade na economia real que tem como fundamento a crise do valor, situação que se agravava com a revolução da informática. Não só a expansão do trabalho improdutivo necessário ao desenvolvimento do capital punha em xeque a acumulação, mas as novas formas de produção e gestão, movidas pela concorrência global, que incorporam tecnologia e ciência, aumentam vertiginosamente o capital fixo e a produtividade, expulsando homens de antigos empregos. É a crise do trabalho agravando a crise do valor.
As exportações de capitais dos países desenvolvidos para países em desenvolvimento como a China, Índia e outros, em busca de uma maior rentabilidade, aumentaram a disponibilidade de mercadorias no mundo que precisam de um mercado para se realizarem. É quando o crédito se expande de forma jamais vista e o pagamento dos produtos adquiridos no mercado é transferido para um trabalho futuro que nunca acontecerá, pois a tendência do capitalismo é racionalizar e dispensar trabalho de forma crescente. Aí está a base das bolhas, que injetam dinheiro fictício no mercado e na produção (fictício por ser vazio de substância, não representar valor, trabalho abstrato), e aprisiona a economia real aos seus movimentos já que esta não consegue por ‘meios normais’, ‘valorizar o valor’(Marx).
Portanto, quanto mais se agrava a crise do valor mais necessita a economia real de capital fictício para manter a ilusão de que ainda funciona. As bolhas inflam, todavia logo desabam sob a pesada realidade, deixando expostos os frágeis fundamentos de uma economia que só respira nesse invólucro. Diferentemente da crise do mercado de ações das empresas ponto.com, parece que o estouro da bolha imobiliária tende atingir todos os setores da economia, inclusive as bolsas, numa reação em cadeia de explosão de bolhas e contração do capital fictício que pode levar o mundo a uma recessão sem precedente.
Mesmo com a injeção no mercado de bilhões de dólares pelos bancos centrais do Japão, Europa, Canadá e Estados Unidos, em uma ação coordenada para evitar a falência em massas de bancos, o que por si só já é uma prova da gravidade do problema, a instabilidade continua. A tentativa dos bancos centrais de substituir capital fictício que se evapora no mercado por capital fictício represados em seus cofres-fortes, buscando empurrar para frente o problema, mostra que não se vislumbra uma nova bolha em curto prazo para substituir as que estouram. Pode faltar o ar que aparenta oxigenar os tecidos mortos da economia real.
16.08.2007
A crise do mercado imobiliário americano tem sido a notícia da vez na grande imprensa. Há um ar de surpresa nos analistas e ao mesmo tempo tentam transmitir a confiança de que tudo não passa de um rearranjo do setor financeiro sem grandes conseqüências para a economia real. Alguns chegam a defender como salutar tal freada, ‘uma forma de pôr a casa em ordem’ dizem, como se nada existisse no ‘ar além dos aviões de carreira’.
Para falar da crise atual temos que voltar um pouco no tempo, nos finais dos anos noventa e início do século XXI, quando estourou a bolha ponto.com, após a economia mundial ter amargado dois grandes tombos com a queda nas bolsas do Japão (1980) e do leste asiático (meados dos anos 90). As ações das empresas de informática e similares aumentavam de preço a cada pregão e arrastavam consigo a economia americana que crescia com parte do mundo. Falava-se em novo paradigma, artigos eram escritos e opiniões emitidas pelas mais respeitadas agencias de risco mostrando que esse impulso da economia tinha fundamentos sólidos e poucos eram os riscos. Sufocadas pelo otimismo geral, vozes isoladas alertavam que mais uma bolha financeiro estava preste a estourar. E estourou.
A economia americana entrou em recessão levando junto as demais. O FED e o Governo agiram rápido, inundando o mercado de dinheiro com cortes de impostos e juros quase negativos e foram ajudados pela intensificação na compra de papeis do tesouro dos EEUU pelos países superavitários do circuito deficitário asiático, principalmente China e Japão, que precisavam desse mercado para seus produtos. Em 2000, com dinheiro farto e barato, ganhou grande impulso a bolha do mercado imobiliário, que vinha se desenvolvendo desde o início dos anos noventa. Novamente a economia real pega uma carona na expansão jamais vista do capital fictício e ganha fôlego. A cada ano os indicadores econômicos mostram que novos países se acoplam ao bonde do crescimento fazendo a alegria geral. A China, e um pouco menos a Índia, são festejadas como os grandes baluartes da história, como os novos grandes consumidores das riquezas naturais do globo e agravantes da crise ecológica. O Brasil entra mais tardiamente, quando os obstáculos capazes de levar a uma freada brusca já eram visíveis.
Timidamente, instituições internacionais começam chamar atenção para algumas situações incômodas. Calcula-se que os derivativos, “operações financeiras cujo valor de negociação deriva de outros ativos, denominados de ativos-objeto”(P. Sandroni), beira a casa dos 400 trilhões enquanto o PIB mundial está em torno de 50 trilhões de dólares. E um desses ativos-objeto mais negociados no mundo são as hipotecas das casas dos cidadãos americanos, que são jogadas em fundos milagrosos, cujas cotas são oferecidas a outros cidadãos ávidos por lucro, em uma cadeia sem fim que socializa perdas e ganhos. Atentem que nesse tipo de operações (com derivativos) tem papéis diversos para comprar oito vezes as mercadorias do mundo, é o dinheiro reproduzindo-se sem contato com a produção.
Mas, como se faz tanto dinheiro desacoplado da acumulação real? Vale lembrar histórias recentes para um melhor entendimento. A bandeira do neoliberalismo, levantada nos anos oitenta, tinha como objetivo maior atacar os setores ‘improdutivos’, limpando ao máximo o trabalho não gerador de mais-valia nas empresas e no Estado, ou transformando o trabalho improdutivo necessário à acumulação do capital, em trabalho produtivo gerador de mais-valia através da terceirização. Iniciou-se aí um grande movimento de passar a terceiros setores inteiros que antes eram de responsabilidade do Estado, as famigeradas privatizações que ocorreram e ainda ocorrem no mundo inteiro. As empresas, seguindo a mesma política, passaram a entregar os serviços-meios, e logo em seguida outros setores a terceiros, que reduziram salários e aumentaram a carga horária dos funcionários terceirizados, restabelecendo a mais-valia absoluta como forma de se tornarem rentáveis.
O ataque neoliberal ao trabalho improdutivo, segundo a lógica do capital, não foi suficiente para reverter a queda da rentabilidade na economia real que tem como fundamento a crise do valor, situação que se agravava com a revolução da informática. Não só a expansão do trabalho improdutivo necessário ao desenvolvimento do capital punha em xeque a acumulação, mas as novas formas de produção e gestão, movidas pela concorrência global, que incorporam tecnologia e ciência, aumentam vertiginosamente o capital fixo e a produtividade, expulsando homens de antigos empregos. É a crise do trabalho agravando a crise do valor.
As exportações de capitais dos países desenvolvidos para países em desenvolvimento como a China, Índia e outros, em busca de uma maior rentabilidade, aumentaram a disponibilidade de mercadorias no mundo que precisam de um mercado para se realizarem. É quando o crédito se expande de forma jamais vista e o pagamento dos produtos adquiridos no mercado é transferido para um trabalho futuro que nunca acontecerá, pois a tendência do capitalismo é racionalizar e dispensar trabalho de forma crescente. Aí está a base das bolhas, que injetam dinheiro fictício no mercado e na produção (fictício por ser vazio de substância, não representar valor, trabalho abstrato), e aprisiona a economia real aos seus movimentos já que esta não consegue por ‘meios normais’, ‘valorizar o valor’(Marx).
Portanto, quanto mais se agrava a crise do valor mais necessita a economia real de capital fictício para manter a ilusão de que ainda funciona. As bolhas inflam, todavia logo desabam sob a pesada realidade, deixando expostos os frágeis fundamentos de uma economia que só respira nesse invólucro. Diferentemente da crise do mercado de ações das empresas ponto.com, parece que o estouro da bolha imobiliária tende atingir todos os setores da economia, inclusive as bolsas, numa reação em cadeia de explosão de bolhas e contração do capital fictício que pode levar o mundo a uma recessão sem precedente.
Mesmo com a injeção no mercado de bilhões de dólares pelos bancos centrais do Japão, Europa, Canadá e Estados Unidos, em uma ação coordenada para evitar a falência em massas de bancos, o que por si só já é uma prova da gravidade do problema, a instabilidade continua. A tentativa dos bancos centrais de substituir capital fictício que se evapora no mercado por capital fictício represados em seus cofres-fortes, buscando empurrar para frente o problema, mostra que não se vislumbra uma nova bolha em curto prazo para substituir as que estouram. Pode faltar o ar que aparenta oxigenar os tecidos mortos da economia real.
16.08.2007
terça-feira, junho 19, 2007
A tendência da indústria brasileira
Rall
É esclarecedor os dados divulgados pelo IBGE sobre a tendência da industria brasileira que mostram que a “participação na produção total de setores mais sofisticados encolheu 16% nos últimos dez anos” (F. de S. Paulo 17.06.07). Enquanto setores industriais de média/baixa e baixa tecnologia cresceram neste período de +132,8% (fabricação de coque, refino de petróleo e combustíveis) a + 27,3% (produtos de madeira), a indústria de ponta encolheu de –11,5% (aparelhos e materiais elétricos) a – 43,0% (material e equipamentos eletrônicos), segundo o IBGE. Essa tendência, que deve se acentuar com o acirramento da concorrência a nível mundial é pior do que muitos analistas desejavam. Setores de baixa tecnologia, como calçados e têxteis, que sustentavam sua expansão com os aumentos das vendas no mercado externo as custas mais de um câmbio favorável do que da produtividade, vem sofrendo um encolhimento brutal sem perspectiva de reversão apesar das medidas do Governo ou outras que venham a ser tomadas para favorece-los.
Ora, se não se consegue competir com a indústria de ponta instalada lá fora, cuja velocidade dos avanços tecnológicos e das exigências de investimentos em capital fixo não estão ao alcance da indústria local, e se os setores de baixa e média tecnologia sofrem externa e internamente com as mercadorias baratas que inundam o mercado vindas da China e de outros países, é claro a tendência a desindustrialização a partir das empresas que não conseguem competir por incapacidade de acompanhar os investimentos necessários em capital fixo, tornando-se, portanto obsoletas, ou por não ter custos de produção similar a outros países em desenvolvimento que associam trabalho barato a extensas cargas horárias, utilizando-se do mais violento disciplinamento na produção de mais-valia absoluta sob a tutela de Estados ditatoriais. Como já vem acontecendo com a produção de calçados e têxteis, logo será a vez dos produtos metálicos, de borracha, de plástico e outros que utilizam intensivamente a força de trabalho.
A conjuntura externa aparentemente favorável e um certo espasmo de crescimento do mercado interno, que logo deve esbarrar nas condições infraestruturais responsáveis principalmente pelo fornecimento de energia e pelo escoamento dos produtos, não são suficientes, mesmo que a possibilidade de crise não estivesse nos horizontes, para reverter o quadro da desindustrialização, reflexo, em nosso caso, do capitalismo no estágio atual da terceira revolução industrial que é alimentada pelo combustível da feroz competição e pela velocidade com que ganham o mercado as inovações tecnológicas sob o domínio dos países ricos.
A situação fica mais dramática quando ao analisarmos a tendência da economia brasileira, observamos que os setores que podem permanecer vivos e com chances de crescer, são aqueles que mais trarão prejuízos às condições de vida da população rural e ao meio ambiente, como a agroindústria, cuja expansão vem exigindo a massiva destruição das matas e dos rios, e com isso da diversidade biológica, e a indústria extrativa e de derivados de petróleo com suas ramificações altamente poluentes. São também conhecidas pela alta concentração de riqueza, pelos baixos salários e pelas condições insalubre de trabalho que reduz em alguns anos a vida de quem nelas trabalham.
Quanto ao Governo, apesar de algumas tênues resistências como as observadas no Ministério do Meio Ambiente, as ações convergem para a pavimentação desse caminho, mesmo porque não existe outra opção de inserção do País nos níveis hierárquicos inferiores do capitalismo mundial. A prova disso é o cego entusiasmo pelos biocombustivéis, sem uma análise dos efeitos colaterais, que são vistos, de forma míope, como saída para crise do trabalho e geração de energia mais limpa.
19.06.2007
É esclarecedor os dados divulgados pelo IBGE sobre a tendência da industria brasileira que mostram que a “participação na produção total de setores mais sofisticados encolheu 16% nos últimos dez anos” (F. de S. Paulo 17.06.07). Enquanto setores industriais de média/baixa e baixa tecnologia cresceram neste período de +132,8% (fabricação de coque, refino de petróleo e combustíveis) a + 27,3% (produtos de madeira), a indústria de ponta encolheu de –11,5% (aparelhos e materiais elétricos) a – 43,0% (material e equipamentos eletrônicos), segundo o IBGE. Essa tendência, que deve se acentuar com o acirramento da concorrência a nível mundial é pior do que muitos analistas desejavam. Setores de baixa tecnologia, como calçados e têxteis, que sustentavam sua expansão com os aumentos das vendas no mercado externo as custas mais de um câmbio favorável do que da produtividade, vem sofrendo um encolhimento brutal sem perspectiva de reversão apesar das medidas do Governo ou outras que venham a ser tomadas para favorece-los.
Ora, se não se consegue competir com a indústria de ponta instalada lá fora, cuja velocidade dos avanços tecnológicos e das exigências de investimentos em capital fixo não estão ao alcance da indústria local, e se os setores de baixa e média tecnologia sofrem externa e internamente com as mercadorias baratas que inundam o mercado vindas da China e de outros países, é claro a tendência a desindustrialização a partir das empresas que não conseguem competir por incapacidade de acompanhar os investimentos necessários em capital fixo, tornando-se, portanto obsoletas, ou por não ter custos de produção similar a outros países em desenvolvimento que associam trabalho barato a extensas cargas horárias, utilizando-se do mais violento disciplinamento na produção de mais-valia absoluta sob a tutela de Estados ditatoriais. Como já vem acontecendo com a produção de calçados e têxteis, logo será a vez dos produtos metálicos, de borracha, de plástico e outros que utilizam intensivamente a força de trabalho.
A conjuntura externa aparentemente favorável e um certo espasmo de crescimento do mercado interno, que logo deve esbarrar nas condições infraestruturais responsáveis principalmente pelo fornecimento de energia e pelo escoamento dos produtos, não são suficientes, mesmo que a possibilidade de crise não estivesse nos horizontes, para reverter o quadro da desindustrialização, reflexo, em nosso caso, do capitalismo no estágio atual da terceira revolução industrial que é alimentada pelo combustível da feroz competição e pela velocidade com que ganham o mercado as inovações tecnológicas sob o domínio dos países ricos.
A situação fica mais dramática quando ao analisarmos a tendência da economia brasileira, observamos que os setores que podem permanecer vivos e com chances de crescer, são aqueles que mais trarão prejuízos às condições de vida da população rural e ao meio ambiente, como a agroindústria, cuja expansão vem exigindo a massiva destruição das matas e dos rios, e com isso da diversidade biológica, e a indústria extrativa e de derivados de petróleo com suas ramificações altamente poluentes. São também conhecidas pela alta concentração de riqueza, pelos baixos salários e pelas condições insalubre de trabalho que reduz em alguns anos a vida de quem nelas trabalham.
Quanto ao Governo, apesar de algumas tênues resistências como as observadas no Ministério do Meio Ambiente, as ações convergem para a pavimentação desse caminho, mesmo porque não existe outra opção de inserção do País nos níveis hierárquicos inferiores do capitalismo mundial. A prova disso é o cego entusiasmo pelos biocombustivéis, sem uma análise dos efeitos colaterais, que são vistos, de forma míope, como saída para crise do trabalho e geração de energia mais limpa.
19.06.2007
sexta-feira, maio 25, 2007
Os circuitos deficitários e a queda do dólar
Rall
Nos últimos dias temos assistido uma verdadeira Babel na fala dos economistas em função da desvalorização do dólar. As divergências sobre as causas e as decisões a serem adotadas vão da abertura total a fortes medidas de proteção do mercado nacional. Se por um lado isso é reflexo das contradições e dos interesses que permeiam a economia local, reflete também a análise de superfície do fenômeno. Na pressa em opinar, descolam a economia nacional do contexto global e surge daí arrogantes discursos apontando soluções fáceis para complexos problemas que fogem ao controle dos mais poderosos dos mortais.
A queda livre do dólar que atinge a maioria dos países e os blocos econômicos aponta para problemas estruturais graves na relação dos EUA com o resto do mundo, e, em particular com os países do leste asiático. O déficit na balança comercial dos EUA que não para de crescer é coberto pela montanha de dinheiro dos superávits desses países, que por sua vez alimenta as bolhas de todos matizes e sustenta com isso o consumo do cidadão médio americano profundamente endividado. A correção dos desequilíbrios na balança comercial americana, que vai se tornando a cada dia que passa insustentável, exige a desvalorização do dólar frente as demais moedas, o que é fato. A coisa é mais complexa quando se trata dos países asiáticos, onde estão fortemente fincadas as empresas americanas com a produção dirigida para exportação. Aí, além dos interesses mútuos, os gigantescos superávits permite que os Bancos Centrais desses países mantenham suas moedas artificialmente desvalorizadas comprando dólar e investindo em papéis do tesouro americano.
Portanto, a queda do dólar, agravada pelas dificuldades de algumas economias lidar com essa situação, dando margem a todo tipo de especulação e ganhos fáceis, está além dos limites das economias nacionais e tem como um dos fundamentos as relações comerciais deficitárias entre os EEUU e os demais países, principalmente os do circuito asiático. Algumas economias como a brasileira, mesmo o governo intervindo fortemente no câmbio enxugando o mercado, não consegue em “condições normais” segurar a queda do dólar. O que aparenta ser um sinal saudável como defendem alguns, é, na verdade, uma fragilidade, pois se persiste esse movimento de valorização do real, e tudo indica que sim, mesmo com a queda das taxas de juros, a tendência é uma inversão da situação favorável da balança comercial com graves repercussões na indústria local.
Esse quadro pode se deteriorar rapidamente se o dinheiro que circula sem rumo e vem se multiplicando nas bolsas e em outros investimentos se nenhuma relação com a riqueza real, e que alimenta artificialmente o consumo com repercussões na produção, num ajuste de contas impactar negativamente emperrando a engrenagem da sociedade produtora de mercadoria. Possibilidade não impossível quando lidamos com uma situação onde circula no globo muito mais dinheiro do que o produto interno bruto das nações e em que a máquina geradora de capital fictício ronca furiosamente, ampliando irracionalmente seu domínio sobre todos setores da economia. A nova onda que impulsiona essa louca corrida ao “ouro de tolo” são as aquisições e vendas de empresas pelos fundos private equity, com a utilização de empréstimos fáceis e baratos, que tem empurrado os preços das ações às nuvens.
Os Estados Unidos não pode, indefinidamente, financiar o consumo interno com dinheiro tomado no exterior. Há de chegar o momento de ajuste dos circuitos deficitários e a desvalorização do dólar pode ser os primeiros sinais desse momento que deve levar a um novo rearranjo do comércio mundial, sempre iniciando o aperto pelos países mais frágeis, muito deles governados por uma esquerda recém convertida aos encantos do mercado. Uma outra possibilidade é uma crise de proporções inédita que exponha com crueza os limites da acumulação do capital na terceira revolução industrial, estourando em cadeia as bolhas que sustentam o crescimento econômico global, num fogo que se alastra ao queimar a alegria da moçada e seus bilhões sem substância.
25.05.2007
Nos últimos dias temos assistido uma verdadeira Babel na fala dos economistas em função da desvalorização do dólar. As divergências sobre as causas e as decisões a serem adotadas vão da abertura total a fortes medidas de proteção do mercado nacional. Se por um lado isso é reflexo das contradições e dos interesses que permeiam a economia local, reflete também a análise de superfície do fenômeno. Na pressa em opinar, descolam a economia nacional do contexto global e surge daí arrogantes discursos apontando soluções fáceis para complexos problemas que fogem ao controle dos mais poderosos dos mortais.
A queda livre do dólar que atinge a maioria dos países e os blocos econômicos aponta para problemas estruturais graves na relação dos EUA com o resto do mundo, e, em particular com os países do leste asiático. O déficit na balança comercial dos EUA que não para de crescer é coberto pela montanha de dinheiro dos superávits desses países, que por sua vez alimenta as bolhas de todos matizes e sustenta com isso o consumo do cidadão médio americano profundamente endividado. A correção dos desequilíbrios na balança comercial americana, que vai se tornando a cada dia que passa insustentável, exige a desvalorização do dólar frente as demais moedas, o que é fato. A coisa é mais complexa quando se trata dos países asiáticos, onde estão fortemente fincadas as empresas americanas com a produção dirigida para exportação. Aí, além dos interesses mútuos, os gigantescos superávits permite que os Bancos Centrais desses países mantenham suas moedas artificialmente desvalorizadas comprando dólar e investindo em papéis do tesouro americano.
Portanto, a queda do dólar, agravada pelas dificuldades de algumas economias lidar com essa situação, dando margem a todo tipo de especulação e ganhos fáceis, está além dos limites das economias nacionais e tem como um dos fundamentos as relações comerciais deficitárias entre os EEUU e os demais países, principalmente os do circuito asiático. Algumas economias como a brasileira, mesmo o governo intervindo fortemente no câmbio enxugando o mercado, não consegue em “condições normais” segurar a queda do dólar. O que aparenta ser um sinal saudável como defendem alguns, é, na verdade, uma fragilidade, pois se persiste esse movimento de valorização do real, e tudo indica que sim, mesmo com a queda das taxas de juros, a tendência é uma inversão da situação favorável da balança comercial com graves repercussões na indústria local.
Esse quadro pode se deteriorar rapidamente se o dinheiro que circula sem rumo e vem se multiplicando nas bolsas e em outros investimentos se nenhuma relação com a riqueza real, e que alimenta artificialmente o consumo com repercussões na produção, num ajuste de contas impactar negativamente emperrando a engrenagem da sociedade produtora de mercadoria. Possibilidade não impossível quando lidamos com uma situação onde circula no globo muito mais dinheiro do que o produto interno bruto das nações e em que a máquina geradora de capital fictício ronca furiosamente, ampliando irracionalmente seu domínio sobre todos setores da economia. A nova onda que impulsiona essa louca corrida ao “ouro de tolo” são as aquisições e vendas de empresas pelos fundos private equity, com a utilização de empréstimos fáceis e baratos, que tem empurrado os preços das ações às nuvens.
Os Estados Unidos não pode, indefinidamente, financiar o consumo interno com dinheiro tomado no exterior. Há de chegar o momento de ajuste dos circuitos deficitários e a desvalorização do dólar pode ser os primeiros sinais desse momento que deve levar a um novo rearranjo do comércio mundial, sempre iniciando o aperto pelos países mais frágeis, muito deles governados por uma esquerda recém convertida aos encantos do mercado. Uma outra possibilidade é uma crise de proporções inédita que exponha com crueza os limites da acumulação do capital na terceira revolução industrial, estourando em cadeia as bolhas que sustentam o crescimento econômico global, num fogo que se alastra ao queimar a alegria da moçada e seus bilhões sem substância.
25.05.2007
sábado, abril 21, 2007
A valorização do real, suas interpretações e caminhos propostos
Rall
O clamor por medidas administrativas capazes de inverter a tendência do câmbio como a taxação de produtos importados, o controle de capitais especulativo de curto prazo e a redução dos juros como forma, entre outras coisas, de inibir a entrada desses capitais, parece perder força à medida que os juros caem e o real continua em ascensão. Um outro grupo de economistas, contrariando os primeiros, defende uma maior abertura do mercado, zerando, se necessário, as barreiras alfandegárias impostas aos produtos importados como forma de inverter o fluxo de capitais e desvalorizar o real frente ao dólar. O que está por traz desse imbróglio, de posições conflitantes para solução de um mesmo problema? Os grupos que não se combinam partem de um único diagnóstico: o excesso de liquidez, ou seja, a entrada de dólares via superávit na balança comercial e via especulação financeira com as aplicações na bolsa e em papéis do Governo, leva a uma superoferta da moeda americana num momento de demanda franca, fazendo cair o “preço” dessa moeda em relação ao real. Para os nossos analistas em conflito, as questões são os caminhos a serem percorridos para enxugar esse excesso de liquidez sem prejudicar as necessidades de dólar do País.
Numa economia movida pelo capital fictício, um volume cada vez maior de dinheiro deixa de ser a expressão do valor na mediação das relações de trocas e passa à função de produto, que negociado no mercado firma sua autonomia em relação à produção real num movimento em que dinheiro gera mais dinheiro sem substância. Essa liquidez de moedas vazias de conteúdo, gerada das mais variadas formas, num processo em que a interminável cadeia creditícia sem lastro tem grande peso, se por um lado traz alguma inquietação em relação às exportações, por outro, quando usado na especulação na bolsa, na compra de papéis públicos e privados, na aquisição de empresas, financia o Governo e as empresas, e movimenta o mercado alavancando o consumo sem que investimentos fossem feitos na produção. E para que investir na produção se o capital já não rende aí o que rende no mercado de papéis? Indaga nosso aplicado investidor. O capital só aporta onde a rentabilidade lhe convier, é essa sua lógica, mesmo quando usa as pernas tortas de seu guardião num incansável balé.
Ora, se os dólares que entram já têm um destino, mesmo que seja o cassino de papéis que o acolhe com propostas escandalosas, se o considerado excedente é comprado pelo Banco Central, que por sua vez, junto com as sobras da balança comercial, os envia para fora e os transmuta em papéis do tesouro americano, o que explica, portanto, a queda dessa moeda em relação ao real se o mercado nesse jogo é enxugado? Os horizontes de crise nos EUA com sua população e o Estado profundamente endividados, o enorme volume do capital fictício em circulação, o déficit fiscal e na balança comercial são alguns dos motivos. Esse País, que por sua força econômica e militar ainda reina sozinho, tem poder suficiente para fazer o dólar, que funciona como moeda mundial, variar conforme seus interesses.
Um outro motivo encontra-se na relação da economia brasileira com as forças hegemônicas da economia mundial. Vejamos. Pesquisa recente do Ipea mostra que 2.434 empresas classificadas como fortemente exportadoras, tem índice de produtividade até cinco vezes superior às empresas voltadas para o mercado interno, e que, apesar do câmbio, vem aumentando suas exportações. São competitivas se comparadas com similares de outros países. Então, por que tanta grita em relação ao câmbio, juros altos e desindutrialização? Essa vem do outro lado da economia, das empresas com baixa produtividade que postas no roldão da competição global, não conseguem mais, na proporção necessária, absorver tecnologia e intensificar o capital fixo, pelos custos que isso pode significar.
Já não existe meio termo na luta feroz das mercadorias pela conquista dos corações e mentes em sua volta ao mundo. Em economias como a do Brasil os juros baixos podem até ter um impacto inicial positivo, mas será impossível, a médio prazo, competir com mercadorias vindas da China e de outros países asiáticos, produzidas para exportação por empresas transnacionais, que combinam capital intensivo com trabalho semi-escravo e custos operacionais baixíssimos. Recentemente empresas de autopeças queixavam-se à imprensa que rolamentos chineses são vendidos no mercado negro por US$ 0,74 o quilo, que custa entre US$ 13 e US$ 17 no mercado internacional. Ou seja, os produtos chineses que entram por vias legais ou ilegais, começam a perturbar os mais variados ramos de produção e não só de eletrônicos, roupas e calçados. Se considerarmos os produtos de alta tecnologia importados dos centros desenvolvidos que nunca vão ser produzidos aqui, o cenário não é nada animador para os entusiastas do mercado.
Quanto às medidas administrativas de “proteção da indústria nacional”, tão largamente defendidas por partidos de esquerda, setores da FIESP e meios acadêmicos, já não surtem mais efeito. Tarifar os produtos que chegam ao mercado nacional mais barato resultaria, provavelmente, em retaliações não convenientes para os setores exportadores e para o superávit comercial tão duramente perseguido. Ampliaria-se também o mercado negro com fortes prejuízos para a indústria aqui estabelecida e para a arrecadação do Governo. Restariam os subsídios governamentais que dificilmente se concretizariam pela enorme expansão das despesas do Estado com o trabalho improdutivo e pagamentos de outras obrigações como os juros, amortizações, e pelos altos custos financeiros e políticos de operações como essas, mesmo quando sustentadas por período de tempo muito curto.
Portanto, restaria a essas empresas que pararam no tempo quanto às inovações tecnológicas e aumento de produtividade, tornando-se pouco competitivas para os padrões internacionais, vender suas mercadorias abaixo do valor de produção, o que parece inviável. Empresas fictícias sempre existiram em grande monta, mas era mais fácil a sobrevivência quando os mercados dos países se relacionavam de formas mais ou menos independentes e era possível certa reserva financiada pelo Estado para produtos nacionais. As especificidades das economias ainda eram preservadas e a ação política matinha um certo poder regulador, o que já não acontece.
A valorização do real reflete também essa realidade contraditória da economia nacional, onde poucas empresas focadas na exportação e em parte do mercado interno, conseguiram reduzir seus custos de produção e também os preços relativos de suas mercadorias e se tornaram competitivas. Numa economia global movida pelo capital fictício as empresas que conseguem aumentar a produtividade se impõem, mesmo que careçam desse capital como os pulmões do ar. Por outro lado, a maioria das empresas nacionais com a produção direcionada para o mercado interno, que sobreviviam às custas de grossas transferências de recursos do Estado perigosamente endividado, apesar de terem conseguido navegar nas águas turbulentas do neoliberalismo na década de noventa, agora já não conseguem baixar seus custos e competir com quem vem de fora. A geração de valor por essas empresas, que se encontram abaixo dos padrões internacionais de produtividade socialmente estabelecidos, ou seja, criam muito menos valor quando comparada com empresas que tem sua produção racionalizada pelo uso da técnica e da ciência, pressionam também o real para cima em relação ao dólar, independente dos desejos dos agentes econômicos. Daí a defesa da intervenção do Estado no bloqueio dos impulsos do mercado, antes tão elogiado pela ação milagrosa da “mão invisível” que quase tudo resolvia e agora dificulta a sobrevivência de setores inteiros da economia.
Os que não acreditam nos resultados das medidas administrativas e propõem tarifas zero para as importações, mesmo que seja por um curto período, partem do pressuposto que a valorização do real deve-se só a entrada de dólar, as outras variáveis internas e externas são descartadas. Uma abertura com essa dimensão, mesmo que fosse possível um prazo para o seu fim (o que é duvidoso, pois processos como esses quando em movimento não se tem mais controle), o impacto na desindustrialização seria sem precedente, poderíamos comparar com a explosão de uma bomba H de grande potência: curta na ação e eficiente na destruição. A abreviação da morte anunciada do lado obsoleto da economia poderia trazer custos muito altos e benefícios duvidosos para as empresas de capital intensivo, que se veriam também encurralada pela violenta competição vinda de todos os lados e perderiam, no mercado interno, o diferencial produtivo fazendo suas taxas de lucro cairem. Mesmo que tais medidas resultassem de imediato na desvalorização do real em benefício das empresas exportadoras, os custos sociais seriam enormes.
Esses são impasses da própria crise do capitalismo que parece atingir seu limite absoluto. Apesar de alegres conjunturas de crescimento forjados, a cada espasmo da crise grandes regiões tendem a desacoplar-se da produção de mercadoria. Como a saída é cada vez mais ilusória no leque de opções oferecido pela sociedade capitalista, e como os movimentos sociais ainda não se dispõem buscar novos caminhos, procura-se empurrar o desastre para as gerações futuras, inflando-se bolhas financeiras e amainando-se a crise social que já não se deixa administrar com medidas pouco convincentes, represando cada vez mais a energia destrutiva do capital.
21.04.2007
O clamor por medidas administrativas capazes de inverter a tendência do câmbio como a taxação de produtos importados, o controle de capitais especulativo de curto prazo e a redução dos juros como forma, entre outras coisas, de inibir a entrada desses capitais, parece perder força à medida que os juros caem e o real continua em ascensão. Um outro grupo de economistas, contrariando os primeiros, defende uma maior abertura do mercado, zerando, se necessário, as barreiras alfandegárias impostas aos produtos importados como forma de inverter o fluxo de capitais e desvalorizar o real frente ao dólar. O que está por traz desse imbróglio, de posições conflitantes para solução de um mesmo problema? Os grupos que não se combinam partem de um único diagnóstico: o excesso de liquidez, ou seja, a entrada de dólares via superávit na balança comercial e via especulação financeira com as aplicações na bolsa e em papéis do Governo, leva a uma superoferta da moeda americana num momento de demanda franca, fazendo cair o “preço” dessa moeda em relação ao real. Para os nossos analistas em conflito, as questões são os caminhos a serem percorridos para enxugar esse excesso de liquidez sem prejudicar as necessidades de dólar do País.
Numa economia movida pelo capital fictício, um volume cada vez maior de dinheiro deixa de ser a expressão do valor na mediação das relações de trocas e passa à função de produto, que negociado no mercado firma sua autonomia em relação à produção real num movimento em que dinheiro gera mais dinheiro sem substância. Essa liquidez de moedas vazias de conteúdo, gerada das mais variadas formas, num processo em que a interminável cadeia creditícia sem lastro tem grande peso, se por um lado traz alguma inquietação em relação às exportações, por outro, quando usado na especulação na bolsa, na compra de papéis públicos e privados, na aquisição de empresas, financia o Governo e as empresas, e movimenta o mercado alavancando o consumo sem que investimentos fossem feitos na produção. E para que investir na produção se o capital já não rende aí o que rende no mercado de papéis? Indaga nosso aplicado investidor. O capital só aporta onde a rentabilidade lhe convier, é essa sua lógica, mesmo quando usa as pernas tortas de seu guardião num incansável balé.
Ora, se os dólares que entram já têm um destino, mesmo que seja o cassino de papéis que o acolhe com propostas escandalosas, se o considerado excedente é comprado pelo Banco Central, que por sua vez, junto com as sobras da balança comercial, os envia para fora e os transmuta em papéis do tesouro americano, o que explica, portanto, a queda dessa moeda em relação ao real se o mercado nesse jogo é enxugado? Os horizontes de crise nos EUA com sua população e o Estado profundamente endividados, o enorme volume do capital fictício em circulação, o déficit fiscal e na balança comercial são alguns dos motivos. Esse País, que por sua força econômica e militar ainda reina sozinho, tem poder suficiente para fazer o dólar, que funciona como moeda mundial, variar conforme seus interesses.
Um outro motivo encontra-se na relação da economia brasileira com as forças hegemônicas da economia mundial. Vejamos. Pesquisa recente do Ipea mostra que 2.434 empresas classificadas como fortemente exportadoras, tem índice de produtividade até cinco vezes superior às empresas voltadas para o mercado interno, e que, apesar do câmbio, vem aumentando suas exportações. São competitivas se comparadas com similares de outros países. Então, por que tanta grita em relação ao câmbio, juros altos e desindutrialização? Essa vem do outro lado da economia, das empresas com baixa produtividade que postas no roldão da competição global, não conseguem mais, na proporção necessária, absorver tecnologia e intensificar o capital fixo, pelos custos que isso pode significar.
Já não existe meio termo na luta feroz das mercadorias pela conquista dos corações e mentes em sua volta ao mundo. Em economias como a do Brasil os juros baixos podem até ter um impacto inicial positivo, mas será impossível, a médio prazo, competir com mercadorias vindas da China e de outros países asiáticos, produzidas para exportação por empresas transnacionais, que combinam capital intensivo com trabalho semi-escravo e custos operacionais baixíssimos. Recentemente empresas de autopeças queixavam-se à imprensa que rolamentos chineses são vendidos no mercado negro por US$ 0,74 o quilo, que custa entre US$ 13 e US$ 17 no mercado internacional. Ou seja, os produtos chineses que entram por vias legais ou ilegais, começam a perturbar os mais variados ramos de produção e não só de eletrônicos, roupas e calçados. Se considerarmos os produtos de alta tecnologia importados dos centros desenvolvidos que nunca vão ser produzidos aqui, o cenário não é nada animador para os entusiastas do mercado.
Quanto às medidas administrativas de “proteção da indústria nacional”, tão largamente defendidas por partidos de esquerda, setores da FIESP e meios acadêmicos, já não surtem mais efeito. Tarifar os produtos que chegam ao mercado nacional mais barato resultaria, provavelmente, em retaliações não convenientes para os setores exportadores e para o superávit comercial tão duramente perseguido. Ampliaria-se também o mercado negro com fortes prejuízos para a indústria aqui estabelecida e para a arrecadação do Governo. Restariam os subsídios governamentais que dificilmente se concretizariam pela enorme expansão das despesas do Estado com o trabalho improdutivo e pagamentos de outras obrigações como os juros, amortizações, e pelos altos custos financeiros e políticos de operações como essas, mesmo quando sustentadas por período de tempo muito curto.
Portanto, restaria a essas empresas que pararam no tempo quanto às inovações tecnológicas e aumento de produtividade, tornando-se pouco competitivas para os padrões internacionais, vender suas mercadorias abaixo do valor de produção, o que parece inviável. Empresas fictícias sempre existiram em grande monta, mas era mais fácil a sobrevivência quando os mercados dos países se relacionavam de formas mais ou menos independentes e era possível certa reserva financiada pelo Estado para produtos nacionais. As especificidades das economias ainda eram preservadas e a ação política matinha um certo poder regulador, o que já não acontece.
A valorização do real reflete também essa realidade contraditória da economia nacional, onde poucas empresas focadas na exportação e em parte do mercado interno, conseguiram reduzir seus custos de produção e também os preços relativos de suas mercadorias e se tornaram competitivas. Numa economia global movida pelo capital fictício as empresas que conseguem aumentar a produtividade se impõem, mesmo que careçam desse capital como os pulmões do ar. Por outro lado, a maioria das empresas nacionais com a produção direcionada para o mercado interno, que sobreviviam às custas de grossas transferências de recursos do Estado perigosamente endividado, apesar de terem conseguido navegar nas águas turbulentas do neoliberalismo na década de noventa, agora já não conseguem baixar seus custos e competir com quem vem de fora. A geração de valor por essas empresas, que se encontram abaixo dos padrões internacionais de produtividade socialmente estabelecidos, ou seja, criam muito menos valor quando comparada com empresas que tem sua produção racionalizada pelo uso da técnica e da ciência, pressionam também o real para cima em relação ao dólar, independente dos desejos dos agentes econômicos. Daí a defesa da intervenção do Estado no bloqueio dos impulsos do mercado, antes tão elogiado pela ação milagrosa da “mão invisível” que quase tudo resolvia e agora dificulta a sobrevivência de setores inteiros da economia.
Os que não acreditam nos resultados das medidas administrativas e propõem tarifas zero para as importações, mesmo que seja por um curto período, partem do pressuposto que a valorização do real deve-se só a entrada de dólar, as outras variáveis internas e externas são descartadas. Uma abertura com essa dimensão, mesmo que fosse possível um prazo para o seu fim (o que é duvidoso, pois processos como esses quando em movimento não se tem mais controle), o impacto na desindustrialização seria sem precedente, poderíamos comparar com a explosão de uma bomba H de grande potência: curta na ação e eficiente na destruição. A abreviação da morte anunciada do lado obsoleto da economia poderia trazer custos muito altos e benefícios duvidosos para as empresas de capital intensivo, que se veriam também encurralada pela violenta competição vinda de todos os lados e perderiam, no mercado interno, o diferencial produtivo fazendo suas taxas de lucro cairem. Mesmo que tais medidas resultassem de imediato na desvalorização do real em benefício das empresas exportadoras, os custos sociais seriam enormes.
Esses são impasses da própria crise do capitalismo que parece atingir seu limite absoluto. Apesar de alegres conjunturas de crescimento forjados, a cada espasmo da crise grandes regiões tendem a desacoplar-se da produção de mercadoria. Como a saída é cada vez mais ilusória no leque de opções oferecido pela sociedade capitalista, e como os movimentos sociais ainda não se dispõem buscar novos caminhos, procura-se empurrar o desastre para as gerações futuras, inflando-se bolhas financeiras e amainando-se a crise social que já não se deixa administrar com medidas pouco convincentes, represando cada vez mais a energia destrutiva do capital.
21.04.2007
terça-feira, dezembro 26, 2006
A política redistributiva e os limites do Estado
Rall
Diz um velho ditado que alegria de pobre dura pouco. Pelas notícias é o que parece se delinear nesse segundo mandato do Presidente-operário. A política social de distribuição de benefícios para os sem renda, parece dar sinais de esgotamento. Por outro lado, os considerados “classe média”, aqueles que recebem mais de três salários mínimos, viram os rendimentos despencarem em 46% e houve um saldo negativo de dois milhões de empregos nessa classe, ou seja, dois milhões dispensados de suas atividades nos últimos seis anos. Por outro lado o emprego com até um salário mínimo aumentou em 2,2 milhões, segundo pesquisa baseada nos dados da Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados, do Ministério do Trabalho), publicados pela Folha de São Paulo de 10 de dezembro de 2006.
Outro estudo do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho da Unicamp mostra que apesar dos 2,8 milhões de empregos criados entre setembro de 2004 e outubro de 2006, houve uma redução da massa salarial de R$ 133 milhões, provavelmente relacionados com a precarização do emprego via terceirização, demissões e contratação de novos contingentes por salário mais baixos.
Tal quadro mostrado pelas duas pesquisas reflete como a economia no Brasil, e, provavelmente, em outros países do terceiro mundo, vem reagindo para se adaptar a violenta competição internacional. Não dispondo de industrias suficientemente modernas e infraestrutura, esses países, incapazes de competir com os países do centro em produtividade, se adaptam como sócios menores do capital internacional produzindo mercadorias baratas às custas da intensificação da mais-valia absoluta. Europa Ocidental, Japão e América do Norte que respondem por cerca de 75% da produção industrial do mundo, necessitam de recursos naturais, mas, também de produtos semi-acabados, geralmente produzidos em indústrias poluidoras, para suas empresas de ponta. É o caso do aço semiprocessado, que é produzido nos países em desenvolvimento a baixo custo e é enviado às usinas sofisticadas dos países do centro. Esse tipo de transação pode significar uma “redução entre 30% a 50% em relação a seu custo caso esses produtos fossem produzidos no país de origem da empresa compradora”, segundo Peter Marsh do Finacial Times.
O Estado em si não produz riqueza. Os recursos para financiar seus projetos são arrancados da produção real através dos impostos, e hoje, mais do que nunca, pela geração de capital fictício. Os recordes na arrecadação de impostos, tão saudados pelos burocratas do poder, tende asfixiar mais ainda a “classe média”, pois essa não escapa da fúria arrecadadora, inibindo o consumo e fazendo patinar o esperado crescimento do mercado interno. Mas, o limite desse nivelamento distributivo por baixo, tende a esbarrar na crise dessa classe, que nos últimos seis anos perdeu quase 50% de seu contingente como mostram as pesquisas e na impossibilidade das bolhas financeiras se expandirem indefinidamente.
Por outro lado o capital só aporta aonde pode acumular. Aqueles capitais acoplados a produção global, mantém-se em ação desde que as condições lhes sejam favoráveis, e isso, no terceiro mundo, traduz-se em salários cada vez mais baixos, daí a grita pela desregulamentação do mercado de trabalho, por condições de infraestrutura para o escoamento de seus produtos a custos acessíveis e possíveis renuncias fiscal. Não sendo assim, tende a levantar âncora e se dirigir para os que oferecem melhores remunerações.
As indústrias que produzem mais para o mercado interno, a maioria a margem do circuito mundial da produção capitalista, geralmente pequenas e médias empresas de utilização intensiva de força de trabalho, além do fraco desempenho do mercado local, são obrigadas a competir com similares que conseguem produzir na China e na Índia principalmente, a custos bem inferiores aos nossos, por utilizarem uma mão-de-obra semi-escrava com baixíssima remuneração. A desindustrialização de setores como os de roupas e de calçados é um exemplo flagrante dessa realidade. A produção limitada e a descapitalização desses setores, que dificulta investir em novos equipamentos para aumentar a produtividade, reforça o círculo de demissões acompanhadas de novas admissões com salários que podem chegar a metade dos antigos funcionários.
O Governo, ao buscar salvar os náufragos, é obrigado a abrir mão de parte de sua receita, agravando mais ainda a crise fiscal do Estado. Para cobrir os déficits dos programas sociais, os parcos investimentos e outros encargos, é levado a captar recursos no mercado, pagando juros exorbitantes que por sua vez geram compromissos financeiros que precisam ser amortizados com superávits primários. São os papeis do governo, que negociados na rede bancária, se multiplicam como do nada se multiplicaram os pães no milagre cristão, como fosse uma inesgotável fonte de riqueza, a usina de geração de capital fictício. E aí todos que tenham alguma sobra de dinheiro, se beneficiam da “ciranda financeira”: o Estado porque consegue financiar suas despesas, os bancos por comprar do Governo papéis rentáveis e vende-los no mercado, as empresas que inflam seus balanços com as aplicações e juros cobrados nas vendas à crédito e as classes abastadas que do nada vêem seu dinheiro crescer.
Frente a esse emaranhado de interesses, os juros que é como se lucra no mercado de papéis, nem sempre é fácil serem reduzidos. Talvez sejam os juros altos, com as aplicações especulativas na bolsa que nos primeiros quatro anos do governo Lula subiu 280% apesar do pífio desempenho da economia real, as maiores bolhas que ajudam alimentar a economia no Brasil. É como se diz: para a sociedade da valorização do valor em crise ruim com elas pior sem elas, é só ver o susto que tomaram recentemente os novos donos do poder na Tailândia, ao quererem controlar, mesmo que timidamente, o capital de curto prazo que ao girar o mundo velozmente, sopra desesperado as bolhas nos quatro cantos do globo para que não se apaguem. Na Tailândia, o apagão da economia em um dia, foi o suficiente para que o governo militar rapidamente voltasse atrás e se ajustasse novamente às exigências do capital global, mesmo dispondo do poder das armas.
Se o capitalismo para existir ainda necessita de uma base real na produção, o louco desacoplamento do dinheiro dessa base, reproduzindo-se sem substância numa velocidade e volume jamais vistos, mesmo que em alguns momentos turbine o crescimento econômico pelo aumento artificial do consumo, mais tarde ou mais cedo a realidade vai exigir um acerto de contas. Os sinais da crise são cada vez mais evidentes, e, pelo intrincado da economia mundial, talvez seja essa a mais global e a mais severa das crises do capitalismo. Os Estados, todos já na corda bamba pelos desequilíbrios financeiros, irão rapidamente a nocaute e com eles as cambaleantes políticas sociais.
26.12.2006
Diz um velho ditado que alegria de pobre dura pouco. Pelas notícias é o que parece se delinear nesse segundo mandato do Presidente-operário. A política social de distribuição de benefícios para os sem renda, parece dar sinais de esgotamento. Por outro lado, os considerados “classe média”, aqueles que recebem mais de três salários mínimos, viram os rendimentos despencarem em 46% e houve um saldo negativo de dois milhões de empregos nessa classe, ou seja, dois milhões dispensados de suas atividades nos últimos seis anos. Por outro lado o emprego com até um salário mínimo aumentou em 2,2 milhões, segundo pesquisa baseada nos dados da Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados, do Ministério do Trabalho), publicados pela Folha de São Paulo de 10 de dezembro de 2006.
Outro estudo do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho da Unicamp mostra que apesar dos 2,8 milhões de empregos criados entre setembro de 2004 e outubro de 2006, houve uma redução da massa salarial de R$ 133 milhões, provavelmente relacionados com a precarização do emprego via terceirização, demissões e contratação de novos contingentes por salário mais baixos.
Tal quadro mostrado pelas duas pesquisas reflete como a economia no Brasil, e, provavelmente, em outros países do terceiro mundo, vem reagindo para se adaptar a violenta competição internacional. Não dispondo de industrias suficientemente modernas e infraestrutura, esses países, incapazes de competir com os países do centro em produtividade, se adaptam como sócios menores do capital internacional produzindo mercadorias baratas às custas da intensificação da mais-valia absoluta. Europa Ocidental, Japão e América do Norte que respondem por cerca de 75% da produção industrial do mundo, necessitam de recursos naturais, mas, também de produtos semi-acabados, geralmente produzidos em indústrias poluidoras, para suas empresas de ponta. É o caso do aço semiprocessado, que é produzido nos países em desenvolvimento a baixo custo e é enviado às usinas sofisticadas dos países do centro. Esse tipo de transação pode significar uma “redução entre 30% a 50% em relação a seu custo caso esses produtos fossem produzidos no país de origem da empresa compradora”, segundo Peter Marsh do Finacial Times.
O Estado em si não produz riqueza. Os recursos para financiar seus projetos são arrancados da produção real através dos impostos, e hoje, mais do que nunca, pela geração de capital fictício. Os recordes na arrecadação de impostos, tão saudados pelos burocratas do poder, tende asfixiar mais ainda a “classe média”, pois essa não escapa da fúria arrecadadora, inibindo o consumo e fazendo patinar o esperado crescimento do mercado interno. Mas, o limite desse nivelamento distributivo por baixo, tende a esbarrar na crise dessa classe, que nos últimos seis anos perdeu quase 50% de seu contingente como mostram as pesquisas e na impossibilidade das bolhas financeiras se expandirem indefinidamente.
Por outro lado o capital só aporta aonde pode acumular. Aqueles capitais acoplados a produção global, mantém-se em ação desde que as condições lhes sejam favoráveis, e isso, no terceiro mundo, traduz-se em salários cada vez mais baixos, daí a grita pela desregulamentação do mercado de trabalho, por condições de infraestrutura para o escoamento de seus produtos a custos acessíveis e possíveis renuncias fiscal. Não sendo assim, tende a levantar âncora e se dirigir para os que oferecem melhores remunerações.
As indústrias que produzem mais para o mercado interno, a maioria a margem do circuito mundial da produção capitalista, geralmente pequenas e médias empresas de utilização intensiva de força de trabalho, além do fraco desempenho do mercado local, são obrigadas a competir com similares que conseguem produzir na China e na Índia principalmente, a custos bem inferiores aos nossos, por utilizarem uma mão-de-obra semi-escrava com baixíssima remuneração. A desindustrialização de setores como os de roupas e de calçados é um exemplo flagrante dessa realidade. A produção limitada e a descapitalização desses setores, que dificulta investir em novos equipamentos para aumentar a produtividade, reforça o círculo de demissões acompanhadas de novas admissões com salários que podem chegar a metade dos antigos funcionários.
O Governo, ao buscar salvar os náufragos, é obrigado a abrir mão de parte de sua receita, agravando mais ainda a crise fiscal do Estado. Para cobrir os déficits dos programas sociais, os parcos investimentos e outros encargos, é levado a captar recursos no mercado, pagando juros exorbitantes que por sua vez geram compromissos financeiros que precisam ser amortizados com superávits primários. São os papeis do governo, que negociados na rede bancária, se multiplicam como do nada se multiplicaram os pães no milagre cristão, como fosse uma inesgotável fonte de riqueza, a usina de geração de capital fictício. E aí todos que tenham alguma sobra de dinheiro, se beneficiam da “ciranda financeira”: o Estado porque consegue financiar suas despesas, os bancos por comprar do Governo papéis rentáveis e vende-los no mercado, as empresas que inflam seus balanços com as aplicações e juros cobrados nas vendas à crédito e as classes abastadas que do nada vêem seu dinheiro crescer.
Frente a esse emaranhado de interesses, os juros que é como se lucra no mercado de papéis, nem sempre é fácil serem reduzidos. Talvez sejam os juros altos, com as aplicações especulativas na bolsa que nos primeiros quatro anos do governo Lula subiu 280% apesar do pífio desempenho da economia real, as maiores bolhas que ajudam alimentar a economia no Brasil. É como se diz: para a sociedade da valorização do valor em crise ruim com elas pior sem elas, é só ver o susto que tomaram recentemente os novos donos do poder na Tailândia, ao quererem controlar, mesmo que timidamente, o capital de curto prazo que ao girar o mundo velozmente, sopra desesperado as bolhas nos quatro cantos do globo para que não se apaguem. Na Tailândia, o apagão da economia em um dia, foi o suficiente para que o governo militar rapidamente voltasse atrás e se ajustasse novamente às exigências do capital global, mesmo dispondo do poder das armas.
Se o capitalismo para existir ainda necessita de uma base real na produção, o louco desacoplamento do dinheiro dessa base, reproduzindo-se sem substância numa velocidade e volume jamais vistos, mesmo que em alguns momentos turbine o crescimento econômico pelo aumento artificial do consumo, mais tarde ou mais cedo a realidade vai exigir um acerto de contas. Os sinais da crise são cada vez mais evidentes, e, pelo intrincado da economia mundial, talvez seja essa a mais global e a mais severa das crises do capitalismo. Os Estados, todos já na corda bamba pelos desequilíbrios financeiros, irão rapidamente a nocaute e com eles as cambaleantes políticas sociais.
26.12.2006
domingo, outubro 08, 2006
Sobre o livro de Anselm Jappe
Rall
Nesse momento em que parte da esquerda ainda não saiu do outro lado do muro ou saiu para aderir as reformas neoliberais, o livro de Anlsem Jappe, “As aventuras da mercadoria”, é muito bem vindo. Em São Paulo, quando o livro foi lançado, acompanhado de um filme de Guy Debord no Cinesesc Augusta, um número inesperado de pessoas, principalmente jovens, mostrou que existe alguma coisa no ar.
Eventos como este indica que esquerda tradicional que no poder não se diferencia da direita tradicional, haja vista a sucessão de escândalos, já não consegue empolgar com os velhos chavões. A crítica à sociedade mercantil parece começar a fugir das fileiras partidárias e ganha as ruas com merecida liberdade. O socilogismo institucional, que por anos alimentou o movimento social, dá sinais de esgotamento e cede lugar a nova crítica não presa a estereótipos.
É nesse contexto que surge o livro de Jappe. Em linguagem acessível mostra a importância da crítica do trabalho, do valor, da mercadoria e do fetichismo em Marx, principalmente no primeiro capitulo do “O Capital” , para compreensão da sociedade da mercadoria e da crise social na qual afundamos cada vez mais, como produto da crise da “valorização do valor”, ou seja, da sociedade capitalista.
Faz um apanhado crítico da teoria do valor retomada por Gyorgy Lukács em “História de consciência de classe” e Isaak Rubin, nos anos 30, até autores mais recentes como Robert Kurz na Alemanha, Moishe Postone nos Estados Unidos e Jean-Marie Vicente na França, que chegaram a conclusões semelhantes sem nenhuma relação um com o outro, em estudos isolados.
Mostra que o trabalho, enquanto atividade humana que produz valor, é imanente à sociedade capitalista e que a diferenciação entre trabalho concreto e trabalho abstrato, o trabalho concreto como o “pólo positivo que na sociedade capitalista é violado pelo trabalho abstrato” apaga-se, pois o primeiro só existe enquanto base do segundo. Portanto, a superação da sociedade capitalista pressupõe o fim do trabalho assalariado, considerando que no processo incessante de valorização do valor, trabalho e capital são faces de uma mesma moeda.
Chama atenção a clareza com que é escrito o capítulo “A crise da sociedade mercantil”, que trata de questões muitas vezes pouco valorizada pela esquerda, mas fundamentais para o entendimento do capitalismo nos tempos atuais como o trabalho improdutivo e o domínio do capital fictício sobre a produção real, como forma de dribla a crise do valor.
Com a revolução da micro-eletrônica, o capitalismo não conseguindo definitivamente compensar o decaimento do valor com a ampliação do trabalho produtivo, todas as fichas são apostadas no chamado setor terciário, cuja expansão agravara mais ainda a crise do valor com o aumento do trabalho improdutivo. Os problemas não tardaram. Como resposta, vieram as reformas neoliberais, privatizando as atividades de seguridade social e de infraestrutura, antes tidas como de responsabilidade do estado, e cortando fundo o que cheirava a supérfluo nas empresas privadas, incluído aí benefícios como assistência médica, fundos de aposentadorias e outros resquícios das conquistas trabalhistas no fordismo. Os “encargos secundários” que não poderam ser varridos pela fúria neoliberal são terceirizados e, a partir daí, incrementa-se a mais-valia absoluta.
Apesar da ineficácia das medidas, a crise de um sistema em colapso é adiada com ajuda das bolhas financeiras que se manifestam no endividamento pessoal, das empresas e do estado e na supervalorização das ações, dos imóveis, das commodities e outros ativos. A especulação financeira de toda ordem tem criando um volume absurdo de dinheiro totalmente descolado da produção real, que mais tarde ou mais cedo terá que prestar contas através da inflação ou da deflação.
À luz da crítica do valor analisa os escritos de alguns autores em moda como André Gorz e, principalmente, a “versão pós-moderna melhorada do operaismo italiano dos anos setenta” de Antônio Negri e Michael Hardt em ácida passagem intitulada “A última mascarada do marxismo tradicional”. Em diálogo tenso mas amistoso, busca visualizar caminhos ao impasse em que se encontra o movimento social que ainda se move dentro do leque de opções determinado pela sociedade capitalista, enquanto agrava-se a crise.
Uma advertência: apesar das evidências de que o capitalismo pode ter chegado ao limite com revolução tecnológica da micro-eletrônica que faz ruir o valor, ao mesmo tempo em que cria possibilidade do alvorecer de uma sociedade não assentada no trabalho abstrato e no fetichismo, não fica fora dos horizontes a prevalência de um capitalismo cada vez mais destrutivo, afundado na barbárie vinda de todos os lados.
O livro de Jappe pode ser encontrado na Livraria Cultura ou na Editora Sem Fronteira, Fortaleza, telefone (85) 3081-2956, e-mail: criticaradical@bol.com.br
08.10.2006
Nesse momento em que parte da esquerda ainda não saiu do outro lado do muro ou saiu para aderir as reformas neoliberais, o livro de Anlsem Jappe, “As aventuras da mercadoria”, é muito bem vindo. Em São Paulo, quando o livro foi lançado, acompanhado de um filme de Guy Debord no Cinesesc Augusta, um número inesperado de pessoas, principalmente jovens, mostrou que existe alguma coisa no ar.
Eventos como este indica que esquerda tradicional que no poder não se diferencia da direita tradicional, haja vista a sucessão de escândalos, já não consegue empolgar com os velhos chavões. A crítica à sociedade mercantil parece começar a fugir das fileiras partidárias e ganha as ruas com merecida liberdade. O socilogismo institucional, que por anos alimentou o movimento social, dá sinais de esgotamento e cede lugar a nova crítica não presa a estereótipos.
É nesse contexto que surge o livro de Jappe. Em linguagem acessível mostra a importância da crítica do trabalho, do valor, da mercadoria e do fetichismo em Marx, principalmente no primeiro capitulo do “O Capital” , para compreensão da sociedade da mercadoria e da crise social na qual afundamos cada vez mais, como produto da crise da “valorização do valor”, ou seja, da sociedade capitalista.
Faz um apanhado crítico da teoria do valor retomada por Gyorgy Lukács em “História de consciência de classe” e Isaak Rubin, nos anos 30, até autores mais recentes como Robert Kurz na Alemanha, Moishe Postone nos Estados Unidos e Jean-Marie Vicente na França, que chegaram a conclusões semelhantes sem nenhuma relação um com o outro, em estudos isolados.
Mostra que o trabalho, enquanto atividade humana que produz valor, é imanente à sociedade capitalista e que a diferenciação entre trabalho concreto e trabalho abstrato, o trabalho concreto como o “pólo positivo que na sociedade capitalista é violado pelo trabalho abstrato” apaga-se, pois o primeiro só existe enquanto base do segundo. Portanto, a superação da sociedade capitalista pressupõe o fim do trabalho assalariado, considerando que no processo incessante de valorização do valor, trabalho e capital são faces de uma mesma moeda.
Chama atenção a clareza com que é escrito o capítulo “A crise da sociedade mercantil”, que trata de questões muitas vezes pouco valorizada pela esquerda, mas fundamentais para o entendimento do capitalismo nos tempos atuais como o trabalho improdutivo e o domínio do capital fictício sobre a produção real, como forma de dribla a crise do valor.
Com a revolução da micro-eletrônica, o capitalismo não conseguindo definitivamente compensar o decaimento do valor com a ampliação do trabalho produtivo, todas as fichas são apostadas no chamado setor terciário, cuja expansão agravara mais ainda a crise do valor com o aumento do trabalho improdutivo. Os problemas não tardaram. Como resposta, vieram as reformas neoliberais, privatizando as atividades de seguridade social e de infraestrutura, antes tidas como de responsabilidade do estado, e cortando fundo o que cheirava a supérfluo nas empresas privadas, incluído aí benefícios como assistência médica, fundos de aposentadorias e outros resquícios das conquistas trabalhistas no fordismo. Os “encargos secundários” que não poderam ser varridos pela fúria neoliberal são terceirizados e, a partir daí, incrementa-se a mais-valia absoluta.
Apesar da ineficácia das medidas, a crise de um sistema em colapso é adiada com ajuda das bolhas financeiras que se manifestam no endividamento pessoal, das empresas e do estado e na supervalorização das ações, dos imóveis, das commodities e outros ativos. A especulação financeira de toda ordem tem criando um volume absurdo de dinheiro totalmente descolado da produção real, que mais tarde ou mais cedo terá que prestar contas através da inflação ou da deflação.
À luz da crítica do valor analisa os escritos de alguns autores em moda como André Gorz e, principalmente, a “versão pós-moderna melhorada do operaismo italiano dos anos setenta” de Antônio Negri e Michael Hardt em ácida passagem intitulada “A última mascarada do marxismo tradicional”. Em diálogo tenso mas amistoso, busca visualizar caminhos ao impasse em que se encontra o movimento social que ainda se move dentro do leque de opções determinado pela sociedade capitalista, enquanto agrava-se a crise.
Uma advertência: apesar das evidências de que o capitalismo pode ter chegado ao limite com revolução tecnológica da micro-eletrônica que faz ruir o valor, ao mesmo tempo em que cria possibilidade do alvorecer de uma sociedade não assentada no trabalho abstrato e no fetichismo, não fica fora dos horizontes a prevalência de um capitalismo cada vez mais destrutivo, afundado na barbárie vinda de todos os lados.
O livro de Jappe pode ser encontrado na Livraria Cultura ou na Editora Sem Fronteira, Fortaleza, telefone (85) 3081-2956, e-mail: criticaradical@bol.com.br
08.10.2006
domingo, setembro 03, 2006
Os Presidentes e a crise da Volkswagen
Rall
Duas notícias nos jornais diários das últimas semanas chamaram atenção: a primeira, a ameaça da Volkswagen de fechar a fábrica de São Bernardo, berço do “sindicalismo moderno” e da militância do Presidente sindicalista. A outra, refere-se ao exponencial crescimento do emprego terceirizado em 127% em dez anos, de 1995 até 2005, segundo pesquisa do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho da Unicamp. Os fatos que parecem isolados, são, na verdade, manifestações de um mesmo fenômeno: queda da rentabilidade do capital industrial como expressão da crise do valor.
A Volks simbolizava o Brasil moderno que queria ingressa num salto no mercado mundial, não mais através do café e do açúcar exportado, mas da política de portas abertas ao capital transnacional, cujo ícone do período foi o alegre desfile do sorridente Presidente Juscelino em um fusquinha aberto. Com a indústria automobilística surge aí um novo momento da “modernização recuperadora” (Kurz), iniciada por Getúlio Vargas com a instalação da indústria de base e a campanha do “Petróleo é nosso”.
A Volkswagen e outras montadoras, ao se instalarem em São Bernardo do Campo, davam uma contribuição “pioneira” na geração de um novo pólo industrial. Com ele e nos intramuros das multinacionais, nasce o “sindicalismo de resultados”, cujo maior orgulho é ter forjado o operário-Presidente. Num primeiro momento, e, ainda, no apogeu do emprego farto na indústria, Presidente do maior e mais poderoso sindicato da América Latina. Agora, na crise do trabalho e no declínio do sindicalismo, Presidente do maior país do Continente.
Deixando de lado a dura coincidência, resta-nos uma pergunta: estaria a Volkswagen chantageando o governo em busca de empréstimos e outras vantagens como sugere setores do governo e a parte da imprensa? Quem conhece a empresa de São Bernardo sabe que pelo menos duas linhas de produção não são mais rentáveis: a do Gol e da Kombi. Há uma diferença enorme entre essas e a linha de produção do Fox, que apesar de seu grau de automação começa ficar para trás quando comparada com outras montadoras.
A acirrada competição internacional exige ajustes dramáticos, ou, até quem sabe, o encerramento das atividades. A nível mundial há uma sobrecapacidade da indústria automobilística, que resiste ao tampo com a introdução de novas tecnologias de produção dispensadoras de força de trabalho. Por outro lado, na China e no Leste Europeu há mão-de-obra sobrando, ávida para ser empregada a qualquer preço, ameaçando os trabalhadores bem estabelecidos nas indústrias do Ocidente. A saída que agora se busca é a destruição dos investimentos não rentáveis, transferência da produção com dispensa em massa e a redução salarial, mesmo que isso signifique a desindustrialização de países inteiros. No Brasil , a baixa formação de capital fixo é um sintoma dessa realidade.
Com o aumento da produtividade e a expulsão do trabalho da produção, o capitalismo está “a serrar o galho em que se encontra sentado” (Anselm Jappe), e busca compensar a queda da rentabilidade com artifícios financeiros e fusões. Hoje toda empresa que se preza tem seu banco que lhe garante uma sobrevida contábil. As fusões, que vêm acontecendo com enorme ferocidade, na mesma proporção que liquidam empresas e jogam milhares nas ruas, aumenta artificialmente os preços dos papéis das empresas canibais.
Cientes do risco de não fecharem a conta, mesmo tomando todas essas medidas e produzindo a todo vapor capital fictício, ante as ameaças de transferência da produção para outros países, buscam-se outros meios para reduzir custos, agora em cima dos que não conseguem dispensar. É quando entra a terceirização, que é a forma que o capitalismo em crise encontrou para reintroduzir a mais valia absoluta, esticando a carga horária e achatando os salários. Um destaque especial para esse processo apelidado de “precarização do emprego”, cabe aos chamados PJs (pessoa jurídica). Esse empresário-empregado, cuja característica é a introjeção de práticas sadomasoquistas de autoexploração é o grupo que mais cresce entre os terceirizados no País. Essa excrescência do mundo do trabalho em crise, tende a explodir com o artigo 129 da “MP do Bem”, aprovada pelo Senado e sancionada pelo Presidente Sindicalista.
02.09.2006
Duas notícias nos jornais diários das últimas semanas chamaram atenção: a primeira, a ameaça da Volkswagen de fechar a fábrica de São Bernardo, berço do “sindicalismo moderno” e da militância do Presidente sindicalista. A outra, refere-se ao exponencial crescimento do emprego terceirizado em 127% em dez anos, de 1995 até 2005, segundo pesquisa do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho da Unicamp. Os fatos que parecem isolados, são, na verdade, manifestações de um mesmo fenômeno: queda da rentabilidade do capital industrial como expressão da crise do valor.
A Volks simbolizava o Brasil moderno que queria ingressa num salto no mercado mundial, não mais através do café e do açúcar exportado, mas da política de portas abertas ao capital transnacional, cujo ícone do período foi o alegre desfile do sorridente Presidente Juscelino em um fusquinha aberto. Com a indústria automobilística surge aí um novo momento da “modernização recuperadora” (Kurz), iniciada por Getúlio Vargas com a instalação da indústria de base e a campanha do “Petróleo é nosso”.
A Volkswagen e outras montadoras, ao se instalarem em São Bernardo do Campo, davam uma contribuição “pioneira” na geração de um novo pólo industrial. Com ele e nos intramuros das multinacionais, nasce o “sindicalismo de resultados”, cujo maior orgulho é ter forjado o operário-Presidente. Num primeiro momento, e, ainda, no apogeu do emprego farto na indústria, Presidente do maior e mais poderoso sindicato da América Latina. Agora, na crise do trabalho e no declínio do sindicalismo, Presidente do maior país do Continente.
Deixando de lado a dura coincidência, resta-nos uma pergunta: estaria a Volkswagen chantageando o governo em busca de empréstimos e outras vantagens como sugere setores do governo e a parte da imprensa? Quem conhece a empresa de São Bernardo sabe que pelo menos duas linhas de produção não são mais rentáveis: a do Gol e da Kombi. Há uma diferença enorme entre essas e a linha de produção do Fox, que apesar de seu grau de automação começa ficar para trás quando comparada com outras montadoras.
A acirrada competição internacional exige ajustes dramáticos, ou, até quem sabe, o encerramento das atividades. A nível mundial há uma sobrecapacidade da indústria automobilística, que resiste ao tampo com a introdução de novas tecnologias de produção dispensadoras de força de trabalho. Por outro lado, na China e no Leste Europeu há mão-de-obra sobrando, ávida para ser empregada a qualquer preço, ameaçando os trabalhadores bem estabelecidos nas indústrias do Ocidente. A saída que agora se busca é a destruição dos investimentos não rentáveis, transferência da produção com dispensa em massa e a redução salarial, mesmo que isso signifique a desindustrialização de países inteiros. No Brasil , a baixa formação de capital fixo é um sintoma dessa realidade.
Com o aumento da produtividade e a expulsão do trabalho da produção, o capitalismo está “a serrar o galho em que se encontra sentado” (Anselm Jappe), e busca compensar a queda da rentabilidade com artifícios financeiros e fusões. Hoje toda empresa que se preza tem seu banco que lhe garante uma sobrevida contábil. As fusões, que vêm acontecendo com enorme ferocidade, na mesma proporção que liquidam empresas e jogam milhares nas ruas, aumenta artificialmente os preços dos papéis das empresas canibais.
Cientes do risco de não fecharem a conta, mesmo tomando todas essas medidas e produzindo a todo vapor capital fictício, ante as ameaças de transferência da produção para outros países, buscam-se outros meios para reduzir custos, agora em cima dos que não conseguem dispensar. É quando entra a terceirização, que é a forma que o capitalismo em crise encontrou para reintroduzir a mais valia absoluta, esticando a carga horária e achatando os salários. Um destaque especial para esse processo apelidado de “precarização do emprego”, cabe aos chamados PJs (pessoa jurídica). Esse empresário-empregado, cuja característica é a introjeção de práticas sadomasoquistas de autoexploração é o grupo que mais cresce entre os terceirizados no País. Essa excrescência do mundo do trabalho em crise, tende a explodir com o artigo 129 da “MP do Bem”, aprovada pelo Senado e sancionada pelo Presidente Sindicalista.
02.09.2006
domingo, julho 23, 2006
O porquê dos juros altos e o discurso da esquerda
Rall
É ingenuidade imaginar que só os banqueiros são beneficiados com os juros altos. Todo setor produtivo como também o comércio e serviços, se beneficiam ao vender a crédito de duas maneiras: 1. aumentando as vendas, 2. aumentando seus lucros cobrando juros exorbitantes. Hoje as empresas ou possuem seus próprios bancos ou financeiras ou trabalham em parceria com o setor financeiro, beneficiando-se do mesmo jeito.
Suspeito que esses mecanismos são utilizados para compensar a baixa rentabilidade oferecida pela economia real. É uma forma disfarçada de manter os preços altos, não deixa de não ser uma forma de manter inflação para uma camada da população que só pode adquirir bens à prestação.
Com os juros altos, ganha os bancos, ganha o comércio e a indústria e a parcela privilegiada da população que pode comprar à vista, com descontos, e ainda investir suas sobras na ciranda financeira. Em resumo: os juros altos são uma forma de transferir renda dos menos privilegiados para os mais privilegiados, mecanismo nada novo em nosso capitalismo tupiniquim.
Isso exige que o Estado sinalize para o mercado que os juros vão se manter em determinados patamares. Por outro lado, se os juros caem por ação do Banco Central e ameaça os rendimentos dos privilegiados, “a mão invisível” do mercado reage aumentando a inflação como forma de manter os rendimentos dos agentes econômicos.
A grita de setores do empresariado, geralmente os mais endividados ou os que estão fora da economia de escala, diz respeito aos seus empréstimos e não o que repassam para os consumidores na forma de juros altos. Ninguém abre mão de seus lucros porque o vizinho está fechando as portas ou o outro está a morrer de fome. Não há discurso moral que reverta essa lógica irracional.
Além das camadas da população que antes não tinham como se salvar da inflação e agora dos juros altos, a conta é paga também pelo Estado que para isso penaliza as camadas não privilegiadas com seus impostos desiguais. Os desfavorecidos são achacados duas vezes: pelos altos juros do mercado e pelos impostos do governo. Eis aí uma hipótese para ajudar a explicar a enorme concentração de renda nesse país.
Ao contrário do que muitos imaginam, os juros altos talvez seja a bolha que movimenta a ilha de prosperidade cercada pelo mar de miséria que ameaça inunda-la. Apesar dos discursos contrários, pouco pode fazer os agentes econômicos à não ser tirar proveito do que lhe é oferecido nessas circunstâncias, agem como “sujeito automático” na busca do lucro. Não tem ou não precisam ter clara consciência do fenômeno que eles mesmos produzem, mas que lhes é estranho, ao defender seus interesses. Desvendar os mistérios da economia não é seu dever. Se assim não fosse teriam a economia sobre as rédeas.
É ingenuidade imaginar que só os banqueiros são beneficiados com os juros altos. Todo setor produtivo como também o comércio e serviços, se beneficiam ao vender a crédito de duas maneiras: 1. aumentando as vendas, 2. aumentando seus lucros cobrando juros exorbitantes. Hoje as empresas ou possuem seus próprios bancos ou financeiras ou trabalham em parceria com o setor financeiro, beneficiando-se do mesmo jeito.
Suspeito que esses mecanismos são utilizados para compensar a baixa rentabilidade oferecida pela economia real. É uma forma disfarçada de manter os preços altos, não deixa de não ser uma forma de manter inflação para uma camada da população que só pode adquirir bens à prestação.
Com os juros altos, ganha os bancos, ganha o comércio e a indústria e a parcela privilegiada da população que pode comprar à vista, com descontos, e ainda investir suas sobras na ciranda financeira. Em resumo: os juros altos são uma forma de transferir renda dos menos privilegiados para os mais privilegiados, mecanismo nada novo em nosso capitalismo tupiniquim.
Isso exige que o Estado sinalize para o mercado que os juros vão se manter em determinados patamares. Por outro lado, se os juros caem por ação do Banco Central e ameaça os rendimentos dos privilegiados, “a mão invisível” do mercado reage aumentando a inflação como forma de manter os rendimentos dos agentes econômicos.
A grita de setores do empresariado, geralmente os mais endividados ou os que estão fora da economia de escala, diz respeito aos seus empréstimos e não o que repassam para os consumidores na forma de juros altos. Ninguém abre mão de seus lucros porque o vizinho está fechando as portas ou o outro está a morrer de fome. Não há discurso moral que reverta essa lógica irracional.
Além das camadas da população que antes não tinham como se salvar da inflação e agora dos juros altos, a conta é paga também pelo Estado que para isso penaliza as camadas não privilegiadas com seus impostos desiguais. Os desfavorecidos são achacados duas vezes: pelos altos juros do mercado e pelos impostos do governo. Eis aí uma hipótese para ajudar a explicar a enorme concentração de renda nesse país.
Ao contrário do que muitos imaginam, os juros altos talvez seja a bolha que movimenta a ilha de prosperidade cercada pelo mar de miséria que ameaça inunda-la. Apesar dos discursos contrários, pouco pode fazer os agentes econômicos à não ser tirar proveito do que lhe é oferecido nessas circunstâncias, agem como “sujeito automático” na busca do lucro. Não tem ou não precisam ter clara consciência do fenômeno que eles mesmos produzem, mas que lhes é estranho, ao defender seus interesses. Desvendar os mistérios da economia não é seu dever. Se assim não fosse teriam a economia sobre as rédeas.
O discurso da esquerda radical, contra a especulação financeira que esfola o capital produtivo e o trabalho, é no mínimo ingênuo. Aí tem seu ponto de encontro com a direita autoritária de tinturas nacionalista. Tal discurso aparentemente justo, alimenta o populismo de toda espécie, nada muda e geralmente conduz ao sectarismo sem saída. Nesse momento, só a crítica categorial aos fundamentos da sociedade capitalista é realista.
23.07.2006
sexta-feira, julho 14, 2006
O FASCISMO E O MUNDO CONTEMPORÂNEO
Rall
Acho bastante pertinente a discussão sobre o fascismo desencadeado pelo referendo das armas e a análise dos discursos que trazem em seu conteúdo elementos do mesmo, num momento em que manifestações autoritárias são mascaradas pelos instrumentos da democracia. Essa é uma questão que não se esgota fácil e muitas vezes deixada de lado pelas correntes políticas que se dizem de esquerda.
Tenho dificuldade de entender o fenômeno sem uma crítica radical a sociedade burguesa. No entanto, a questão parece não se esgotar aí. Se assim fosse, não existiriam resistências ao discurso fascista ou a condutas caracterizadas como tal. Aí eu me pergunto: o que definimos como fascismo nos tempos atuais que não sejam os xingamentos? Será que o fascismo não é um fenômeno mais amplo do que normalmente caracterizamos em nossa crítica? Uma coisa é certa, a sociedade burguesa em crise tem se tornado cada vez mais intolerante. É intolerante com os pobres que em sua marginalidade são confundidos com bandidos; extremamente intolerante com qualquer tipo de situação classificada como “delito” pelas normas jurídicas e, se flagrado, o indivíduo é jogado na prisão, trem para o inferno sem passagem de retorno; intolerante com os jovens que ao não se enquadrarem nos padrões tidos como “normais”, são acusados de delinqüente e trancafiados nas Febens da vida que tão bem lhes ensinam os caminhos da violência; se hoje um jovem fizer o que fazíamos em nossa juventude está perdido; intolerante com os desempregados que vistos pelo olho assustado dos que estão provisoriamente empregados são classificados como vagabundos. (Moro num prédio de classe média, onde cada vez mais jovens se formam e ficam em casa por falta de emprego. É notória a censura a que são submetidos pelos moradores e até mesmo pelos familiares. Nas conversas estão sempre tentando se justificar como se carregassem a culpa do maior dos pecados). Intolerante com os idosos que por não serem mais produtivos são levados sem piedade para morrer (ou serem mortos?) nos albergues e asilos; intolerante com a mulher vítima de todo tipo de violência; com os enfermos que em sua fragilidade deixam seus corpos serem violados sem nenhuma reação por uma medicina mercantilizada. Em fim, uma intolerância disseminada, principalmente com aqueles que não servem à sociedade do trabalho.
Muitas vezes, a intolerância gerada nos grupos sociais é normatizada pelo Estado em nome da segurança e da defesa do cidadão, o que é grave. Quando na ditadura a intolerância era do Estado, exercida contra os direitos privados, gerava resistências. Hoje, os indivíduos amedrontados, abrem mão das liberdades em troca de uma suposta segurança. A esmagadora vitória do “não” no referendo, já vem sendo interpretada pelos arautos da segurança, como um clamor para que o Estado prenda mais, mate mais... Não é à frente do “não”, que embalada pela vitória, já se fala em um outro plebiscito, agora para aprovar a pena de morte?
A intolerância, uma manifestação do medo e do autoritarismo que grassa a sociedade, apesar de ser um dos componentes do fascismo, por si só não o define, penso eu. O nazi/fascismo surgiu numa Europa dilacerada, assustada com as revoluções “socialistas” e com o movimento operário do pós-guerra, numa Alemanha humilhada, com dívidas de guerra e milhares de desempregados, muitos deles soldados desmobilizados das frentes de batalha.Tinha seus símbolos, suas bandeiras, seus modelos ideais de uma nação de “raça pura” que em nome do nacionalismo, componente importante na trama delirante, tentava chacoalhar a população derrotada, transformando-a em massa para seus objetivos. Era também uma forma de mobilização para a superexploração em nome do dever com a nação. O trabalho, ou melhor, o sacrifício no trabalho, apresentado como nobre, digno de uma raça sem mistura, tinha um papel central no discurso nazi/fascista, estava aí um dos seus pontos de encontro com o stalinismo. Não fazia diferença se o trabalho era na fábrica ou no front, se si perdia vidas com corpos perfurados à balas ou levado ao exaustão nas fábricas militarizadas. Morrer de uma ou outra forma era “passar da Alemanha temporal à Alemanha eterna”.
A compulsão de superar tudo e a todos, interna e externamente, era um dever do cidadão ariano. O outro, um obstáculo, tinha que ser eliminado. Daí a guerra, o anti-semitismo, o extermínio dos judeus e de outros incapazes que “sabotavam com seus atos impuros o potencial do povo alemão”.
O que há em comum entre essa competição extrema, que leva a destruição dos competidores e o capitalismo atual? Na Alemanha nazista os fortes mereciam vencer, aos fracos o descarte. Quais as diferenças e quais os pontos em comum entre a sociedade atual, que na sua insana concorrência exclui sem piedade os não ajustados ao mercado, e a Alemanha nazista que cultuava a morte, vista como desfecho natural para os perdedores, os mentalmente inferiores ou para aqueles que obstaculizavam o ressurgimento da nação alemã formada por um povo puro e vencedor? A morte para os fortes, aqueles que tombam destemidos por esse paranóico ideal, tinha um significado diferente, era a glória. Para esses, as homenagens póstumas, as medalhas do terceiro Reich, a eternidade; para àqueles uma morte que não deixasse vestígios das suas impurezas sobre o sagrado território, os fornos crematórios. A realização e ao mesmo tempo a destruição de obras grandiosas, não importa o sacrifício humano, presentes nos cálculos de Hitler, não são parte da política do capitalismo atual das grandes corporações feita sem disparar um tiro?
As condições sociais atuais, a violência dos grupos mafiosos e a violência institucional, o rancor de uma classe média empobrecida, o medo que se espalha, reforçado pela forma como os meios de comunicação manipulam as informações sobre a violência; o poder desmedido e sem controle das grandes corporações que agem automaticamente em busca de sempre maximizar os lucros, com custos altíssimos para natureza e o homem; um Estado corrompido e preso aos ditames da economia globalizada, tudo isso são “meios de cultura” apropriados para barbárie de toda espécie que brota no cotidiano sem a resistência necessária.
27.10.2005
Acho bastante pertinente a discussão sobre o fascismo desencadeado pelo referendo das armas e a análise dos discursos que trazem em seu conteúdo elementos do mesmo, num momento em que manifestações autoritárias são mascaradas pelos instrumentos da democracia. Essa é uma questão que não se esgota fácil e muitas vezes deixada de lado pelas correntes políticas que se dizem de esquerda.
Tenho dificuldade de entender o fenômeno sem uma crítica radical a sociedade burguesa. No entanto, a questão parece não se esgotar aí. Se assim fosse, não existiriam resistências ao discurso fascista ou a condutas caracterizadas como tal. Aí eu me pergunto: o que definimos como fascismo nos tempos atuais que não sejam os xingamentos? Será que o fascismo não é um fenômeno mais amplo do que normalmente caracterizamos em nossa crítica? Uma coisa é certa, a sociedade burguesa em crise tem se tornado cada vez mais intolerante. É intolerante com os pobres que em sua marginalidade são confundidos com bandidos; extremamente intolerante com qualquer tipo de situação classificada como “delito” pelas normas jurídicas e, se flagrado, o indivíduo é jogado na prisão, trem para o inferno sem passagem de retorno; intolerante com os jovens que ao não se enquadrarem nos padrões tidos como “normais”, são acusados de delinqüente e trancafiados nas Febens da vida que tão bem lhes ensinam os caminhos da violência; se hoje um jovem fizer o que fazíamos em nossa juventude está perdido; intolerante com os desempregados que vistos pelo olho assustado dos que estão provisoriamente empregados são classificados como vagabundos. (Moro num prédio de classe média, onde cada vez mais jovens se formam e ficam em casa por falta de emprego. É notória a censura a que são submetidos pelos moradores e até mesmo pelos familiares. Nas conversas estão sempre tentando se justificar como se carregassem a culpa do maior dos pecados). Intolerante com os idosos que por não serem mais produtivos são levados sem piedade para morrer (ou serem mortos?) nos albergues e asilos; intolerante com a mulher vítima de todo tipo de violência; com os enfermos que em sua fragilidade deixam seus corpos serem violados sem nenhuma reação por uma medicina mercantilizada. Em fim, uma intolerância disseminada, principalmente com aqueles que não servem à sociedade do trabalho.
Muitas vezes, a intolerância gerada nos grupos sociais é normatizada pelo Estado em nome da segurança e da defesa do cidadão, o que é grave. Quando na ditadura a intolerância era do Estado, exercida contra os direitos privados, gerava resistências. Hoje, os indivíduos amedrontados, abrem mão das liberdades em troca de uma suposta segurança. A esmagadora vitória do “não” no referendo, já vem sendo interpretada pelos arautos da segurança, como um clamor para que o Estado prenda mais, mate mais... Não é à frente do “não”, que embalada pela vitória, já se fala em um outro plebiscito, agora para aprovar a pena de morte?
A intolerância, uma manifestação do medo e do autoritarismo que grassa a sociedade, apesar de ser um dos componentes do fascismo, por si só não o define, penso eu. O nazi/fascismo surgiu numa Europa dilacerada, assustada com as revoluções “socialistas” e com o movimento operário do pós-guerra, numa Alemanha humilhada, com dívidas de guerra e milhares de desempregados, muitos deles soldados desmobilizados das frentes de batalha.Tinha seus símbolos, suas bandeiras, seus modelos ideais de uma nação de “raça pura” que em nome do nacionalismo, componente importante na trama delirante, tentava chacoalhar a população derrotada, transformando-a em massa para seus objetivos. Era também uma forma de mobilização para a superexploração em nome do dever com a nação. O trabalho, ou melhor, o sacrifício no trabalho, apresentado como nobre, digno de uma raça sem mistura, tinha um papel central no discurso nazi/fascista, estava aí um dos seus pontos de encontro com o stalinismo. Não fazia diferença se o trabalho era na fábrica ou no front, se si perdia vidas com corpos perfurados à balas ou levado ao exaustão nas fábricas militarizadas. Morrer de uma ou outra forma era “passar da Alemanha temporal à Alemanha eterna”.
A compulsão de superar tudo e a todos, interna e externamente, era um dever do cidadão ariano. O outro, um obstáculo, tinha que ser eliminado. Daí a guerra, o anti-semitismo, o extermínio dos judeus e de outros incapazes que “sabotavam com seus atos impuros o potencial do povo alemão”.
O que há em comum entre essa competição extrema, que leva a destruição dos competidores e o capitalismo atual? Na Alemanha nazista os fortes mereciam vencer, aos fracos o descarte. Quais as diferenças e quais os pontos em comum entre a sociedade atual, que na sua insana concorrência exclui sem piedade os não ajustados ao mercado, e a Alemanha nazista que cultuava a morte, vista como desfecho natural para os perdedores, os mentalmente inferiores ou para aqueles que obstaculizavam o ressurgimento da nação alemã formada por um povo puro e vencedor? A morte para os fortes, aqueles que tombam destemidos por esse paranóico ideal, tinha um significado diferente, era a glória. Para esses, as homenagens póstumas, as medalhas do terceiro Reich, a eternidade; para àqueles uma morte que não deixasse vestígios das suas impurezas sobre o sagrado território, os fornos crematórios. A realização e ao mesmo tempo a destruição de obras grandiosas, não importa o sacrifício humano, presentes nos cálculos de Hitler, não são parte da política do capitalismo atual das grandes corporações feita sem disparar um tiro?
As condições sociais atuais, a violência dos grupos mafiosos e a violência institucional, o rancor de uma classe média empobrecida, o medo que se espalha, reforçado pela forma como os meios de comunicação manipulam as informações sobre a violência; o poder desmedido e sem controle das grandes corporações que agem automaticamente em busca de sempre maximizar os lucros, com custos altíssimos para natureza e o homem; um Estado corrompido e preso aos ditames da economia globalizada, tudo isso são “meios de cultura” apropriados para barbárie de toda espécie que brota no cotidiano sem a resistência necessária.
27.10.2005
terça-feira, julho 11, 2006
Um prego no caixão das leis trabalhistas com direito a réquiem tocado por sindicalistas
Rall
Li nesses dias, que chorões sindicalistas, reclamavam da “maldade” contra os trabalhadores que foi a aprovação no congresso da “MP do Bem”, agora sancionada por outro sindicalista Presidente da República. É o choro depois do leite derramado. Coisa para inglês vê como se diz na gíria. O que não se diz é que o artigo 129, do qual reclamavam de araque, já vinha sendo praticado pelo mercado, sem nenhum obstáculo. O processo de terceirização, que há muito vem expulsando das relações trabalhistas a CLT, já não encontrava resistência nos tribunais do trabalho e nos sindicatos, mesmo quando burla a lei tentando mascarar com artifícios o vínculo trabalhista. Antes eram criadas as cooperativas de trabalho, na maioria das vezes pelo próprio empregador, para fugir da legislação. Agora, nem isso necessita: com a “MP do Bem” (brincam até com o nome), promovem o empregado a patrão de si mesmo, dispensa-se os intermediários.
A porta que já vinha sendo arrombada há tempo, abre-se de vez para o capitalismo do vale tudo. Agora todos já podem trabalhar 15-20 horas por dia, produzir sua mais valia absoluta e até se auto-imolar em oferenda ao deus trabalho sem que os tribunais encham o saco. Já não há mais “entulhos” como diz os juristas da modernidade, o caminho foi limpo, todos estão livres para correr alegremente em busca do altar dos sacrifícios.
A extensão dessa medida que aparentemente é dirigida à mão-de-obra especializada e cara será sentida muito mais profundamente do que se imagina. Em poucos anos vamos saber quantos perderam o pouco de direito que lhes davam a condição de ter “carteira assinada”. Os sindicatos que no esvaziamento de suas funções não sabem mais o que fazer para agradar, a não ser distribuir brindes imitando mal os mais lamentáveis espetáculos, aceleram de ladeira abaixo sua queda e se confunde cada vez mais com os interesses do capital.
A renda média do trabalhador em São Paulo despencou 31% em dez anos, entre 95 e 2005, segundo pesquisa do Dieese. Essa situação, que tende a se agravar, não deve ser diferente para resto do país onde os salários são mais baixos. Mesmo com crescimento econômico o desemprego persiste, e todas as pesquisas têm mostrado que a maioria dos empregos criados são de baixos salários e gerados na área de serviços, o que mostra a precarização e a incapacidade da economia de absorver satisfatoriamente força de trabalho disponível com a expansão dos mercados. Trocando em miúdos: o aumento da produtividade, com a utilização das novas tecnologias, movida pela concorrência entre as empresas, têm substituído o trabalho humano por máquinas, não permitindo que a economia, mesmo em alta, crie empregos suficientes capazes de absorver a força de trabalho disponível, tornando-a, em grande medida, supérflua.
Esse é o grande paradoxo de nosso século que os governos, os sindicatos, políticos e as instituições de um modo geral preferem “resolver” com um discurso demagógico e mentiroso da geração de novos postos de trabalho. O problema é sabido, mas sua discussão é negada pelo que pode engendrar. Busca-se saídas mais fáceis para garantir a acumulação com custos sociais altíssimos que só agravam a crise. A MP do Bem faz parte dessa realidade e novas medidas de desregulamentação, tidas como realistas, tendem aparecer novamente, deixando sem peias o mercado para o movimento do capital que em seus estertores sobrevive à custa de bolhas. Mas quando lhe faltar o ar que artificialmente respira, injetado muitas vezes com ajuda daqueles que o condena, espero que requiscat in pace.
21.05.2005
Li nesses dias, que chorões sindicalistas, reclamavam da “maldade” contra os trabalhadores que foi a aprovação no congresso da “MP do Bem”, agora sancionada por outro sindicalista Presidente da República. É o choro depois do leite derramado. Coisa para inglês vê como se diz na gíria. O que não se diz é que o artigo 129, do qual reclamavam de araque, já vinha sendo praticado pelo mercado, sem nenhum obstáculo. O processo de terceirização, que há muito vem expulsando das relações trabalhistas a CLT, já não encontrava resistência nos tribunais do trabalho e nos sindicatos, mesmo quando burla a lei tentando mascarar com artifícios o vínculo trabalhista. Antes eram criadas as cooperativas de trabalho, na maioria das vezes pelo próprio empregador, para fugir da legislação. Agora, nem isso necessita: com a “MP do Bem” (brincam até com o nome), promovem o empregado a patrão de si mesmo, dispensa-se os intermediários.
A porta que já vinha sendo arrombada há tempo, abre-se de vez para o capitalismo do vale tudo. Agora todos já podem trabalhar 15-20 horas por dia, produzir sua mais valia absoluta e até se auto-imolar em oferenda ao deus trabalho sem que os tribunais encham o saco. Já não há mais “entulhos” como diz os juristas da modernidade, o caminho foi limpo, todos estão livres para correr alegremente em busca do altar dos sacrifícios.
A extensão dessa medida que aparentemente é dirigida à mão-de-obra especializada e cara será sentida muito mais profundamente do que se imagina. Em poucos anos vamos saber quantos perderam o pouco de direito que lhes davam a condição de ter “carteira assinada”. Os sindicatos que no esvaziamento de suas funções não sabem mais o que fazer para agradar, a não ser distribuir brindes imitando mal os mais lamentáveis espetáculos, aceleram de ladeira abaixo sua queda e se confunde cada vez mais com os interesses do capital.
A renda média do trabalhador em São Paulo despencou 31% em dez anos, entre 95 e 2005, segundo pesquisa do Dieese. Essa situação, que tende a se agravar, não deve ser diferente para resto do país onde os salários são mais baixos. Mesmo com crescimento econômico o desemprego persiste, e todas as pesquisas têm mostrado que a maioria dos empregos criados são de baixos salários e gerados na área de serviços, o que mostra a precarização e a incapacidade da economia de absorver satisfatoriamente força de trabalho disponível com a expansão dos mercados. Trocando em miúdos: o aumento da produtividade, com a utilização das novas tecnologias, movida pela concorrência entre as empresas, têm substituído o trabalho humano por máquinas, não permitindo que a economia, mesmo em alta, crie empregos suficientes capazes de absorver a força de trabalho disponível, tornando-a, em grande medida, supérflua.
Esse é o grande paradoxo de nosso século que os governos, os sindicatos, políticos e as instituições de um modo geral preferem “resolver” com um discurso demagógico e mentiroso da geração de novos postos de trabalho. O problema é sabido, mas sua discussão é negada pelo que pode engendrar. Busca-se saídas mais fáceis para garantir a acumulação com custos sociais altíssimos que só agravam a crise. A MP do Bem faz parte dessa realidade e novas medidas de desregulamentação, tidas como realistas, tendem aparecer novamente, deixando sem peias o mercado para o movimento do capital que em seus estertores sobrevive à custa de bolhas. Mas quando lhe faltar o ar que artificialmente respira, injetado muitas vezes com ajuda daqueles que o condena, espero que requiscat in pace.
21.05.2005
domingo, julho 09, 2006
O CIRCUITO ASIÁTICO DA ECONOMIA MUNDIAL
Como a economia mundial se sustenta em tempos de crise da valorização do capital
Rall
A grande imprensa tem noticiado com freqüência os alertas feitos a China pelas instituições financeiras mundiais para que deixe o yuan (moeda chinesa) flutuar por encontrar-se artificialmente subvalorizado, como medida para reduzir o déficit em conta corrente americano, financiado principalmente, pelos superávits dos países asiáticos. Ora, ao mesmo tempo em que pedem a China mais equilíbrio de sua moeda em relação ao dólar, a economia americana necessita desesperadamente do dinheiro gerado nos superávits chinês. Essa relação de dependência entre as duas economias é que costumam chamar de circuito asiático.
Como funciona? Os países do leste asiático, principalmente a China, produzem mercadorias, com preços bastante competitivos, que são absorvidas por ávidos consumidores americanos. Isso tem gerado um enorme superávit nesses países em relação a maior economia do mundo, dinheiro que retorna barato ao mercado americano na forma de investimentos em papéis com garantias do tesouro. Esse fluxo de mercadorias e capitais é fundamental para o funcionamento da economia dos EUA e o crescimento da economia chinesa, com reflexo no resto do mundo.
Qual a conseqüência disso para indústria? A grande maioria dos produtos exportados pela China sai das empresas americanas aí instaladas, que são beneficiadas pelos baixos salários pagos (em média menos de 1/10 do valor recebido pelo trabalhador americano, quando comparados todos salários da cadeia produtiva). A lógica do capital é da valorização do valor, se no país onde dançam os dragões essa façanha é possível vamos à China. Isso gera um fenômeno um tanto estranho para alguns: nos dois paises, apesar do crescimento econômico, cai o emprego na indústria pelo aumento da produtividade, e ainda, nos EUA, pela fuga de capitais da produção em busca de uma maior rentabilidade, na China pelo impacto tecnológico em uma economia de uso extensivo de força de trabalho.
E quanto ao fluxo de capitais? O dinheiro que retorna ao mercado americano não encontra na produção sua melhor aplicação por ser pouco rentável, a não ser na aquisição estratégica de empresas. Ao aumentar a liquidez, pressiona os juros a longo prazo para baixo, alimentando a especulação no mercado financeiro, nas bolsas e no mercado imobiliário, fazendo expandir com isso as bolhas que por sua vez sustentam artificialmente o consumo, beneficiando as importações, principalmente do leste asiático.
Se o superávit chinês e de outros países não fossem tão importante para expansão do capital fictício, que movimenta a economia mundial a partir dos grandes centros, garantindo o que tem sido chamado no capitalismo-cassino de “efeito riqueza”, em outras palavras, capital-dinheiro destituído de substância, não haveria tanta defesa desse desequilíbrio por economistas de prestígio no sistema. Divergências à parte, todos estão de acordo que esse ainda é o caminho para manter o consumo aquecido.
Rall
A grande imprensa tem noticiado com freqüência os alertas feitos a China pelas instituições financeiras mundiais para que deixe o yuan (moeda chinesa) flutuar por encontrar-se artificialmente subvalorizado, como medida para reduzir o déficit em conta corrente americano, financiado principalmente, pelos superávits dos países asiáticos. Ora, ao mesmo tempo em que pedem a China mais equilíbrio de sua moeda em relação ao dólar, a economia americana necessita desesperadamente do dinheiro gerado nos superávits chinês. Essa relação de dependência entre as duas economias é que costumam chamar de circuito asiático.
Como funciona? Os países do leste asiático, principalmente a China, produzem mercadorias, com preços bastante competitivos, que são absorvidas por ávidos consumidores americanos. Isso tem gerado um enorme superávit nesses países em relação a maior economia do mundo, dinheiro que retorna barato ao mercado americano na forma de investimentos em papéis com garantias do tesouro. Esse fluxo de mercadorias e capitais é fundamental para o funcionamento da economia dos EUA e o crescimento da economia chinesa, com reflexo no resto do mundo.
Qual a conseqüência disso para indústria? A grande maioria dos produtos exportados pela China sai das empresas americanas aí instaladas, que são beneficiadas pelos baixos salários pagos (em média menos de 1/10 do valor recebido pelo trabalhador americano, quando comparados todos salários da cadeia produtiva). A lógica do capital é da valorização do valor, se no país onde dançam os dragões essa façanha é possível vamos à China. Isso gera um fenômeno um tanto estranho para alguns: nos dois paises, apesar do crescimento econômico, cai o emprego na indústria pelo aumento da produtividade, e ainda, nos EUA, pela fuga de capitais da produção em busca de uma maior rentabilidade, na China pelo impacto tecnológico em uma economia de uso extensivo de força de trabalho.
E quanto ao fluxo de capitais? O dinheiro que retorna ao mercado americano não encontra na produção sua melhor aplicação por ser pouco rentável, a não ser na aquisição estratégica de empresas. Ao aumentar a liquidez, pressiona os juros a longo prazo para baixo, alimentando a especulação no mercado financeiro, nas bolsas e no mercado imobiliário, fazendo expandir com isso as bolhas que por sua vez sustentam artificialmente o consumo, beneficiando as importações, principalmente do leste asiático.
Se o superávit chinês e de outros países não fossem tão importante para expansão do capital fictício, que movimenta a economia mundial a partir dos grandes centros, garantindo o que tem sido chamado no capitalismo-cassino de “efeito riqueza”, em outras palavras, capital-dinheiro destituído de substância, não haveria tanta defesa desse desequilíbrio por economistas de prestígio no sistema. Divergências à parte, todos estão de acordo que esse ainda é o caminho para manter o consumo aquecido.
Saídas dessa encruzilhada, sem apostar em novas bolhas, são dolorosas e passariam necessariamente pela recessão, com a redução do consumo mundial que atingiria em cheio a China e outros países, pois veriam fechados os sorvedouros de seus produtos. A conseqüência da redução dos superávits seria a diminuição do fluxo do dinheiro asiático para o mercado americano, que agravaria mais ainda a recessão e poderia levar a um desequilíbrio de proporções inéditas no orçamento deficitário do governo dos EUA, pela queda da arrecadação e pela redução da entrada de recursos externos.
Numa convergência de interesses, o governo Bush jogou bilhões de dólares no mercado, com os cortes de impostos e juros baixos, que tem sido torrado num consumo perdulário e em investimentos não produtivos. O rombo de quase quinhentos bilhões de dólares no orçamento, agravado com as despesas de guerra, e valor semelhante em conta corrente, para serem financiados necessitam dos recursos dos investidores estrangeiros. Qualquer medida que leve a redução dos superávits de parte dos países desse circuito, teria repercussão imediata na entrada de capitais.
Entre as muitas saídas pensadas para reduzir os déficits está o aumento de impostos e dos juros numa velocidade maior, que ao enxugar o dinheiro circulante, atingiria negativamente o consumo e sem dúvida faria economia cair em recessão, com as implicações já citadas. A combinação de todas medidas teria efeitos semelhantes. Apesar dos esperneio, a posição dos gerentes da crise e de alguns analistas é que a margem de manobra é apertada, um reconhecimento que pouco pode ser feito a não ser administrar a crise e apostar no surgimento de novas bolhas ou rezar para que as existentes sejam infinitas, posição que se ajusta muito bem ao raciocínio dos operadores dos mercados de papéis, distantes da economia real.
O circuito asiático de fluxos de mercadorias e capitais para os EUA é parte da mega simulação encontrada para alimentar a criação de capital fictício e manter alto o consumo sustentado por bolhas. Resta saber se o provável estouro da bolha do mercado imobiliário, que teve origem nos EUA ainda no final dos anos 90 e se expandiu para o resto do mundo, vai permitir o surgimento de outras com o sopro milagroso capital financeiro. Acreditam alguns críticos que após o estouro da bolha nas bolsas em 2001, não totalmente esvaziada, e o possível estouro da bolha imobiliária, o campo se estreita para o crescimento de outras. Outros, porém, acham que o capitalismo está sendo impulsionado por fenômenos que apontam para um novo paradigma, também ouvimos essa conversa antes do desastre das bolsas.
A expansão desse fenômeno parece ser a tendência, acompanhado de um certo “efeito sanfona” na economia de bolhas, ou seja, quando uma esvazia surge outra de maior amplitude em um tempo mais curto, gerando demandas, mas prometendo no seu ocaso um estrago maior do que sua predecessora. O que alguns analistas não conseguem enxergar, por se ocuparem com mundo da aparência, é que, o que chega a superfície são manifestações da crise da valorização do capital, da “alma que move a produção capitalista” (Marx).
04.07.2005
quinta-feira, junho 22, 2006
Um Zumbi assombra o mundo
Rall
O mundo volta a sorrir. A economia dá sinais de crescimento consistente. O emprego, após três anos em baixa, começa reagir na locomotiva do mundo. Os analistas econômicos andam ocupados, explicando para mídia, que a recessão acabou. Mas alguma coisa não bate com a alegre aparição desses simpáticos senhores na tele de notícias. As bolsas de valores, que deveriam acompanhar esse movimento ascendente da economia mundial, sinalizam um movimento em sentido contrário, principalmente no terceiro mundo. O risco país dispara e na cor rosada das gordas bochechas dos analistas, já dá para ver alguma palidez.
A primeira vista não deixa de ser estranho em plena retomada econômica o “humor do mercado”. Mercado aonde não se busca mais produtos para satisfazer necessidades, mas acumulam-se e vendem-se papéis de variados formatos e valores. Os sinais, cada vez mais fortes, de que os juros nos EEUU vão subir abala a credibilidade dos retardatários. O capital, que vinha abundantemente se oferecendo ao mundo dos pobres, volta rapidamente ao seu porto seguro de suposto risco zero. A bolha financeira, expandida ao máximo, ameaça um brusco movimento de contração em direção ao centro.
Vamos analisar mais de perto o que vem acontecendo. Todos devem lembrar os estouro da bolha, há três anos atrás, que atingiu em cheio as bolsas da Europa e principalmente dos Estados Unidos, levando consigo a chamada “new economy” do ponto.com que se dizia dotada de novos paradigmas de crescimento sem crise. Declarando-se preocupado com a recessão, as primeiras medidas do governo Bush foi distribuir fartamente dólares, através de cortes generosos de impostos, beneficiando principalmente os mais ricos. Por outro lado reduziu os juros à quase zero e pôs em movimento o complexo industrial-militar para produzir bombas e outros artefatos, ao declarar guerra ao Iraque.
O resultado disso foi que parte do capital financeiro, acomodado aos papéis do governo americano, ao ser mal remunerado pelos baixos juros resolve dar uma volta ao mundo. É o chamado excesso de liquidez que aporta nas bolsas do terceiro mundo e as fazem subir de forma avassaladora, sem que a economia desse qualquer sinal de geração de riqueza. Um dos exemplos é o Brasil: apesar do crescimento negativo, a bolsa subiu 97% em 2003. Os títulos do governo, antes desvalorizados, também tiveram o seu momento de glória.
Para que o capital se movimente mais à vontade, alguns indicadores foram criados pelos fundos de investimentos como pista para os investidores. Um deles é o chamado risco-país. Quando desce é a hora do assalto. Quando sobe é melhor sair de baixo. O momento é de subida do risco-país no terceiro mundo que ao se antecipar ao anunciado aumento dos juros pelo Fed, sinaliza para que deixem o barco. Mas será que todos conseguem se salvar do naufrágio? Nesse jogo se há ganhadores há também os perdedores. Os últimos geralmente são o capital nativo e o médio e pequeno que não dispondo dos mesmos recursos dos mega-investidores chegam atrasados nos botes salva-vidas. Esses capitais quando saem, geralmente deixam no rastro, um chão árido e um gosto amargo na boca dos perdedores.
O aumento dos juros pelo Fed é uma certeza, a única dúvida quando ocorrerá. Os déficits comerciais e orçamentários dos EEUU devem ultrapassar um trilhão de dólares este ano de 2004. O governo americano precisa desesperadamente de recursos financeiros para fechar suas contas e a melhor forma para tê-los de volta é remunerá-los melhor. Porém, era de se esperar que as bolsas dos assim chamados países desenvolvidos, com o aquecimento da economia mundial, mantivesse seu vigor. Não é o que estamos vendo. Parece que o estouro da bolha, que teve início no segundo semestre de 2000, foi interrompida no início de 2003, com as medidas tomadas pelo governo americano que despejou no mercado uma enorme quantidade de dinheiro. Esse capital, não tendo como se reproduzir, parte vai para o consumo, gerando no mercado imobiliário mais uma bolha e outra vai para especulação nas bolsas já que os papéis americanos, com os juros baixos, não são atrativos.
O indicativo de que a bolha financeira retomou sua expansão nas bolsas americanas é que a relação entre preços e lucros (relação P/L) das ações negociadas atualmente está bem acima da média histórica, situação muito semelhante aos primeiros meses do ano 2000 quando o capital fictício atingiu o topo e logo em seguida as bolsas começaram a despencar. O aumento dos juros e a corrida do capital para se abrigar nos papéis americano, depois de se expandir artificialmente em outros mercados, pode ser o gatilho para um novo estouro das bolhas nos países “desenvolvidos” e em “desenvolvimento”, o que pode mergulhar o mundo numa crise sem precedente.
E o crescimento da economia americana? Cabe aqui analisar se esse crescimento é sustentável, como defende os arautos do capital. Como já foi dito: a farta distribuição de dólares com os cortes nos impostos e juros subsidiados soprando as bolhas, algum impacto causaria no consumo. O movimento da colossal máquina militar americana com a guerra no Afeganistão e no Iraque tem intensificado as atividades da indústria bélica como há muito não se via. Parte significativa do crescimento do PIB como também a geração de empregos deveu-se ao esforço de guerra. Se por um lado isso mobiliza a economia é bom lembrar que armas, bombas, equipamentos militares de um modo geral e homens para manuseá-los, destruí-los e serem destruídos, se na indústria bélica aparece como produção para o governo são contabilizados como custos. E custos que aumenta ainda mais o déficit orçamentário que por sua vez exige recursos de algum lugar para cobrir o rombo.
O desequilíbrio nas contas americanas, sem solução a vista mesmo com a redução do valor do dólar em relação às moedas européias e japonesas, pode trazer inflação, pressionando mais ainda os juros. O câmbio flutuante, ao beneficiar os produtos americanos no mercado mundial, tem acirrado a concorrência e impulsionado a produtividade com incorporação de novas tecnologias e a destruição de postos de trabalho. Na esperança de que a grande locomotiva não pare e continue puxando o resto do mundo, muitos países são obrigados pagarem às contas do déficit americano.
Qual a repercussão no Brasil, com contas a pagar em dólar, que vai dos royalties aos serviços da dívida externa e uma boa parte da dívida interna indexada à moeda norte-americana, crucial para garantir a entrada de novos capitais? Apesar da melhora da situação da balança comercial, que passou a ser superavitária, a dependência do Brasil desses capitais é enorme. Com a bolsa em baixa e os investimentos produtivos vacilantes, a única forma de garantir o fluxo de capital de curto prazo é manter os juros nas alturas. O investidor externo, de olho no risco-país, exigem juros proporcionais. Portanto, a crise na bolsa, pode interromper o tímido declínio que vinha sendo observado nos patamares astronômicos dos juros, com repercussões na combalida atividade econômica.
O discurso de setores da esquerda de não pagamento da dívida externa, apesar de correto, erra no seu objetivo ao acreditar que o dinheiro destinado à amortização e aos juros poderia ser investido internamente, garantindo crescimento econômico e melhoras sociais. Uma reivindicação como essa só poderia ter alguma envergadura se envolvesse todos os países endividados. Medidas isoladas ou meias medidas, despertaria a fúria do capital global e faria o país descer pelo ralo. Segundo, o não pagamento da dívida não seria a garantia de um surto de crescimento econômico e criação de empregos. Poderia sobrar alguns trocados para o execrável fome zero. Mas, o mais provável seria um aprofundamento da crise do capitalismo, exigindo novas saídas.
Hoje o mundo é totalmente dependente do capital internacionalizado para qualquer investimento. O chamado capital nacional é uma ficção. O problema é que o capital não tem mais como se reproduzir na economia “real”. Seu destino é girar em falso, sem rumo como um zumbi, produzindo bolhas financeiras aqui e acolá, simulando acumulação. É a forma que encontrou de se manter morto-vivo na sociedade do trabalho em crise.
08.05.2004
O mundo volta a sorrir. A economia dá sinais de crescimento consistente. O emprego, após três anos em baixa, começa reagir na locomotiva do mundo. Os analistas econômicos andam ocupados, explicando para mídia, que a recessão acabou. Mas alguma coisa não bate com a alegre aparição desses simpáticos senhores na tele de notícias. As bolsas de valores, que deveriam acompanhar esse movimento ascendente da economia mundial, sinalizam um movimento em sentido contrário, principalmente no terceiro mundo. O risco país dispara e na cor rosada das gordas bochechas dos analistas, já dá para ver alguma palidez.
A primeira vista não deixa de ser estranho em plena retomada econômica o “humor do mercado”. Mercado aonde não se busca mais produtos para satisfazer necessidades, mas acumulam-se e vendem-se papéis de variados formatos e valores. Os sinais, cada vez mais fortes, de que os juros nos EEUU vão subir abala a credibilidade dos retardatários. O capital, que vinha abundantemente se oferecendo ao mundo dos pobres, volta rapidamente ao seu porto seguro de suposto risco zero. A bolha financeira, expandida ao máximo, ameaça um brusco movimento de contração em direção ao centro.
Vamos analisar mais de perto o que vem acontecendo. Todos devem lembrar os estouro da bolha, há três anos atrás, que atingiu em cheio as bolsas da Europa e principalmente dos Estados Unidos, levando consigo a chamada “new economy” do ponto.com que se dizia dotada de novos paradigmas de crescimento sem crise. Declarando-se preocupado com a recessão, as primeiras medidas do governo Bush foi distribuir fartamente dólares, através de cortes generosos de impostos, beneficiando principalmente os mais ricos. Por outro lado reduziu os juros à quase zero e pôs em movimento o complexo industrial-militar para produzir bombas e outros artefatos, ao declarar guerra ao Iraque.
O resultado disso foi que parte do capital financeiro, acomodado aos papéis do governo americano, ao ser mal remunerado pelos baixos juros resolve dar uma volta ao mundo. É o chamado excesso de liquidez que aporta nas bolsas do terceiro mundo e as fazem subir de forma avassaladora, sem que a economia desse qualquer sinal de geração de riqueza. Um dos exemplos é o Brasil: apesar do crescimento negativo, a bolsa subiu 97% em 2003. Os títulos do governo, antes desvalorizados, também tiveram o seu momento de glória.
Para que o capital se movimente mais à vontade, alguns indicadores foram criados pelos fundos de investimentos como pista para os investidores. Um deles é o chamado risco-país. Quando desce é a hora do assalto. Quando sobe é melhor sair de baixo. O momento é de subida do risco-país no terceiro mundo que ao se antecipar ao anunciado aumento dos juros pelo Fed, sinaliza para que deixem o barco. Mas será que todos conseguem se salvar do naufrágio? Nesse jogo se há ganhadores há também os perdedores. Os últimos geralmente são o capital nativo e o médio e pequeno que não dispondo dos mesmos recursos dos mega-investidores chegam atrasados nos botes salva-vidas. Esses capitais quando saem, geralmente deixam no rastro, um chão árido e um gosto amargo na boca dos perdedores.
O aumento dos juros pelo Fed é uma certeza, a única dúvida quando ocorrerá. Os déficits comerciais e orçamentários dos EEUU devem ultrapassar um trilhão de dólares este ano de 2004. O governo americano precisa desesperadamente de recursos financeiros para fechar suas contas e a melhor forma para tê-los de volta é remunerá-los melhor. Porém, era de se esperar que as bolsas dos assim chamados países desenvolvidos, com o aquecimento da economia mundial, mantivesse seu vigor. Não é o que estamos vendo. Parece que o estouro da bolha, que teve início no segundo semestre de 2000, foi interrompida no início de 2003, com as medidas tomadas pelo governo americano que despejou no mercado uma enorme quantidade de dinheiro. Esse capital, não tendo como se reproduzir, parte vai para o consumo, gerando no mercado imobiliário mais uma bolha e outra vai para especulação nas bolsas já que os papéis americanos, com os juros baixos, não são atrativos.
O indicativo de que a bolha financeira retomou sua expansão nas bolsas americanas é que a relação entre preços e lucros (relação P/L) das ações negociadas atualmente está bem acima da média histórica, situação muito semelhante aos primeiros meses do ano 2000 quando o capital fictício atingiu o topo e logo em seguida as bolsas começaram a despencar. O aumento dos juros e a corrida do capital para se abrigar nos papéis americano, depois de se expandir artificialmente em outros mercados, pode ser o gatilho para um novo estouro das bolhas nos países “desenvolvidos” e em “desenvolvimento”, o que pode mergulhar o mundo numa crise sem precedente.
E o crescimento da economia americana? Cabe aqui analisar se esse crescimento é sustentável, como defende os arautos do capital. Como já foi dito: a farta distribuição de dólares com os cortes nos impostos e juros subsidiados soprando as bolhas, algum impacto causaria no consumo. O movimento da colossal máquina militar americana com a guerra no Afeganistão e no Iraque tem intensificado as atividades da indústria bélica como há muito não se via. Parte significativa do crescimento do PIB como também a geração de empregos deveu-se ao esforço de guerra. Se por um lado isso mobiliza a economia é bom lembrar que armas, bombas, equipamentos militares de um modo geral e homens para manuseá-los, destruí-los e serem destruídos, se na indústria bélica aparece como produção para o governo são contabilizados como custos. E custos que aumenta ainda mais o déficit orçamentário que por sua vez exige recursos de algum lugar para cobrir o rombo.
O desequilíbrio nas contas americanas, sem solução a vista mesmo com a redução do valor do dólar em relação às moedas européias e japonesas, pode trazer inflação, pressionando mais ainda os juros. O câmbio flutuante, ao beneficiar os produtos americanos no mercado mundial, tem acirrado a concorrência e impulsionado a produtividade com incorporação de novas tecnologias e a destruição de postos de trabalho. Na esperança de que a grande locomotiva não pare e continue puxando o resto do mundo, muitos países são obrigados pagarem às contas do déficit americano.
Qual a repercussão no Brasil, com contas a pagar em dólar, que vai dos royalties aos serviços da dívida externa e uma boa parte da dívida interna indexada à moeda norte-americana, crucial para garantir a entrada de novos capitais? Apesar da melhora da situação da balança comercial, que passou a ser superavitária, a dependência do Brasil desses capitais é enorme. Com a bolsa em baixa e os investimentos produtivos vacilantes, a única forma de garantir o fluxo de capital de curto prazo é manter os juros nas alturas. O investidor externo, de olho no risco-país, exigem juros proporcionais. Portanto, a crise na bolsa, pode interromper o tímido declínio que vinha sendo observado nos patamares astronômicos dos juros, com repercussões na combalida atividade econômica.
O discurso de setores da esquerda de não pagamento da dívida externa, apesar de correto, erra no seu objetivo ao acreditar que o dinheiro destinado à amortização e aos juros poderia ser investido internamente, garantindo crescimento econômico e melhoras sociais. Uma reivindicação como essa só poderia ter alguma envergadura se envolvesse todos os países endividados. Medidas isoladas ou meias medidas, despertaria a fúria do capital global e faria o país descer pelo ralo. Segundo, o não pagamento da dívida não seria a garantia de um surto de crescimento econômico e criação de empregos. Poderia sobrar alguns trocados para o execrável fome zero. Mas, o mais provável seria um aprofundamento da crise do capitalismo, exigindo novas saídas.
Hoje o mundo é totalmente dependente do capital internacionalizado para qualquer investimento. O chamado capital nacional é uma ficção. O problema é que o capital não tem mais como se reproduzir na economia “real”. Seu destino é girar em falso, sem rumo como um zumbi, produzindo bolhas financeiras aqui e acolá, simulando acumulação. É a forma que encontrou de se manter morto-vivo na sociedade do trabalho em crise.
08.05.2004
sexta-feira, junho 16, 2006
Furedi e a rebelião dos jovens na França
Rall
Quem não leu o artigo, "Todos devíamos aprender com a França", de Frank Furedi, publicado na Folha de 13.11.05, deveria fazê-lo. Apesar de um certo saudosismo gaullista e clamar por novas idéias na política, ao mesmo tempo em que reconhece a falência da mesma, Frank Furedi levanta questões que se para alguns não é novidade, tem um peso diferente na mídia quando escrito por um analista "insuspeito". Sem querer polemizar com aquilo que o surpreende, Furedi começa mostrando a falência da política de assimilação na França e do multiculturalismo ao analisar a experiência inglesa. Aponta a possibilidade de levantes semelhantes aos dos subúrbios franceses em outros países europeus, onde as tensões se acumulam nos bairros periféricos, cada vez mais distanciados das áreas de "excelência" do primeiro mundo e mais próximo das favelas do terceiro. A apartheid social se alarga nos países ricos e pobres, a repressão aumenta enchendo as prisões, e a tão em moda política da inclusão se mostra vazia.
Apesar de reconhecer o esgotamento das elites e dos partidos políticos, Furedi parece desejar um poder com metas claras dirigido por essas elites que critica. Estranha a falta de objetividade da política, mas esquece que a não objetividade como a falta de metas é o reflexo de uma crise mais profunda, que já não deixa margens para iniciativas capazes de supera-la nos limites dados pela atual sociedade. Eis a razão da exaustão da política partidária e do Estado na França e no resto do mundo. Reconhece acertadamente que a "marginalização do movimento sindical tem seu paralelo no declínio da coerência no interior da elite francesa", afirmação que pode ser generalizada para as elites e movimento sindical dos demais países. Fica, no entanto, no meio do caminho e prisioneiro das políticas passadas; não consegue aprofundar crítica à sociedade em crise. Acho que esse mal acomete a maioria de nossa esquerda, principalmente aqueles que vêem na militância partidária e na chegada ao governo, a via possível das mudanças. Sem referências, tentam se agarrar à política de classes, que hoje "existe apenas em forma populista e caricaturada", como muito bem reconhece Furedi. Porém, isso não é o fim da história como muitos aclamam, é preciso descobrir novas categorias que supere o conceito marxista de classe do antigo movimento operário. Talvez, o que vem se passando nas ruas das grandes cidades, principalmente nos bairros pobres, cada vez mais descolados da produção de mercadorias, seja a expressão de algo novo.
A sociedade burguesa hoje se depara com o crescimento crônico do que poderíamos ainda chamar de exército industrial de reserva, fenômeno que antes se exacerbava nas crises, mas que voltava ao tolerável nos momentos de bonança. Furedi, como tantos outros, parece não enxerga que com as novas tecnologias dispensadoras da força de trabalho, a tendência é o crescimento sem limite deste exército. Muitos nem se quer conseguem ser socializados para produção capitalista, são recrutados sem essa premissa. O capitalismo hoje, na produção da miséria, já não gera mais proletários, mas o seus eternos reservas, cujas fileiras que dão volta ao mundo são formadas não só de imigrantes como quer dá entender a grande imprensa tentando restringir a crise. Daí o deslocamento do campo de batalha das fábricas para as ruas. Os "arruaceiros" de hoje nada tem a vê com os "arruaceiros" de ontem, estes bem comportados senhores preocupados em não serem mandado para reserva nos próximos cortes.
Da jovem rebelião tem-se exigido objetivos claros, propositalmente esquecem o seu lado certeiro que é, na luta de rua, a solidariedade e a crítica radical à mercadoria e suas formas hierárquicas, mesmo que num primeiro momento não se expresse conscientemente. Isso, porém, não é a garantia de que movimentos como este não seja absorvido pelo sistema que sabe muito bem exorcizar os seus fetiches nas horas de aperto. Como a sublevação dos pobres da periferia ainda carrega um certo desespero daqueles que no mercado não consegue trocar a força de trabalho por outras mercadorias necessárias à subsistência, pode se tornar presa fácil das manipulações dos administradores da crise.
Na sociedade produtora de mercadorias em que a acumulação deu lugar à simulação, onde as bolhas crescem e estouram em velocidade estonteante, a política não podia ser diferente: prisioneira dessa realidade, degringola e perde a identidade não por falta de missão, mas por sofrer os abalos da economia mundial que não se deixa governar e não respeita fronteiras em sua ação destruidora. As instituições nacionais já não respondem a esse novo momento do capitalismo global. Como reflexo dessa realidade e para esconder fragilidade em que se sustentam, a política e o poder local tende a ser cada vez mais espetacular.
23.11.2005
quarta-feira, junho 14, 2006
A economia e seus paradoxos
Rall
O paradoxo de uma economia que cresce gerando miséria
A economia de países “subdesenvolvidos”, onde muitos produtos industrializados ainda não fazem parte dos meios de subsistência dos trabalhadores, tende a satisfaze-los com baixos salários.
À medida que a industrialização avança, novos produtos de consumo de massa lançados no mercado incorporam-se aos meios de subsistência forçando aumentos salariais. É claro que as variações para cima ou para baixo dos salários necessários para aquisição de mercadorias para manutenção dos trabalhadores e suas famílias, depende ainda do exército industrial de reserva, do grau de organização desses e da repressão patronal e policial a que estão sujeitos. Mas para o bem do capital, apesar do mórbido desejo, o trabalhador não pode morrer de fome, pois não haveria produção de mais-valia e o próprio capital para se realizar necessita vê as mercadorias consumidas.
Essa variação no tempo e no espaço de como se compõe os meios de subsistência dos trabalhadores tende a explicar as enormes disparidades salariais entre países e entre regiões de um mesmo país. Não estamos falando de diferenças individuais determinadas pelo trabalho qualificado. As formas como são satisfeitas as necessidades da população nas várias regiões pode ser uma das explicações para mobilidade do capital industrial: na busca incessante da valorização do valor, procura estabelecer-se, sempre provisoriamente, nos países onde os meios de subsistência necessários sejam mínimos e, se possível, onde o disciplinamento do trabalho humano abstrato tenha sido completado. Não é à toa a preferência pelos países antes ditos socialistas, onde as normas do trabalho assimiladas a manu militari, por mais brutais que sejam, são aceitas passivamente. Pouco conta o mercado interno dos países onde se instalam esse capital industrial itinerante - e o peso dos recursos naturais é relativo -, mais sim o rico mercado dos países “desenvolvidos” que é de fato o destino de seus produtos.
O barateamento das mercadorias aí produzidas, numa combinação de mais-valia relativa e absoluta, tende baixar o preço da “cesta básica” dos países do centro, consumidores desses produtos, permitindo um movimento aparentemente paradoxal de redução da massa salarial sem num primeiro momento reduzir o consumo. Por outro lado, observa-se nos países “subdesenvolvidos” que recebem investimentos estrangeiros na produção, que apesar dos indicadores positivos da economia, a estagnação ou até mesmo a redução do consumo de produtos tidos como essenciais é uma realidade. Recentemente foi publicada no Brasil, uma pesquisa que mostra que o consumo de gás de cozinha em 2005 retrocedeu aos níveis de 1997. Mesmo considerando outras variáveis é um consistente indicador da regressão das condições sócio-econômica da população apesar do tão festejado crescimento do PIB.
Um outro fenômeno é observado nos países ricos: apesar de inundados por mercadorias baratas vindas da periferia do capitalismo, a cada ano mais gente cai abaixo da linha de pobreza. Dados recentes do governo dos EUA expõe uma situação há muito escondida: paralelamente ao crescimento exuberante da economia, o número de americano que tem decaído abaixo dessa linha vem aumentando. A última pesquisa publicada falava em um milhão e trezentos mil só esse ano. O furacão Katrina mostrou que o sonho americano não é para todos.
A economia americana, que puxa as demais, move-se às custas de uma enorme bolha imobiliária e financeira que aumenta artificialmente o consumo das camadas privilegiadas, compensando a ausência daqueles que se descolaram do mercado cuspidos pela automação da produção. Fenômeno antes tido como marginal no capitalismo, a geração de capital fictício é defendida como fundamental para manter o crescimento econômico. A ajuda dada pelos bancos centrais desses países na formação das bolhas evidencia bem isso.
O que não se tem considerado é que a história mostra que as bolhas, como fraude da acumulação do capital, não inflam ao infinito. Ao chegarem ao limite de sua elasticidade explodem causando danos irreversíveis, proporcionais ao seu tamanho. De uma certa formas a tese das bolhas necessárias é um reconhecimento invertido da crise da valorização do valor.
30.09.2005
terça-feira, junho 13, 2006
Da doce ilusão à consentida mentira
Rall
31.03.2004
Edgar Morin, em seu livro "Para Sair do Século XX", faz uma interessante análise do componente alucinatório da percepção. Mostrar que apesar de o pensamento mágico ser resultado de um fator "irracional", ele é determinado, na maioria das vezes, por um princípio de racionalidade. Experimentos recentes nas áreas de neurologia e psicologia evidenciam que nossa percepção das coisas e dos fenômenos não está relacionada só com o que o é captado pela retina, mais, também, com o que está acumulado, guardado no subconsciente ou mesmo no inconsciente, fruto de experiências e percepções passadas. Ou seja, o que devolvemos como sendo a visão de um objeto ou situação, não é determinado só pelo que vemos, mas por todo um complexo intrínseco ao funcionamento de nossa memória, de nosso cérebro. Não é à toa que resistimos ao novo, quando se choca com conceitos internalizados que estruturam nossa visão de mundo.
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Recentemente, conversando com um militante do PT, abalado com os escândalos no Governo Federal, dizia que tudo era montado para desestabilizar o governo e o Partido frente às eleições municipais. É evidente que em situações como essas os partidos de oposição tendem a tirar proveito. Mas o que meu amigo não entendia em sua preleção moralista e negadora dos fatos é que tais escândalos fazem parte do poder e dos caminhos para alcançá-lo. Quem aceita sentar no trono, acata essa lógica antes de chegar lá, por mais radical que seja os discursos de campanha. Quais partidos políticos chegariam ao governo sem se submeter a tais falcatruas? Simplesmente não chegariam. Essa visão ingênua não é diferente do cômodo discurso de alguns intelectuais que, enclaustrados em suas cátedras, olham "surpresos" os rumos das políticas do governo. Acham que o PT resistindo (raciocínio que não se aplica a atual conjuntura), mudaria o curso do rio caudaloso, que só corre numa direção, e não seria tragado pelo redemoinho do poder estabelecido.
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A visão alheia de meu amigo, a mesma da chamada base do partido, é reforçada pela direção (que tinha tudo muito claro ou não chegaria ao poder), com uma blindagem ideológica. Isso nos remete a discussão das instituições na sociedade capitalista. Nos interessa aqui, enquanto instituições da ordem social existente (pois não existe outra), os partidos políticos que se organizam e funcionam nos moldes empresariais. Na tão decantada democracia interna dos partidos de esquerda, forma inerente ao capitalismo, a alienação é reforçada pelo chamado centralismo democrático. Todas as discussões são afuniladas e manobradas para reforçar o poder institucional que flutua com autonomia, descolado e hostil à militância, apesar de legitimado por esta. Quem de fato representa a instituição "partido" é a direção. A energia do trabalho da chamada base é apropriada e direcionada no sentido que lhe convém. Aqueles que se rebelam são excluídos de forma impessoal pela democracia partidária, como são excluídos os que não servem ao mercado, pois, com sua rebeldia, não contribuem para o "acúmulo de forças" que beneficia a cúpula. Como essas organizações não possuem a materialidade da mercadoria, o fetiche se expressa, na sua forma extrema e mítica ao mesmo tempo, nos corpos endeusados dos chefes supremos.
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O termo "acumulação de forças" usado com tanta convicção pela esquerda na luta política é uma forma diferente de dizer "trabalho acumulado", ou seja, capital. O trabalho abstrato, é, também, o responsável pela construção e consolidação das instituições que dão sustentação ideológica à sociedade do trabalho. Na crise do valor, essas instituições, em particular os partidos políticos, como a economia de bolhas financeiras, vivem da simulação. Quando governo, nada podem fazer, a não ser administrar a crise. E aí equivocam-se à esquerda do PT e outros grupos aliados que com um discurso aparentemente diferente, propõem mudanças nas políticas econômicas e sociais. No momento em que o trabalho em crise não conta mais na acumulação de capital, insistem na idéia de uma política desenvolvimentista, criadora de trabalho produtivo, cujos primeiros estertores já eram ouvidos na segunda metade dos anos 70.
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Para "vencer" essas dificuldades, os partidos no poder, como autodefesa, tendem a se burocratizar, a se fechar e a centralizar mais ainda as decisões, relegando a militância, muitas vezes calada com cargos no aparato estatal. A alucinação dos tempos em que se acreditava religiosamente na emancipação por essas vias, cede lugar à mentira que passa ser uma necessidade à sobrevivência política. Na encenação, a realização da mentira, não importa quem suba ao palco.
31.03.2004
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